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"A Visão das Plantas" Djaimilia Pereira de Almeida FUVEST FUVEST 2026 FUVEST 2027 FUVEST 2028 FUVEST 2029 Resumo de Cada Capítulo

“A Visão das Plantas” de Djaimilia Pereira de Almeida – Resumo de cada capítulo

Capítulo 1

Acordou em casa, tudo estava ao mesmo jeito mas ao mesmo tempo não. O pó cobria tudo, algumas roupas eram comidas pelas traças. “A mobília não saudou o seu regresso. Não tinha mais ninguém na vida.”. Sentia cheiros mas não eram tão confiáveis quanto seu ouvido. “Sobrava‑lhe a casa de jantar, a pequena saleta, os dois quartitos húmidos, a cozinha de tecto escuro aberta para a despensa, os frascos, caixas de farinha de milho bichada, garrafas de aguardente e o quintal, tomado pelas silvas, as urtigas e os cardos.”. A maresia fez com o capitão o mesmo que a casa, tinha degradado com o tempo. A natureza tomou conta da casa, tal como o mofo. Teve até medo da luz que entrava e do espírito da casa sair e o capitão fechou de novo tudo, respirando o pó. A casa tinha também cicatrizes, mesmo sem ter matado alguém. Ali, o capitão achou lugar para descansar o coração, mesmo que não merecesse.

Capítulo 2 Livrou-se da mobília velha e inutilizável, manteve uma mesa e duas cadeiras que usava para escrever. Mantinha-se sempre um silêncio, apreciava aquilo tudo. Queimou roupa velha e coisas que não usaria mais, despediu-se sem aplauso. Dormia na cama que a mãe se foi, sem sentir falta, sem ela saber dela. “Contava com a monotonia saborosa dos seus hábitos de capitão velho, retornado à casa de família desagravado para morrer em descanso.”

Capítulo 3 Ao poucos ia morrendo, achou consolo naquele pouco de jardim que ia arrumando e que a vida proliferava. O jardim se penetrava por tudo, remover tudo que ali havia de memória humana. Ele ia com calma, com as mãos, ora parando para fumar, ora sentindo o vento do mar de tarde. Tinha vezes que dormia, mas ia sempre mondando, limpando.

Capítulo 4 Temia endoidecer com o passar do tempo. Ia limpando, tinha já queimado vilas, feito a natureza se apavorar, mas ali continuava a mesmice. A natureza fazia o favor de lembrar que, no final, restariam apenas os cadáveres e a memória da morte, e assim ela conspira para que os homens adormeçam. Celestino, o nome do capitão, ia todo dia fazer algo novo, fosse em mar ou na casa. Pela mesmidão, a natureza achava um meio de se reconsolidar e ele ia perdendo a luta contra o tempo, queria pará-lo. Talvez fosse assim com Deus, “traz os resistentes à solta, prontos a rasteirar os felizes, no fundo do beco, para se desforrar do tédio.”.

Capítulo 5 Celestino plantou de tudo, de flores a árvores frutíferas e fazia o adubo. Chegou a ter exertos que pedia ou ganhava e tinha cactos que sabia a quantidade de espinhos. Tinha até uma caveira de conchas no bambuza que crescia bem. Padre Alfredo o visitou, indo dar sermão mas foi intoxicado pelos cheiros das flores e aquele sol a pino. Ia tirando conclusões daquele homem que cuidava tão bem das plantas. Gostava da mãe dele, era importante que nada o faltasse.

Capítulo 6 Costumava sair nas manhãs nubladas, de barba longa, sobretudo preto, cara de poucos amigos aos adultos e sorriso para crianças. “Tinha pelas crianças a simpatia de um admirador de obras perfeitas.”. As mulheres rezavam, os homens riam das histórias inventadas, as crianças morriam de curiosidade. Os cachorros nem visitavam a frente pois Celestino os espantava, até construiu um espantalho com cortinas esgarçadas e as pessoas inventaram histórias de rituais. Mas isso afastava os adultos, as crianças eram curiosas, três procuravam ver como ele era, mas viam um jardim florido, bem cuidado, e “um pires com três cubos de marmelada e três fatias de queijo curado.”.

Capítulo 7 Os boatos iam ao Padre, Celestino visitava a igreja, sem nunca se ajoelhar, sentava como se aquilo fosse sua forma de o assim fazer e se acalmar. Padre comentava que a casa tinha ouvidos a ele, sem que ele se quer dissesse algo.

Capítulo 8 Mas os boatos mais pareciam pelo passado do capitão do que a atualidade dita de um homem que dançava com o Diabo e falava línguas. Não conseguiu dele palavras ou até sua vida como uma pessoa com as mãos encharcadas de sangue e de rum, mas de um homem com ideias desconexas e talvez senil que não completa ideias, com as mãos cheirando adubo e terra. Ele se foi. “A loucura é o mais santo dos remédios. Ao contrário do que se dizia na vila e lhe assegurava a língua‑de‑trapos do sacristão, a casa não fora ocupada por um facínora, mas por um homem atrapalhado com os preparativos do seu enterro.”.

Capítulo 9 A narração abre aspas para a fala do Capitão, chamando as crianças como se falasse sendo Jesus Cristo, contando da história de sua vida ali na aldeia. Nasceu e não conhecia o pai, sabia que era Capitão, Nuno, delirava achando que caminhava em casa e o som do mar distante inquietava-o. Sonhava em ser dono da casa, de seu medo e da aldeia. Entre a narração, há um devaneio de se a história e a mentira valesse a pena se ele inventava, podendo ser possível analisar de ele inventar as histórias ou as plantas dali. Os pequenos suplicavam com os olhos para continuar. Foi ser capitão e a mãe deu a casaca e o cordão de ouro. Foi para a África, passou fome, febre, e foi apanhado por holandeses. Cuidaram dele, matou-os no sono e deixou a menina holandesa amarrada em um tronco de árvore lançada para a sorte. Foi assim sangue frio sempre e foi isso que o fez viver. Matou animais, queimou vilas e dormia tranquilo sem remorso.

Capítulo 10 As crianças comiam as amores, pedindo por mais, mais sangue. Conta como cuida das plantas, faz o café, cumprimenta e cuida de cada flor por pétala. Sonha e dorme pensando nelas. As crianças iam enjoando das amoras e o vento soprava as palavras de Celestino. A vizinha pensava que ia matar as crianças, o marido ria.

Capítulo 11 Os rumores a respeito do capitão pioravam depois da conversa com o Padre Alfredo. Dois anos se passaram e ele fazia parte do folclore da vila. As mães tapavam os olhos das crianças quando passavam por ali e as avós ameaçavam levar os netos para serem decapitados se não comessem tudo ou se comportassem mal. As crianças viam aquele velho grande mexendo nas flores. “Para pirata, era chato. Se calhar, disfarçava. Quem dera a Raul ter um roseiral bonito como aquele. Celestino deixou de querer saber se o espreitavam, se não lhe falavam. O espantalho fizera o seu trabalho.”. A casa de sementes vendia de má vontade e acusava de montar um altar para Judas Escariotes. Mas o mar chegava com gente nova e gente nova ia embora, por mar ou por terra, e foram logo deixando ele. Ele ia ficando cego e andando com dificuldade. Mas o que puxava todos do folclore eram as flores na primavera, quase como uma luxúria, uma tentação para pecar. De tarde, o capitão ia espreitar se o pires de guloseimas estava vazio. Sempre assim o encontrava.

Capítulo 12 Algumas frases soltas são citadas, misturando passado e presente do capitão, envolvendo cheiros, ratos, pessoas, conhecidas e ainda não citadas na história, além de, claro, falar das flores.

Capítulo 13 Celestino já não dava conta das trepadeiras e algumas plantas mais altas, planejou salgar a terra com a ajuda de ou Manuel ou Bentes. “de frente, a casa velha tinha rosinhas atrás das orelhas, de costas, era melaço e varejeiras.”.

Capítulo 14 Outra sequência de frases soltas, falando das rotas do capitão pelas Índias, os ratos, em uma previsão de que Celestino perdia noção da realidade e ia enlouquecendo.

Capítulo 15 Em uma noite que a vizinha o vigiava, um vento bateu e Celestino sentia que ia morrer. Mas a Natureza não o tomou, era livre para aquela casa que achou e criou com suas plantas.

Capítulo 16 “As plantas viam o jardineiro como as plantas vêem. Não se sentiam agradecidas. Tratavam o seu regador à semelhança da chuva que caía sobre elas nas noites de Outono. Florescerem não era o seu meio de meterem conversa com o jardineiro, mas uma forma de acentuarem a sua indiferença à declaração de amor que ele cultivava a cada hora. Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino, se eram sujas as mãos que as amparavam ou o que viera antes do amor que ele lhes dedicava.”. As plantas não faziam diferença para ele, tal qual Celestino não via diferença na vida do motim dos escravos que matou jogando cal no porão. As plantas continuariam, perceberiam a mudança como um chapéu usado moldou-se a uma cabeça e foi jogado fora.

Capítulo 17 A vila ficava a mudar aos poucos, mas Celestino não veria a mudança ao século XX. Imaginava e passeava na vila que se indiferenciava por ele, não era ódio e nem repulsa, mas o tempo passou e era um fantasma que não assustava. O padre era quem o via com frequência, dizendo que não era tarde, mas quando que “tarde” começava? Tinha nada a dizer aos ouvidos de Jesus. Quem o esperava era a casa, o mar tinha findado.

Capítulo 18 Novas frases soltas, que se misturam entre descrições e alucinações, lembrou da holandesa de oito anos, em Júlio e Saraiva, da infância, dos novos tempos e do mar que o tragava.

Capítulo 19 Celestino envelhecia. Talvez ali tivesse descoberto o amor, ou até mesmo a prova viva de Deus que há bem em todos, ou que não há justiça alguma no mundo que um capitão que ceifava vidas agora cultive flores lindas. Talvez até do fazer bem que viesse de quem fosse cabeça oca. Pensava de vez em quando em atirar nas costas do Padre Alfredo com nariz empinado de perfumista depois de falar do calendário da paróquia. Também as crianças cresciam em sua volta e casais se faziam. Pode ser que cada flor fosse uma vida ceifada por ele, dali surgia o amor, ao contrário do que pensavam de que plantava as flores do seu caixão. Mas uma coisa era certa – o tempo passava. As pessoas espiavam esse homem que ali ficava no jardim ou deliravam de noite que ele invadia suas casas.

Capítulo 20 Há uma descrição de Celestino avançando por uma mata virgem, com os pensamentos de que a morte o rodeava e a floresta o engoliria.

Capítulo 21 Há uma breve explicação dos pais de Celestino, o pai viu o filho nascer sem saber como criar e ainda menos que ia morrer em pai, profissão da família. A mãe trabalhava muito, fazia de tudo em roupas que a sufocavam naquele calor de Portugal. Ainda assim, há uma descrição do madeireiro vendo aquela madeira vinda do Brasil que contava uma história, de uma mata que Celestino se perderia. Ao fim, Celestino viu o sol e caiu sangrando na praia. Alguns trechos falam de pensamentos desconexos, entre festejar com negros, a noite, as estrelas e pães.

Capítulo 22 “Aprendeu a fazer queijo. Cozia a sua broa. Recuperou o alambique.”. Perdia-se no tempo e não sabia mais traçar qual tempo estava, até mesmo repetia as atividades de infância agora velho. No ribeiro, enquanto ainda estava bêbado, pensou ter ouvido vozes e pensava se estava ficando louco. Pensou ser a holandesa que prendeu no tronco, mas não achou nada e nem teve respostas.

Capítulo 23 Descreve-se as manhãs em sua casa. Sobe a fumaça do orvalho no chão, como sobe o do cigarro do capitão. Começou a vida brincando com marinheiros e acabava ela brincando com jardineiros.

Capítulo 24 Várias frases soltas de móveis, chuva e sangue de noite.

Capítulo 25 Enquanto cuidava dos potes de terra, viu um brilho. Achou que era o pingente que sua mãe tinha lhe dado, mas ele ainda o tinha. Foi tomado de um ataque de loucura e cavou sem parar, como se sua alma fosse feita para isso e sua vida disso dependesse. Cavou até cair a noite, estava todo dentro da cova e chorou. Sua pele doía mas cavava, e assim adormeceu, sem saber o que procurava ou o que tinha por ali.

Capítulo 26 Já era meio-dia e foi acordado com o sol a pino. Sentiu um galo na testa e foi dormir com os pés gelados e as ideias embaralhadas.

Capítulo 27 No dia seguinte, amanheceu mais velho, com a pança, a corcunda e a pele áspera que antes havia de um corpo esguio. Foi se ver ao espelho e se espantava. Cortou a barba longa no queixo e a deixou cair aos pés desconhecidos, como se ela não fizesse parte dele. Barbeou-se, com paciência e com calma, já que tremia e se arrependia de ver aquela pele seca. O mundo teve outro sentimento, a cara feita fazia a chuva e o vento ter outro sabor. Naquele espetáculo da natureza, o capitão teve sua última aventura em leme e “Fechou a porta e foi para dentro ver se comia alguma coisa.”.

Capítulo 28 Tinha ficado doente em uma das tantas visitas do médico. Recomendava descanso e caldo. O padre, provocando-o, perguntava se não queria confessar. Ele respondia não com a cabeça e veemente. Na época do frio, temia das plantas morrerem e ia conferir tudo apesar da doença. Talvez pelo sistema de irrigação ou algo maior, as plantas continuavam as mesmas, e essas flores e frutos mostravam piedade aquele monstro de outrora. Na época de São João, foi levado por Manuel, primo do caseiro falecido Amadeu. Mas não gostava do barulho e da gente, tentou voltar para casa, perdeu-se e machucou-se ao cair no chão. Manuel o encontrou em um beco. Implorou para ser levado para casa. “Foi a primeira e única vez na vida que implorou alguma coisa fosse a quem fosse.”. Ficava cego, a pele nunca mais ganhou cor, conhecia as flores pelo tato e pensava que as flores o respondiam pelo tato. Alguns animais o visitavam, gato e rafeiro, tipo de cachorro de guiar gado, deixava alguns ossos, os coelhos, que cavavam buracos, torcia os pescoços. Junto ao limoeiro, enterrou os cabelos das barbas, tão distantes dele quanto jamais foram. Pode ser que seria assim enterrado no jardim ou saberia voltar ao jardim pelo cheiro. “Todos os dias o jardim estava diferente. Jamais se entediava.”.

Capítulo 29 Certa vez, o padre havia lhe trazido um peixe, mas esqueceu na cozinha e ele apodreceu. O cheiro o enojou, acostumou-se com as flores.

Capítulo 30 “Raul, Pedro e Luzia ainda apareciam. Queriam ouvir histórias do corso.”. Deleitava-se com as crianças, os risos e os olhares das histórias que contava. Mostrou também suas tatuagens e cicatrizes. Mas tudo aquilo deu vazão de curiosidade para pena e nojo. Um homem que viveu tanto e degolou todos era agora escravo do jardim e vítima do tempo. Era ironia do destino que o mar tenha o deixado em terra. Não cuidou do jardim, estava escravo dele. “Mas depois de as crianças se terem ido embora, não saberia dizer quem o tinha visitado.”.

Capítulo 31 Celestino recebia visitas nortunas, principalmente de uma negra que preparava uma refeição a ele a até mesmo a de Padre Alfredo mais jovem. Estava sonâmbulo, acordava em lugares diferentes, sujo, lambuzado, cansado, machucado, sem lembrar do que fez. As pessoas não o olhavam mais e as crianças não o visitavam.

Capítulo 32 “A casa e o jardim, que começara por compor à sua imagem, estavam desleixados.”. Não completava frases que escrevia e também as atividades do jardim não eram mais as mesmas belas de antes. Sonhava de olhos abertos, misturava infância, passado e o presente de uma vez, ora cantarolando, ora navegando. A holandesa aparecia de vez em quando, dormindo perto dele como uma neta fria. Pensava na morte e o que seriam de suas plantas.

Capítulo 33 Em vez de continuar sonâmbulo, sonhava acordado, as plantas iam saindo de seu corpo, inerte, sem reação, babando com o brilho da Lua e o estado vegetal do antigo capitão.

Capítulo 34 Sem saber que era a morte, uma negra de saia e avental vinha lhe fazer companhia de dia. Cuidava dele, dava de comer, lia enquanto podava as rosas. Aos poucos, ia sendo embalado. Em uma noite, voltou do bosque, distante da morte, mais velho, mais cedo, cada vez mais distante do que já foi e piorando.

Capítulo 35 A morte ia o chamando, agia como um menino de tão indefeso, fraco e sem força ou meio de reagir. A negra ia o chamando por Capitão, talvez por ser um nominativo, ou talvez para ver se ali restava o que ele já foi, coisa que não restava mais nada além da carcaça. “Com medo dela, entregue aos seus braços, entre o sono e o delírio, derrotado. Não era hoje, ainda não. De volta, deitava‑o na cama, tapava‑o, voltava à cozinha. A morte, quando quer, tem toda a paciência do mundo.”

Capítulo 36 Celestino agora era patriarca de uma casa que vinham vivos e alucinações. Vivia com a escrava e a menina holandesa, “a velha negra por ele mandada ao Atlântico e a menina que o capitão deixara no mato de olhos vendados.”. Ia passando o tempo, ele, morimbundo, ouviu da morte de Mendes, de gatinhos nascendo, e as mulheres da casa iam e vinham. Mal sabia o que era realidade. Ele ia perdendo forma assim como o jardim. Como a morte não o engolia para a terra, aos poucos tudo perdia-se forma para virar uma coisa só. Só via a menina holandesa de olhos vendados, pois o que a vida fez, a morte não desfaz. Assim iam passando seus momentos.

Capítulo 37 Os gatinhos nasceram. Celestino os vigiava, alimentava, e pode ser que, farto do ato, a mãe desceu a ladeira e nunca mais teve com a ninhada. Os filhotes da gata tigrada também viraram gatos e também se foram.

Capítulo 38 Via o espantalho a dançar pelas ventanias. Pensava em como ele dançava sem precisar de descanso e caldo, coisa que ele precisava. Ficava entre pensamentos de ventos e lembrando dos corpos de escravos mortos no episódio da cal, assim como vendo o corpo da escrava sem vida ao mar. Ainda estava ali, pensava, cuidava dos cravos e aos poucos ia se rastejando, como se dissesse à Morte que podia vir buscá-lo.

Capítulo 39 O Capitão ia se esquecendo de andar, de falar, retornava ao estado de menino amedrontado. O jardim tomava conta dele, por meio do medo. O espantalho agora dava medo, ouvia as vozes e se apavorava dos barulhos de fora, de quem seriam, de quando. Tinha medo das plantas virem estrangular ele, como a velha preta, que não aparecia mais.

Capítulo 40 Manuel um dia veio buscar o pirata para ver o mar novamente, tirar daquele jardim que tratava as flores como filhas e parecia até que seu desejo era se tornar uma flor. Manuel quis estar perto de um pirata sério, quis fazer seu pé molhar, esboçar algo, nada. Era um velho em outro mundo, sem pensamento conectado. Manuel se decepcionou e ficou em silêncio naquele velho que respirava e tiritava com o som da maré. Levou de volta para casa, comeram dois nacos de pão e deixou-o na cama, aquele capitão que todos souberam do regresso já tinham morrido. Virou cantiga de pescador. Morreu sem que as plantas parecessem saber. O médico e o padre viram-no na cama. Cobiçou o pirata, que nas mãos que o padre tinha, faziam as plantas morrerem.

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"Balada de amor ao vento" FUVEST 2026 FUVEST 2027 Paulina Chiziane Resumo de Cada Capítulo

“Balada de amor ao vento” por Paulina Chiziane – Resumo de cada capítulo

Balada de amor ao vento é o primeiro romance publicado de Paulina Chiziane que já tinha uma ideia do que escrever, mas o primeiro romance escrito por ela foi “Ventos do Apocalipse”.

São 20 capítulos, divididos em partes que demarcam passagem de tempo, mudança de plano ou troca de narrador. O tempo da narrativa é de Moçambique ainda colônia, com o nome da cidade de Maputo ainda como Lourenço Marques, antes do ano de 1976, da independência de Moçambique.

Capítulo 1 Parte 1 A narradora lamenta sua vida, está próxima da morte e lembra-se de Save, terra de sua infância, repleta de bela flora. Em contrapartida, está em Mafalala, terra que abomina, que é suja e triste. Foi para lá por amor, se é que sabia o quê era amor e se amou. Sua filha, mais estudada, contou sobre o mundo e como o era, ela pensa que há quem precise conhecer o mundo da mulher. Pensa em falar da sua história, nem sabe se será interessante, há tantas outras que vivem igual.

Parte 2 “Tudo começa no dia mais bonito do mundo, beleza característica do dia da descoberta do primeiro amor.”. Era época de festa e, obviamente, de namoro. Os rapazes vinham para os ritos de passagem para a fase adulta e iriam dançar e comer depois. A narradora prestou atenção em Mwando, ouviu dos homens sobre ele e também as amigas diziam para desistir, ele estudava para ser padre. Foi zombada pelos meninos e pelas meninas de não ter curvas e ficou assim, pensando nele e demorou para dormir. Perseguia o menino, ia na igreja para ver ele, até que um dia decidiu fazer o ultimato e se vestiu bonita para atraí-lo. Depois da missa, caminharam juntos e ela já desistia, quando ele perguntou o que se passava e ela dizia que de quem ela gostava não era recíproco. Ela revelou sendo ele, mas Mwamdo confessou que gostava dela, era a única que não zombava dele, mas tinha medo do padre. Ela o silenciou e finalmente se beijaram.

Capítulo 2 Parte 1 Mwando se martiriza, queria ser padre mas Sarnau a tentava. Por muito tempo, foi zombado pelos meninos e se isolava para se proteger. Queria ser padre, pedia ajuda para Cristo e tinha medo dos outros meninos contarem dele e de Sarnau. Escreveu uma carta, abriu seu coração, mas o padre surgiu ali e perguntou o motivo de estar tão apavorado. Leu a carta e entendeu. Amanhã ajustariam as contas.

Parte 2 O padre suspeitava do que acontecia com os meninos, principalmente pelas fofocas. Uma noite, em meio do que se culpava de não confiar neles mas vendo que estavam certos, apanhou Salomão e quase o bateu, não fosse o menino mais esguio, coisa que Mwando não foi e o padre descontou a raiva nele. Salomão e Mwando foram expulsos, nada aconteceu com a cozinheira, suspeita de ser a pessoa que estava no quarto de Salomão

Parte 3 Mwando logo se acostumou aos trabalhos dos outros jovens da idade. Passavam bom tempo juntos, Sarnau e Mwando se maravilham com a fauna e a flora do mundo. Mwando vê a obra de Deus e vê o motivo de amar, vendo tudo de cima é fácil se maravilhar. Ao meio de metáforas, os dois fazem sexo, com o uso das metáforas da maçã sendo o fruto proibido, a serpente no Éden e Adão e Eva. Sarnau pede uma oferenda para suas entidades protetoras, a defunta protetora, já que fizeram sexo. Ele hesitou, não gostava de servir outros deuses se não Cristo. Mas prometeu fazer uma oferenda grande. Sarnau o amava e assim dizia.

Capítulo 3

Parte 1

“Mwando ainda não ofereceu nada à minha protetora, mas eu perdoo, ele ainda não arranjou dinheiro, coitado.” Ele trabalha muito, não só com o pai mas com os afazeres de casa que as irmãs são preguiçosas. Sarnau o ama, ama muito, em tudo que vê sabe que o ama. Mas ele parece esconder algo, principalmente quando ele não olha nos olhos para dizer da ausência e cada vez passa menos tempo com ela.

Parte 2 Mwando diz que trabalhava muito nesses dois meses e daí o sumiço. Iria para longe, trabalhar, Sarnau o esperaria, mas ele tenta insistir até que conta a verdade da sua mudança eterna – estava para casar e não aceitava a poligamia. Sarnau se contorcia e chorava, aceitava até poligamia e a distância, mas ela estava grávida e tinha fome de amor. Despediu-se, ainda foi acolhida enquanto chorava e até resgatada de um ataque de cobra. Mwando perguntou o motivo dos ancestrais dela fazerem isso, ela disse que era para acalmar seu ódio e tirar a dor. Não deixou que ele falasse mais e foi embora.

Parte 3 Sarnau não dormia bem, não estava bem, tudo lembrava de Mwando e ela queria que a dor que sentia parasse de qualquer jeito. Enquanto sonhava com uma natureza acolhedora, via Mwando chegando, mas foi acordada por Rindau.

Parte 4 Sarnau decide se matar, vai até o rio e vai andando lentamente. Ela pensa em tudo que fica para trás e nesse último dia que está como todos os outros, belo. No momento que ela chega a uma altura considerável do rio, seu corpo quer viver, mas era tarde. No entanto, ouve vozes, pensando que são do outro plano. Se vê em sua rasteira, tinha sido salva por pescadores que a viram. Sua mãe, curandeira, falava de uma centopeia que entrou nela e fez um nó e que devia sair de Sarnau. Ela gritava e finalmente chorou. Foi como se ela se libertasse de tudo. O sangue jorrava por conta do aborto.

Capítulo 4 Sarnau iria casar e as pessoas se despediam dela. Estava com véu, era prometida ao rei da terra e nunca antes houve um lobolo, quantia paga para firmar o casamento, como o dela. 36 vacas que não pariram, virgens, e mais dez homens com pele de leopardo. Estava contente, nunca tinha planejado tal situação. Ela explica que a rainha tinha uma pretendente para seu filho, Khedzi, mas quando não só se descobriu que essa mulher de pele mais branca, predileta dos homens poderosos, que levantava a capulana, vestido ou saia, para qualquer copo de aguardente, e era filha de feiticeira. A rainha viu que sua mão era delicada, sem marca de trabalho, não a quis e era indigna. Todos se assustaram e ainda mais que apostaram suas filhas, que faltavam ou beleza ou vontade de trabalhar. Um dia, a rainha de encontrou com Sarnau, filha de Rindau, sem lembrar dela. Enquanto a via trabalhar e interessada, pediu para beber, e deu de beber com a concha da mão. A rainha ficou interessada e chamou-a para trabalhar por uma semana. Era comum, fez tudo como deveria ser feito sem pestanejar e, em uma reunião magna, declarou que Sarnau seria a esposa de Nguila, o príncipe, beberrão e forte. Enquanto aceitava o lobolo, a tia repetia o que precisava dizer, que era homenagear a família e enriquecer a terra. Neta de uma moça com lobolo de una peneira de feijão, ela se engrandecia. Até conversa com o leitor, como ela poderia ser bonita se não era no estilo clássico de beleza. Dizia que a beleza variava de cultura para cultura. “É como vos digo, cada mundo tem a sua beleza. No campo é mais belo o rosto queimado de sol. São belas as pernas fortes e musculosas, os calcanhares rachados que galgam quilómetros para que em casa nunca falte água, nem milho, nem lume. São mais belas as mãos calosas, os corpos que lutam ao lado do sol, do vento e da chuva para fazer da natureza o milagre de parir a felicidade e a fortuna.”

Capítulo 5 Parte 1 Sarnau ouve conselhos enquanto está na palhoça se preparando para o matrimônio. Ouve de tudo para aguentar os problemas do matrimônio, pois homem deve ser servido. É uma sociedade patriarcal e se perdoa o homem. Ela pensa que está com a vida feita e é invejada, as mais velhas continuam a aconselhar. No casamento, o príncipe assina com caneta de ouro e Sarnau usa o dedo, sinalizando que é analfabeta, em frente ao padre Ferreira. Vislumbram a festa, tanta gente dançando, homem bebendo ou sendo embriagado para poderem curtir-se ou curtir outros. Sarnau acha tudo lindo.

Parte 2 A família chora, até seu pai que ela nunca o viu chorar também chora e ela não entende, não era momento de felicidade? A velha tia explica que homem é para ser servido, e ela no casamento era como milho no pilão, explicado pela tia, seria amassada, triturada e moída para a felicidade do lar, e assim o suportaria. A mãe chorava de felicidade, até porque explicou que há quem chora por tristeza. Ela ia, infelizmente, a sua escravidão. Chegando no novo lar, via sorrisos, mas ninguém que conhecesse. Pensava na irmã e na família longe.

Capítulo 6 Parte 1

Sarnau acorda, nem acredita na nova vida. Faziam duas semanas do casamento e a festança intensificava com mais presentes. Vestia um vestido diferente por dia, escolhidos pela rainha. Trabalhava para as sogras que a testavam. A oitava sogra foi enfeitiçada, disse a Sarnau que a casa era cheia de feiticeiras e também coxeava por isso. “Uma lagartixa amarelo-acastanhada despenhou-se da árvore caindo no meu regaço, e fugindo célere enterrou-se no areal. Arregalei os olhos, o coração pulsou, e fui percorrida por um grande arrepio. Presságio de desgraça!”. Ela assim disse que não morreria, foi pendurada e amaldiçoada mas iria morrer de velhice. Eram mais cabeças ao currau.

Parte 2 – Gatilho de violência Sarnau estava contente ao dia e, apesar dos maldizeres do casamento, queria ver Nguila. Quando chegou ao quarto, viu ele com Mayi em sua cama. Aprendeu que quando visse o marido com outra que era para preparar banho e não se zangar. Até mesmo Nguila a chama, vendo que chorou, perguntou se alguém tinha morrido e deu um tapa nela que saiu até um dente. A rainha a acudiu entre lágrimas e sangue. Ela o consolou, dizendo que eram de terras distantes e nasceram e foram moldadas em sofrimento. Soube que essa Mayi tinha tatuagens em relevo e a pele lisa era feitiçaria de veneno de cobra. De noite, sonhando difícil, a sogra a acordou para que fosse dormir com seu esposo. No que retornou, Nguila a abraçou, dizendo que devia ensinar a não ter ciúmes e gostava muito dela, era a primeira, tinha respeito e apreço mais do que a outras. Mas ela se impacientava que não engravidava, como Mayi engravidou, mesmo que fizesse pouco tempo que estivessem juntos.

Parte 3 “Não imaginam o paraíso em que vivi quando declarei a minha gravidez.”. Seu marido lhe enchia de carinhos e amor, na cultura de Moçambique, a gravidez é fortemente celebrada e para os homens a mulher grávida é motivo de festa. Ela vestia-se e ornamentava-se. Mas, “Como o girassol, a felicidade dura apenas um sol.”

Capítulo 7

Parte 1

Mudança de narrador para terceira pessoa, um homem chora em sua cabana triste, abandonado. Era Mwando, casou com Sumbi, uma mulher linda, mal acreditou quando a conquistou, como os outros também não acreditaram, e teve o casamento arranjado, os pais queriam casá-la com nobre, na falta de um, foi pelo menos um homem culto e que parecia nobre. “Os homens não choram, ensinam os pais aos filhos. Mwando é homem e chora, mas com razão.”. O lobolo era alto, doze vacas. Com cinco vacas, a família arranjou uma forma de pagar em prestações as vacas. As seis ao casamento, três quando nascesse a primeira criança e três com a segunda. Já no primeiro dia de casamento ela não cumpria seu lugar como mulher. Apesar de Mwando ter se apaixonado por aquela mulher que trabalhava em pilão, ela fingia dores de cabeça e ficava na mesa como um homem. E continuava assim, os dois se amavam, acordavam tarde, nada produziam. “Só come quem trabalha, ensina a sabedoria popular.”. E ele a ajudava nas poucas vezes que ela fazia algo da casa, pegou mal, a vizinhança se afastava e ela logo se tornava tirana. Os carinhos viraram obrigações, exigia presentes mesmo que a família dela não faltasse dinheiro. Mwando se endividou, esgotou as despesas, mesmo que ele não visse problema em agradar a mulher. Ela sempre vinha com sorrisos, e presentes de admiradores quando o dinheiro dele se esgotou. Mas o lobolo e o lugar da mulher em Moçambique é diferente, ela jamais deve trazer prejuízo. Interviram no caso, “Mulher lobolada tem a obrigação de trabalhar para o marido e os pais deste. Deve parir filhos, de preferência varões, para engrandecer o nome da família. Se o rendimento não alcança o desejável, nada há a fazer senão devolver a mulher à sua origem, recolher as vacas e recomeçar o negócio com outra família. Mulher preguiçosa não pode ser tolerada, muito menos a libertina.”. O pai ficou louco que ele respondia aos anciões, que eram de outra religião e pregavam outra fé, ele pensava ser elevado por ser cristão e ignorava os preceitos éticos e morais de uma boa família, mas o pai também era culpado. Não deu outra, afastaram-se da vila, viveram em uma cabana em desgraça e só piorou com o filho morto, com o pretexto que era feitiçaria dos defuntos não apoiarem a união. Mas Sumbi já tinha casamento com gente rica, “amor com pobreza não faz felicidade, arrumou as coisas dela e partiu.”.

Parte 2 Chorava, estava depressivo. Amaldiçoava a religião dos antigos e se culpava, sentia remorso de como era vítima antes das opressões na adolescência e infância agora como adulto, pelos anciões. Pensava e repensava e teve um pensamento. “Homem que é homem deve saber resistir às vicissitudes da vida, pois todos os seres vivos têm as suas amarguras.”. Rezou, gritava alto, chorava e precisava ouvir isso. Entendeu tudo que passou e passa e tinha ressuscitado.

Capítulo 8 Sarnau estava triste, tinha duas filhas e faziam dois anos que o marido dela não a tocava e estava com amores com Pathy, a quinta esposa. Mal comia a comida dela, reclamava de algo ou estava indisposto e brigava com ela. As gêmeas demandavam muito e ela batia nelas como se fossem culpadas. Ela lamenta a morte do rei, Zucula, que trouxe tantas outras mortes e desgraças para o reino. Morreu de cócoras, com uma cobra, e assim foi enterrado. O dia era feio e cheio de sinais ruins, e as pessoas se matavam ao longo dos dias ou iam embora dos postos. A rainha morreu de joelhos e também assim foi enterrada. Em meio a isso, ainda havia uma guerra. O filho, Nguila, era rei e curtia o momento. Sarnau vestia o mesmo ouro da rainha e tivesse quem a invejava, mas comia mal e vivia mal. E para piorar, Mwando a encontrou e ele estava péssimo, nem era o mesmo que lembrava de fisionomia. Apesar de ter enxotado, foi até sua cabana e se amaram. Ela até propôs que continuassem os encontros em uma gruta de fantasmas que era afastada, mas Mwando a lembrou de sua posição e ela se despediu, saboreando o momento de vitória.

Capítulo 9

Parte 1 Sarnau estava em dilema. Por um lado, amava Mwando e seu amor a tranquilizava. Por outro lado, tinha poder, status e riqueza com seu casamento polígamo. Pensava no lado ruim também que Mwando a fez sofrer muito mas do marido polígamo que amava e a deixava de lado.

Parte 2 Lamentava que Mwando não iria mais vê-la, era rainha e não seria coisa boa. Visitou a gruta dos fantasmas, escondendo sua rota, e lá viu Mwando a esperando, ele sofria que poderia ser punido mas queria ver Sarnau. Mais uma vez se amaram, trocaram promessas de amor.

Capítulo 10

Parte 1 Sarnau engravidou de Mwando, mas ela conseguiu fazer um feitiço para que Nguila se encantasse por ela. O feitiço foi tão forte que ela se tornou mais amoroso com todas, exceto Pathi que vivia com ciúmes e tinha até pedido um feitiço que matasse todas as outras 6 esposas. Agora dividia o amor e sempre dormia depois da meia noite com Sarnau, sendo carinhoso. Ela implorava à defunta protetora que o fizesse parecido até com o bisavô, menos com o pai original. Pensou em fugir, mas não trocaria o bem-estar por nada, podia ser um menino e governar tudo. No parto, descobriram que Pathi fez um feitiço para que Sarnau morresse nele em um sonho de Nguila e foi espancada fortemente, além de tomar veneno e ter dado uma diarréia. Sofria. Sarnau sofria de emoções, não sabia até quando poderia continuar com essa mentira do filho ilegítimo e do amor de Mwando.

Parte 2 Mwando pedia que fugisse com ele, queria Sarnau só para si e sofria com as migalhas de carinho e a impossibilidade de se quer ter o filho. Sarnau pedia paciência, o rei aguardava ansiosamente a criança e poderiam fugir quando nascesse.

Capítulo 11

Parte 1 O parto foi difícil, com a luz da lua, cantavam e pediam que viessem bem. Mas Sarnau sofria, diziam que comeu ovo, mas o filho vinha de um adultério e por isso era mais penoso. Descobriram que Phati a enfeitiçava e apanhou. Quando baixou o feitiço, saiu o bebê. Ela teve pena de Phati, apesar de oponente. Para trazer mistério, a criança nasceu de pele clara e a cara da mãe. Apontaram a pele como um indicativo da relação das duas oponentes, mas era a pele de Mwando. O rei se embriagava de felicidade. Ela se perguntava onde estava Mwando.

Parte 2 Phati vigiava Sarnau em cada passo. Os encontros com Mwando continuavam e os seus planos de fuga também. Ela temia o pior e decidiu encerrar os encontros. Ia trazer mal para a família e o pequeno Zucula que já andava e tinha dentes. Diria seu último adeus.

Capítulo 12

Parte 1 Sarnau estava em dilema, sabia que devia deixar Mwando, mas seu amor a confortava contra Nguila que a espancava e a machucava fisicamente. Entre suas tatuagens e machucados sangrando, Mwando a beijava e a amava, pedindo para ser sua e fugir para além do rio. Ela pensava nas crianças antes de seu amor.

Parte 2 Estava decidida em não ir com Mwando, mas Phati a viu e a denunciou como feiticeira, pois só gente com gênio e ligada às religiões de Moçambique e feitiçaria que poderia adentrar as grutas sem ser atingido. Contaria tudo a Nguila e ela não seria ouvida segundo Sarnau, mesmo que ela tivesse voltado a ser a favorita do rei.

Parte 3 Nguila estava machucado, via a verdade nos olhos de Phati mas não sentia nas palavras de Sarnau. A dor que sentiu da possibilidade de traição da rainha e da possível mentira de Phati machucou seu íntimo mais do que o orgulho e mataria uma delas após beberem o licor da verdade, o wanga. Quem estivesse mentido morreria. Queria se embriagar para esquecer. Quando trouxe o fumo e a aguardente, abraçou Sarnau e chorou. “Descobri que ele me amava de verdade, com a sua maneira polígama de amar.”. Chorou também, arrependida. Fugiu na noite enquanto Nguila dormia e sentiu ser vigiada, era Phati de novo. Nocauteou-a e acordou Mwando em sua palhota, deixou tudo e as crianças.

Capítulo 13 O capítulo começa com Sarnau rezando para a defunta protetora que protegesse Mwando, agora pescador, do mar inquieto. Há um retrocesso de como chegou ali. Remaram para longe de Mambone, a correnteza ajudou e Mwando remava rápido. Sarnau chorava, amaldiçoava Phati, mas ao menos tinha a felicidade eterna. Chegaram em Bazaruto, venderam o barco e partiram para Vilanculos. Trabalhava com indianos e fazia tudo, já que Sarnau não saía da palhota que cabiam dois para não ser descoberta. Ele veio, frio da chuva e cansado do trabalho. A pesca foi boa, comia feliz e gostava do calor de Sarnau. Ela estava feliz, não tinha os filhos ou o título mas tinha um marido que era todo o apoio emocional e social. Ele dormiu em seus braços, ela pensava em dias melhores.

Capítulo 14 Parte 1 O sono, segundo o narrador, é importante para conectar o racional e os deuses, espíritos com racionalidade. O período de agosto era difícil para pesca mas bom para colheita. Mwando vagabundeava, ajudava em coisa ou outra mas mais ficava conversando e ouvindo a fofoca do rei e da rainha, ouvia o povo a favor da rainha que fugiu e o homem que a levou como herói. Queria saber cada vez mais, como se fosse alheio, mas o sono ia vindo com mensagens que não decifrava. Em uma noite, foi até o oráculo e nada entendeu, mas em um bar, enquanto bebia, encontrou um antigo amigo de infância e irmão de circuncisão, Nhambi. Ele vinha com outros guardas reais, também era um. Mwando não sabia se fugia ou invocava a amizade de antigos tempos, mas Nhambi veio com palavras duras e amigáveis. Contou que o rei sofria, Mwando era a menor das preocupações, mas ele mandou matar Phati com as vozes do povo aclamando que ela enfeitiçou a rainha e que o homem que a levou era um espião da tribo inimiga de guerra. Mwando sentia vergonha e se arrependia, Nhambi cuspiu no chão e o acusou de ser pior que mulher, devia ter orgulho e não ter agido daquele jeito. Como dívida de ter sido salvo de um ataque de cobra, aconselhou que decidisse se ficava por ali e morria, que eram ordens do rei, ou fugisse e nunca mais voltasse.

Parte 2 Mwando estava como um fantasma para Sarnau, contou que Phati morreu, o rei sofria e sua família corria perigo. Ele iria partir, apaixonou-se por Sarnau por ser nobre, agora era uma simples camponesa com nada de mais. Sarnau o lembrou do filho e que prometeu amor eterno. Reclamou que o filho nem com ela estava e poderia voltar ao rei. Ela disse que morreria e Phati sabia muito bem o que fazia. Deu de costas, correu atrás dela e tomou um golpe que deixou-a desacordada. Acordou pela manhã, viu os pescadores e as mulheres pegando caranguejos. Chorava e ninguém a acudia. Mwando era nuvem na sua vida.

Capítulo 15 Parte 1 Narra-se a partida de negros em um barco de Espírito Santo. De fora, o cenário parece corriqueiro e se acostumaram de ver esse tipo de situação. Dentro, era pior, choravam, clamavam por Deus e pelos defuntos, sem serem ouvidos. Estavam por lá mal sabiam os motivos, era desde guerra, mal entendido ou só ser negro. Mwando estava lá, ele se relacionou com uma mulher prostituta e um sipaio, soldado indiano, não gostou. Tentaram testar o português, falava e escrevia bem, mas na hora dos documentos que ele não tinha vistos foi o fim. Apanhou e foi levado ao barco. Outros negros libertos oprimiam os negros escravos. Iam para Angola, terra de opressão, cacau, café e cana.

Parte 2 Os escravos foram separados e os colonos se abraçavam exageradamente. As mulheres iam para o tabaco e os homens para canaviais e os campos.

Capítulo 16 O capítulo narra e descreve a natureza que os escravos e os colonos armam acampamento para fazerem dali o local de colheita em linguagem poética. Ler o capítulo.

Capítulo 17

Parte 1 Um negro morreu com a cabeça presa na máquina, mandaram chamar o Padre Moçambique, o católico, e Januário, para prestar os costumes africanos. Mwando era tal padre, tinha fama, fazia as celebrações como os padres brancos mas cobrava muitas vezes menos. Os colonos viram vantagem e até deram regalias, como casa e mulher. Era a boa ponte entre os escravos e os colonos. Januário tinha o nome de padre cachaça de tanto que tomava. Tinha um boato de um escravo que pediu para ser enterrado de cócoras e que não trabalhassem por oito dias. O colono riu e enterraram ele de qualquer jeito. Seu corpo aparecia por toda parte e até foi na casa do patrão estourar toda a louça. Quando viu o corpo de novo ali fresco, fez como pediu.

Parte 2 Quinze anos se passaram e assim foi indo a vida de Mwando. O cabelo ficou grisalho, juntou boa grana, tinha casa, mas o coração queria ir de volta para Mambone. O choro foi comovente das pessoas, mas precisava ir. Chegando onde havia a palhota, encontrou um armazém pesqueiro e nenhuma informação de Sarnau. “A resposta negativa deixara-o convencido de que ela talvez tivesse regressado à terra natal.”. Saiu de Vilanculos e voltou a Mambone, ia caminhando pela noite para não ser reconhecido. Os cães latiam como se fosse fantasma, a mãe de Mwando pedia proteção aos defuntos e ele anunciou sua chegada. Ela chorou muito, seu pedido foi atendido de ver seu menino. Contou da morte do pai, soube que Sarnau não era casada e vivia em Lourenço Marques uma vida desgraçada. Estava focado em ver Sarnau.

Capítulo 18 Um mercado barulhento com pessoas vendendo de tudo e um cheiro terrível é onde Sarnau se encontra. Faziam 16 anos que tentava de tudo para Mwando voltar e nada. Tinha agora dois filhos, Phati e João. De início, chamava Phati de Chivite, trabalhava para indianos e dormia em um armazém ao fundo com os cãos e de lá ela nasceu. Mas no segundo mês piorou e no terceiro nem chorava ou comia. Na falta de dinheiro para hospital, foi a uma curandeira que viu que um espírito se alojava nela, que sofria, o espírito de Phati. Ela ia matar um por um, o remédio era nomear e fazer renascer Phati, pura, inocente. No dia seguinte, após fazer o ritual de nascimento, o bebê desatou a chorar e comia bem. João era filho de um outro cristão que o enxotou, não pegava bem ter filhos por aí. “Ser cristão é uma coisa, mas a perversão e o afastamento dos deveres paternais porque se é cristão, é coisa que ainda não entendo bem. A poligamia tem todos os males, lá isso é verdade, as mulheres disputam pela posse do homem, matam-se, enfeitiçam-se, não chegam a conhecer o prazer do amor, mas tem uma coisa maravilhosa: não há filhos bastardos nem crianças sozinhas na rua.” Mas, não importa. “Com a poligamia, com a monogamia ou mesmo solitária, a vida da mulher é sempre dura.”.

Capítulo 19 Enquanto voltava para casa, derrubou os tomates que caminhava na chuva ao trombar com um homem. Pediu que pagasse pois era sua única fortuna e reconheceu o homem sem querer acreditar. Mwando correu atrás dela e a puxou. Ele pedia perdão, ela disse que sofreu, e ainda acusou ela de ter virado puta. Respondeu que ele tinha tirado sua virgindade, sem pagar a defunta protetora, tirou de seu casamento sem pagar resgate e a deixou sozinha e ficou sem nada, até o útero se foi de tão podre que estava. Ele contou que também sofreu, tinha virado escravo por um indiano ciumento e ficou quinze anos trabalhando em cana e café e gastou tudo que tinha para vê-la. Ela aceitaria, mas que pagasse 24 casamentos. O rei exigia reparo do lobolo, ainda que tivesse se casado com Rindau, irmã de Sarnau, e as 36 vacas deram origem a outros casamentos, resultando 24 lobolos. Ou ele pagasse, ou nada feito. Ele queria pagar, mas tinha nada, sofria mais porque dizia não ter filho e Deus assim o castigou, mas ele tinha, Zucula, o mais velho, era rei, as gêmeas casaram-se em Mambone e Phati estava em seu ventre quando fugiu. João não tinha pai. Ficou eufórico, mas não tinha como pagar. Ela disse que deixaria as lembranças e saiu dali sem saber com qual força. Mwando a chamava na escuridão e ela rejeitou o chamado.

Capítulo 20 Sarnau sofre, chora mas os filhos não notam. Mwando foi até a casa dela, apresentou-se à Phati que abriu a porta e sorria com a resposta dele ser o pai. João sorria muito e os dois pediam para que ele ficasse. Mwando respondeu que ficaria se Sarnau quisesse. Ela mandou os filhos dormirem que o dia era longo. Chovia lá fora, ficaram ali se encarando. Ele disse que as crianças precisavam de um pai, e ela precisava de um homem. Ele tinha vencido, ela tinha o orgulho, mas de quê? Ele chamou de novo o nome dela, tinha negócio, dinheiro, casa, podia ser que desse certo. Puxou o candeeiro e apagou a luz, ficou a escuridão. “Continua a chover lá fora.”.

Tempo da obra: Moçambique antes da independência, com a indicação da cidade de Maputo como Lourenço Marques.

Lugares da obra:

Personagens da obra:

  • Sarnau: Seguidora da religião dos antigos e dos defuntos protetores, sofre para poder ser amada seja na monogamia ou na poligamia
  • Mwando: Cristão, sofre para poder ter respeito e lugar como homem em Moçambique, adotando os valores da modernidade e rejeitando a sua raiz
  • Padre: Sem nome mencionado, antigo mestre de Mwando, hipócrita nos valores cristãos
  • Salomão: Ex-aluno do colégio de padres, teve um caso com a cozinheira
  • Cozinheira: Sem nome mencionado, teve um caso com Salomão
  • Rindau: Irmã de Sarnau
  • Mãe de Sarnau: Sem nome mencionado, curandeira
  • Rei Zucula: Pai de Nguila, rei justo e inteligente
  • Rainha : sem nome mencionado, também veio de uma terra distante, sofreu muito como Sarnau
  • Nguila: Príncipe e futuro rei, marido de Sarnau, beberrão, violento e protetor
  • Khidze: Ex-pretendente de Nguila, feiticeira, preguiçosa e libertina
  • Mayi: Uma das mulheres de Nguila, é a primeira que Sarnau descobre compartilhando a cama do rei
  • Sumbi: Ex-mulher de Mwando, casamento arranjado, preguiçosa, libertina e fugiu para outro casamento
  • Phati: Quinta esposa de Nguila, favorita dele, feiticeira e invejosa
  • Gêmea 1: Filha de Sarnau e Nguila, demanda muita atenção, apanham da tristeza da mãe como se fosse culpada
  • Gêmea 2: Filha de Sarnau e Nguila, demanda muita atenção, apanham da tristeza da mãe como se fosse culpada
  • Zucula: Filho de Mwando com Sarnau, Nguila acredita ser seu filho
  • Nhambi: Amigo de Mwando, guarda do rei, procurava o sequestrador de Sarnau, mas poupou o amigo que admirava e respeitava muito
  • Phati/Chivite: Filha de Mwando com Sarnau, foi renomeada para descansar o espírito da esposa ciumenta
  • João: Filha de Sarnau com um cristão, enxotou pois não era uma boa aparência ter um filho com uma prostituta
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"No seu pescoço" Chimamanda Ngozi Adichie Resumo de Cada Capítulo UNICAMP 2026 UNICAMP 2027 UNICAMP 2028

“No seu pescoço” de Chimamanda Ngozi Adichie, resumo de cada conto

Conto 1 – Cela um

Parte 1

“Na primeira vez em que nossa casa foi roubada, foi nosso vizinho Osita que entrou pela janela da sala de jantar e levou a televisão, o videocassete e as fitas de Purple Rain e Thriller, que meu pai tinha trazido dos Estados Unidos. Na segunda vez em que nossa casa foi roubada, foi meu irmão Nnamabia que forjou um arrombamento e roubou as joias da minha mãe. Era um domingo.” Tinham ido para a missa, os pais foram visitar os avós e Nnamabia estava com o carro. Em vez de se rirem na missa, ele saiu por um momento e voltou ao final da missa. A narradora, sem nome ao longo do conto, chateou-se por pensar no que estava fazendo. Quando chegaram em casa, ela foi colher flores e Nnamabia anunciou em inglês, língua oficial da Nigéria, que foram roubados. Havia algo de teatral na bagunça. Os vizinhos foram até ver, mas o pai e a narradora sabiam daquilo tudo. Nnamabia era esperto, mas abriu a veneziana por dentro e sabia exatamente onde ficavam as jóias. Ele tentou se defender, falando as mesmas palavras teatrais que não faria aquilo. Sumiu por duas semanas e voltou chorando, cheirando a cerveja, tinha penhorado as joias com comerciantes Hausa, uma tribo do país. A mãe ainda quis saber por quanto, achando que foi pouco, a narradora queria bater na mãe pela falta de revolta do crime. O pai pediu um relatório do acontecido e dos gastos, até porque estava naquele hiato entre ensino médio e faculdade, era velho demais para apanhar. Guardou o relatório, praxe de professor, e falou alto como que ele poderia ter magoado sua mãe. Morreu o assunto ali. Mas Nnamabia seguia os filhos dos professores universitários do bairro, tiveram vida boa, vestiam-se bem, roubavam pela fama, mas os pais professores acusavam a ralé da cidade. Osita era dois anos mais velho que Nnamabia, mas não foi cobrado. Nnamabia roubou a própria mãe em vez de ir a outro lugar. “Talvez não se sentisse velho o suficiente, experiente o suficiente, para nada maior do que as joias da minha mãe.”. Nnamabia sempre foi assim, até mesmo comentavam da sua pele mais clara que o deixou lindo – caso de colorismo – e a filha era mais escura. Quebrou janela, perdeu livro, copiou chave, roubou e vendeu as respostas da prova, com os pais aumentando a mesada, dando dinheiro pra pagar ou nunca comentando do assunto. “Talvez o roubo jamais voltasse a ser mencionado se, três anos depois, quando estava no terceiro ano da faculdade, Nnamabia não tivesse sido preso e trancado numa cela na delegacia.”. Começaram os cultos, grupos violentos que dividiam richas e grupos inspirados em grupos de rap. Nnamabia era popular, o que gerava uma certa crença que ele não participava de um dos cultos, por faltar coragem e insegurança de querer participar em um. A polícia rondava, Nnamabia ria, e disse com olhos grandes que não era de um culto, sendo que respondeu isso preso na primeira visita.

Parte 2 Na manhã de segunda, três jovens roubaram um carro da professora e atiraram nos alunos em pleno meio-dia no campus. Os professores foram os primeiros a correr, cobraram mais por transporte e o reitor deu toque de recolher e cancelou as aulas noturnas, fato que confundiu a narradora – tudo aconteceu de dia. Nnamabia nem se abalou e andou pela rua no primeiro dia de toque de recolher. Foi preso e levado para outra cidade Enugu, onde os pais não conheciam quem era quem, “a capital do estado, onde ficavam a Divisão de Infantaria Mecanizada do Exército da Nigéria, o quartel-general da polícia e os guardas nos cruzamentos cheios de carros. Era o lugar onde a polícia podia fazer o que todos sabiam que fazia quando estava sob pressão para apresentar resultados: matar pessoas.”.

Parte 3 Foram visitar Nnamabia com suborno de comida e dinheiro para os policiais e levaram comida para Nnamabia. Ele estava contente, achava até bom ali pela organização do chefe da cela. Ele tinha subornado o chefe com dinheiro que enfiou no ânus ao ser preso. Não perguntaram de como foi preso, o que estava fazendo, mas ao partirem, o pai disse que devia ter feito o mesmo – prendido para aprender e mudar. A narradora não viu a diferença do irmão.

Parte 4 A situação ia piorando, Nnamabia ficava em uma cela que tinha que ficar de pé de tanta gente, ficou chocado com um garoto alto do Buccaneers que chorava de apanhar, viu um corpo morto saindo da cela um, mais por conta dos policiais tomarem seu tempo para que vissem o cadáver do que a curiosidade do menino. Quando apanhava, recebia apelidos de ser jovem mimado da universidade. A narradora vai se revoltando com as visitas, da sorte que ele tinha de poder comer ali, sem perceber que ele não tinha chances de ser solto. Ele gostava de sofrer.

Parte 5 Os comentários sobre a polícia sempre eram poucos quando eram confrontados ou parados. Toda situação era delicada de um sintoma maior do que o suborno. O chefe da polícia se gabava da prisão dos membros do culto, o dinheiro ia acabando e a narradora solta que não iriam visitar Nnamabia. O pai fica confuso, sem entender. Quando foram ao carro, com a mãe proclamando que não precisava ir, jogou instintivamente uma pedra, ouviu o estilhaço, o grito da mãe e esperou no quarto pela bronca que nunca veio. Realmente não foram, mesmo com o Peugeout 504 da mãe que era perigoso sair da vila.

Parte 6 Não se comentou do pára-brisa, os guardas comentaram da ausência e Nnamabia queria falar de ontem, mas de um velho que foi preso. É costume local prender o pai se não se encontra o filho, dizia em Igbo, língua que usa sempre para confessar ou se abrir emocionalmente. Humilhavam o velho, sem banho, sem comida, sem ter como subornar e ele se entristecia. Comia pouco e até queria levar para ele, mas os guardas nem se importaram. A narradora teve até compaixão pelo irmão malandro triste.

Parte 7 Houve uma nova morte no campus, o que abriu um precedente para prenderem um menino e ele confessar que o Nnamabia seria solto. Não levaram suborno e iam ansiosos e temerosos pela estrada. Chegando lá, até os policiais que agradeciam o suborno estavam sérios. A situação se agravou e Nnamabia não ia ser solto. Entre o desespero da mãe e o policial tentando explicar. Foram para uma outra delegacia, afastada e guiada para o policial que iam levar para economizar gasolina. Ele tinha apanhado, comentou como as crianças eram deixadas depois para a sociedade para serem punidas sem terem sido criadas direito. Nnamabia contou que o velho foi humilhado para ter um banho gratuito e ele foi levado para a cela um. Nunca foi perguntado ou dito o que aconteceu na cela um, foram para a casa.

Conto II – Réplica

Parte 1
“Nkem está fitando os olhos esbugalhados e oblíquos da máscara do Benin que fica sobre a lareira da sala quando descobre que o marido tem uma namorada. “Ela é bem jovem. Deve ter uns vinte anos”, diz sua amiga Ijemamaka ao telefone.” Ijemamaka conta como Obiora era um bom homem, viu ela dirigindo os carros dele por Lagos, mas levar a namorada para a casa era demais. Nkem agradecia, mesmo que não quisesse ouvir a voz da amiga, mas a outra parecia até feliz de falar daquilo. Conversaram do aumento dos preços e da promessa que nunca cumpriria de ir para Nova Jersey. Ao desligar, pegou um copo de água, encheu e deixou na mesa. Via uma réplica de máscara do Benin e lembra dos vizinhos que começaram também a colecionar e diziam da dificuldade de acharem originais. Nkem imaginava o ritual, dos homens fortes que usavam as máscaras para proteger o pai, como Obiora contava mas não sugeria do ritual, mas até mesmo de que os jovens preferiam não fazer aquilo.

Parte 2
Nkem se mudou na primeira gravidez, era tudo bonito e encantador de se contar como vivia ali e dos vizinhos que ajudavam. Ela parecia incapaz pelo sotaque de se virar sozinha, mas aceitava a ajuda. Sabia que Obiora queria que os filhos fossem independentes e de classe, afastando-se da realidade da Nigéria. Os vizinhos notaram a ausência de Obiora que não morava mais lá depois dos primeiros meses. Ele se riu ao telefone, falando que eles olhavam torto para quem vivesse diferente. Nkem tinha contato com outros casais, inclusive nigerianos, e as histórias não batiam.

Parte 3
Pensa em como foi todo o processo da aquisição da casa, da vida que vivia de plástico como Obiora disse. Quando um homem foi trocar o lustre, elogiou a casa, e viu nos olhos dele aquele sentimento de que esperanças absurdas são feitas naquele país. Pensava em como ficava indo, os filhos foram para escolas, estudavam, participava de clubes de pessoas que vieram para os Estados Unidos e tinham casa. Obiora ganhava mais dinheiro, apareceu em notícias e ia menos agora para lá, com medo de perder os contratos do governo. Logo iria buscá-lo no aeroporto e pensava em como tinha que se arrumar o cabelo e os pelos pubianos ao gosto dele. Percebe a ausência presente dele, vê o closet, as colônias, lembra do Natal que ele não estavam e ligaram do seu número sem resposta. Ele ligou de volta, falando que podia ser um garoto passando trote. Ela assim queria que fosse.

Parte 4
Ela se fita no espelho e corta os cabelos com intensidade e revolta. Lembra de uma conversa com uma mulher que generalizava os homens, falando que eles deixavam o dinheiro aqui mas iam para a Nigéria para serem bajulados. Amaechi, a empregada, é chamada e Nkem pede rispidamente que limpe o chão. Ela o varre, com respeito, mas a relação de empregada e patroa era difícil, havia uma igualdade forçada que passava-se tanto tempo que era uma ouvinte, alguém para se confessar. Pediu perdão, ela o aceitou.

Parte 5
Recebe uma ligação rápida do Obiora que estava trabalhando e corta para trabalhar mais. Nkem até tenta falar, mas não tinha forças. Pensa na casa tão vazia de um homem, das correspondências ali fechadas e da cama usada de um lado. Pensa na mulher de cachos curtos e que tem uma foto dela, além de como até ela mesmo saía com homens casados, coisa comum da Nigéria. Ela pensou na primeira vez que viu Obiora, diferente de antes, que os homens davam pequenos presentes e elogios, mas não passavam disso pois ela era da roça e com pouca instrução, Obiora a levou para jantar, conheceram-se num dia chuvoso, tomou vinho e achou azedo e se forçou a gostar, foram conhecendo pessoas, integrando-se na vida até ele a pedir em casamento. Era mais como ela ficasse feliz de ter sido informada que estavam se casando, não que precisasse dar uma resposta e escolher. Nkem decidiu sair de casa e fitou a foto da mulher de cachos curtos.

Parte 6
Nkem acompanha Amaechi cozinhar. Ela pergunta para a patroa como quer as coisas, o que sempre faz, mesmo que Amaechi cozinhe melhor. Elas discutiam sempre de coisas americanas em perspectivas nigerianas, mas finalmente falaram do Obiora, sem ser da janta ou da roupa, mas que Nkem descobriu uma namorada na casa. Mal podia definir sua casa, ela vivia ali nos Estados Unidos, mas Amaechi recua e vai falando que não era da conta dela. Nkem quer conversar, diz que os homens são assim, com namorada em casa ou não e que Obiora era bom homem e a amava. Mas que ela no fundo sabia. Nkem pensa nessa recusa e se sabia mesmo, até mesmo no que Amaechi disse de Ijemamaka poderia saber, mas vai saber se ela não teria inveja, normal entre as mulheres na mesma situação de Nkem.

Parte 7
Decidiu ligar para a casa de Obiora, coisa que não fazia. Era meia noite por lá e um empregado novo atendeu o telefone. Perguntou várias vezes quem estava por ali, como se procurasse a namorada. Desligou, pensava naquele país que ganhou o visto e na proposta de Amaechi de uma bebidinha, para comemorar. Pensa em voltar para a Nigéria, mas como?

Parte 8
Foi diferente buscar Obiora no aeroporto, não ia risonha como sempre. Ele conseguia comprar a ausência com presentes e saídas, mas logo as crianças questionariam o pai ausente. Quando Obiora a viu, questionou o cabelo. Nkem viu as crianças quietas na viagem, talvez sentiam a ressalva. Nkem disse para Obiora dar atenção às crianças.

Parte 9
Obiora trouxe para casa finalmente uma peça original. Ela estava encantada. Chegou a perguntar da história, e até se os meninos eram felizes por matar pelo pai em vez de só não fazerem aquilo. Obiora riu como se não entendesse e disse que felicidade hoje era diferente de antes. Chamou-a para tomar banho e Nkem percebeu sua barriga redonda, pensou se sempre foi assim com homens casados, flácido. Ele a chamou para o banho e até parece que usou a situação que não a ouvia para dizer que logo o pai que morava por dois meses na casa e vinha no Natal seria questionado. Ele não ouviu e fazia tempo que não a chamava para se banhar, despiu-se e foi com ele.

Parte 10
No banho, enquanto ensaboava as costas de Obiora, dizia calma e enfatizando a união de como queria registrar os filhos em Lagos no próximo ano escolar e poderiam visitar os Estados Unidos nas férias. Ela foi até elogiada do cabelo antes, mas parecia tentar se convencer também que ia. Obiora perguntou o motivo, respondeu que queria saber quando um empregado mudava. Obiora disse que podiam conversar, talvez fosse aquela coisa de nunca ter que decidir que Nkem gostava do relacionamento, mas ali parecia decidido.

Conto III – Uma experiência privada

Parte 1
“Chika entra primeiro pela janela da loja e segura a veneziana aberta enquanto a mulher vem atrás. A loja parece estar abandonada desde muito tempo antes do começo da onda de violência; as fileiras de prateleiras vazias de madeira estão cobertas por uma poeira amarela, assim como os contêineres de metal empilhados num canto. É um lugar pequeno, menor que o closet que Chika tem em casa.”. Chika tinha perdido a bolsa original e ouviu da moça que perdeu o colar. O sotaque e a fisionomia das duas eram diferentes, Chika ia percebendo e pensava que a outra mulher, sem nome mencionado, era muçulmana, o lenço, o sotaque, rosto estreito e a beleza das coisas baratas diziam que era Hausa, e quanto Chika vestia um rosário forçada pela mãe, pele clara, era Igbo e cristã. Era a mesma briga de lá fora, os muçulmanos atacando os igbos a machadadas, mas ali ela agradeceu. Tudo aconteceu rápido na feira, saiu correndo e as duas estavam por lá, os gritos vieram em várias línguas. A rua continuava quieta, Chika entendia menos da situação do que entendia a muçulmana, sua participação de revoltas eram poucas e tremiam ao ouvir as pessoas começarem a fazer barulho do lado de fora. A muçulmana disse para fechar a janela e ela assim o fez. A poeira da loja pequena ficou densa por ali. Apesar de mal saber o que acontecia, quem matava e quem se perdia, logo sairia dali e veria as carcaças em chamas, carros quebrados, de um igbo cristão que passou em cima de um alcorão na rua e foi atacado por muçulmanos que estavam por ali e chamaram mais para se juntar. Ela vai imaginar tudo e vomitar, tudo naquela época de cinzas de Natal de bodes que se queimavam na época. Na hora, estavam discutindo da fumaça e sentaram. Chika ainda dizia de sujar e pensava nas camisetas que comprou com a irmã, Nnedi. Ela nunca a encontraria, levaria uma foto que tiraram ainda fora e com um sorriso forçado. Estavam de férias ali em Kano, eram universitárias em Lagos e explicava para a muçulmana, pensando se entendia aquilo. Explicou da tia, diretora da secretaria, conversava daquilo tudo que parecia notícia, não que poderia acontecer com ela. Sentou perto até demais da muçulmana e sentiu o mesmo cheiro de sabão em barra da empregada. A muçulmana disse algo genérico de ser obra do mal, Chika via quão esguia era e até se perguntava do que achava e até se tinha como ela achar algo. Ela perguntou da residência de Chika, que pensava na irmã discutindo de tudo aquilo de religião e política. Chika explicou da residência, a muçulmana disse que era feirante, não sentiu sarcasmo ou ironia, falava séria. Desejou que as bancas estivessem a salvo, mas ela disse que sempre destruiam tudo. Não queria continuar falando daquilo, pois eram hausas que matavam igbos e depois os cristãos que matavam muçulmanos de vingança. A muçulmana falou do peito e tirou algumas notas dali guardadas e o peito ardia. Chika lembrou de quando se confundiu toda ao avaliar um menino, disse do mamilo dela e viu que tinha filho. Recomendou algumas coisas, que ouviu pela primeira vez, agora já com 5 filhos. Disse que foi o mesmo com sua mãe, mesmo que fosse ela e Nnedi, mentia assim quando nervosa. Falou da filha que estava vendendo amendoim e se perdeu na confusão. Chika pergunta se era o neném e a muçulmana fica impaciente, dizendo que era Halima, a primeira, que o bebê estava em casa. Chika desejaria que houvesse algo que tivesse deixado Halima em casa naquele dia. A muçulmana chorou baixinho, numa experiência privada, sem gritos e pedidos como Chika estava acostumada. A muçulmana pediu que Alá protegesse sua filha e a irmã de Chika. Chika sabia que não era “amém” que deveria dizer, mas também não sabia o que os muçulmanos diziam, concordou com a cabeça.

Parte 2
As lojas já estavam abandonadas fazia tempo a decreto do governo. Encontraram uma torneira e saía uma água espessa suja. A muçulmana se lavou e ia rezar. Chika queria dar espaço, sabia que era uma experiência privada. Pensou em como zombava a religião da mãe, da reza, menosprezava, e quis acreditar em algo. Dado um momento, quis fugir, esperava até que a muçulmana a impedisse ou a abençoasse, mas ela a olhava com os olhos assustados e dizendo do perigo. Foi embora, com a promessa de que traria a família para levar a muçulmana para a casa que era longe.

Parte 3
Enquanto anda pelas ruas, ela não ouve nada. Quase que de forma proposital, vê corpos e mais corpos enfileirados e carbonizados. O cheiro a deixa enjoada e ela corre desesperada de volta para a loja com dor na perna. Ela bate desesperada de volta para a loja que a muçulmana estava e a janela abre. Fala da perna e oferece caixotes como banheiro improvisado. A muçulmana tem dor de barriga e depois se limpa na torneira. As duas ficam na canga. No futuro, Chika leria notícias que simplificariam os corpos queimados e da violência dos muçulmanos, ficaria revoltada com o uso de palavras e até jogaria o rádio na parede.

Parte 4
A manhã vai chegando e elas ouvem vozes do lado de fora. A muçulmana abre a janela e reconhece alguém, falando em Hausa e sem que Chika pudesse entender. A muçulmana queria ir embora antes do exército chegar ali. No futuro, a tia ficaria preocupada com Chila e Nnedi, sem saber do paradeiro e pensando como aceitou elas ali. Não sabemos da história da filha da muçulmana, Halima. Elas se despedem, a muçulmana disse o que fazer com a ferida na perna de Chika, e ela pediu o lenço, caso sangrasse de novo, apenas querendo uma lembrança. A muçulmana hesitou, talvez não entendendo, mas logo disse que sim.

Conto IV – Fantasmas

“Hoje eu vi Ikenna Okoro, um homem que eu acreditava estar morto há muito tempo. Talvez devesse ter me abaixado, pegado um punhado de areia e atirado nele, como meu povo faz para ter certeza de que uma pessoa não é um fantasma. Mas sou um homem educado no Ocidente, um professor de matemática aposentado de setenta e um anos e supostamente munido de ciência o suficiente para rir com indulgência dos costumes do meu povo.”. A aposentadoria não tinha chegado, os funcionários já o conheciam de tempos e de hábito daquilo. Amaldiçoaram os administradores, falavam do que aconteceu e também o narrador-personagem, chamado de Prof. muitas vezes, era como se fosse mais respeitado e importante pelo título. Perguntavam da família, ele tem Ebere de esposa e Nkiru de filha, desejavam que a filha estivesse nos Estados Unidos em vez da Nigéria, local que acreditavam que as pessoas eram ingratas. O narrador percebia coisas banais, como alguém comendo banana, o pomo de Adão de outro, a pele ressecada do período próximo ao hamatã de todos. Via os homens dividindo dinheiro e se zombando ao comprar amendoim e bananas e pensa se era para ter ficado assim, salvo fosse o cargo no Ministério Federal das Estatísticas e os dólares que a filha mandava sem ser pedido. Pensou que era covarde demais para se submeter em tais condições que viu. Daí que vê Ikenna Okoro. Ele o chama, James Nwoye, e assim o narrador explica que ele não o conhecia intimamente, mas pela fama que tinha na universidade e como desafiava as normas e falava da revolução. Os colegas admiravam ele, mesmo sendo da sociologia. E ele ainda sorri com todos os dentes, James tinha perdido um, recusado-se a fazer um procedimento e teve inveja. Lembrava da morte dele, 6 de julho de 1967, uma guerra de invasão e resistência de Biafra. Apesar do povo fugir, via a união e as notícias que logo tomariam conta de retrocederem as tropas e tomarem de volta o campus. Ikenna tinha voltado, talvez para pegar materiais ou manuscritos, mas a notícia que ficou foi de alguém indo contra o exército e sendo morto. Julgaram ser Ikenna. Ele contou, rindo, diferente da risada que dava quando discordavam dele. Pensou até na situação e em como haviam sabos, sabotadores da causa que trocavam sua segurança para uma passagem longe da Nigéria e ali se encaixava bem. Ele disse que não era assim, sem ter ouvido qualquer insinuação, mas que fugiu com a Cruz Vermelha para a Suécia. Achou estranha a história, mas sabia que teria mais nada depois daquilo. Ele ficou todo o tempo na Suécia, eles tinham voltado logo depois em 1970 para Nsukka e viram a casa destruída, usada, violada, desrespeitada. Foram para os Estados Unidos, arranjou vaga de professor por um amigo e voltaram em 1976. Ikenna perguntou de Zik, a outra filha de James, que havia perdido uma boneca no dia da fuga e Ikenna sempre insistia em pagar uma Fanta a ela. “A guerra levou Zik”, eu disse, em igbo. Falar dos mortos em inglês sempre teve, para mim, um inquietante caráter definitivo.”. Ficou aliviado de não ter que explicar como, até comentou que teve outra filha e Ikenna falava rápido, uma história de como contava de Biafra quase que repetidas vezes para um público. James sentiu uma nostalgia e fugiu em pensamentos. Falaram de outro colega, Chris Okigbo, poeta e gênio que faleceu lutando pelo país. Achou ter falado muito e tentou contar outra história de quando fugiu, jogaram um homem ensanguentado na parte de trás do carro e como sujou e o fez pensar em Ikenna, mesmo que tudo fosse exagero. Ikenna falou que ouviu tantas histórias, respondeu que não casou de novo, a vida na Suécia era mais do mesmo e voltou para ver as coisas ali, “como se isso significasse algo além do que fazemos com nossos olhos.”. Perguntou da mulher, errando o nome, e James disse que ela morreu faziam 3 anos em Igbo. Ikenna lamentou, James percebeu como ele era um homem de possibilidades, o que poderia ter sido. Ele comentou das visitas que recebia de Ebere, Ikenna achou estranho mas não falou, apenas entonou. James pensava o que seria se tivessem ganho a guerra, do que seria se falasse para a filha das visitas e lembrou da primeira vez que ouviu a casa sendo visitada por ela e o cheiro de Nivea que ficava ao acordar. Pensou no neto que não falava Igbo e não entendia o motivo de cumprimentar mais velhos, pois pequenas cortesias no outro mundo precisam ser justificadas. Contou mais da filha, tentando desviar do comentário e falou do diploma e seu emprego. Ikenna olhava para o flamboyant com os homens e pensava na época de estudos e como era diferente, mesmo que ele e James tenham estudado nos Estados Unidos. Contou também da situação do reitor, antigo dançarino, ia despertando memórias em James, contou do desvio de dinheiro, a má administração e a falta de aposentadoria. Outros mentiam a idade para não aposentarem. Ikenna teve revolta, ouviu aquela voz de antes. James respondia que era assim mesmo, com um gesto de balançar a cabeça que significava que era um assunto inelutável. Perguntou da vida, em Igbo, aposentadoria era “descanso da velhice” e ele assim o fazia, caminhava, via manuscritos, comia sopa, falava com a filha e deixou de ir para a igreja. Estava convicto que a incerteza que os levava para a religião e agora passava os domingos na varanda com os abutres espiando ele. Um outro redomoinho se formou e James convidou para que fossem para sua casa, mas ele precisava ir. Convidou para ir depois mas sabia que não iria. Voltou dirigindo, vendo a paisagem, pensando no que foi, o que não é mais e o que é ali. Chegando em casa, teve uma mistura de tempos, pensando na estratégia táctica de que os sobreviventes de Biafra nunca mencionavam ou discutiam dos sobreviventes e da guerra, de como a televisão não pegava sinal, do escritório gasto, da filha ligar e contar do neto e da visita de Ebere que esperaria.

Conto V – Na segunda-feira da semana passada

Parte 1
“Desde a segunda-feira da semana passada, Kamara começou a passar um tempo diante dos espelhos. Ela virava de um lado para o outro, examinando sua barriga proeminente e desejando que fosse chata como a capa de um livro, e então fechava os olhos e imaginava Tracy acariciando-a com aqueles dedos manchados de tinta. Fez isso agora, na frente do espelho do banheiro, depois de dar descarga.”. O menino que Kamara cuidava, Josh, perguntava do que era no banheiro e respondia o que queria comer, tendo já jogado fora o suco verde estrategicamente na ida da mãe ao banheiro. Toda semana mudava o que ocupava a geladeira de bebidas para o menino, e sabia que logo mudaria pois Neil, pai de Josh, devia ter escondido a revista da receita. Josh estava cansado mesmo que quisesse ver ela cozinhar, o que gostava, tinha praticado muito para a competição de leitura. Colocou um desenho para assistir e viu uma criança morena – elogia na Nigéria e ofensa nos Estados Unidos. Lembrou da surpresa de Neil quando falou que era nigeriana e falava inglês bem, como se a língua pertencesse a ele. Tobechi, marido de Kamara, aconselhou não falar sua escolaridade, não seguiu o conselho, aceitou o trabalho de falta de oportunidade. Ainda ouviu que poderia ensinar uma língua nigeriana ao Josh, ele estudava muito e até ouviu que ele era birracial, até que ela repetiu dizendo que era mestiço, Josh pediu em um tom que não repetisse. Ela se desculpou, sem saber porquê, mas o tom a induziu. Ficou surpresa ao receber a ligação que perguntava da sua disponibilidade. Ouvia muito da educação preocupada com o futuro do menino, dele sempre preocupado com o que não faria ou faria em vez de preocupado com o momento, mas Neil parecia ser um homem que queria ser ouvido e assim o deixou. Ouviu da dieta que não entendeu muito os ingredientes e perguntou da mãe de Josh, Tracy. Ele disse que estava ocupada, era artista plástica e trabalhava no porão. Não devia ser incomodada e repetiu que não incomodaria ninguém, ouvindo um tom que ouvia de empregadas na Nigéria. Pensou de novo naquilo tudo de emprego, mas queria um motivo para sair do apartamento. Passaram-se 3 meses. “Três meses trabalhando como babá de Josh. Três meses ouvindo Neil falar de suas preocupações, cumprindo as instruções que a ansiedade dele o levava a dar, desenvolvendo uma espécie de piedade afetuosa por ele. Três meses sem ver Tracy.”. Tracy era um som ambiente, mal surgia ou aparecia e sua existência era deixado de lado. Até Neil tratava com neutralidade dela. Kamara gostava da atenção que Josh a dava. Tudo ia assim, até segunda-feira da semana passada. Viu Tracy pela primeira vez de leggings, suéter, mão com tinta e dreadlocks. A partir dali, começou a querer perder peso e usar maquiagem, na esperança de vê-la de novo. Narra também como Neil acrescentava dinheiro quando chegava tarde e falava de fazer a janta como se fosse difícil abrir pacotes e colocar no forno. Neil ligou e perguntava de Josh e da maratona, queria até o levar para sair e perguntou se ela não queria ir. Mentiu que queria ir para casa, tempos atrás até gastaria mais tempo ao telefone, mas não queria aquela intimidade. Lembrou-se de um dia que Neil procurava por Josh após ver uma notícia de um pedófilo parecido com um dos entregadores. Tinha pena disso tudo dos americanos. Viu como os americanos ficavam de barriga cheia e isso dava tempo de se preocuparem com doenças que acabaram de ler, gabarem-se da criação e dos sacrifícios como se fossem exceção. Tobechi até perguntava da casa deles, mas queria se afastar daquilo que haviam se tornado.

Parte 2
Passa-se um pouco de Tobechi e Kamara, ficaram juntos na universidade e e faziam de tudo juntos. Casaram-se logo pois o tio tinha contatos nos Estados Unidos e arranjou o visto para Tobechi, ele trabalharia e levaria a mulher. Mas foi mais difícil, trabalhava por mais anos e sem ter dinheiro o suficiente para poder bancar a vinda e o visto de Kamara. As tias sussurravam casa vez mais alto dela ficando por ali. Mas o dia chegou, tinha o green card dela ali, que nem verde era.

Parte 3
Kamara foi para Filadélfia com um visto de turista e Tobechi era o fiador, contou como eles se casariam de novo nos Estados Unidos e facilitaria o processo. Estava gorducho, um sotaque americano que comia as palavras e queria estapear ele. Virou gerente do Burger King e era outra pessoa do que lembrava, não associava a voz que falava no telefone com o desconhecido que via. Até o prazer de casar não teve. Queria poder falar com família e amigas da tristeza e dos dias melancólicos, mas ela tinha uma vida melhor que elas. Até tentava engravidar para poder se ocupar, deixando de tomar o anticoncepcional regradamente, mas ficou feliz no dia que Tracy a viu e até Tobechi notou. Ela tinha travado no trabalho, perguntou como estava e já foi ver os dentes de Kamara, como um pai que vê os filhos e a elogia, perguntando se já posou. Respondeu que não. Foi se achando na casa, coisa que Kamara achou que ela se perderia. O filho a viu, ficou contente. Falavam da universidade, riam juntos. Kamara não queria que ela se fosse e até disse de Josh ver seu trabalho, Tracy a viu e convidou Josh para ir. Mostrou um trabalho que era pinceladas e tintas que pouco diziam para Kamara. Via a bagunça e procurava qualquer motivo para continuar por ali. Até que de tanto olhar, Tracy perguntou quase sussurrando se ela não pousaria nua. Kamara mal sabia o que dizer e Tracy disse para pensar. Kamara chamou Josh para comer espinafre, desejando que tivesse dito algo mais ousado.

Parte 4
Josh estava se preparando para a maratona e Neil estava ansioso, até dizia ser campeão por só participar. O menino havia feito um cartão celebrativo judaico, mas só podia dar a ela na sexta. Kamara ficou contente com o gesto, mas se reprimiu, ainda mais quando foi lavar a louça e Neil contou que os cartões eram para membros da família. Foram embora e Kamara estava inquieta para falar com Tracy. Teve coragem, mas quando a porta se abriu ela estava distante e impaciente. Tentou falar de Josh, mas ela queria fechar a porta. Conseguiu deixar aberta ao tocar no assunto de que posaria nua. Encolheu a barriga enquanto falava. Tracy sorriu e disse que a pintaria, mas não naquele dia, não era um bom dia.

Parte 5
Neil consolava Josh com biscoitos e açúcar de não ter ganhado a competição. Kamara viu a professora de francês, Maren, usava roupa apertada e muito blush, nada do que Kamara pensava de uma professora de francês. Neil falava que a maratona tomou tempo dos estudos e ela veio ali para poder estudar o tempo perdido. Ele falava de Josh mesmo ainda estando na sala com uma voz grave, ignorando o menino poder ouvir e como se precisasse de alguém que falasse que ficaria tudo bem. Kamara gostava de como a tratava e pensou nas possibilidades que teria de ver Tracy com ele preocupado e agora com a notícia que chegaria tarde. Já planejava a ligação para Tobechi e estava até de sutiã novo. Tracy subiu, estava travada e cumprimentou Neil como se fossem irmãos. Ela consolou Josh e teceu elogios a Maren, perguntando também se ela já tinha posado. Aconselhou a fazer sem nunca tirar os olhos dos olhos dela e mordendo a maçã. Kamara sentou-se ao lado de Josh e pegou um biscoito.

Conto VI – Jumping Monkey Hill

“Todos os bangalôs tinham telhados de palha. Havia nomes como Baboon Lodge e Porcupine Place pintados à mão ao lado de portas de madeira que levavam a caminhos de pedra, e as janelas eram deixadas abertas para que os hóspedes acordassem com o farfalhar das folhas de jacarandá e o som ritmado e tranquilizador das ondas do mar se quebrando. As bandejas de vime continham uma seleção de chás sofisticados.”. Em meio a tanta riqueza, coisas rústicas e luxo, Ujunwa acho estranho o workshop ser ali. Era um tipo de resort na Cidade do Cabo que gente rica tirava foto de lagarto, sem se dar conta do que existe por mais disso. Descobriu que o resort foi escolhido por Edward Campbell, nigeriano com um sotaque britânico cômico, responsável pela organização e que falava demais. Ele era velho, entre 70 e 90 anos, ela tinha acabado de perder o emprego no banco em Lagos e ficou aliviada do Ugandês que estavam esperando ter chegado. O resort era paradisíaco e temático em uma visão colonial da África. Até Ujunwa esperou ver macacos nas árvores e Edward no jantar que infelizmente não haviam. Haviam vários na janta, “A sul-africana branca era de Durban, mas o sul-africano negro vinha de Johanesburgo. O tanzaniano era de Arusha, o ugandês de Entebbe, a zimbabuense de Bulawayo, o queniano de Nairóbi e a senegalesa que, aos vinte e três anos, era a mais jovem ali, viera de Paris, onde fazia faculdade.”. Por fim apresentou Ujunwa, ela pensava com quem se daria bem e ia medindo doses e receios de cada um. Talvez o mais chamativo sendo das regiões, histórico e o que cada um era ali. Contou do workshop, patrocinado pelo mesmo grupo da Fundação de Artes Chamberlain, mesmo do prêmio Lipton que o bajulador ugandês era ganhador e agora chefiaria o workshop. Teriam uma semana para escrever com um notebook para cada um em seu respectivo bangalô e na segunda semana revisariam em conjunto. Apresentou sua esposa, Isabel, ativista, que dispensava apresentações, parecia que ela compensava o que ele não tinha. No café, como se quisesse se integrar, falava que identificava que Ujunwa tinha sangue real. Ela queria perguntar se Isabel perguntava o mesmo dos amigos londrinos, mas mentiu falando de uma jornada de um português em tempos passados que originou seu sangue. Ela falou feliz que sabia identificar e pediu ajuda na casa dos animais. A mãe de Ujunwa se ria muito ao ouvir de tudo. Ujunwa ficou contente e tentava se lembrar da última vez que a mãe riu tanto. Pensava na história e escreveu sobre Chioma, um nome comum a ela, uma garota formada em Economia em Nsukka e que procurava emprego. Depois de tanto mandar cartas, foi convidada e molestada, saiu dali. Continuava a ajudar a mãe na butique e resolveu pedir ajuda ao pai. Eles tinham uma richa, deu telefonemas, dinheiro e uns papéis. Não ouviu perguntas da mãe e viu a foto de uma outra mulher na mesa. Corta para o jantar, há uma conversa de pedirem avestruz e Ugunwa acha estranho, mas Edward ri falando que é típico. O frango ácido que ela comeu fez ela considerar realmente ter pedido o avestruz. Bebeu duas taças de vinho – a maior quantidade de sua vida – e ouvia conversas paralelas do Edward de Chardonnay ser enfadonho enquanto falava com a senegalesa de cuidar de cabelo crespo. Edward, o ugandês e Isabel ficaram na sala e os escritores saíram para conversar. Matavam os mosquitos a tapas e conversavam de esteriótipos de nacionalidades, riam-se de si, falavam dos escritores famosos e também contaram de si, de suas vidas e suas relações parentais. Até perguntaram de Ujunwa, a única que não falava, sobre como era seu pai e até mesmo da escrita ser terapia para ela. Mais tarde, voltou a escrever bebendo chá, e Chioma tinha agora uma chance de um emprego permanente no banco se conseguisse abrir contas em uma soma total. Mas o vice-gerente não a olhava como todos que a olhavam. Queria encantar, mas ele não a via. Em um carro, foi sendo chamada para contar das contas e sentar no colo. Ela lembrava da Mulher Amarela e o que sua mãe contou dela, tinha um relacionamento por mais de ano, seu marido comprava coisas para ela e o insulto máximo foi ir em sua butique e tentar comprar com o dinheiro que na verdade era dele. Bateu na mulher com a ajuda das amigas da redondeza e o marido se zangou, falando que os levou à vergonha. Sumiu. As familiares tentavam de tudo para pedir que ele voltasse e o apoio da mãe que se recusava. A loja ia falindo. Ela dava descontos, anúncios e adaptava os sapatos, tais quais o que Chioma usava naquele dia. Assim ia a rotina no resort de três refeições até que no sexto dia o primeiro conto era analisado, o do zimbabuese. Ujunwa notava que Edward sempre ficava percorrendo o olhar nela sem se fixar no seu rosto. Ela ouviu um comentário de Edward que queria era que ela deitasse quando ela se ofereceu para se levantar em um dia quente com poucas cadeiras ao sol. Só os homens ouviram e um deles riu, ela riu de reflexo. Até quis contar a zimbabuense sobre o ocorrido, mas ela parecia distante, talvez do conto dela. Era um conto cheio de floreios que falava de um professor de ensino médio em uma igreja pentecostal que o pastor declarou que eles não teriam um filho até obrigarem as bruxas que amarraram o útero dela confessarem o que fizeram. No jantar, vários comentários, Ujunwa achava o conto bom apesar dos floreios, mas ouviu desde que algumas partes eram desconexas até do conto ser datado demais. Voltaram para dormir, no dia seguinte comentavam do café da manhã. O conto da senegalesa passava em um velório e ela se abriu sobre a homossexualidade, emocionando-se ao ler. O ugandês até esqueceu que chefiava o workshop e Edward mordia o cachimbo falando que a história não refletia a África com o tópico. Ujunwa até perguntou e ele a observou como uma criança descomportada. A senegalesa falava rápido em francês e declarava-se senegalesa e Edward respondeu em francês. Disse que ela talvez tomou muito Bordeaux e riram do comentário. As mulheres do workshop se revoltaram, a zimbabuense e a sul-africana. Foram elas para o bar e Ujunwa se perguntava da senegalesa. Estavam lá as mulheres e o queniano. Ujunwa se sentia mal de ter rido do comentário de Edward e disse de como se sentia com ele a observando. Eles reafirmaram o ponto, ela se sentiu traída por parecer tão óbvio e voltou ao quarto. Sua mãe não atendia. Deitou-se e acordou sem ter escrito nada. O tanzaniano leu um trecho do conto de assassinatos no ponto de vista de um miliciano e foi consagrado como um conto atual e que devia ser lançado no Ordinary. Ujunwa achava aquele conto uma matéria do The Economist com charges. O conto de Ujunwa continuava com ela com o cliente que tecia elogios e suas lembranças com as artes e as letras. Ela se lembrava da reprovação em seguir carreira em literatura e disse que podia ser um hobby. Lembrou da lata de metal que tinham seus escritos com anotações do pai que a apoiava. A mãe dizia que ela precisava dos livros da escola. Ao contar para o cliente de como ela tinha aquele serviço, ele aceitou ser cliente, quando convidou para o seguirem e verem perfumes, ela foi embora, sem ouvir os chamados, e iria buscar seus pertences no escritório. Ujunwa nem queria ler o conto, muito menos tomar café. Ficou sabendo pelo queniano do comentário de Edward querer ver o umbigo nu da senegalesa. Depois de pensar nesse comentário e tudo que poderia ter dele sendo ouvido e dito, perguntou diretamente à senegalesa o que ela achava. Foram na loja de souvenirs e teve até o tanzaniano sendo cutucado de ser gay por gostar de bijuterias e respondeu que estava sempre aberto. Comentou sério que Edward tinha contatos interessantes e deviam estar abertos para possibilidades, ainda ele que não queria ser professor. Ujunwa comprou um colar de marfim falso e Isabel comentou de como deviam deixar em paz os animais. Ujunwa disse que era real, Isabel ficou espantada, queria alongar que matou ela mesma em uma caçada real mas não disse. Leram o conto de Ujunwa, o ugandês comentou da história forte, tanzaniano da atmosfera de Lagos, a sul-africana não gostou do anterior ter dito do termo terceiro mundo. Edward nåo gostava da inverossimilidade do tratamento grosseiro, ainda mais na Nigéria que mulheres têm poder como a ministra. O queniano gostou do conto e achou o final improvável e era pura ideologia, não era gente de verdade. Ujunwa riu vitoriosa, sem compreenderem, explicou que a única coisa inverossímil é que ela tirou o detalhe que pediu para o motorista do jipe levá-la para casa. Segurou algumas lágrimas, assim como mais detalhes que queria dizer, mas ia voltar para ligar para a mãe. Pensava se aquilo seria um final plausível.

Conto VII

No seu pescoço

Parte 1
“Você pensava que todo mundo nos Estados Unidos tinha um carro e uma arma; seus tios, tias e primos pensavam o mesmo. Logo depois de você ganhar a loteria do visto americano, eles lhe disseram: daqui a um mês, você vai ter um carro grande. Logo, uma casa grande.”. O conto fala-se em uma segunda pessoa da comunicação, atribuindo o “seu” e “você” para o leitor/personagem. Falam das coisas que queriam dos Estados Unidos antes de se despedirem, coisas simples, muito menos do que a casa grande e as armas, sendo a última que pediam para não ter. Respondia que traria. O tio levaria ela, agora marcada como mulher a personagem, para se ajeitar. A empresa que ele trabalhava estava desesperada para ter diversidade e pagava até a mais. Morava em bairro de gente branca mas valia. Dizia que era dando que se recebia, em proporções iguais. Ela foi tentar a sorte em uma vaga de caixa de posto de gasolina com os ensinamentos do tio e foi matriculada em uma universidade comunitárias. As alunas tinham coxas grossas, bronzeado artificial, esmalte vermelho e perguntavam num misto de arrogância e ignorância da vida, da língua e do seu cabelo. O tio contou depois que ouvia dos vizinhos que os esquilos sumiram depois que chegou dos boatos dos africanos comerem qualquer animal selvagem. Sentia-se bem com o tio, comia garri, a esposa a chamava de nwanne, irmã, e falavam igbo. Era como se estivesse em casa, apesar de ser em Maine. Mas uma noite o tio foi até o porão, em que ela dormia em volta de caixotes e apertou sua bunda soltando gemidos. Ela o empurrou e disse que ela não era criança, ela tinha vinte e dois anos e podia ter mais que ele ajudaria, era o que acontecia ali e em Lagos. Trancou-se no banheiro até o tio sair e fugiu. Viu ainda o tio passando de carro sem buzinar e lembrou do que ele disse de dar e receber. Foi parar em Connecticut, quase 450 kms de Maine. Na última parada de ônibus de Greyhound se ofereceu em um restaurante para trabalhar dois dólares a menos do que as garçonetes. O gerente, Juan, sorriu mostrando o dente de ouro e sabia que imigrante trabalhava bem, era um, nunca teve alguém da Nigéria e aceitou pagar um dólar a menos, mas por fora, detestava imposto. Não dava para estudar pelos altos preços e falta de universidade comunitária. Ia estudando pelas bibliografias e no quarto de tapete e camas manchados. Pensava na família que sofria no trabalho, recebia pouco e idolatravam ela que ganhou na loteria. Ia guardando as notas que recebia do Juan que eram bonitas, em vez das de gorjeta. Nunca escrevia nada, até que aprendeu sobre a franqueza e abertura dos americanos que falavam de assuntos que os nigerianos guardavam para contar quem lhe desejavam bem. Queria contar de como deixavam notas amassadas com restos de comidas como se fossem oferenda, de que imploravam para crianças ficarem quietas, de gente rica que era magra e gente pobre que era gorda, queria contar até das roupas, mas nunca tinha dinheiro o suficiente para pagar as contas e os presentes e nunca escreveu, nem sabiam onde estava. Se debatia entre a parede e até Juan disse de bater no namorado violento. Riu de nervoso. Tinha algo na garganta que a sufocava, não tanto para que não pudesse dormir, mas tinha algo no seu pescoço.

Parte 2
Vivia ouvindo comentários se era da Jamaica ou de doações para a África dos clientes. Mas um perguntou uma vez se ela era igbo ou iorubá, sabia dizer que não era fulani. Ficou surpresa. Ele começou a vir muitas vezes, era interessado, sabia da Nigéria, da cultura e dos povos. Veio por três dias, nunca querendo se mostrar a mais, mas querendo conversar, o que era proibido no restaurante. No quarto dia pediu para Juan a colocar em outra área para não lidar com ele e ele a esperou no estacionamento no final do turno, convidou-a para ver “Rei Leão”. Viu os olhos dele, cor de azeite de oliva extra virgem, coisa que mais gostava do país. Ele contou que tinha passado um tempo sem estudar para se encontrar e tinha se formado rápido se comparar que a Nigéria as universidades fecham rápido pela falta de dinheiro e desvio. Ele riu quando ela perguntou se ele se achou na África ou na Ásia. “Você não sabia que as pessoas podiam simplesmente escolher não estudar, que as pessoas podiam mandar na vida. Você estava acostumada a aceitar o que a vida dava, a escrever o que a vida ditava.”. Teve medo de sair com ele de novo, ele tinha um olhar faminto que a interessava e a amedrontava. Quando ele apareceu de novo, disse logo que saía com ele com medo de não perguntar de novo. Foram para o Chang’s e os biscoitos da sorte tinham papéis em branco.

Parte 3

Ela logo se sentiu mais tranquila para aos poucos revelando um pouco de si e das mentiras que contou. Disse que no Jeopardy torcia para antes tudo que não fosse homem branco, o que Akunna estava acostumado da criação da mãe professora de estudos femininos. Contou do pai ser motorista e não professor, e de uma história vergonhosa do pai se humilhando para não pagar os custos de uma batida que a filha via de longe. O motorista, que era o trabalhador e não o dono, o dono estava no banco de trás, gostou daquela humilhação e disse para ir. Era naquele misto de chuva e pântano até que os familiares ganhavam dinheiro desatolando carros. Akunna disse que entendia, mas ela não aceitou, disse que as coisas eram assim e detestou essa simpatia dele achar que todos deveriam ser compreensíveis como ele era.

Parte 4

Chegaram a ir em um mercado africano e ele via os rótulos, o dono chegou a perguntar de onde era e enganou falando que era nascido mas morava muito tempo nos Estados Unidos, o que era mentira. Comeu garri e onugbu, mas vomitou na pia. Ela ficou contente que poderia fazer onugbu com carne agora, pois ele era contra a morte dos animais que induzia medo na carne e o uso de glutamato monossódico e por isso gostava tanto do Chang’s que não usava. Ela ficou chateada, o garçom a tratava como impossível terem um relacionamento e o seu conhecimento básico de mandarim ser ele ter uma namorada em Xangai. O sexo foi fingido e depois ela contou o que se passava. Ele disse ter entendido, mesmo a expressão significando o oposto.

Parte 5

Ele dava presentes caros, ele confessou que um avô de Boston deixou uma herança confortável antes de doar boa parte. Na cultura dela, presente tinha que ser útil e ele se ria. Guardava os presentes de sapato e bolsa para dar aos parentes na Nigéria. Ele se oferecia para pagar a passagem, mas ela não queria que adicionasse aos países que visitou para se vangloriar. Um dia, dando um passeio ao rio do Estatuário de Long Island, elevaram a voz e ele a acusou de estar exagerando, enquanto ela apontou falando que achava que ele era americano de verdade, já que só considerava os pobres de Mumbai como indianos e ele não era gordo como os pobres que servia. Foi embora e depois voltou estendendo a mão. Trocaram carinhos, alisavam o cabelo um do outro depois do sexo e ela ajudou a passar hidratante nas costas queimada. “Aquilo que se enroscava ao redor do seu pescoço, que quase sufocava você antes de dormir, começou a afrouxar, a se soltar.”.

Parte 6

Conheceu os pais dele. Diferente de como tratavam nas ruas as pessoas que viam aquela combinação com simpatia demais ou antipatia exagerada, os pais a perguntavam de forma relevada. Mas Akunna estava tenso com tudo e ela não entendia. Voltando para casa, sentia raiva de como os pais queriam que ele fosse feliz e até bancar financeiramente e ele não aceitava. Mostrou também a casinha no Quebec que passariam alguns dias e ele não quis ir. Para ela, aquela casa podia ser um banco na Nigéria. Sentia-se incomodada e até derrubou um copo. Akunna notou, perguntou e ela disse que estava tudo bem. No chuveiro, chorou, sem saber o motivo.

Parte 7

Finalmente escreveu, enviou o dinheiro e falou seu endereço. Recebeu uma cara expressa da mãe, contando do pai que morreu no volante 5 meses atrás. Usaram o dinheiro para um enterro decente. Ela chorava desconsolada. Não sabia identificar se alguns dos dias que passou mal foi quando sentiu ele morrendo ou se foi algum dos dias que estava em outro plano no Chang’s ou em Manchester. Akunna a consolava, dizendo que iria com ela. Ela iria sozinha, e ele a lembrou do green card, que devia voltar dentro de um ano. Ela nem saberia se voltava. No aeroporto, abraçou-o e deu de costas.

Conto VIII – A embaixada americana

Parte 1
“Ela estava na fila diante da embaixada americana em Lagos, olhando fixamente para a frente, quase imóvel, com uma pasta azul cheia de documentos enfiada debaixo do braço. Era a quadragésima oitava pessoa numa fila de cerca de duzentas, que ia dos portões fechados da embaixada americana até os portões menores e cobertos de hera da embaixada tcheca. Ela ignorou os jornaleiros que usavam apitos e enfiavam exemplares do The Guardian, do The News e do The Vanguard na sua cara.”. Tentava manter a mente vazia de tudo em sua volta e até tentava lembrar de onde estava, precisava estar focada, mas lembrava de Ugonna, seu filho morto de 4 anos e de como via uma mancha no seu peito. As pessoas da fila faziam amizade entre si pelo sofrimento, chegaram cedo e desviavam das chicotadas dos soldados. Pensavam até na dificuldade de ter chegado e da embaixada resolver não abrir naquele dia e ainda pior pelo dia seguinte ser quarta e não abrirem. Comentavam dos arredores e também das notícias do General Abacha e também das possibilidades de visto de estudante para os Estados Unidos. Em sua volta tinham outras embaixadas e serviços que funcionavam pelas embaixadas e nos horários. Contemplava a estande que tirou sua foto granulada e mais clara, dois dias atrás havia enterrado seu filho Ugonna no cemitério da família em Ummunachi e levado seu marido no dia anterior no porta-malas do Toyota para fugir clandestinamente. Jamais imaginou que sua vida sairia dessa normalidade que vivia. Entre o homem atrás que parecia polido por cuidado para tentar a vida nos Estados Unidos, lembrou dos três homens alcoolizados e encapuzados entrando na casa e perguntando do marido. Ela não sabia e eles o acusavam de ir contra o progresso do país. Um deles até a violentou e parou por conta do amigo. Ugonna que nunca gritava enquanto chorava tomou um tiro no peito e a mãe ficou travada. Discutiam de ter que atirar na mãe para tudo parecer um acidente e ela se jogou da varanda, sem ter melhores opções e sem acreditar que tudo aquilo era verdade. Ela se jogou da varanda, arrastou-se até o lixo e esperou ouvir o carro sair para voltar ao apartamento. Colheu o filho e volta ao momento da narrativa com o homem atrás dela falando da entrevista e dava dicas. Ela ia pensando como a voz dele era parecida com as vozes que a aconselhavam de pedir asilo e de remediar a história. Não seria fácil. Lembrava do marido, era popular por criticar o governo Abacha. O que o homem aclamava por ser coragem a mulher achava que era egoísmo exagerado. Ela era também jornalista e seu marido viveu todo ao trabalho sem ter se ocupado com a família em momentos cruciais. Foi na notícia do The New Nigeria que escreveu do governo Abacha de 93 a 97 um compilado de crimes que a BBC o consagrou como herói e ganhou notoriedade o caso. Recebeu um telefonema e avisava que ele seria morto, soldados estavam indo a ele. Fugiu pelo porta-malas porque realmente o porteiro não teria visto quando ele saiu. Encontrariam-se nos Estados Unidos, o visto dela ainda valia e ele com os contatos conseguiria um também. Ugonna mal conseguia dormir e a mãe deixou ele brincando com o carrinho, arrependeu-se quando viu os três homens encapuzados entrando na casa. O homem de trás reclamava do sol. Alguns mendigos entoavam cantos ao receber dinheiro e os guardas da embaixada pediram para os 50 primeiros entrarem, o restante que voltasse outro dia. O homem de trás disse que era sorte.

Parte 2
A funcionária tentava ter detalhes do pedido dela, mas a narrador não queria dar detalhes, queria falar que era o governo e não queria vender o filho por um visto. A funcionária insistia, dizendo das disputas na Nigéria e que precisava de provas de ser algo do governo e de sua vida correr perigo. O desejo dela mesmo era saber se a funcionária lia as notícias do que acontecia por ali. Queria enterrar o filho ao pé de uma árvore ixora, que ele chupava o caule e assim faria quando o pé crescesse em sua terra natal. Ouviu da nova vida que os Estados Unidos dariam, mas ela tinha uma nova vida por ser mãe de Ugonna. O funcionário ao lado, que havia um homem quase suplicando, dizia que não aceitaria suas mentiras. O homem de terno gritava, que levaria o caso para Washington e foi levado pela segurança. A funcionária ainda chamava pela personagem, mas ela não a via, não sabia mais da cara dela se havia simpatia. Era uma vida que ela teria sem nada ser seu ou de sua identidade. Saiu dali, encaminhou-se para a saída sem responder os chamados, passou pelos mendigos e entrou no carro.

Conto IX – O tremor

Parte 1

“No dia em que um avião caiu na Nigéria, o mesmo dia em que a primeira-dama do país morreu, alguém bateu com força na porta de Ukamaka em Princeton. Ela se surpreendeu, pois ninguém nunca vinha bater na sua porta sem avisar antes — afinal, ela estava nos Estados Unidos, onde as pessoas telefonavam antes para avisar que iam fazer uma visita —, exceto o entregador da FedEx, que nunca batia com tanta força; ela deu um pulo, pois, desde de manhã, estava na internet lendo notícias nigerianas, atualizando as páginas o tempo todo, ligando para seus pais e amigos na Nigéria, fazendo xícara após xícara de chá Earl Grey, que ela ia deixando esfriar. Ukamaka minimizara as primeiras fotos do local do acidente.”. Ukamaka via os destroços e tentava aproximar no que aquilo foi um local de pessoas que faria o percurso e o mesmo itinerário de uma viagem de avião. Procurava por Udenna, seu ex-namorado. Talvez seria. Um homem estava batendo na sua porta, gorducho, de moletom, e ele anunciou que veio ali para rezarem pela Nigéria e sabia que ela era nigeriana. Perguntou-se como ele sabia porque não lembrava dele. Começou a rezar como fazia as igrejas pentecostais, jogando sangue de Jesus, amarrando e jogando ao mar. Queria interrompê-lo, ficava apreensiva com esse costume na Nigéria, tudo era pungilístico, mas o deixou. Ele ia bradando, rezando, tentava terminar mas ele continuava. Até que em meio de tantas vezes respondendo, sentiu um tremor como sentia antes. Udenna dizia que esse tremor que tomava seu corpo ao rezar era invenção dela, o que ela não entendia era ter criado algo que não queria, mas concordou com ele. Quando terminaram, ela foi ao banheiro e o encontrou ainda ali. Cumprimentaram-se, ele era Chinedu, e ali ficou como se tivesse sido convidado a falar da rotina matinal, como descobriu a notícia e os detalhes de tudo sendo que ela queria que ele fosse embora. Depois que entendeu que o acidente de avião e a morte da primeira-dama eram eventos diferentes. Chinedu falava de como Deus tinha que tomar conta da Nigéria e o governo tão prometido de Obasanjo não era o suficiente. Começou a falar de Udenna e do medo de estar morto. Contava os verbos no passado sem perceber. O telefone tocou e Chinedu até tentou impedir. Sua mãe contou que estava bem, ele perdeu o vôo e Ukamaka chorava. Chinedu a abraçava familiarmente. Glorificou Deus, dizia ser fiel. Convidou-o para almoçar e questionou a ele dos planos de Deus, da morte de alguns e a salvação de outros. Disse que Deus fazia sentido, mas nem sempre um sentido humano. Tentava entender isso como tentou entender como que Udenna achava a vida deles estagnada, sendo que ela tentava encaixar toda sua vida na dele e eles haviam feito progressos, mudava e se adequava aos pedidos. No caminho de volta ainda falou com Patrick, um padre, que a vida não fazia sentido, e era assim mesmo, ela precisava ter fé apesar de tudo. Ela riu, comparando com ter que ser alta e bonita, ele riu de volta, falando que era se conformar. Serviu o cozido com o arroz para Chinedu, falavam do raciocínio de Deus e pediu para comer com colher. Ela até quis apontar que era coisa de gente da roça comer assim com todos os dedos em volta da colher. Viu uma foto, era de Udenna e conversaram sobre, ela mentiu ao dizer que esquecia de tirar pois ficava relutando do ponto final que daria para a história. Ele presumia sua altura e perguntou como se conheceram, nos Estados Unidos, apesar de tantas semelhança e coincidências de suas trajetórias. Comenteram de terem se visto antes, Ukamaka o achava gentil demais para ser nigeriano e achava ser do Gana e Chinedu sabia que eram nigerianos por simplesmente saber. Falaram mais da notícia do avião e não houve sobreviventes. Chinedu comia bem, ora comentava dos planos de Deus e Ukamaka comentava da pimenta e quão performática era a vida de Udenna. A partir dessa transição do outono para o inverno, mantiveram essa relação de confidente e confissão, ela falava de Udenna, recepcionava com comida e ele era ouvinte, falava pouco. Até pensou em algo romântico de clichê mas ele exalava algo assexual, mas de verdadeiro a ponto de não precisar esconder quem era.

Parte 2

Ukamaka se surpreendeu como Udenna cumprimentava os outros estrangeiros do prédio, era um alojamento de pesquisadores. Chinedu também estudava e estava lá fazia tempo, tentava ter amizades para poder viver, e Ukamaka ficava feliz com esse presságio de uma longa amizade. Iam para as igrejas aos domingos de cada um e ela dirigia até Lawrenceville para ele e ela ia até Nassau. Iam juntos depois no McCaffrey’s e Wild Oats comprar frutas e ele ficava de olho nas ofertas e comprava pouca coisa. Ele achava aquela coisa de tudo ser orgânico besteira e comparava da pré-disposição de tomarem remédios. Ela ligou o costume a Udenna e ele fechou em uma cara misteriosa que ela nunca decifrava o que significava. Ela tinha fome e convidou para comer, de companhia e até pagar, mas estava jejuando, contando até em voz baixa que era um motivo pessoal demais. Tentava falar da Nigéria, o dia quente lembrava o Harmatã e de novo mencionou Udenna, visitaram a Nigéria no Ano Novo e perguntou se Chinedu havia ido de novo. Ele ficou quieto, ela tentava preencher as lacunas com os planos dela, de Udenna e da possibilidade dele enriquecer e ele só quis ouvir outra rádio. Tentou provocar falando que ia comer comida japonesa, o que ele abominava, mas sem reação. Parou para pegar o sanduíche e ele esperaria ali. Voltou e o cheiro de alho tomou o carro. Chinedu avisou que o seu telefone tocou. Viu que era a Rachel, talvez um convite de palestra, mas se frustrou de não ser Udenna. Chinedu achava melhor não ser, e até disse no prédio que para ela não era tão fácil como dizia, como se tudo que estivesse estagnado fosse fácil. Ele disse que sabia como era, ela não sabia, e ele disse que nunca perguntou. Ela sentou na mesa e perguntou se era ali ou na Nigéria. Era na Nigéria, e era um ele, Chinedu era gay, apesar dela já ter suspeitado algo sem identificar o que era ou como. Ela vestia a mesma blusa de Princeton do dia que se conheceram. Contou, como se contasse aquilo pela primeira vez e corrigia detalhes que para ela não importava mas para ele parecia tocar num músculo que relaxava e doía. Era Abidemi, banqueiro, filho de um homem poderoso e tratava todos com rispidez. Olhou para Chinedu e teve um arrepio sincronizado. Deu seu telefone e assim começaram um relacionamento de posse, ele exigindo saber o lugar, dando presentes e viagens e irritado quando não era respondido. Chinedu ia tentando contornar e aproveitando esses respiros de prazer. Até que ele veio com o aviso que casaria com Kemi, conhecida da família mas que o relacionamento sempre ia se adiando. Ele conhecia a família de Abidemi e conheceu Kemi, porque ele dizia que só aguentaria a noite com ele. Foi ironicamente apresentado como um grande amigo e que bebia muito a todos. Desejou até que ele dormisse mal, mas viu que Abidemi o usava, dormiria com ela e bem, mesmo se tivesse ficado com ele, voltaria para ela. Ukamaka voltou a falar de Udenna e como eram parecidos. Chinedu disse que nem tudo era Udenna e ela tentou traçar um paralelo. Ele foi ríspido e questionou se aquilo se quer era amor e se era, qual motivo o fez ela deixar tudo. Teve medo, depois raiva, então, Ukamaka pediu para que saísse dali.

Parte 3

Ficaram sem se falar e ela achou estranho alguns comportamentos ao redor daquele dia. Não achava seu sobrenome nos nomes, sendo que o inquilino era rigoroso. Sabia o apartamento dele, mas nunca foi convidada. Bateu um dia na porta, achando que ele não ir ao campus era um atraso de sua dissertação e foi enxotada. No domingo, acostumada a levá-lo para a igreja, teve um pânico de outra pessoa ser a que o levaria e bateu em sua porta. Estava abatido, pediu desculpas e disse que no outro dia era o jeito que achou de se desculpar. Ele disse que se queria pedir desculpas, que dissesse desculpas. Convidou para entrar e se sentar. Tinha poucos móveis. Ele contou que estava ilegal, não tinha documentos fazia 3 anos e estava ali de favor de um amigo peruano. Ela até sugeriu ver um advogado, mal tinha dinheiro para mandar para a família desde que perdeu o emprego que pagava por fora na obra e nem comia direito pelo jejum. Ela propôs de ir na igreja, quando disse que já tinha acabado, falou de ir na dela e na semana seguinte iria na dele. Foram recebidos pelo Padre Patrick e conversaram no trajeto sobre a fé e o tremor. Achava a fé dele extrema, coisa que havia afastado antes, até a separação com Udenna. Ainda brincou com Chinedu se tinha gostado mesmo do padre e resolveriam juntos o visto dele. Falaram de como ele também teve uma paixonite por Sankara e como Abidemi se parecia com ele. Era um domingo de prece com água salpicando nas pessoas, parecido com a Nigéria, mas mais sisuda e que deixava todos menos encharcados.

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"Memórias de Martha" FUVEST 2026 Julia Lopes de Almeida Resumo de Cada Capítulo

“Memórias de Martha” de Julia Lopes de Almeida – Resumo de Cada Capítulo

Publicado em 1899

Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida (Rio de Janeiro, 24 de setembro de 1862 – Rio de Janeiro, 30 de maio de 1934, morrendo de complicações de febre amarela) foi uma escritora, cronista, teatróloga e abolicionista brasileira.

Foi casada com o poeta português Filinto de Almeida, apesar de ser mais famosa e mais apta do que ele, o marido foi nomeado a participar na ABL em seu lugar. Existe uma expressão chamado “nobre consorte”, que é alguém que participa da família real sem ter o sangue, tal qual ele é acadêmico consorte da ABL. Era filha de Visconde, escrevia escondido, antes de poder se ver a atividade de escrita como inclusa para mulheres. Foi jornalista em “O País” por 30 anos, começando primeiro a publicar na Gazeta de Campinas, cidade que mudou para viver em sua infância. Vai para Lisboa, em 1886, escreve com sua irmã “Contos Infantis” em 1887, sendo a pioneira em literatura infantil no Brasil. Quando casa-se com seu esposo, ele já era diretor da revista “A Semana Ilustrada”, já colaborava nas publicações. Em 88 volta ao Brasil e publica “Memórias de Martha” que saiu em folhetim em “O País”.

O livro é composto por 12 capítulos, com um final que foi apenas publicado em folhetim.

Capítulo 1 Com o gênero “memória”, o narrador-personagem começa a falar do esboço que são suas lembranças da infância, como da casa, do quarto, do quintal, tal qual nem fica o sentimento de saudade, mas o de dúvida. Lembra-se de uma mudança, mandando por as coisas na rua por um homem zangado, a mãe em prantos, seu pai enfaixado morto na cama e que devia beijá-lo. “O frio e o cheiro do cadáver deram-me náuseas”. Pensando que ia ser levada com o morto, saiu correndo para o quintal, sentindo-se livre e também com a cabeça em mente da punição do Pai do Céu de suas travessuras, mais do que o medo que iria morrer, já que ouvia todo dia que Deus iria castigar tudo que ela fazia pela boca da mãe. Mal lembrava do pai, nem sabe se o amou pois a convivência era pouca. Mais passava o tempo trabalhando, já a narradora, agarrada à saia da mãe e ouvindo histórias arrepiantes de pecadores e do castigo de Deus. Mas ela não distinguia “o movimento de transição da nossa vida desse tempo para o outro, em que habitamos um cortiço de São Cristóvão.“. Não tinha criados e nem sabe para onde foram, nem a mestiça, a mãe ficava a engomar dia e noite, suspirando, peito magro e com as mãos queimadas. Crescia devagar, até eventualmente ia brincar com as outras meninas do cortiço, mas elas eram mais brutas e violentas e logo a faziam chorar alto. A mãe vinha ao socorro, lábios queimados e respirando forte, protegendo a filha. A mãe dava uns trapos para que ela brincasse e logo caia ao sono, acordando e estava coberta com um lençol, cabeça no travesseiro e um mosquiteiro que a protegesse. “Os dias sucediam-se sem que se notasse a menor alteração em nossa vida.”. O café da manhã era café e pão, a parte dela maior que a da mãe, sempre se sentia atraída pelo barulho das crianças e logo voltava chorando, cheia de agressões verbais de ser lerda, palerma e lesma, ela mais fraca e tímida que todas, e das agressões físicas. Estranhava no começo como existia tanto barulho, tanta gente e tanta gritaria ali. Ficava na tutela da mãe para não ficar como ela, como se a observasse a todo momento e sentisse o cheiro do desvio de caráter. “Fui sempre medrosa e dócil.”. Sempre ficava na casa de uma outra violenta moça enquanto a mãe fazia entregas. Lembra-se bem de uma cena, Carolina, filha dessa ilhoa (que é da ilha) percebeu que ela tinha fome, coisa comum de passar tanto tempo depois do café da manhã e da idade. Deu um bocado de carne e farinha e ela devorou com vontade, soltando palavras meigas e a ilhoa chegou. Perguntou como ela arranjou a comida e a Carolina respondeu logo, tomou seis socos na cara e caiu ao chão, mesmo dizendo que não tinha fome, ela avisou que era para aprender que ninguém mexia na comida sem sua permissão. Chorando, foi como encontrou a mãe ela. Contou a história para a mãe que, a partir dali e depois de tanto tossir, nunca mais a deixou com a ilhoa e levava ela nas entregas. Em uma das entregas da primeira semana de sol, no meio do caminho, a mãe se escondeu de uma moça bonita, ela a conhecia. Perguntou o motivo de não a cumprimentar, “A resposta tive-a anos depois, do tempo, da idade, do destino e dos desenganos.”. Pensando nisso na casa da freguesa, foi passar um tempo com uma das meninas que se divertia em mostrar o que tinha, mais por vaidade do que empolgação. Após ver os brinquedos, as posses e as salas da casa, elas se viram em um espelho e a narradora se achou feia ao lado dela. “Ela me compreendeu e demorou-se maldosamente a confrontar-me com altivez. Eu me sentia humilhada e com vontade de chorar… Em casa da ilhoa ou em casa da freguesa, caía sobre mim, com todo o peso, o horror da minha incompreendida situação.”. A mãe chama a menina, Lucinda, para que dê um vestido a ela que não servia mais. Ria da situação que colocava um vestido pelo outro, Lucinda a chamou de macaquinho. Obedecia como um robô de mexerem como bem entendiam e ela sentia raiva de ter que aceitar esmola e ter a vida tão diferente de Lucinda. A mãe agradecia. A irmã mais velha de Lucinda a beijou, apagando seu ódio. “As crianças pensam; e as impressões que sentem são as mais duráveis e profundas muitas vezes.”. Voltou lá, sem Lucinda, a moça tinha mais roupas para doar. Perguntaram se sabia ler, mas agora poderia ir para uma escola para aprender com novas roupas, para a alegria das senhoras. Passou a tarde feliz na alcova, com as outras crianças, Maneco, oito anos, fedia cachaça e procurava ponta de cigarro para fumar, pálido e orelhudo, era o que o mais lhe afligia e mais procurava ela. Rita era sua irmã, cinco anos, falava palavrão de um volume tanto quanto era bonita, morena e engraçada. Lucas era mais jovem, vivia sujo e mentindo. Todos ouviam as histórias curiosos e invejosos, menos Carolina que se curvava para lavar os esfregões.

Capítulo 2

“Dias depois entrei para a escola pública da minha freguesia.”. Foi até falar Carolina e os irmãos que ia, viram ela indo com o vestido. O começo foi difícil, acostumou-se. Ficou colada à uma mulata que tinha os estudos mais avançados e paciência para ensinar ela. “Ficava a meu lado; era feia, escura, marcada de bexigas, com olhos pequeninos e amortecidos, o cabelo muito encaracolado e curto.”. Tinha doze anos, fazia 3 anos que estava na escola, não subia de nível. Estimava-a muito. Chamava-se Mathilde. Avançava nas letras por sua conta. Apesar de várias vezes sumirem objetos na sala, um dia sumiu uns sapatinhos e acusaram Mathilde, que negou, acusando-a do sumiço do sapato e de tantos outros objetos. Ao vasculharem sua caixa, acharam os sapatos e ela recebeu as humilhações de cabeça baixa. Ficou de pé no canto da sala de exemplo, não conseguiu acompanhar a aula, mas acompanhou a atitude de todos e nunca mais dirigiu uma palavra à Mathilde. Isolada, tornou-se agressiva, inauturável a tal ponto que a expulsaram. Viu-a sair sem chorar, aos fins dos trinta e tantos anos, sentia dor no peito. “Substituí a Mathilde, na grande convivência colegial, por Clara Sylvestre.”. Não ensinava como Mathilde, mas a cuidava com muito esmero, era sempre muito cuidada e ganhava até parte da merenda dela. Era forte. Ela sempre carregava pó de arroz e a narradora achava lindo. Inventava histórias de Lucinda com suas roupas e Clara por alguns momentos ficava com inveja, queria esse luxo todo. “De Carolina e dos irmãos ranhosos não falei nunca no colégio.”, mesmo ela tendo sido salva da fome e apanhado por isso, era perigoso manchar sua reputação na escola. Depois de dois anos, passou, foi de vestido branco e laços, não reconheceu na época, mas a mãe teve que trabalhar muito. Foi um dia de vitória. As amigas falavam das férias, das viagens, a narradora ficava triste. Ia passar as férias com a mãe que só trabalhava, emagreceu e ficou pior, via de longe Carolina que trabalhava e também piorava. “Era a doença, era o cansaço, porque ela, estupidificada pelo meio, nem tinha consciência do sofrimento.”. Maneco continuava nos vícios, ainda mais que o pai, Seu Joaquim, incentivava-o pela ausência e pelo ensinamento. Mesmo com a violência toda, a narradora voltava à casa da ilhoa, cansada do tédio da casa. Um dia a ilhoa chamou sua mãe, Martha, para que a menina fosse com ela. Tinha ganhado doces e repartilhava com as crianças, notou a falta do Maneco, mal sabia a mãe do paradeiro. A casa da ilhoa, mesmo com tantas crianças, era o menos sujo do cortiço. O quarto tinha o que dava, coberto do que podia. A ilhoa perguntou para procurar Maneco mas Rita contou que logo vinha. Os pensamentos da ilhoa que ele estava bebendo se concretizaram, ele voltou que não se aguentava. A mãe esmurrou ele forte, batia de quase matar ele e a Carolina de suplicar que parasse. Rita assistia apavorada. A ilhoa contemplava o corpo dele estirado ao chão e que era uma maldição o Joaquim na vida, contou do avô que morreu do mesmo vício, mas Joaquim não tinha o mesmo, mas ensinava Maneco a beber. Rita ficava ali assistindo, Carolina ia chorando e levava o irmão para o quarto, ele chiando na respiração. Dessa vez, a briga na volta de Joaquim com a ilhoa foi mais longa e mais barulhenta. Martha fechou a porta e mandou a narradora dormir.

Capítulo 3 Um surto de difteria e de sarampo afetaram o cortiço, Martha cuidava da narradora com força e com dedicação. Nessa febre, delirava com pedidos que a mãe só podia a olhar e não realizar. Comprou uma boneca pois queria a mesma de Lucinda, que viajava. Ela comprou, via na cara dela a decepção, deixou-a no assoalho por alguns minutos mas brincou com ela, enfeitou-a e dormiu com ela nos braços. A mãe continuava a se esforçar no trabalho. Voltou para a escola e sentiu saudades dos dias ociosos, foi com Rita para estudar dessa vez, protegendo-a, tomou gosto de ser sua mentora e a palavra final das decisões dela. Muitas meninas iam e vinham, sem saber de onde e para onde, deixando uma tristeza sem fim e sem compreensão pela idade. Ainda Clara Sylvestre foi estudar e tinha ciúmes da relação da narradora com Rita, tinha amizade com outra cabocla risonha, mas até se resolviam tempos depois rindo entre si. Virou favorita da professora, sentava perto, comentava da facilidade e da paciência e as crianças traziam alecrim e perpétuas de presente. Chegou dezembro, passou com louvor nos exames e a mãe pensou estar apta ao trabalho, mas não tinha jeito com a engoma e deixava comida queimar. A mãe não repreendia, mas lhe dizia que devia se acostumar, até porque um dia iria morrer e precisava ser independente. Desatou a chorar e prometeu trabalhar bem, para no outro dia entornar as panelas e apagar o fogo. “Eu tinha então onze anos.”. Passou as férias tristes, Carolina, ainda resiliente e e sensata, continuava a sofrer agressões. No primeiro dia de escola, estava lá, e ouviu uma conversa da professora animando uma adjunta para ter liberdade financeira e social ao se tornar professora. Na mesma noite, a narradora sonhou em ser professora, tinha frutos do trabalho, a mãe ficava feliz com o sonho do emprego. Mas ela não sonhava em dar sossego para a mãe do quanto trabalhava, ou ser útil ou poder ter dinheiro, mas de não ter que mais morar em cortiço era um sonho por si. Estuda a mais e tinha frutos, dava para a mãe que guardava entre cartas da família e retratos do pai, uma caixinha que dizia sorrindo ser o passado e o futuro dela. Voltando para casa um dia com Rita, a narradora vê a ilhoa com roupa rasgada e cabelo solto sendo segurado pelos soldados, com o Joaquim vociferando enquanto sangrava. No susto, descobriram que a ilhoa levou Maneco ao médico, emagrecia muito, não dormia e tremia, era o vício, não tinha nem mais cura, a morte era o fim. Deixou-o com Carolina e foi atrás de Joaquim, o filho ia morrer, mas ele iria antes. Tinha muita gente e mais gente chegou depois com os soldados, mas a ilhoa só via o dono, amarelo, alto, no balcão seboso, magro, quebrou tudo que tinha em volta enquanto quebrava o Joaquim. Carolina chorava enquanto continha o irmão, Martha foi ajudar Carolina. Martha notou as pernas inchadas de Carolina, perguntou se foi ao médico. Como toda doença e problema que tinha, dizia que era nada. Ela já nem calçava meias, outra pessoa disse ser a umidade dali. Martha deu caldo ao menino e janta à Rita. A ilhoa voltou no outro dia, mal entrando, já chorava.

Parei aqui – Capítulo 4 “O cortiço em que morávamos gozava da fama de ser um dos mais pacatos do bairro devido à previdência do proprietário, um carroceiro português que morava com a família no local, na primeira casa à esquerda do portão.”. Gabava de escolher a dedo quem morava ali, e as pessoas iam se amontoando pelo preço, acostumando-de às promiscuidades e à barateza. A narradora se demorava como podia para não voltar ali. Até mesmo nomeou o cortiço de “avenida”, arranjou quitandeiros para darem frutas e fez uns tanques para as lavandeiras. Não foi nem dessas cortesias que continuavam, mas é que nem aumentou o aluguel e nem tinham outro lugar para ir. Eulália era outra moradora, de perto da ilhoa, falava alto, mulata gorda, todo sábado voltava da feira com cachaça. Ainda faziam assobios de canções africanas e improprérios, respondia dançando, fazendo careta ou caindo ao chão. Nas segundas, cheia de nódoas de pancadas, ia à Martha pedir trabalho. Ela a admoestava, dizia não deixar ela na mão e ela cumpria o serviço. Direita da casa moravam galegos, mulher, marido que trabalhava na fábrica e duas filhas, fechavam a porta da casa para não compartilhar comida, nem com “tio Bernardo, o idiota velho que o carroceiro sustentava e a quem todos davam os magríssimos sobejos.”. Era explorado. Dois tiroleses eram bem calmos, apesar de um ter tentado roubar uma mulher paraguaia, mas Túlio intervia e trabalhavam bem, mais Túlio do que Giovanni. Depois de uns dias, Giovanni matou Túlio dentro da casa, fugiu de madrugada e tio Bernardo viu a culpa. A gente comentava, a narradora viu o corpo de Túlio ensanguentado, boca aberta e olho esbugalhado, não por muito tempo pois a mãe a apressou, mas foi o suficiente para marcá-la. Averiguaram que levou dinheiro guardado de Túlio e Giovani o matou no sono. O medo tomou conta dela, o dia era até passável, mas de noite achava que ia ser assassinada a qualquer espreita, mesmo que a mãe dissesse que elas eram muito pobres para serem alvo de qualquer coisa. Até uma noite confundiu uma saia com o Giovani, a mãe a protegeu e embalou no sono. Foi aos poucos voltando ao normal. Emagrecia e, em um dia que costurava, a mãe a ficou vendo e disse como ela parecia com o pai. Pela primeira vez, deixou de trabalhar e parecia querer falar dos mortos e a narradora perguntou. Falava que ela tinha os olhos e a cor da pele, disse que se conheceram em uma festa e inicialmente foi difícil para se juntarem. Ela era pobre e ele também, mal tinha dinheiro para o dote e foi morar com ele e a sogra na casa da sogra. O pai dela era viciado em apostar jogando cartas e mal tinha como pagar as dívidas, piorou quando a mãe dela morreu. Foram se arranjando após a morte do avô enquanto apostava, eles tinham pouco mas eram bem considerados e virou caixeiro-viajante após a filha nascer. Porém, foi assaltado e não acreditaram na história, perdeu muito dinheiro e se matou. Chorou pela primeira vez a morte do pai, perguntou como levaram a morte do pai na empresa, Braga & Torres, culparam-no. “A viúva de um ladrão não podia continuar na mesma classe da qual a memória do marido a arrancara. Não era só uma mulher pobre, era uma mulher vilipendiada. Estávamos bem no cortiço, só aquele lugar é que nos competia…”. Os barulhos todos do cortiço cessaram, até a brisa parou de vir da janela.

Capítulo 5 “Os meses foram correndo. Eu estudava muito, mas, ou pelo esforço intelectual, ou por fraqueza física, estava sempre nervosa, irritada e magra. A minha preocupação constante era ser vítima de um desastre imprevisto.”. A morte era uma preocupação constante, tudo levava um medo de morrer ou achar a mãe morta, ainda que Martha tentasse distraí-la. Não foi mais à casa da ilhoa, a visão de Maneco ainda, tremendo, cada dia mais magro, só piorava tudo. Em uma tarde, viram luz no quarto da casa da ilhoa mas nada relacionaram, na manhã seguinte de domingo, ficou em casa e fazia frio, até que passou um caixão de defunto na casa da ilhoa. Foi ver, a casa estava aberta e ainda assim menos suja que as demais. Rita via tudo com os olhos bem abertos. Carolina andava com as pernas bem inchadas, tirando roupa de um baú. Maneco estava morto na cama, pálido. Tinha morrido de madrugada, fazia dias que não saía da cama, a morte era certa e esperada, mas a família sofria. Rita beijou-o na bochecha, Carolina na boca enquanto o molhava de lágrimas, Joaquim o abençoou, a ilhoa o segurava no colo longamente e o beijou e colocaram-no no caixão, sem flores, sem cerimônia. A narradora, comovida com tudo, quase a chorar, fugiu para casa. Na aula, no dia seguinte, pálida, recebeu notícias da mestra que ela foi aceita para receber ordenado, salário. Mal conseguia se segurar para contar a notícia para a mãe, mal entendia as lições. Parece que foi até de propósito que duas meninas que ela acompanhava tinham o irmão, filho de carpinteiro, a esquecer de buscar elas e ela sem poder ir para casa logo. Quando deram 4 horas, vieram e ela saiu voando para casa. Chegou abraçando a mãe, disse que poderiam até mudar para perto da escola, um chalézinho pequeno mas aconchegante, só que tomaria todo o dinheiro do ordenado. Deixaram sempre em mente aquela casa até que um dia surgiu a ousadia de alugar, um menino fitava ela enquanto ela explicava as aulas de física, era bom moço. Só que ela sabia nada de amor, se quer recebia cartas ou qualquer coisa e nem sabia como reagir. As meninas se riam e ele vivia a vendo e fitando, perdia seu rumo. Um dia, ela foi com a mestra para ir embora para casa, mas chegando perto, lembrou que teria que mostrar o portão do cortiço, todo feio, ela até inventou uma enxaqueca para diminuir o passo. Ela aconselhou dormir bem agasalhada, deu-lhe um beijo e se foi. Até viu a sombra dele na parede, mas nunca mais o viu. Foi assim que decidiu alugar “pequeno chalé cor de pérola, de venezianas verdes e lambrequins de madeira a guarnecer o beiral do telhado.”. Mas, depois de tantos anos, chegou à conclusão que o menino estava interessado era na professora.

Capítulo 6

A narradora morava no novo chalezinho, a mãe continuava a trabalhar o mesmo tanto, mas o ar era melhor. Pensava bastante no menino, estava apaixonada. Nunca mais o viu por muito tempo, meses, julgava ter sido a entrada do cortiço. Mas ela achava o amor improvável por ser feia. Talvez amasse o que ele representava, o Amor, o sentimento e a hipótese. Continuava na mesma escola, com afinco, dedicação, nunca deixando-se de parar de se esforçar, pois não considerava ter talento, apesar do comentário da mestra, o que tinha era “muita boa vontade.”. Deram o apelido de Santinha pela professora apontar como exemplo e de forma maliciosa. A narradora ignorava. “Assim, cheguei à idade de vinte anos, passando o melhor tempo da vida a estudar para ensinar ou curvada sobre a costura, ao lado de minha mãe, que enfraquecia muito e trabalhava sempre…”, não tinha amigas ou hobbies, pouco a pouco os olhos perdiam o brilho. Martha notava o espírito da filha e pedia que a mestra eventualmente a chamasse para jantar. Ficou entusiasmada com o convite da diretora para jantar com outros, ela tinha muito poder na narradora, já que ensinou desde o ABC e trabalhava com afinco, assim cobrando dos outros. Estava por perto dela, mas profissionalmente, o convite deixou-a feliz. Vestiu o melhor vestido, com rosa fresca, feito do crochê do recreio das meninas, a mãe a acompanhou e a esperaria, não tinha vestido bom para ir e a esperaria onde apenas os criados poderiam vê-la. Ficou perdida na festa, sentia-se feia vendo tantas jovens bem vestidas, dançavam, riam, lembrava-se da vez que se viu no espelho com Lucinda e o abismo que existia ela e as outras senhoras. Até olhava para a mobília e a casa, tão distante de si. A dona da casa apareceu, cumprimentou-a e ela logo a puxou para uma sala, apesar da narradora ter tentado, em toda sua timidez, resistir. Viu sua mestra, jovial, contava do seu sogro e da surpresa do aniversário do marido, senhor Jeronymo de Andrade. Após ter ouvido da família e de amigos, as pessoas dançavam, até que uma hora ela foi chamada para dançar. Ela queria sair daquilo, quem o acompanhava fazia de má vontade, ela se confundia toda, voltou para a cadeira derrotada. Quando serviam chá, pegou e guardou alguns biscoitos para a mãe, alguns rapazes viram com desaprovação e ela sentiu vergonha. Ouviu de um casal de idosos que já eram duas da manhã, sendo que sua mãe a esperava às onze. Ainda tentou achar a dona da casa mas saiu correndo. A mãe estava lá, no frio, ainda a esperando, dizendo que valia se ela tivesse se divertido. Ouviu tudo enquanto ajudava a filha se arrumar para dormir. No outro dia, desculpou-se à mestra de ter saído sem se despedir e ela perguntou se tinha se divertido, como nem tivesse feito falta. A narradora afirma que foi para trabalhar ali que tinha nascido mesmo.

Capítulo 7 “Decorreram muitos meses sem a mais leve mudança.”. Aquele “soirée”, festa, deixou uma má impressão na memória, gostou no momento, mas ficou mortificada depois que relembrava. Chegaram as férias, e, com ela, febre e tosse. O humor mudava e também tinha vertigens. O médico disse que precisava casar. Aquilo a chicoteou, parecia histerismo, a mãe a olhava com preocupação, o médico até tentou desviar para que ela tivesse folga, uma viagem ou coisa do tipo. A narradora não achou a ideia boa, a mãe foi contar à mestra em lágrimas. A ocasião coincidiu com a mestra indo passar férias com ela em Palmeiras da Serra, RJ. A mãe pediu dinheiro adiantado a um homem freguês antigo, Miranda, consertou-lhe e comprou roupas e a passagem, deu tudo sorrindo. Custou para soltar a mãe, chorava muito. Na viagem, via toda a paisagem bonita. Chegou na estação tarde, alguns estrangeiros por ali que eram da família e os levaram para a casa, espaçosa, com muitos quartos, em um local com muito verde e com muita paz e luz. Foram 3 pessoas com ela, além de uma criada, “O chefe da família gostava de caçar, a mulher de ler, eu de escrever à minha mãe.”. O chefe ia caçar, as mulheres passeavam, a mulher, Dona Anninha, com livro e a narradora com o cesto de trabalhos. Muitas vezes aproveitavam para ler na varanda do chalé do senhorio, a narradora simpatizava com uma arara que não lhe dava muita bola. Assim passavam os dias, aproveitando a natureza, lendo, cosendo, entre cheiros de flores, colhendo algumas, até colhendo framboesas e ouvindo o germinar da natureza. Em um dos passeios, um grupo de rapazes apareceu e um deles conhecia D. Anninha, Luiz, seu primo, falava de como gostava do lugar, ia até no inverno, mas que era bom viver na cidade para saber aproveitar o campo. Prometeram de almoçar no dia seguinte, era estudante de medicina depois que a narradora soube das contações dele. Naquela noite, a narradora misturou a sua face, “de rosto oval, grande bigode castanho, olhos maliciosos e ternos a um só tempo, cabelo ondeado e sedoso, mãos finas, esguias e brancas.”, com a do menino de três anos atrás, arrumou-se diferente e esqueceu de sua fealdade. Ele chegou atrasado, reclamava de ser estudante de medicina. O almoço foi feliz com seu espírito. Ele contava de um sonho de ter um castelo, com muita arte, pessoas felizes e belas, rodeadas por fauna e flora se tivesse muito dinheiro para poder oferecer tudo isso e ser lembrado como um bom governante. Até transpirava de contentamento do trabalho cotidiano e do afastamento da cidade. O marido de D. Anninha dizia que queria sossego e paz, nada de música e de festas ou de danças, mesa farta, espingarda cheia e sossego. A mestra perguntou à narradora, Martha, o quê faria se fosse rica. Ela era modesta, falou pouco e Luiz a observava. Na volta, foram de braços dados e ele contava da sua vida e de suas aspirações. Ela ouvia atenta, e queria ser sua esposa. A mãe veria tudo e ficaria feliz.

Capítulo 8 Martha, a narradora, vive um amor inocente com as visitas de Luiz, com flores e poemas que traz. Ela até se ri no momento presente da escrita das memórias. Em uma das tardes, caiu uma chuva forte, D. Anninha ia séria encontrar abrigo, Luiz ia rindo, Martha estava apavorada pois ela sempre teve problemas em lidar com tempestades e ficava cega de medo. Encontraram abrigo com um negro velho lenheiro. Passados quinze minutos, outra mulher apareceu, do hotel, “nova, alta, bonita, rosto cor de leite e rosas, de uma frescura encantadora, emoldurado pelos anéis sedosos do cabelo loiro-cinzento”, Luiz ficou encantado. Dado um sossego, conseguiram sair para ir ao hotel, um estrondo de trovão fez Martha gritar e Luiz a segurou e ajudou-a até o hotel. Dormiu bem e se revigorou. No dia seguinte, ficou a impressão boa do carinho de Luiz por ela e de como a cuidou, e se apagou a memória da norte-americana. Luiz não foi almoçar, esperaram-no em vão, mas chegou uma carta de um criado que a mãe da mestra não ia bem e precisava da presença dela. Voltariam no dia seguinte e Martha continuava confiante que ele apareceria, pelo menos para se despedir na estação. Daí que ela o vê de novo, em um dia belo e bonito, com fauna e com flora romântica, braços na rapariga de ontem e conversando intimamente em um banco antes de ir à estação. Via-os de perfil e das poucas palavras que entendeu, ouvia ele perguntando a ela se o amava e ela respondia que sim. Teve raiva daquela beleza dela, “Passei indiferente pelos chuveiros de flores douradas, vaporosas, que pendiam dos galhos musgosos das árvores folhudas, e deixei-me cair quase desfalecida num combrosito gramado, à beira da estrada.”. D. Anninha ficou preocupada se tivesse ocorrido algo a ela antes de irem para a estação, ela chegou a perguntar o que significava a conversa, ela o traduziu, ficou por isso mesmo, conversa de ingleses. Via com o comboio os lugares belos de antes que passeou com Luiz. Voltou mais forte, tinha até engordado e ficado mais feliz antes com Luiz, mas evitava falar dele. A mãe a acolheu, quis saber de tudo e contou que Miranda tinha grande interesse na filha, lia as cartas com felicidade. A mãe estava mais magra e abatida. “No fim de uma semana recomeçaram as aulas.”.

Capítulo 9 A frustração amorosa lhe tirou todas as energias. “Tornei-me excessivamente nervosa; passava outra vez horas em silêncio; a mínima coisa me impacientava; tinha o gênio irregular e frenético.”. Uma noite, foi acordada pela mãe, gritava em sono e queria saber o motivo, ela respondeu rispidamente e a mãe se assustou. A filha não sabia como se remediar. O médico remediou banho de mar e distrações, a mãe redobrava os esforços e o trabalho, a filha dormia mal, mal se esforçava no trabalho e chegava descontado no ordenado. Em um passeio, a mãe foi sentar, arfando, a filha continuou um pouco. Ela viu uma área pobre, com lama, crianças e o sol se pondo. O trem passou e a criançada quis acenar aos passageiros, a narradora ficou naquela melancolia, sentindo saudade de algo. Foi aí que notou uma senhora perto dela, elegantíssima. Foi até umas crianças, repartindo dinheiro. Depois notou, quando voltava, que aquela dama elegante, bem vestida e imponente era Clara Sylvestre. Em um silêncio, viam-se, Martha até queria abraçá-la naquele mistério, mas não entendia bem. Conversaram, reconhecia a cara mas não lembrava do nome, mal falavam do básico, tinha ido dar dinheiro a uma moça que perdeu uma criança, passavam necessidade. Alguns meninos deram lugar ao carro, chamando Clara. Ela se despediu, pedindo que a esquecesse, não merecia sua amizade. Ria indo aos rapazes e Martha chorava. Contou para a mãe, contemplava o caso e ficou na memórias essas palavras de que não merecia a amizade, ela que era inveja de Martha, da doçura, do espírito, da beleza. Mas ela queria penetrar naquilo, parecia feliz, bonita, rica, como ela era triste? “Quem valia nada era eu, sempre ignorada por toda a gente, sempre feia, o que me torturava, sempre envergonhada dos meus vestidos mal-ajeitados, do meu calçado barato, do meu modo esquerdo e retraído!”, mas Clara sempre a olhava com doçura. Essa neurose de ser pobre e de ser feia durou muito tempo, não sumiu por todo, mas chegou uma ocasião que ficou mais calma. Estudava, dedicava o tempo para decidir ser professora. “Envelheci, emagreci, trabalhei sobreposse”, mas a alma vencia onde o corpo caía. Um dia, sua mestra contou do casamento de Luiz, que era com Leonor, sobrinha de Anninha, a imagem que vinha era dela, não de Luiz. Mas a mestra a fez focar no concurso de professora que saiu em “A Gazeta”. Colocava toda a raiva em estudar, até mesmo na filha do paralítico deixada de lado que alimentava sua inconformação. Foi tranquila, como jamais foi a uma prova, mas a mãe ficava ansiosa, era o momento de saber se deveria trabalhar mais um ano, com o corpo cada vez mais debilitado. “Com que orgulho eu penso na desvelada solicitude que tem, em geral, a mulher brasileira para o filho amado! Não o repudia nunca, trabalha ou morre por ele. Coração cheio de amor, perdoemos-lhe os erros da educação que lhe transmite e abençoemo-la pelo que ama e pelo que padece!”.

Capítulo 10 Miranda, solicitador, rábula, advogado sem diploma que exerce as mesmas funções, trouxe a notícia para a mãe de Martha que ela passou no concurso de professora. A mãe recebeu a filha alegre, no mesmo dia que Luiz casava. Ela só pensava nas promessas e na menina bela, trancou-se no quarto com pretexto de se organizar. A mãe trouxe a notícia que Miranda pediu sua mão em casamento, não respondeu. Ela disse que tinha se apaixonado pelas cartas, a filha mal o conhecia, só de vista, achou estranho mostrar as cartas. Mas ela estava soberba, ficava orgulhosa da filha, Miranda era bom cliente e bom trabalhador. Martha filha não queria casar, alcançou uma posição independente. A mãe só queria a ver casada, era velho mas bom homem. Só que as cartas escritas eram frutos da paixão por Luiz, não era a mesma agora, não amava o que ela era, mas o seu momento. Pensava em toda sua vida, aos 24 anos só trouxe a paixão de um velho e, sem casar, mal teria um bom destino, ficaria velha, ranzinza, amarga ao mundo. Elas se desentenderam, mas decidiu-se com o casamento. “Só muitas horas depois pude ter calma para refletir. E refleti que o meu casamento seria uma vingança para os ultrajes que a minha imaginação de moça recebera sempre.”

Capítulo 11 O noivo era bem singular e nada de especial. “Era um homem de estatura mediana, gordo, calvo, com muitos fios brancos a luzirem-lhe na barba preta; de feições miúdas, dentes pequeninos; e peito robusto.”. A filha reagia com pouca ou quase nenhuma emoção. A mãe se empolgava tanto com a situação que lembrava de uma frase ou outra de uma carta e até trouxe a memória do pai de Martha filha. Miranda pediu envergonhado que parasse, a filha o olhou, triste. Ele sorriu a ela. Quando ele se foi, pontuou à mãe os erros de português. A mãe citou exemplos de situações que as mulheres se nivelavam ou diferenciavam da inteligência do marido, e que, no final das contas, devia fingir ou se igualar ao homem. Ela pouco se empolgava, dizia o que queria para mãe e ela fazia, enquanto se isolava e chorava. A cadeira era no Engenho Novo, na estação, foi agarrada pelo braço pela ilhoa, atropelou de perguntas e dizia da vida. Carolina casou-se, mesmo com a perna, explorava ela no trabalho e vivia batendo nela. Tinha dois filhos e morava no cortiço de Gamboa. Rita casou com um barbeiro. O marido saiu nas notícias mesmo que elas não tenham lido, passou uma carroça e deixou sem pernas. Tomaram caminhos diferentes, Martha filha admirava a ilhoa, estava mais velha, mas era resistente. “Dias depois tomei posse da minha cadeira de professora.”, Miranda e a mãe queriam uma data para o casamento. Adiava, ficava indecisa, finalmente decidiu dia e hora. Enquanto passava pelos papéis que guardava, caiu um papel com poemas de Luiz. Leu, relia, começou a recitar e até a mãe pediu que lesse. Perguntou de quem era, a filha respondeu de um primo da mestra. Ficou vendo a noite de estrelas, ventava e a mãe até avisou da folha sair voando. Ela não se importava tanto. “Foi assim passada a minha última noite de solteira!”

Capítulo 12

Casou-se com poucas pessoas presentes, Sr. Jeronymo e sua mestra e sua mãe. D. Anninha desejou felicidade e sabe que seria feliz. A primeira semana foi sem preocupações, a mãe estava feliz com tudo. Finalmente poderia retribuir os anos de luta da mãe, de resignação e de exploração com uma vida calma. Mas a luta da mãe contra a morte se perdeu, 8 dias de matrimônio foi quando teve uma síncope e só piorava, nem médico tinha solução. Martha filha gritava, ficava ao lado da mãe que enfraquecia sem se levantar. Um dia, a mãe olhou a filha, deu-lhe um beijo e pediu que saísse. Obedeceu. Aflita, andava pela sala e voltou, viu-a estirada e estava morta. Teve um ataque, debatia-se, gritava, estava sem chão. Ficou ali, aos pés dela.

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"O Cristo Cigano" FUVEST 2026 Resumo de Cada Capítulo Sophia de Mello Breyner Andresen

“O Cristo Cigano” de Sophia de Mello Breyner Andresen – Resumo e explicação de cada poema

Cristo Cigano História em versos dividida em 12 partes, baseada na história original espanhola do Cigano Cachorro, contada por João Cabral de Melo Neto a Sophia Melo, que também era devotamente católica. 1 poema separado e outros 11 numerados. Não fica claro se é um longo poema dividido em 12 partes ou um livro de poemas. O certo é que ela renegou o livro, achando-o, ao longo do tempo, muito distoante de sua obra.

A palavra faca

O poema abre como uma referência a João Cabral de Melo Neto, autor de “Morte vida severina”. São versos livres, há uma preocupação no uso das palavras de forma precisa, como a faca, que terá um significado de estrutura do poema, da apresentação da narrativa, de ligação a João Cabral de Melo Neto, do ofício do escultor e do fim do Cristo Cigano.

  1. O escultor e a tarde

Há uma descrição do escultor, organizado em dois quartetos, um quinteto e um terceto. A história começa na primavera, época de vida, tema comum da obra de Sophia de Melo. Trabalha-se também com referência ao Barroco nesse poema, já que dualidades se chocarão, como antíteses e paradoxos e oposições. O destino lhe esperava, nesse meio de vida.

  1. O destino

Os homens de preto podem ser uma referência às batinas de padre, pedindo o trabalho. Assim como usa “Seu”, em letra maiúscula, para se referir a Jesus Cristo.

  1. Busca Mas o escultor não conseguia ver a morte para esculpir o rosto de Cristo expirando, perto de morrer. Existiam duas possibilidades, ou ele achava alguém perto da morte, ou teria que matar alguém. Segundo o Novo Testamento, Cristo morreu de ter sido esfaqueado, então era também outra coisa que poderia ter levado à obsessão do escultor pela faca que não só o instrumento do ofício. Renegava a morte, só recriava da vida e a vida o cercava. Procurava, sem entender a morte. “E como te amarei Tanto que em meus dedos Tua imagem floresça E entre as minhas mãos O teu rosto apareça?”.
  2. O encontro

Ele finalmente encontra um cigano se banhando na margem do rio, nu. Na história, aparentemente existia um cigano chamado Cigano Cachorro, popular na região. Apesar dele não ter nome aqui, ele é o mesmo da história e é descrito de forma sensual.

  1. O amor O escultor se apaixona pela visão. Abandonou a crença de que esculpia a vida e teria ele esculpido. Sabia que seria seu fim, que entraria em conflito com suas crenças e sua obra máxima.
  2. A solidão Aqui se dá ele procurando pelo cigano
  3. Trevas Agora ele procura uma face oculta, envolto em trevas de um mundo que a ele antes era claro, entrando em dualidades.
  4. Canção de matar Ele usa a faca para fazer o paralelo do amor ao objeto da obra, de como sua morte dará vida ao seu rosto que esculpirá em madeira, tal qual na história original de uma estátua de quase dois metros talhada em madeira. Ele assim se libertaria da obsessão com a faca, trazendo morte.
  5. Morte do cigano Com 3 versos, anuncia a morte de como foi rápido o processo. Curioso notar o uso de sons sibilantes, como uma faca que corta o ar. Assim como o uso de sons plosivos, como se fosse o choque, um encontro de corpos, um golpe.
  6. Aparição O cigano vai morrendo, e aquele intermédio entre vida e morte vai se pintando ao rosto, para que o escultor possa ver. Uma das possíveis histórias originais é que o escultor viu o Cigano Cachorro falecendo e depois reconheceram o seu rosto na escultura final, mas a outra teoria é que ele realmente o matou e depois viram a semelhança do rosto e deduziram que ele matou o cigano.
  7. Final Nada da vida foi seu modelo, a lenda acabou assim. Não é um poema da vida, mas da morte, da complexidade e da dualidade de estar vivo.
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"Olhos d'Água" Conceição Evaristo Resumo de Cada Capítulo

“Olhos d’Água” de Conceição Evaristo – Resumo de Cada Conto

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"Opúsculo Humanitário" FUVEST 2026 Nísia Floresta Resumo de Cada Capítulo

“Opúsculo Humanitário” de Nísia Floresta – Resumo de Cada Capítulo

Seu nome e pseudônimo são uma homenagem total. Sua cidade natal leva seu nome. Viveu até os 74 anos, morreu de pneumonia.

Coleção de 62 artigos publicados de forma esporádica, em uma coletânea sobre a educação no século XIX para as mulheres. Ela mesmo foi proprietária de uma escola, Augusto, em homenagem ao pensador Augusto Comte, pai do positivismo e companhia de Nísia. Recebeu críticas duras no âmbito pedagógico e pessoal.

A educação era exclusiva aos homens, sem contar a popular frase “O melhor livro é a almofada e o bastidor”, que retrata a mentalidade da época de mulher ser um objeto a ser admirado e ocioso.

Conceitos importantes: Educação é religião; As falas são contraditórias; O feminismo atual não é o mesmo de hoje

Nísia faz uma dedicatória ao irmão.

Capítulo 1 Nísia clama pelo país, atrasado e liberal, da educação das mulheres. Ela destaca como a educação da mulher foi fator definitivo do desenvolvimento. Na Ásia, mesmo os povos babilônicos com dinheiro e sabedoria, viviam na ignorância. O que faltava era Deus.

Capítulo 2 Agora ela fala do Egito, que mesmo com os faraós, toda a sabedoria e toda a riqueza, não cultivavam a sabedoria pela mulher. “A beleza física, entre esses povos, era o único mérito real da mulher”. E ainda que tivesse beleza, era competida. Nenhum dos grandes compreendeu o mal do embrutecimento do sexo. Armavam-se contra impérios e outros reis e eram fraco de pensamento esclarecido. Sempre quis a mulher inculta para cumprir seu papel humilhante.

Capítulo 3

Agora na Grécia, contava de Licurgo, “foi o primeiro que melhor soube harmonizar os interesses da pátria com as vantagens da civilização.”. Teve tantos filósofos marcantes e se destacou ao mundo, a vida adoçou pois as mulheres participavam da sociedade, não de objeto de prazer, mas trabalho de espírito. Mas havia algo que impedia o avanço contínuo e seu estabelecimento – o paganismo, não acreditar em Deus foi a ruína deles e de tantos outros grandes povos.

Capítulo 4 Os romanos tinham mulheres exemplares, mas que não as viam como iguais. Eram heróicas, mas queriam subjulgá-las para controlar. As que se destacavam, faltavam educação, e nem os gloriosos romanos conseguiram se manter por quererem controlar as mulheres. Se houvesse educação, não haveriam Messalinas, Tulias e Agripinas.

Capítulo 5 “É uma verdade incontestável que a educação da mulher muita influência teve sempre sobre a moralidade dos povos, e que o lugar, que ela ocupa entre eles é o barômetro que indica os progressos de sua civilização.” Os bárbaros do Norte e os selvagens das Américas e da Oceania exemplificam seu ponto, deixaria de lado os europeus para falar de outros povos. Pois, mesmo com o Renascimento e avanços tecnológicos, nada mudou da educação da mulher. Lamentou o sangue derramado pelas terras, ainda mais dos reis e nobres que ficaram nos castelos, repetindo em ecos que era o papel divino. Os gregos desapareceram, haviam novos filósofos, mas a terra no Oriente se tingia de sangue e imperadores pioravam os direitos aos povos. Apenas as cristãs conseguiam ter um alívio no coração de uma vida, coisa que, para a autora era verdade. Assim ficava a educação feminina, estacionada, com povos se perdendo no anticristo, na riqueza e no sangue derramado. Ler capítulo 5

Capítulo 6 Agora o foco é nas três grandes nações da Europa Moderna e os Estados Unidos. Começa-se pela Alemanha, exemplo de país de direitos às mulheres. Baseiam a felicidade doméstica na moral esclarecida das mulheres. Aponta como os homens do Sul mantêm a ignorância da educação tão comum dos homens do Norte.

Capítulo 7

Ela explica a vantagem da mulher germânica sobre as mulheres antigas e modernas. O espírito de família e o respeito à velhice são intrínsecos, e isso o que ela concorda, devem ser melhores mães, esposas, pensadoras mais profundas como os grandes exemplos de pensadores da Alemanha.

Capítulo 8 Agora o foco é na Grã-Bretanha, povo que engrandece nas letras e nas ciências e na educação feminina. Seja pela rainha ou pelos escritores, a nação colheu muitos frutos dessa educação cultivada. Desde cedo vê as vantagens do sexo que são, ainda mais na nova vida de casada e as virtudes da vida doméstica. Assim que na França e Inglaterra se dá essa diferença da donzela e da esposa, tal qual do galanteio tão diferente reagido aos países, pois as inglesas já sabem da sinceridade e da independências nos primeiros anos.

Capítulo 9 As inglesas se destacam pela instrução do espírito, ainda que as romanas e as gregas se destaquem pela educação moral e dos costumes. A educação dos ingleses é moral, e assim deve ser a da mulher, baseada na religião. Dá exemplos de escritoras que pontuam bem essa relação da religião como base da educação e o progresso inglês, como Jane Austin, Maria Edgeworth, Inchbald e Hannah More.

Capítulo 10 Agora aponta Voltaire, sarcástico com as mulheres, e Montesquieu, desviado da visão justa das mulheres. Traçam linhas que tratam a mulher como objeto de prazer, são poucos que viam a necessidade de libertarem as mulheres de seu estado de escravo e aplicar a educação na vida delas.

Capítulo 11 Agora o foco é na França. Povo hospitaleiro ao estrangeiro, o desenvolvimento veio com o compartilhamento da inteligência com a mulher. Se retirasse esse direito, a nação cai. A francesa reina mais forte pelo espírito do que qualquer outra comandante de outro reino. Não foi só pelos exemplos do direito da educação que a França se distingue, o amor maternal se destaca. Sendo assim, a mulher moderna

Capítulo 12 Assim como a Inglaterra, a França tem mulheres produtoras de todas as classes. Traz duas que destacam a necessidade da educação moral como base, Staël e George Sand, escrevendo e produzindo e provando que a mulher será o modelo da família e digna. Se falta essa dignidade e energia, é que faltou essa educação.

Capítulo 13

Agora destaca-se a beneficiência da mulher francesa. Ela aponta como são tão benéficas, educadas na religião, que vão até para lugares que nem sua língua falam ou os homens não as respeitem. Pensou até quando isso seria possível, tamanha dedicação para a Pátria e ser menosprezada. Ainda mesmo há quem aponte, inclusive na França, que a instrução seria mais prejudicial que benéfica, sendo que se bem instruída na moral, não há exceção que minta a regra. Mesmo que esses três países se destaquem no que diz da educação da mulher, ainda há muito o que se progredir.

Capítulo 14 Agora fala-se dos Estados Unidos da América, país jovem, com gozo intermediário das vantagens da educação da metrópole com a falta da aristocracia europeia. Destacam-se pelo cunho da verdade e do útil. Semelhantes aos franceses, são polidos, mas menos ociosos para ocuparem-se com galanteios. Ainda com o amor pelas ciências com tantas escolas, aplicam apenas ao que é útil e podem tirar resultados ao país.

Capítulo 15 É notório como a mulher na América é tão companheira e participativa da vida conjugal. Pela busca da verdade, depositam esforços nas ciências, investem-se em comércios e crescem perante os outros países europeus.

Capítulo 16 O livro de Mrs Stowe destaca-se pelos preceitos que a autora defende, educação religiosa e moral, a quem a autora compara com o Evangelho moderno que todos deveriam consumir, “Cabana do Pai Tomás”. Para a autora, ficava a esperança de que as gerações lessem as obras, ou ao menos decorassem as páginas para ter essa educação americana.

Capítulo 17 Volta-se o foco ao Brasil. Mesmo com esse regresso da história da Europa, Ásia, os pensadores, os países e os exemplos, o Brasil continua sem mover os obstáculos da educação da mulher. “Deus depôs no coração da Brasileira o germe de todas as virtudes”. Deve-se abrir a possibilidade de educar e desabrochar as infinitas felicidades de uma sociedade livre e civilizada.

Capítulo 18 Há uma lamentação em tocar no assunto da vaidade e de vontades pessoais de se fazer história. Deve ser um trabalho de séculos, mas espera-se que os homens da nação comecem a agir para que percebam que a verdadeira felicidade da nação está em educar a mulher. Cabe, ao presente, contentar-se nesse cenário de exploração de mata virgem, mas que, no futuro, os frutos virão de um país justo a elas que inspiram.

Capítulo 19 Mais de um moralista já estabeleceu e ao longo da obra se destaca a máxima de que a “educação da mulher muita influência tem sobre a moralidade dos povos, e que é ela o característico mais saliente de sua civilização.”. Analisa-se o Brasil durante seus 3 séculos, e as primeiras mulheres brasileiras, mas não as indígenas, que será feito outra hora. Não será analisado com os brasileiros, que pouco escreveram, mas com os viajantes estrangeiros.

Capítulo 20 Lamenta-se a herança de Portugal de desprezar o sexo feminino, ocupavam com missionários e guerras e deixavam a mulher para a serventia da casa, que levavam nenhum trunfo da guerra. Procurando glória onde menos havia, pouco se fez da educação da mulher, ainda assim, saíram alguns gênios dessa terra.

Capítulo 21 O exemplo de Públia Hortênsia de Castro mostra que a mulher na educação é na sociedade é mais impedida pelos preconceitos do que sua capacidade. E pegando os grandes homens de Portugal, era possível ver o exemplo da nação em relação ao posicionamento da educação da mulher.

Capítulo 22 Portugal perdeu sua glória, subiu como uma nação nobre e caiu no poder. Inclusive teve que colocar o Brasil no manto da escuridão da escravidão, desviando ela da Europa. A autora é fortemente contra a escravidão. Diz que a metrópole trouxe tudo de pior ao novo solo do Brasil. Ainda que tenha tido escritores exemplares, a situação foi ruim. Mas nem só de escritores se faz uma nação. Inclusive, elogia Nóbrega e Anchieta, “esses verdadeiros apóstolos do Cristianismo.”.

Capítulo 23

A sede de ouro e a ambição de terra e poder foi o que atraiu muitos ao Brasil, desejos piores do que o caráter dos selvagens. Os selvagens são mencionados como os aborígenes da Oceania ou os nativos dos Estados Unidos. Até D. Pedro denunciou como vinham corruptos e avarentos, ainda que magistrados ou agentes fiscais para o Brasil em 1822. “De tais homens não podia provir vantagem alguma para o progresso das ideias, e por conseguinte da educação da mulher.”. Ficou para fazer trabalho têxtil e de comida, e ainda que existissem virtudes, ficavam escondidas como diamantes brutos nas famílias patriarcais do Brasil.

Capítulo 24 O Brasil vivia no ego superinflado de Portugal, orgulhoso de um passado glorioso que não possui mais e enriquecendo pessoas de outro país e sofrendo todos os males. Nem mesmo haviam escolas, a ciência era negada, precisavam ir até Portugal para serem educados. Se era intencional, pouco importa, pois isso só resultava no mesmo fim de que a mulher nenhuma educação poderia ter. Infelizmente, o que faziam eram ficar em casa, salvo exceções que tinham educação, recebiam migalhas, e se ocupavam de tecer.

Capítulo 25 “As escolas de ensino primário tinham antes o aspecto de casas penitenciárias do que de casas de educação. O método da palmatória e da vara era geralmente adotado como o melhor incentivo para o desenvolvimento da inteligência!”. Ainda que algumas instituições isentassem as meninas da palmada, ficava a audiência e até xingamentos e tapas na cara, coisas que não competiam para criar a modéstia para as mulheres. Isso quando exerciam o magistério e não entendiam dele. Ficava ao cargo de jesuítas torturadores e mestres charlatães o ensino, que só sabiam soletrar alguns clássicos. E os pais, por terem tido a mesma educação, assim a consideravam normal, e seria preciso educar os pais para ter uma boa educação aos filhos. Ler o capítulo.

Capítulo 26 “Quanto mais ignorante é um povo, tanto mais fácil é a um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder.”. Ainda assim, quanto maior é o poder ao soberano menos seguro ele é. “A força não pode nunca persuadir, mas sim fazer hipócritas.”. A mulher deve ter a possibilidade de elevar sua moral e uma boa educação. Todos que tentaram apenas focar na parte física da beleza, não entenderam o ponto do espírito da mulher. Ainda que nenhum homem prefira ter uma mulher que se alegre com futilidades do que uma que se honra com as virtudes da sociedade.

Capítulo 27 Referenciando e relativizando Platão, a mulher é uma alma servindo-se de um corpo. A autora acha inaceitável a mulher se dar ao ócio, aos sentidos do corpo do que elevar o intelecto da razão e sua aproximação com Deus. Dessa forma os falsos adoradores e amorais se aproveitam de controlar mulheres que não desenvolvem o intelecto para terem escravas. Ainda se usa da fraqueza física como justificativa de inferiorizar a mulher, sendo que o que destaca o homem é o intelecto, e nisso a mulher também pode ser igual ou melhor. O que se torna paradoxal, uma vez que o corpo menos robusto deveria evidenciar a necessidade de se ocupar com as faculdades intelectuais. Ainda mais, quem elogia a mulher pela fraqueza, cai em uma falácia maior de ter que admirar ela pela fraqueza.

Capítulo 28 Há uma lamentação para quem acha que a mulher veio para ser alvo de prazer e nada mais terá da vida se não uma vida sem luz. Ainda se pensa na utilidade e no tempo que se despendeu de Aristóteles e todos os filósofos de criarem a filosofia e a razão para tão pouco usarem. Há uma clareza que nem todos os homens possam ser instruídos igualmente, o mesmo se espera das mulheres, mas que pelo menos seja instruídas, e que seja bem feito. Volta-se a fazer um regresso histórico de importância para a análise da situação.

Capítulo 29 Diante de uma explosão vulcânica, portugueses procuraram refúgio no Brasil, que estava de braços abertos. Criaram-se tribunais, escolas, academias, os portos fechados para estrangeiros se abriu e a colônia teve melhoramentos com a vida da família Real, agora com o nome de Reino. A educação feminina continuava como na condição da colônia, com ineptos pedagogos, padres charlatões ou as mães da família, aprendiam tudo menos o que poderia torná-la mais digna. Ainda que pudessem ter a vantagem de estudar em tantos lugares da Europa, as mulheres nem podiam aprender a ler. Existia o dizer de que ensinar a ler e a escrever seria a porta de entrada para escreverem cartas de amor, até mesmo os pais que queriam ensinar eram censurados. Lamentável a situação que continua, sem elevar as mulheres, porque se faz-se essa crítica aos do passado, incluem-se os do presente, pois ainda pensam assim, apenas viciando o espírito em sua simplicidade primitiva.

Capítulo 30 Há um paradoxo, pois se há o apontamento da falta de instrução ser essencial pois prejudica a mulher, como as mulheres brasileiras não eram celebradas como as mais virtuosas? “Mas todos sabem, a não serem os povos selvagens, que é um paradoxo, e paradoxo ridículo, avançar-se que a ignorância é o melhor estado para o desenvolvimento das virtudes morais.”. Mesmo que se ouça o brado de abandonar vícios, outros continuam. São um povo que celebram os antepassados, apontam as virtudes que prolongam, mas cometem o erro de não aprenderem dos passados e abandonarem os vícios. “Do número desses erros é o que nos inspirou este escrito.”.

Capítulo 31 Analisam-se as escolas régias, o início da instrução com profissionais duvidosos. Deixava-se por elas dizerem que sabiam ensinar, e a elas deixavam o ensino do sexo. Ganharam essa fama e os pais não conseguem bancar escolas particulares, ficam assim frustrados. Admira-se o desleixo dos profissionais, passando ou não por ensino que os capacitavam a ensinar e pareciam nada capacitados. Dará espaço a análise dos frutos.

Capítulo 32 Analisa-se a emoção da independência do Brasil, que, mesmo com o amor da mulher de D. Pedro I, pouco podia fazer pela educação. Pouco se podia fazer quando tantos brasileiros queriam fazer um ato ingrato. Lamenta-se a falta de avanço na educação, sauda-se José Bonifácio de Andrada.

Capítulo 33 Desde 1831 o Brasil tem governo nacional, tal qual será o alvo das críticas da situação, ou falta da, educação feminina, ainda que exista o consenso geral que a educação não está bem regulada e organizada, ela se mantém a mesma. Esse bárbaro sistema, sem frutos, e que não só tolera o sistema que deixa na mão de falsos educadores e diretores a punição física, mas implora e exige a educação moral que deveria ser dada em casa, não com um estranho como punição travestida de educação. Quem tenha poder, ainda confessa que tem obediência dos subalternos, mas dos filhos não conseguem nada – o problema é mais moral do que de trabalho. Parece, como a metáfora da autora, “ao sadio e vigoroso dono de um terreno fértil, mas inculto pela preguiça de seus braços, que vai pedir ao seu vizinho, a quem falecem iguais vantagens, o alimento necessário para a vida.”. E nenhuma casa se quer é preparada para poder cuidar, seja pelo desafio grande ou de forma educacional preparativa, já que se ocupam de falar mal um do outro e de colocar picuinha em alunos. Essa confiança do brasileiro no estrangeiro e a falta de cuidar do seu que toleram esses erros a mais do que tolerariam se fossem brasileiros. Ler o capítulo.

Capítulo 34 Comenta-se sobre as leis da educação no Brasil. Levam-se mais as casas de educação como uma estimativa e atividade financeira, local que frustrados e melindrosos comerciantes recorrem ao falharem nos projetos. Comparam-se os europeus de que não vêem motivo de sair do país para educar, e lamenta tal qual António Feliciano Castilho lamenta como um país pode perder seus gênios e criadores de tais por falta de recursos. O que atrai, no final das contas um europeu para o Brasil que não existe nos Estados Unidos, é o amor à natureza e o interesse financeiro material, em nada atrai a população que falta de princípios europeus.

Capítulo 35 Faz-se uma caricatura que qualquer um no Brasil que saiba ler e escrever se denomina apto a ser diretor de colégio. Pior é a inércia do governo e do povo de não exigirem uma reforma da educação e os auto-proclamados diretores que tentam decidir como melhorar a educação da mocidade que sofre com eles. Há uma intertextualidade da autora de que ela espera virar a folha do jornal, uma vez que esses capítulos eram publicados regularmente em um jornal por ela, que veria a notícia da educação da mulher, nada encontrariam e esperariam pelo melhor no dia seguinte. Apesar das lamentações, fará-se uma análise do que realmente foi feito pelo governo em relação a esse assunto.

Capítulo 36 “Pelo Quadro demonstrativo do estado da instrução primária e secundária das províncias do Império e do município da Corte, no ano de 1852, vê-se que a estatística dos alunos, que frequentaram todas as aulas públicas, monta a 55.500, número tão limitado para a nossa população; e que neste número apenas 8.443 alunas se compreendem!”, a desproporção mostra o desrespeito e o atraso. “Na província de Minas, onde a instrução se acha mais geralmente difundida, entre 209 escolas de primeiras letras, só 24 pertencem ao sexo feminino!”, sem contar a citação infeliz de um dos presidentes da província que a mulher deve ser ensinada a ser criada de si e do marido, tal qual relação com a província e os escravos, confundindo o espírito brasileiro e o povo mineiro. “Na ilustrada Bahia, de 184 escolas primárias, 26, somente, são de meninas. Menos egoísta para com o sexo a sua rival na glória, o heroico Pernambuco, fiel a suas tradições, lhe sobressai em equidade, pois que de 82 escolas, 16 pertencem ao sexo feminino. A província do Rio de Janeiro, com 116 escolas, dá ao sexo 36. No município da Corte, a sede do governo imperial, onde devia-se mais facilitar a instrução do povo, acham-se apenas criadas nove aulas de meninas!”. Há estados que nenhum número se quer chegou. Soma-se o baixo número, o método educacional e a decadência moral e a situação fica pavorosa.

Capítulo 37 Gonçalves Dias é citado com sua revolta contra o sistema educacional, desde o uso de material ao método e os lugares. Fica-se repetindo do avanço, ainda que a educação não melhore, abrem-se bailes e teatros que só mostram sexo e aplaudem como se aquilo fosse arte. Ela idealiza o passado, que deveria ser respeitado e igualado ou ser melhor que tal. Pouco se vê realmente de progresso da nação, menos ainda da educação.

Capítulo 38 Como celebrar o progresso do Brasil se o próprio governo aponta o problema na educação? Há um comparativo de um historiador francês, Ferdinand Dinis, de que as mulheres do Brasil e os costumes de lá remotam como se fossem atividades do século XVI, sem nada a Europa influenciar mudanças. Reflete-se sobre esse falso progresso, denúncia da condição da mulher e da situação da educação brasileira defasada e má armada. Ainda houvessem outros tempos que os meninos se aventurassem para ter o mínimo de educação, mas os pais não arriscam as filhas com uma parcela de perigo do que havia antes, ainda que preocupações justas. Considera-se a mudança de atitude para os que tiveram contato com europeus, ou a Europa, ou até que tivessem fortuna.

Capítulo 39 Passado os governantes e as instituições, agora serão analisados os pais de família. Infelizmente, apesar de serem uma âncora que impeça o naufrágio dos barcos da mocidade, ainda se enganam com aparências. Sempre se levam a colocar as meninas em colégios que possuam muitas delas, sem relevar o que levam elas ali, seja condição financeira, mérito ou promessas. Até cita-se de uma educadora que impôs um limite do número de alunas para melhorar a qualidade, coisa que surpreendeu em um sistema que visa lucro. Não há como ultrapassar a educação da mãe, dado que o tempo que se investe é relacionado ao resultado da educação final.

Capítulo 40 Há uma divergência dos objetivos das instituições públicas ou privadas de ensino, mas o que elas possuem em comum é ensinar e criar o sentimento de ciúmes e inveja entre seus membros. Há até uma citação de um diretor que conta da emulação ser um sentimento nobre, contrário da inveja. Essa emulação, esse sentimento de se igualar ao outro, só pode ser bem feito quando o trabalho em casa é exemplar na criação das meninas. Mesmo que duas meninas tenham a mesma instrução escolar e o sentimento de emulação, se a mãe não a educa não se terão duas meninas iguais. Ou seja, os pais precisam visar colégios que as diretoras sejam reconhecidas pelo zelo e dedicação ao ensino, já que as meninas poderão gozar das horas de estudos reguladas e a falta de tanto contato com os escravos. Tocará-se em outro assunto da decadência dos bons costumes da mocidade.

Capítulo 41 Um estranho hábito que se fez comum no Brasil foi o de terceirizar a amamentação. Não só o problema vem da falta de cumprir com a obrigação do papel da mãe, mas de deixar para as escravas mais esse serviço após todas as condições que já vive. Já de cedo, com leite impuro, como diz a autora, a criança logo aprende que a alimentação e ser servido são naturais como chamar os pais, e que assim sempre será feito, servido. Já aprendem cedo os maus costumes ensinados aos pais, salvo a situação que escapam de não saberem ainda o que fazem. Assim como cita Fénélon, as crianças já aprendem comandos antes mesmo de falarem, são influenciados logo cedo. Citando Agostinho, as crianças aprendem por repetição e por mostragem o nome dos objetos. Todavia, as mães preferem se afastar do choro e do aborrecimento da atividade e dar aos negros, impregnando as crianças com os pensamentos sem moral. É necessário que as brasileiras tomem seu ofício de amamentarem e serem exemplos.

Capítulo 42 Os afazeres de casa são rodeados de escravos, ensinados pelo chicote. As meninas logo se acostumam a ver esse espetáculo humilhante e tratar até a própria ama como objeto de ser útil ou não a ser vendido ou jogado fora. Se quer conseguem repelir essa ingratidão e a raíz anticristã rega um lar sem valores cristãos, que, mais uma vez, para a autora é sinônimo de educação. O que era para ser um embrião de inteligência se torna um ser violento, que vai lhe envenenando pouco a pouco o seu estado natural. Outra preocupação é a falta de respeito ou de limitar os assuntos abordados na frente de crianças, discutem e falam palavras que deixaria até pessoas mais velhas coradas, iniciando-as em um caminho tenebroso que falta idade e valor cristão a ser cultivado.

Capítulo 43 Condenam-se os pais, cheios de vício e má conduta, cita-se Dr. Rendu e sua análise problemática do Brasil, povo sempre seminu, vivendo na escravidão e em comum lugar e tempo, difícil algo mudar no país enquanto continuasse a escravidão. Dói, como aponta a autora, ouvir críticas de estrangeiros, não só porque ferem o orgulho nacional, mas que são verdade. Clama-se imitar os bons costumes, sem copiar tudo.

Capítulo 44 A autora diz que é útil imitar os aspectos positivos dos outros países, como os ingleses no respeito da religião e da lei, os alemães no hábito do pensamento e o empenho de melhorar, os franceses na sua civilização e inovação, e de todos citados pelo empenho no trabalho e procura de avançar. Lamenta-se o Brasil como país que nada se assemelha a esses, da estagnação de querer melhorar e de como até as partes mais pobres dos Estados Unidos gozam de uma educação melhor do que o Brasil inteiro. Não é nem na erudição o problema, já que se pode aprender essa educação em outras gerações, mas a educação moral e religiosa que se perde nas famílias é o grande problema. Relaciona Voltaire que aprendeu música aos 84 anos, pois o importante é o ensino religioso desde a infância para não corroer o ser. Mora no lar o exemplo das meninas, do desleixo, da ira, até mesmo de ensinarem maus costumes e péssimos hábitos. “Uma mãe é então o quadro mais eloquente, para lhes servir de norma em sua conduta futura, o modelo que devem primeiro copiar; se esse modelo não é perfeito, como poderá a menina apresentar uma cópia perfeita?”.

Capítulo 45 É possível notar alguns núcleos familiares privilegiados que estão isento deste contato da podridão e da corrupção da educação. Ainda no meio corrupto, são exemplos de humanidade, de filhas que respeitam, aceitam e toleram os pais e seus crimes, e das esposas, de doar-se em espírito, alma, corpo e desejo ao lar, e das mães, direcionando e tomando as dores das crias. As mulheres vencem, mas não são felizes, a vida é uma constante luta. Congratulam-se os pais que seguem o caminho direito, que, apesar da sociedade decadente, são exemplos para as mulheres do lar. Comparam-se as meninas francesas, inglesas e alemãs das brasileiras, aquelas, respirando a inocência, livres, estas, presas em espartilhos e maquiadas como mulheres adultas. Crianças moldadas em uma moda absurda que impede a liberdade da infância.

Capítulo 46 Conta-se de um episódio aterrorizante de um colégio com oitenta alunas. “Uma menina de 6 anos frequentava como externa aquele colégio.”, ela era simpática e doce, mas assustou a diretora que, ao vê-la respirando com dificuldade, tirou o espartilho que a sufocava e apertava os órgãos. Lamenta-se que os médicos levam nenhum crédito e nada avisam as mães, vaidosas em querer ver as filhas assim. Não deu outra, a filha procurando validação da mãe, vestiu de novo na manhã seguinte, caiu nos braços da diretora e morreu. A mãe só pode ver o fruto do desejo de ver a filha bela em vez de criança e livre. A diretora, tantas vezes advertindo as mães do perigo, tomou o exemplo para alcanças as mães e as alunas, tanto pela proteção da mocidade quanto o choque do ocorrido. Repetiram-se os valores cristãos, da liberdade para as meninas, valorizarem o espírito acima do corpo, as filhas foram noticiar as mães de forma preocupante, as mães se convaleceram, mas logo esqueceram do ocorrido. “Algum tempo depois os espartilhos, tirados às que haviam testemunhado essa pungentíssima cena, voltaram de novo a comprimi-las. A imagem da morte havia desaparecido e a moda reconquistava todos os seus loucos e funestos excessos!”. Ler capítulo.

Capítulo 47 “As lições e os esforços de uma ou outra pessoa, desta ou daquela outra família nada podem contra a generalidade dos princípios e hábitos seguidos por uma nação inteira.”. Mesmo com pais que criem corretamente e com a moral e a religião em dia, os filhos se sentirão estrangeiros da pátria. A natureza do governo é um cheque social. A liberdade na educação é mal entendida, as meninas vão por superficialidades, línguas sem saberem a história, conhecimentos básicos de geografia e do mundo sem relação e de modo decorado, bordado bruto para elogios, dança para ser visto no salão, música e canto sem conhecer nada da origem. Em vez de dar bom exemplo, reprimir ações negativas e apoiar as positivas, deixa-se para ensinar tudo depois e se desculpa e se negligencia com a máxima de que é uma criança. Nada poderá se esperar da nação brasileira de progresso se a educação, no geral, seja pública, privada e domiciliar, não ter uma grande reforma. É inútil diretores quererem mudar filhos viciados e pais esperarem milagres de uma mudança de atitude de negligência domiciliar. Existe potencial, mas fica nisso.

Capítulo 48 Repete-se o assunto da importância da participação da mãe na educação, para que colha frutos da educação escolar melhor. Delas é a importância de ocupar com ocupações úteis e também pequenas distrações inocentes. É ensinar desde cedo o valor do trabalho, de como se engrandece com propósitos de produções materiais e intelectuais. Devem bastar a si mesmas, procurar o intelecto a ser desenvolvido fora ou dentro de casa, mas com exemplos de tal em casa.

Capítulo 49

Reflete-se no mau exemplo das agressões físicas e verbais que as crianças vivenciam frente aos escravos, não só que testemunham mas são incitados pelos pais a fazerem também. Defende-se que os escravos tenham coração nobre, que pode faltar a educação religiosa para engrandecerem, mas pior ainda são os senhores que acreditam comprar um animal em vez de verem um ser humano. Mas ainda assim, com todo esse histórico, jamais se perdoa desobediência, de negros sem educação propriamente aplicada, restando o silêncio e a revolta de Deus. Afastai esse costume bárbaro, diz a autora, para que todos possam gozar de um mundo cristão.

Capítulo 50 Denuncia-se o costume do tédio, tão acostumado pelas escravas em volta, reforçado pelos exemplos dos pais. Isso é possível ver na mudança da nobreza que tirou o ensino de saber de títulos para afazeres úteis e produtivos ao corpo e à mente ao exemplo da Revolução Francesa que a nobreza teve que servir à burguesia por nada saber fazer. Vêem-se no Brasil todas as classes ociosas, banhadas em dinheiro proveniente de trabalho, não de preguiça. Certamente que o ócio desperta a inteligência como cita Helvécio, mas a preguiça e a languidez eram outras e em outro lugar, não se adequando a teoria que funciona na Europa e não funciona no Brasil.

Capítulo 51 A educação física é tão mal entendida quanto à moral. Ficam em colos de escravas, estudando em casa, mal saem de casa a vida inteira, salvo algumas poucas exceções e só aos domingos, para ir à missa. Desculpam-se em governar a casa, mas em completa desordem e sem saber como ordenar. “Neste aprendizado e nesta indolência decorre a vida da menina, a quem se repete de contínuo a velha arriscada máxima “reprime todos os impulsos da natureza, e embelece-te para seres mulher”: isto é, habitua-te desde a infância à hipocrisia e procura reinar pela matéria embora o teu reinado seja de pouca duração.”. Ela cita um exemplo, Selena, do pai que narra ter ensinado em certo grau a ter força, educação e ocupar-se utilmente. Via as consequências de outros pais e países, que deixavam as meninas se ocupar de inutilidades, até mesmo da música de forma superficial, resultavam em meninas que atraíam maridos que a viam pelo físico e torravam o dinheiro do casamento. Cita Domingos José Alves de Magalhães, da nação viciada em preguiça, vaidade e avareza, fechando as portas das Ciências ao mundo.

Capítulo 52 Agora se volta a atenção para as classes pobres, sem tempo de poderem ascender social, intelectual e economicamente. Assim se compara com as mulheres europeias dos países da França, Alemanha e Inglaterra, que criam filhos e ainda auxiliam no trabalho dos maridos, colhendo frutos de crianças que apreciam e respeitam o trabalho, diferente das brasileiras que não se vêem ou são tratadas como independentes, mas que são do marido, vivem para e por ele e sem ele são nada. Dá-se nisso que o casamento a torna inútil, no sentido da produção e individualidade. Deve-se dedicar-se ao trabalho, forma de engrandecimento e de colher o respeito do marido, em vez de se deitar sobre a falsa promessa da eternidade de um matrimônio.

Capítulo 53 Analisa-se os pobres da França, que, com o trabalho e a ascensão, mantém a dignidade até mesmo na vestimenta, contrário dos brasileiros que se esbaldam em luxúria, cedendo ao crime e à ociosidade. Cita dois pensamentos de como a preguiça, a falta de contato com Deus, deixa a população viciada e inerte.

Capítulo 54 Diz-se que a análise seria feita não só da província, mas de todo o Brasil. “Todos os brasileiros, qualquer que tenha sido o lugar de seu nascimento, têm iguais direitos à fruição dos bens distribuídos pelo seu governo, assim como à consideração e ao interesse de seus concidadãos.”. São duas classes distintas que existem no Brasil, rica, que esgota a terra comprando metais com dinheiro da família, e pobre que sobra apenas as ciências e as artes para terem um pouco de nome e de respeito. Clama-se pelo amor ao trabalho e a união do povo.

Capítulo 55 Traz o assunto da falta de exemplos por parte do clero para a mocidade se inspirar. A religião enriquece a alma, muito mais importante do que qualquer riqueza material. Assim, a mulher também precisa ser instruída na religião, dado que, sem ela, nenhuma civilização pode se chamar de avançada. Mas falta instrução, bons exemplos do clero, até modos de como instruir eficientemente. Relaciona também uma moça bem instruída que Luís Filipe se admirou pelo fato dela ter tanta instrução e ter que aprender catecismo ao chegar na França.

Capítulo 56 Traz-se um relato de um padre da França que veio ministrar um dos primeiros cursos de catecismo em uma das capitais no Brasil doze anos atrás. Só que, iludidas no pensamento de levar as meninas para a educação, logo perceberam que o padre era o resumo da mocidade, alguém que vai para a Igreja como um centro de flertes e de festas. São necessários bons exemplos no púlpito.

Capítulo 57 Faz-se um apanhado geral do perfil corrompido do brasileiro, que apesar de ser modesto, dócil e generoso, é corrompido pela escravidão, preguiça e falta de religião. Até mesmo que diz o Conde de Castelnau que aqui existe clero, mas não padres. Por fim, tecerá-se um assunto em torno dos caboclos, os indígenas que possuem pele cobreada.

Capítulo 58 Enquanto a autora faz uso de um de seus poemas, “Lágrimas de um Caeté”, ela lamenta o indígena, fadado à soberba e violência do branco. Lamenta-se como não há mais como Padre Anchieta que procuram catequizar e educar o indígena, sobravam poucos dos tantos que viviam por ali. Por fim, lamenta como a morte do povo foi feita para agradar um povo que nem era o brasileiro, e pior ainda, sem benefício nenhum a ninguém.

Capítulo 59 Deseja-se focar na mulher indígena. Elas se assemelhavam às mulheres com valores cristãos, fiéis ao lar e fora, acompanhavam o marido no trabalho e na casa, ocupada com afazeres e forte. Foi a primeira a sofrer as vantagens da civilização trazida pelos europeus, tratadas como escravas, como objetos. Falavam de Cristo e agiam com hipocrisia. Porém, mesmo em meio da natureza, considerados selvagens, agiam de tal forma que era heróica e inspirava até os mais educados cristãos, já que eles eram espontâneos e não educados na fé cristã. Elogia a ética e a moral da conduta indígena, citando Paraguassu, esposa de Diogo Álvares Correa, o Caramuru. Também há a referência de Poti e de Moema, figuras da literatura e da história. Lamenta-se, mesmo que tenham algumas vitórias e honra, vão sumindo e talvez desaparecerão por completo.

Capítulo 60 Trata-se agora da fidelidade, característica inata da esposa indígena. Denuncia o esteriótipo dos indígenas serem preguiçosos e contra os valores cristãos, sendo que eles sempre se mantêm ocupados pelos exemplos que já tiveram contato. Poderiam ser de ótima ajuda para a sociedade, mas toda a atrocidade de serem escravizados, substituídos pelos negros e tomarem esteriótipos que não cabem a eles só afastam essas pessoas que também querem ver o país crescendo. Enquanto o governo não tomar medidas de educar esse povo, qualquer coisa é apenas faixada.

Capítulo 61 Resume-se que o brasileiro procura no estrangeiro as soluções, sendo que o próprio brasileiro tem meios e gente para resolver. Cita alguns trechos da obra “Viagem às Margens de Mucuri” e de como é infrutífero e cruel o modo que tentam controlar os indígenas e como respondem, além de como o matam e o violentam e suas reações. Reforçam até que eram resilientes na tortura e no tratamento desumano, começaram a serem agressivos e a responderem quando as mulheres e as crianças foram alvos de tortura. Lamenta-se toda a situação e de que a mulher indígena merece lugar melhor na sociedade, todo o tratamento é anti-nacional e anti-cristão. Espera-se que no futuro isso mude. Fará-se mais um apanhado geral das mulheres no geral.

Capítulo 62 Faz-se um pensamento da exclusão da mulher como princípio importante das sociedades, mesmo que ela seja o grande objetivo e motivo de atitudes e de ações de governos e homens ao longo da história de diversas sociedades. Pede aos pais que eduquem as filhas, saibam da religião, não sejam bonecas para exposição, saibam seu povo, sua utilidade, a história do país, que removam esses preconceitos da fragilidade do sexo e clamem pelos seus direitos e seu lugar de respeito no Brasil, tal qual os homens e o povo do Brasil reconheçam. Se temos uma terra fértil, bela e princípios elevados fáceis de serem adotados, o Brasil tem o fim certo de ser uma elevada nação.

Partes divididas: Do capítulo 1 ao capítulo 5 – Antiguidade
Do capítulo 6 ao capítulo 17 – Modernidade
Do capítulo 18 ao capítulo 24 – A herança de Portugal no Brasil
Do capítulo 25 ao capítulo 38 – O sistema e a legislação da educação no Brasil
Do capítulo 39 ao capítulo 51 – A moralidade e a hipocrisia das famílias brasileiras
Do capítulo 52 ao capítulo 54 – Os ricos e os pobres no Brasil
Do capítulo 55 ao capítulo 57 – O clero no Brasil
Do capítulo 58 ao capítulo 61 – A mulher indígena no Brasil
Capítulo 62 – Resumo geral

“Emancipação e educação feminina em ‘Opúsculo Humanitário’ de Nísia Floresta” por Francisco Aedson de Souza Oliveira e Jéssica Luana Fernandes – https://periodicos.ufersa.edu.br/kuab/article/view/12599/11601 ”As representações do feminino através das obras ‘Opúsculo Humanitário’ e ‘Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens’, de Nísia Floresta” por Milena Bruno Ferreira – https://repositorio.ufms.br/jspui/bitstream/123456789/5777/1/A ESCRITA DE AUTORIA FEMININA.pdf#page=33 ”Nísia Floresta e a recepção de romancistas estrangeiras em ‘Opúsculo Humanitário’” por Larissa Karoline Campos Oliveira – https://historiaeliteratura.fflch.usp.br/sites/historiaeliteratura.fflch.usp.br/files/inline-files/IISEMINÁRIO HISTÓRIA %26 LITERATURA _0.pdf#page=44

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"Morangos Mofados" Caio Fernando Abreu Resumo de Cada Capítulo UNICAMP 2025 UNICAMP 2026

“Morangos Mofados” de Caio Fernando Abreu – Resumo de Cada Conto

Livro de contos dividido em duas partes “O mofo” e “Os morangos”

O livro celebra John Lennon, Elis Regina, Henrique do Valle, Rômulo Coutinho de Azevedo e todos seus amigos mortos. Além de ser a Caetano Veloso, Maria Clara Jorge (Cacaia), Sonia Maria Barbosa (Sonia de Oxum Apará) e todos seus amigos vivos.

Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo. Clarice Lispector, A hora da estrela

Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão por que uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados. Osman Lins, Guerra sem testemunhas

Parte 1 – O Mofo

Conto 1 – Diálogo

O conto é para Luiz Arthur Nunes. O conto é uma conversa entre A e B. A clama que B é companheiro dele. B achava estranho e que havia algo por trás, apesar de A dizer que não. Mas sentia algo por trás do que dizia, não era o que falava, mas algo a mais. A achava que B não queria ser seu companheiro, B não falava que era isso, entretanto A queria que ele fosse seu companheiro. Só que não era assim, era um jeito diferente e o conto vai ad infinitum.

Conto 2 – Os sobreviventes

É sugerido ler ao som de Angela Roro e para Jane Araújo, a Magra.

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"As Meninas" FUVEST 2026 Lygia Fagundes Telles Resumo de Cada Capítulo

“As Meninas” de Lygia Fagundes Telles – Resumo de Cada Capítulo

Romance, ano de publicação 1973. “Para Paulo Emílio”.

Obra publicada durante o período da Ditadura Militar, supostamente o livro passou pela censura porque a obra deve ter sido vista pelo censor como algo bobo ou sem profundidade, ainda que tenha narrações explícitas dos crimes e das torturas cometidas na época.

A obra possui 12 capítulos e 4 narradores diferentes, as três protagonistas e um narrador em terceira pessoa. A narração de Lorena é marcada por conectar os temas das ideias que possui, uma atrás da outra, sem concluir ou retomar qualquer ideia, como se fugisse de um pensamento. Também tem as expressões “morrer de pena”, “se matar”, “já pensou?”, “p da vida” e “ai meu Pai”. Chama Lia de Lião ou pelo nome completo, Lia de Melo Schultz, e Ana Clara de Ana Turva ou Aninha. A narração de Lia é a mais organizada de todas, tenta sempre se distanciar dos desejos individuais e pensa em outros e no coletivo. Tem as expressões “não sei explicar”, “extraordinário”, “verboten”, “putz”. Chama as meninas pelo próprio nome que possuem ou até a Lorena de Lena e a Ana Clara de Ana ou Ana Turva. A narração de Ana Clara é a mais caótica, ela retoma ideias, mistura o que pensa, não termina frases. Ela varia entre estar sóbria e lembrar da infância traumática da mãe droga e dos amantes abusivos e estar drogada misturando as ideias, memórias, ilusões e metáforas. Também tem as expressões “Ah”, “Dureza”, “Pomba”, e é a que mais usa palavrões como “Desgraçado”, “Puta”. Chama Lorena de nhem-nhem.

Conceitos importantes: Alienação; Amadurecimento; Identidade. Recursos linguísticos importantes: Anáfora x Função Fática; Paragrafação e construção de orações; Estrangeirismos e referências

Capítulo 1

O narrador acordou, sentou na cama e deitou pois era cedo para banhar-se. Ficava pensando em coisa melhor do que tomar água de côco e fazer xixi no mar como dizia o tio da Lião, que era pensar o M. N., Marcus Nemesius, um ginecologista, diria quando caísse o último véu. Lembrava de Lião, Lia de Melo Schultz, e como escrevia, pensou na frase de que a cidade cheirava pêssego, pois era época. Dedicou a Guevara, era sobre uma reflexão da vida e a morte em latim. Ainda pensa na língua, de Guevara gostar e ela não, até quando pensava na morte em tempo livre, achava que a língua combinava. Combinava os pensamentos com M. N. e o cheiro de pêssego na cidade. Foi do pensamento do rosto peludo de M. N. paralisado de um lado, para a palavra “infinitamente” e de volta a pensar em pele de cobra que tocou. Pensava nos detalhes que Deus fazia e os pormenores do gozo com M. N., foi para Ana Clara que contava do delírio do namorado quando tirava os cílios postiços. “Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo.”. Pensava até que a boca era mais excitante, mexendo-se desde fala até morder um pêssego, que queria escrever um livro entitulado “O Homem do Pêssego”. Um homem cheio de dureza e marcas de tal se deliciava ao passar a mão no pêssego maduro e essa cena tinha deixado a narradora maravilhada. Ele brincava de morder e não finalmente se deliciar com o pêssego e a narradora ficava na ponta do pé, engasgou com o leite que tomava quando ele finalmente se lambuzou com o suco do pêssego. Lorena Vaz Leme, o nome da narradora, não tinha vergonha. Queria ser santa, mas o Anjo Sedutor e ela toda não davam. Pensou em acender incenso, purificar-se, mas tinha sono tal qual o gato, Astronauta. Procurou por ele. Pensava como ele era preguiçoso mas astuto, bom e demônio. M. N. não o conhecia. Queria oferecer sangue a Jesus, mas podia oferecer apenas música, tinha horror a sangue e curtia Jimi Hendrix, mesmo que morreu de overdose. Levantou da cama, dançou um pouco e foi ao toca-discos. Procurava o disco de Jimi Hendrix. De pijama branco com flores amarelas e uma corrente de coração de ouro no pescoço, perguntou agora onde estava Rômulo. Deixou o disco ser tocado de leve.

Parte 2

Uma voz vinha do jardim chamando Lorena, Lorena Vaz Leme. Enquanto dançava quase a cair, Lia de Melo Schultz, Lião, a chamava que queria falar com ela. Lorena comentava da primavera, sem dar bola a Lia. Ela tentava segurar a meia acima da perna, mas o elástico já tinha se ido. Lorena até comentou ser melhor sandália, mas Lia precisava andar o dia todo. Lorena pensava na cafonice, pior mesmo era joanete, que devia ter vindo de uma Joana com pés deformados e deu origem aos joanetos. Lorena ofereceu suas meias, Lia rejeitou por serem suíças, queria francesas. Pensou que nem ia dar, era doideira usar meia para engrossar perna, mas ela ficava magra. Lorena terminou dizendo que estava apaixonada e se mataria se M. N. não a telefonasse.

Parte 3

A narradora muda para Lia, pensava na falta que Miguel fazia para ajudá-la. Lorena dizia de ouvir Jimi Hendrix e comer biscoito, mas Lia preferia sua música e seus biscoitos, detestava o colonialismo cultural de Lorena, a achava fresca. Lia continua a pedir pelo carro emprestado pela manhã. Tentava segurar as pontas como Miguel dizia, preferia ficar presa, como ele, mas aguentava Lorena e o jeito que mudava de foco, desde os biscoitos a acenar para Madre Alix com uma careta ao fim. Lorena perguntou se Lia tinha uma metralhadora na sacola, a faculdade continuava de greve. Irmã Bula brincava com o gato, atenta às duas meninas, Lorena imitava uma metralhadora. Perguntava como não sequestrariam M. N., desviando da pergunta do carro de Lia. Ela acendia um cigarro e preferia sofrer do que ver outros sofrerem, em especial Miguel preso. Tinha raiva, queria morrer, chorar. O povo estava longe, a burguesia fazia tudo sem medo. Intelectual era pior que tira, o crime acontecia. Tinha vontade de chorar, faltava lenço e até pediu a Lorena, que focava de novo em outra coisa do que o carro. Maurício, não estava ali, mas era torturado com um bastão elétrico. Miguel tinha dito que morreria se adiantasse algo, mas preocupavam-se mais com a cor de graxa de sapato a usar.

Parte 4

Lia pediu a caixa de lenço verde das ofertadas por Lorena. Lorena dá o lenço verde de Istambul, tão precioso, mas que tentou se conformar que era lenço para Lião que estava já impaciente. Percebeu a depressão existencial. Pensou se era Miguel preso ainda, pensou em todos os outros presos e a possibilidade dela também ser presa. Tinha medo mesmo do pensionato e quando via padre e freira por perto. Lião devolveria no dia seguinte, Lorena até disse para ficar e pegar outro e jogou o rosa. Pensou no lenço que não abriu que se conectou com o coração dela que não abria e borbulhava o sangue, tal qual o episódio com a espingarda com Remo que era tudo brincadeira e a mãe viu. Não quis mais pensar naquilo e queria sentir o sol. Lorena reclamou de como não ficava bronzeada para Lião e ela perguntou do velho, que era como chamava M. N., amado de Lorena. Ficava irritada de como o chamava de velho. Falava de comer caviar e Lorena notava como Lião mudou. Perguntou se foi para pior. Pensava em secreções, empadas com café e em tomar vinho com M. N. e comer lagosta, chamava de lagostim. Até chegou ao pensamento das crianças do Nordeste que passam fome e como precisava carregar esse povo nas costas. Pensou que Deus podia ter seus motivos. Lião dizia que devolvia amanhã o lenço, Lorena sabia que não, era mesquinha, sabia que não podia emprestar coisas pessoais. Irmã Bula chamava por Lia pela janela. Lião tem medo e Ana Clara posa de indiferente. Ela chega e pega vários lenços para se limpar depois do sexo, sem cerimônia e poesia. Pensava em como ela agia diferente, até de se masturbar, Lião achava tudo estranho e se impressionava com o tanto de mulheres que faziam nada, herança de Idade Média. Duas abelhas foram perto e Lorena afastou, pensando que M. N. podia aprender que para afastar bastava ser assim brando. Viu a abelha esfregando as patas e associou à memória de Lião estudando sobre masturbação. Teve a primeira experiência em uma aula de piano, enquanto tocava o banco a estimulava, tocou sem errar e a mãe a elogiou. A segunda vez foi em banho de banheira, o jato quente passou pelo corpo e passava o pensamento de Felipe e sua moto.

Parte 5

A narração muda para outra pessoa além de Lorena e Lia, a gata cheirava a sacola de couro de Lia, desconfiada. Lembrava de Lorena que conversava com Mieux para ter certeza de tudo. Falavam do banheiro a ser reformado, Mieux era motorista e tinha um caso com a copeira, era galanteador. Ele já imaginava como seria o quarto, enquanto contava para a mãe de Lorena, toda afobada. Como ele ia por trás e não o viam, Mieux passou a mão na bunda de Lorena.

Parte 6

A narração volta para Lorena, ouviu Lião chegar e aceitou a oferta de chá. Ela estava eufórica de uma chamada. A narração de Lorena é marcada pela interjeição “Ai meu Pai”, tinha dó de Lião, estourou de falta, sem dinheiro na metade do mês, namorante preso. Ela faz movimentos para desenvolver o busto, ela se acha a mais bonita e se mantinha como a modelo das três, mexeu na água e preparava o chá. Lião perguntou de baixar o volume da vitrola e já diminuiu tudo. Lorena vai para muitos pensamentos inacabados, tratando do prazer das pequenas coisas até a pensar de novo em M. N., ofereceu frutas, ficou lamentando-se de M. N. não ligar e iria se matar. Lião roía o biscoito, Lorena não entendia como ela, com bunda de baiana, vestisse roupas que não a dessem vantagem. Lorena pensava em qualquer outra coisa, especialmente sobre o corpo, do que os pedidos de Lião para pedir o carro, coisa que ela sempre era salva por Lorena – dinheiro. Zombou ainda das pernas, Lia tentava manter o foco de como e quando pedir o carro. Lorena até pensou no mundo infestado de máquinas, ainda mais em Era de Aquário. Lia poemas, falou de Tagore. Discutiam do amor que acabou, Lia dizia como tudo estava na Bíblia, achava nada novo os poemas. Lorena se encantava com os romances clássicos e Lia mal tem paciência para isso. Ela para a água de ferver do chá, como seu pai ensinou, deu o cinzeiro para Lia depositar a maçã e começou a brincadeira tão comum de entrevistar uma a outra. Fingiu que segurava um microfone e pediu a “sua opinião sobre alguns problemas importantes da nossa comunidade”. Descobre-se que Lia faz Ciências Sociais, trancou a matrícula e rodou de tanta falta. Ela escrevia um romance, mas rasgou tudo, Lia se surpreende, ainda mais que ela gostava tanto. Ofereceu uvas e Lia recusa. Fala da novidade de uma poetisa do Amazonas que ficaria no quarto de Lia, pensou que poderia ser índia, deu o chá para Lia que o mexia e a encarava, além de pedir mais açúcar. Começou a discussão de onde ela devia ficar, Lia apontou o quarto de Lorena que tinha até banheiro, comentou do hábito de índio tomar banho, falaram de deixar no quarto de Ana Clara, mas todo o uso de drogas que ela faz, ainda não mencionado, afetaria a naturalidade da índia, além de que ela logo sairia, pois estava combinada de casar com o industrial, que na verdade era traficante. A todo momento Ana Turva, apelido de Ana Clara, estava dopada, além de dever dinheiro a ponto de ir gente bater na porta do pensionato. Lia mal sabia do fato dele ser traficante, Lorena comentava até das picadas de agulha. Lorena sonhava nesse milagre do casamento e até emprestaria dinheiro, que ela dizia ao contrário para não afastar, superstição, e que precisava casar virgem. Lia ria que ela devia acreditar num milagre de verdade, não em casamento com gente rica, crença de cristão que ela achava graça. Lorena dá mais chá e ouve a voz de drogado do Jimi Hendrix, fica pensando, “voz turbilhonada de quem pede socorro mas não quer ser socorrido”. Comentam que ela estava melhor ontem e Madre Alix a ajudaria com uma análise. Lia achava loucura.

Parte 7

A narração volta para Lia. Ela recebe a xícara e contempla a riqueza dos objetos no quarto, pergunta da grana da família. Lorena fica séria, comenta como a agência de publicidade de Mieux deu em nada e gastaram muito com a loja de decoração e ainda gasta. Lorena já entendeu a conversa de que ela queria dinheiro e perguntou se precisava. Lia queria chá, via a amiga fazendo exercícios e afirmou que talvez precisasse para fazer umas operações na Ana Clara. Lorena teve pena, Lia achava isso revoltante, um sentimento de superioridade isso de morrer de pena de todo mundo. Viu a coleção de sinos de Lorena e perguntou como ia, o irmão de Lorena, Remo, ia trazer alguns da Tunísia. Ela sonhava com esse mundo que o irmão viajava e Lia lembrava da amiga alienada que pediu para ir a uma reunião da universidade. Assistiam filmes de vietcongue com sangue, os comentários eram poucos e cortados por olhares julgadores, são muitos filmes, bebiam uísque e comiam patê, além de debaterem o que poderiam ver depois. Uns pedem carona ao final, riem, mas são vigilantes e bem informados os intelectuais. Sabem quem foi preso e torturado, acham superior, sabem do estupro, tem gente que dá detalhe, há quem peça uma suavização do tom, para curtirem o encontro e não falarem daquilo. Contam também de quem sumiu e nunca mais voltou. Supostamente, mesmo que esse livro tenha sido publicado durante a Ditadura Militar, ele passou pois o censor achou a leitura chata e tabelou a obra como uma história longa sobre meninas. Lorena mostrava os sinos e falava da nacionalidade. Lia pensava no livro rasgado, podia aproveitar o que tinha escrito em outra coisa, como em um diário, “estilo simples, direto”, mas ninguém gostava do que escrevia, ponderava se as pessoas possuíam bom gosto ou sabiam o que era bom. Lia lembrou mais uma vez do carro, Lorena ameaçou se matar se ouvisse mais uma vez. Mencionou como devia pegar um sino para saber por onde ela andava e que todos deveriam fazer isso, como as cabras. Lorena queria dar um orixá para Lia, presente que foi da mãe. Dizia da separação dos dois, de como lamentam quando ficam sem notícia, do pai que resistia. Lorena falava do amado telefonar e se Lia iria jantar. Lorena nem ouviu e Lia só deu um afago na cabeça e foi embora. Aumentou o som da vitrola. Via a amiga indo embora e observava como ela parecia ter esquecido algo. Lorena disse para ficar tranquila com a história do carro, ela mesma tinha ganhado um e nem foi buscar o cheque, deixava uma chave para Lia pois não gostava de conduzir. Lia está distante, Lorena tenta fazer caretas, fazia muito melhor do que Remo e Rômulo. Pediu para estacionar na esquina e combinaram qual caixinha ficaria a chave. Lorena respeitava esse turbilhão de demônios de Lia e perguntava nada. Lorena perguntou de novo quem tinha o hímen complacente e Lia riu como a muito tempo Lorena não tinha visto. Lorena pensava em resolver os problemas, até da virgindade. Lia lembrou de pedir de volta o dinheiro de Ana Clara, mas Lorena pediu para chamar ao contrário, de “oriehnid”. As duas levantam o punho fechado, com a saudação antifascista. Ela foi andando embora, Lorena pergunta se ela tinha uma banana. Supôs que ela ia embora feliz, marchando como soldado em dia de desfile. Ler página 25

Sugestão de leitura extra – “Por que a Ditadura Militar não censurou ‘As Meninas’?” por Thais Morgado dos Santos e Rosa Maria Valente Fernandes – https://periodicos.unisantos.br/leopoldianum/article/view/689/562

Capítulo 2

Alguém chama pela Coelha, Ana Clara, Ana Clara Conceição, chamado pela Lorena de Ana Turva, se esforça para abrir os olhos, já que tinha uma orla negra vinda de um soco. Tentou disfarçar que tinha sono com um beijo e uma mordida em quem a chamava, Max. Ele estava preocupada que Ana Clara estava gelada, ela dizia que era que não estava brilhante. Ela dizia que o amava, mas ele não entendia como se ela não gostava de fazer sexo. Ana Clara dizia que estava travada, comentou que veria um analista, ele disse para comentar de como se contraía que nem ostra, coisa que ela odeia, e ele teve vontade de comer ostra com vinho branco. Max procurou por um baseado e entregou a Ana Clara, falando de como aquilo engrena, mas Ana Clara pensava em como nada engrenava e como sua cabeça era sua maior inimiga, só deixava ela triste, só o porre deixava ela em paz. Ana Clara disse que não poderia demorar muito, Max vai para a cozinha e a narração se mistura em terceira pessoa com a de Ana Clara pensando em como todos só queriam fazer amor com ela e a usavam como objeto. Ela mesma sabia que era bonita, tinha um metro e setenta, “uma beleza de modelo”, mas ela sentia nada, estava travada, na falta de uma palavra melhor. Ela mal sentia tesão pelo Max que amava, imagine com o anão que estava para casar, que a chamava de Escamoso. Dava a desculpa que era virgem, por isso era fria. Ele ria, como os outros, Ana Clara ia da mesa para a cama e vice-versa, queria era só dormir, sem ninguém a chamando para “fazer um amorzinho”. Queria que sua cabeça virasse uma abóbora, tal qual das histórias da mãe. Sempre ficava na falta de dinheiro, até porque também nunca cobrava dos outros o dinheiro que emprestava. Ela tenta lembrar do nome do dentista com a ajuda de Max, mas ela bloqueou e só lembrava pelo apelido, Doutor Algodãozinho. Olha para o copo, lembra do papo de Lorena sobre neve, mas mal existia neve por ali e ela achava lindo, achava ela uma enjoada. Comia o gelo e falava do dentista que trocava o algodão do buraco dos dentes por muito tempo sem fazer nada. Max disse que ela tinha bons dentes, julgou que ele trabalhava bem, mas ele negligenciava o trabalho, o algodão escondia o buraco abrindo para fazer uma ponte, tanto na mãe quanto na filha. Ele cantava e ela se esforçava para dormir para ir embora logo. Pensava nesse estereótipo de canção e em avós, tal qual na possibilidade de Madre Alix poder ter sido sua avó. Ela pergunta a Max se freira podia ser avó, mas ele estava ocupado escolhendo discos. Ela o achava lindo, inicialmente pelos dentes perfeitos, mas em janeiro ela se casava com vida nova, dava a desculpa que era sua vez de ser rica, a dele já foi. Ele faz uma analogia com uma hóstia do disco que escolheu e Ana Clara dizia que tinha ódio de Deus, mas ela tinha mesma era da música, tal qual mania da Lorena, “uns negros berrando o dia inteiro um berreiro desgraçado”. Tinha ódio de negro, ainda que o dentista fosse branco de olho azul, ele era sacana. Doutor Hachibe, aparentemente o terapeuta dela, contou que as pessoas expulsam os nomes para se protegerem, mas o apelido ficava. Adiantava nada, ela lembrava dos barulhos do dentista e adiantou nada bloquear o nome. Lembrava dela ser cliente assídua como uma outra negra. Lembrava da cera que ia sendo colocada no buraco e da única paz que teve quando seu nervo foi tapado e não fisgava mais. Lembrava dos cheiros, da cera com creolina queimando o dente, o cheiro de mijo, não de pipi que nem Lorena falava, o de cerveja choca da boca do Doutor Algodãozinho. Cheiro é um elemento muito importante na construção de mundo em literatura infantil, Ana Clara é visivelmente abalada com cheiros e pode ser que nunca se distanciou ou superou a infância. O cheiro de cerveja vinha pois ele tomava depois do jantar, horário dos clientes miseráveis. Queria machucá-lo, xingava-o. Max interrompia que queria ser abraçado pois tinha frio. Doutor Algodãozinho falou que os quatro dentes da frente estavam perdidos, Ana Clara chorava desconsolada e ele dizia que faria uma ponte e deixaria perfeito tal qual a mãe e como faria com Teo, que era desdentado. Sentia o frio da correntinha que beliscava a pele, não era chique ou de ouro, era escura e tinha mancha de sangue. A mão fria ia vindo, a boca quente repetindo a ponte, ela fechou a boca mas o nariz estava aberto, tendo as memórias, lembrava do cheiro de cimento da construção que só fazia barulho e deixava irritado Teo na casa, das flores da floricultura que trabalhou, e especialmente do suor, vômito, mijo e do Doutor Algodãozinho. A narração vai se misturando na confusão da ponta e de Doutor Algodãozinho apalpando ela, com tanta força que estourou um botão da blusa e logo ele foi depois para baixo, Ana Clara queria o botão de volta mas ela se confundia com a luz e fechava os olhos. A ponte ia levar ela para longe de tudo, dos homens baratas da construção, para um novo emprego, longe da mãe, ia fazer um curso noturno de manicure e um homem se apaixonaria por ela e se casaria. As unhas do dedo de barata do Doutor arrebentavam a calça e ia a cutucando, lembrava de tantas baratas na construção e como elas fugiam dos ataques. Lembrou-se e confundiu-se com o ataque do Doutor Algodãozinho em sua mãe, Ana Clara pegou uma barata e jogou na sopa para misturar, o amante da mãe ia quebrando móvel da casa e sua mãe só porque a janta não estava pronta. Os pensamentos se confundem entre ela chorando e gritando enquanto era apalpada, com a sopa ficando pronta depois do banho de barata, pensou que poderia se safar porque a sopa ficou pronta e a moça negra ouvia lá fora, o Doutor Algodãozinho tinha medo dela. Foi lá falar com ela que não tinha como atender, deu até uns remédios para suprir a dor, e ela ia ouvindo tudo, os comprimidos balançando, ela guardando na bolsa, dizendo que entendia a dor e a situação, o portão fechando e o sapato de borracha fazendo barulho. Ana Clara chorava pedindo uísque e Max a abraçou, os dois se uniam e o copo até caiu. Ela queria dinheiro acima de tudo, que se dane fazer amor ou superstição. Ela respondeu que tinha depressão. Ficava revoltada com os diferentes terapeutas e na hipocrisia que adultos choravam por infância, morte e depois abusavam dos outros, ainda mais sexualmente com ela. O casamento seria vida nova, ela falava alto, seria livre pelo dinheiro, não por ser como Lia, uma terrorista subdesenvolvida, destrancaria a matrícula e seria uma intelectual burguesa. “Liberdade é segurança”. Discutia em mente com Lia e si mesma sobre a vida melhor que seria. Sem ônibus, sem contrariar, quis saber as horas mas Max delirava em um relógio que tinha. Ela tentou esmurrar ele, ganhou uma mordida no pescoço e ela ria sem poder pedir que não, já que o Escamoso veria e perguntaria o que era. Ficava enraivecida quando ele esfregava na cara a família que tinha. Ela não tinha uma, morreram todos em um vôo internacional na Escócia, achava chique morrer para um monstro escocês. Tentou lembrar de um nome, “Até o Amargo Fim”, Max queria era comprar uma ilha. Continua pensando na possibilidade de uma família e do ano novo. Ela e Max não se entendem porque cada um fica em uma loucura, até dizem um ao outro que são lindos e se amam mas não respondem outras perguntas. Ana Clara lembra de outro terapeuta e diz como é feliz ali. Chamou Max de lindo como David, ele teve ciúmes, ela explicou a estátua de Michelangelo que Lorena contou sobre. Ele falava de viajar, ela falava que ele não era mais rico, ela contou da coleção de sinos em resposta dos postais de Max e ele disse que seu piu-piu era maior que o de David. Ana Clara pensava na sua vez de ser rica, em como Lorena e Lena emprestavam dinheiro para suas enrascadas, ia casar e ser virgem de novo. De novo Max escolhe música do berreiro. Já passa ela por agressões demais, quer carinho. Pensou na agressão do corpo, de ser violada, humilhada, gastaria dinheiro com bobeiras. Pensa no dinheiro, na vida nova enquanto Max vai a beijando. Ia pedir dinheiro para a operação de virgindade. Pensava na Lena, na Lorena que já foi rica. Ela sentia frio, se cobriram e ele pediu que se casassem. Ela perguntava das horas de novo, Max a comparava com a governanta. Ela reclama dos nhem-nhem-nhem de Lia e as ideias comunitas de Lorena e precisa explicar de novo as amigas para Max – Lia era a magrela cabeçuda, Lorena era a gorda bossa retirante. Max achava ruim ver tristeza, queria ver mais gente contente, pedia que ficasse mas ela achava estar grávida. Ele ficou inocente e pediu para terem, seria bom até que fossem gêmeos e misturava francês com a Mademoiselle da governanta que lembrava. Ela se sentia lúcida e achava ruim, ainda mais achava ruim que foi ficar pobre. Perguntava da irmã e Max não queria falar dela. Tentava ameaçar com gelo, mas Max só delirava da Mademoiselle e do japonês que cronometrava o tempo de natação, ela queria saber da irmã de qualquer forma. Ele deu de falar da mãe, Ana Clara queria saber mas ele só delirava entre falar com alguém que não estava lá e chorar. Agora lembrava de ver a casa derrubada, mas ficava mais triste da Jaboticabeira que estava no chão entre os destroços das paredes de seus quartos que deu espaço a um edifício. Queria ser rica, queria a infância de Max, ganhou uma massagem enquanto Max contava de um chinesinho. Queria conversa com Max, não tinha, ano que vem era vida nova.

Capítulo 3

Parte 1

A Lorena volta a ser narradora e pensa nas torturas, pensava que não era forte, era delicada e logo soltava tudo. Pensava no Bank of Boston, na Marinha e também em Rômulo e Remo, assim como Rômulo que tomou um tiro sem querer no peito enquanto brincavam com uma arma sem saber que estava carregada. Pensava na morte de Rômulo que se conectava com a ideia das plantas dorme-maria. Lembrava do Astronauta, o gato, pensa em Carlos Drummond de Andrade e em como as pessoas são sentidas pela presença e ausência, como um testemunho das pessoas desaparecidas durante a Ditadura Militar. Lembrou da mãe que a deixou para ficar no quarto de choffer e foi morar com Mieux que cada vez mais tirava seu dinheiro. Pensava em como tudo era preto lá fora, mas se alienava no seu mundo rosa e dourado. Lia comentava que precisava-se de peito de ferro para aguentar a cidade. Gostava do dinheiro que vinha no envelope, era Deus que a visitava e dia de comprar discos. Bastava sua alienação e pensava nas pupilas que dilatavam como quando Lia pegava as notícias do mundo. Ficava com a pupila cheia como o Astronauta com medo ou Ana Clara de tão drogada. Pensava no equilíbrio de Madre Alix no pensionato que dava medo. Pensava em como Lião se enraivecia com a música de Hendrix, falava que nem tinha Wagner, mas tinha leite. Foi comer uma maçã e pegou os livros do curso de Direito para estudar. Como quem já mal tem paciência para começar, pensou saber tudo e estaria pronta para uma prova no dia seguinte se a greve acabasse. Via o livro que Lia tinha o hábito de ficar rabiscando e marcando e viu um trecho marcado que dizia de obedecer a Pátria como se obedece Deus, precisava-se dar de todo e amar não importa como. Achava estranho, pois jurava que Lia achava que o povo era a Pátria e que ela não acreditasse em Deus. Enquanto abria as torneiras da banheira, lembrava de Lia chegando com as malas e “O Capital” escondido em saco de pão mal escondido. Era filha de alemão, Herr Paul, Seu Pô, ex-nazista, comerciante tranquilo, com baiana, Dona Dionísia. Supostamente o pai era desligado e quando viu o que era nazismo, arrancou a farda e veio marchando para Salvador, coisa de cinema. Herdou do pai a resiliência e da mãe o corpo. Lembrou de conhecer Lia, oferecer para tomar um banho de banheira e como ela via tudo da Lorena. Ela até preparou o banho, mas ela cochilou na poltrona. Pensava em que música Ana Clara e Lia podiam ser, ela era uma balada medieval. Tentava mostrar e dar o que as meninas não tinham, como a música, até pensava agora em descobrir o cinema. Lião ainda transbordou da água e se sentiu mal, erro de cálculo de Lorena. Ela emprestava o que dava para as meninas, oriehnid para Ana Clara, carro para Lia. Lia gostou do banho. Lorena precisava se misturar com a massa, ainda que tivesse medo. Falava do corpo de Ana Clara, era magrérrima, tinha peitos pobres, era mais pálida, dizia que estava apenas constatando, até porque fazia de tudo pela Ana Clara, dava oriehnid, apertava a mão nos abortos, sabia que ia ter problemas com ela na vida, mas emprestava desde o primeiro dia que a viu e já pegou a emprestar tudo, preferia até isso do que a Ana Clara moribunda de agora. Era cheia de dívidas, mas alteza, agora nem saía do quarto. Pensava se envelheceriam, pensava nela quase surda e virgem, Lião gorda energética de aventuras, Ana Clara mentirosa toda maquiada mentindo a idade. Sabia do amor, ouviu tantas histórias que sabia até mesmo os efeitos das drogas. Lembrava da cena de Ana Clara abortando e Lorena presente, aumentava o volume da música para fugir desse pensamento. Lorena tomava sol mesmo que não ganhasse bronzeado e ficasse vermelha ali com seu almoço de maçã, triângulo de queijo, bolacha de água e sal e cenoura. Via uma conversa de formigas confusa, pensou que Ana Clara poderia ser uma raposa. Queria enganar mas era alienada, foi engravidar e nem para ser do noivo e lá ia ela dar oriehnid e apertar a mão na intimidade que achava ruim. Ajudava, amai o outro, ajudava Ana Turva que se chamou de Ana Preta nos raros momentos que teve de humor. Ela era amada, ovelha negra sempre é amada, como Madre Alix a adorava e deu o Agnus Dei a ela, de uma outra freira que virou santa que Ana Clara não sabia o nome. Lembrava do quarto de Ana, desorganizado totalmente, foi procurar do perfume que ela usou todo e culpou o gato. Mandou Sebastiana lavar a roupa embolada e ela ficou maravilhada com o quadro que tinha dela ali. Pensou ser modelo, Lorena explicou que quase, queria ser bonita assim para M. N. a procurar ali. Mas vai saber, tinham que combinar diferente, ficava na esperança.

Parte 2

Lorena foi avisada que uma carta chegou do estrangeiro, apesar de ela estar esperando um telefonema. Irmã Bula estava arrancando algumas plantas de forma violenta, ela falava do Papa, do vício aumentar no mundo e Lorena pensava em como ela era bruta na jardinagem e bordado, tal violência remetia com Rômulo e sua mãe que tentava tapar o buraco do tiro, estava pálido, era tudo brincadeira e ele empalidecia. Tentava fugir de novo dessa lembrança da morte, pensava nas letras do bordado mal feito do lenço da freira. Pensava no uso das letras, como morriam, viviam, e nas plantas que a irmã arrancava sem julgamento. Pensava na omissão de coisas subentendidas, mas ela queria a verdade, nada omisso, como queria de M. N., queria a verdade, mas ele “sugere reticências. Omissões.”. Ela ficava torrando no sol, pensando na vida, o que de forma curiosa é diferente dos pensamentos de Ana Clara, que não consegue separar a linha entre um pensamento concluído e outro, fazendo com que as ideias se misturem, e de Lia, que tenta focar seu pensamento para não lembrar da verdade de outros pensamentos que tenta não ficar pensando para sofrer menos. Lia pensava na omissão, em como M. N. disse que a mulher dele não devia saber. Não entendia a paixão dele por uma mulher obesa, vesga e com dentadura postiça. Pensou até que todas as esposas eram belas fadas antes. Gostava nem da esposa dele. A mãe dele contou que a tia já foi bonita, comportava-se como ainda fosse. A tia Luci mostrava todo o corpo cheio de cirurgias, pernas com varizes, operação no pé, os peitos que os médicos tentavam botar na cabeça dela que pareciam ter quinze anos, entretanto a voz não escondia a idade. Tinha até pensado que M. N. casou por interesse do dinheiro, mas viu que era amor mesmo, mas ele caiu no problema da burguesia de sua esposa que era a avareza, a soberba e a gula, como Lião percebia que a burguesia de país subdesenvolvido é gulosa. Tinha cinco filhos, Lorena não entendia como. Lembrou até de ter ido ler cartas e ver seu futuro, era um caso difícil, mas ela tinha vários homens que chegariam para ela, prometendo amor, mesmo que ela só quisesse seu rei proibido. Lia falava de pedir ajuda para Iemanjá, mas Lorena gostava de fadas. Mas era tudo proibido, queria casar, queria a papelada para dar segurança que Mieux não deu para sua mãe, mas Lia dizia que mais ninguém quer casar, fora padre, gay e prostituta. Conta também a origem do apelido de Mieux, que falava uma frase toda hora de na falta de alguém melhor, era a mãe de Lorena mesmo. Só que abreviava tudo que situação, até com vinho. Lorena achava estranho, considerava-o simples. Mas a tia arrematou que de simples tinha nada, era esperto, investigou a mãe da Lorena em tudo quanto é lugar para saber das posses, dinheiro, era um golpe. Não casaram nem foi por ter ficado sã, mas que apareceria a diferença de idade entre ela e Mieux. Tinham até planejado vestido de mãe e filha combinando, mas amaldiçoou essa mania de brasileira de viver falando de documento. Tinha pena da mãe, queria ser jovem, tinha até o desenho dos vestidos em um livro que a deu, guardava assim como guardava as cartas para M. N. com medo, mas queria, queria se desapegar da imaginação das consequências e sofrimentos. A Irmã Priscila finalmente deu a carta para Lorena, era do irmão. Ela perguntou se estava melhor, disse que sim, como tinha nada para fazer da greve da faculdade, ficava por ali, estava esperando um telefonema do amado para jantar. Adiava para ler a carta, mal lia para Lia pois tudo que vinha do exterior comentava sobre o Nordeste em paralelo. Achou ter ouvido o telefone.

Parte 3 Pensava no telefonema e naquela casarão silencioso. Até pensou no Fabrizio, andava como homem das cavernas com cara barbuda e cabelo espetado, podia até ser um cinema com hambúrguer e chope com ele. Pensou em um dia que se viram depois de uma chuva forte, ele tinha tomado banho e estava toda frágil com ele. Iam tomar um chá de 5 minutos que virou uma hora porque a chaleira não ligava, daí deu de acabar a energia, quando voltou, ficaram se encarando. A palavra amantes ressoou por ela naquela noite. Lorena chegou encharcada com estatísticas, foi para o tapete mostrar tudo. Lia ficou tão feliz depois dela ter dado o discurso da burguesia decadente, a falsa virtude dos velhos e a decomposição da geração que ofereceu a metade da garrafa do uísque quando ela partia. Fabrizio continuava ali e chegou agora Ana Clara. Sorriu pálida, ela queria livros emprestados porque ia destrancar a matrícula de Psicologia. Disse que ia ler, usava óculos, sinal de que parou de beber. Ficou até as quatro da madrugada e dormiu ali. Fabrizio, sem entusiasmo, montou na moto e disse que voltava amanhã. “Amanhã conheci M. N.”. Comparou Fabrizio a um cachorro estabanado, pensou como Astronauta a fez ficar comovida com gatos. Cuidou dele todinho em dia que foi ao cinema com Aninha (sóbria), deu mamadeira, ensinou com esforço a fazer xixi no quintal e nada de interesse. Ninguém segura gato, ela se desata a rir de estar fadada à solidão, lembrava disso quando a tia falava ao entrar de um casamento e ir logo a outro. Foi ouvir Bethânia, pensando em M. N. e no telefonema e como não vivia mais sem música, sem M. N., e um esqueleto franzino que descobriram.

Sugestão e leitura extra – “Gênero e crítica social em ‘As Meninas’ de Lygia Fagundes Telles” por Amara Cristina de Barros e Silva Botelho e Caio Victor Lima Cavalcanti Leite – https://periodicos.ufcat.edu.br/lep/article/view/41234

Capítulo 4

Parte 1

Há uma reclamação do tempo passar rápido demais por Ana Clara, tentando chamar Max para prestar atenção a Mozart. Ela comia açúcar e gostava, comia e não engordava, como engordava Lião, mas não o mesmo de Lorena. Discutiam de música e de pintura, Max gostava de louco, Ana Clara tinha pavor. Ana Clara gostava muito dos Estados Unidos, as ideias de Lia são mais europeias e Lorena é mais brasileira. O Escamoso gostava de viajar, Ana Clara até voltaria com as aulas de inglês mas ficava sóbria, queria ficar dopada de novo. Max continuava pirando, meio que tentando ver o céu com algo voando e usando Ana Clara de escudo em risadas. Ficava cansada de abstrações, sempre viveu com monstros. Refere-se a Lorena frequentemente com “nhem-nhem-nhem-nhem”, frequentemente ela não termina os pensamentos, foi de querer quarto com rosa, tudo quadrado a reclamar da predileção de Lorena por Van Gogh. Até pensava na nova clientela de psicóloga que teria, seria uma vida nova, mas nada de problemas de mendigo, escolheria a clientela. Max ficava se rindo de um pássaro querer bicar seu pênis. Ficava enraivecida com o nome completo, Ana Clara Conceição, as pessoas ficavam surpresas pelo nome completo, ela ficava louca, nome valia nada, a Lorena tinha nome de bandeirante que estuprava e enfiava um tição em negro para procurar ouro escondido e estupravam índias. Nome valia nada segundo ela, comprava um novo, rasgava a certidão e faria do pai um imperador, Caio César Augusto Conceição, professor universitário. Tinha raiva da mãe que sabia até fazer sexo em terreno baldio mas não sabia segurar para levar ao cartório registrar o nome. Via Max dormindo feliz segurando o pinto e pensando que a sua mãe nunca ficou com negro, levava de tudo quanto era nojento, menos negro. Achavam Ana Clara italiana, sabia lá de onde vinha, depois inventava. Era ruiva, autêntica, pele branca como Lorena, suspeita era Lia, declarava-se branca, distante dos subdesenvolvidos. Pensava no Jorge, que falava quase Jóge e tinha anel vermelho com unha do dedinho grande. Ana Clara queria mais do que tudo era esquecer, fumando, bebendo, não queria lembrar do som do anel acertando a mãe enquanto batia nela em bofetadas, dizia que quando acabasse a construção se livrava delas, mas nunca terminava e o quarto ficava com baratas e ratos, tudo coberto de cal, levou esse costume até para o pensionato. E Aldo tinha comido a barata na sopa, Ana Clara tinha ideias boas no ódio, ainda mais na noite antes da mãe morrer. Agora era Sérgio, queria outro filho, depois de tanto apanhar e ficar encolhida, tomou formicida e morreu. Um outro Gaúcho matou o irmão de aborto, ela viu até o aborto na lata, sentiu nada. Pensou até em trazer flores, mas odiava a floricultura e queria distância a partir de então de tudo que tinha ódio. Pensava em outra menina que perguntava da mãe, perguntava a Max o que fazia já que estava grávida.

Parte 2 Ana Clara estava agora delirando com drogas, sentia tudo diferente e dizia a Madre Alix, na sua frente como gafanhoto, que era uma despedida, ano novo era vida nova. Falava da experimentação, comprar casa na praia para Madre Alix, uma amiga vesga, Adriana, foram ao cinema, tomaram sorvete, teve até uma senhora que veio querer saber o que ela fazia na praia e ela rápida soltou que os pais se foram de forma trágica, começou a rezar, imaginou sendo adotada, até desviava do Doutor Algodãozinho. Ia enrolando pensamentos de uma violência sexual, com uma tecelã velha perguntando da morte dos pais e ela se emaranhando no tapete. Esqueceram o assunto e pensava nas noites na varanda, gente bebendo que lhe dava fome e a lembrava de comida com as cores. Ana Clara pensava nos perfumes, como Lia se gabava de usar pouco e Lorena de falar que sentia o cheiro dela de longe. Pausa os pensamentos em injetar drogas, esbanjar dinheiro e querer ser verdadeiro. Achava fácil quem dizia ser verdadeiro, ser rico e falar a verdade era fácil. Pensava no casamento por amor, o Agnus Dei que a protegeu, até Max acordar rindo e falando de uma canção. Ana Clara pensa em uma estrada vermelha, gosta de tudo, até dos negros, até da guitarra. Pergunta-se que horas seriam. Tentava entender o que se passava no quarto de uísque e a perna de Max. Queria fazer xixi, no pensamento foi levada a pensar em Lulu, seu cão, e de como era empolgado e de como gostava de ir ao mar. Pensou nas coisas que eram jogadas ao mar para serem esquecidas, no Doutor Algodãozinho e pedia para Lulu voltar. Sonhou estar remando e ser puxada para baixo, acordou se amaldiçoando por engravidar como a mãe, mas ela renasceria como borboleta, diferente da mãe que morreu como formiga. Ana Clara odiava negros, talvez pela experiência de violência sexual, julgava Lia que gostava da negada, era corintiana. Falava que gostava até casar que não casava, ela não acreditava no casamento mas, se amasse, até mesmo um negro, pensaria. Eles têm é ódio de negro, pensava Ana Clara, mas ela tinha ódio e não escondia do quê. Queria jóias, até gritou para Max, ele falou que dormisse, beijou seu corpo e ficou investigando. Pensou em uma desintoxicação, viu os pés de Max, lembrou das artes e teatros que viu com Lia. Até disse a Max que ano que vem era outro. Ele soluçava e respondeu só para ter paz da dor. Ela pensa no cerco que estão fazendo segundo Lião e chora de soluçar pedindo que Max pare de vender drogas para os menininhos e pede que comecem a fazer esportes, que o japonesinho estava olhando. Ela odeia chorar porque estraga a cara bonita. Delira vendo quatro irmãs, uma representando cada estação e com vestidos e pele de porcelana. Elas cantam uma canção e Ana Clara reconhece. Ainda pensa na formigona morrendo e um anão que passou dizendo que não havia importância. Pensava em fazer exercícios e ir a uma clínica para se desintoxicar. Ela amaldiçoava-se de ter engravidado de Max, justo um pobre. Tentava acordá-lo para conversar. Pensava em formigas e baratas e suas feições e atitudes. Ficava também revoltada com as análises, pagar dinheiro para se autoflagelar com coisas que queria esquecer do passado que a machucavam e machucaram. Lembrava de sonhos recorrentes como as mulheres dos vestidos ou um homem com lábio leporino, sonhava com o coração sendo visto por fora. Max tinha fome e Ana Clara disse que dormisse. Via o quarto, pouca luz, paredes escuras, tentava dar intimidade aquele local mas não era o resultado. Ficava de novo a tentar tirar a poeira de tudo. Sonhava que caía em um buraco e era uma fossa. Refletia de novo sobre os antigos namorados de sua mãe, agora era Adamastor. Pensava e discutia sobre o futebol, tal qual Lorena não gostava por causa dos negros, mal sabia o que era ser corintiana. Max perguntava se ela tinha noivo, explicou o corpo do escamoso. Ele convidou para conhecerem o mundo, ainda mais o Afeganistão para montar em camelo. Ela lembrou que ele montou em um cisne, pediu para contar a história com uma ameaça de um murro, ele disse que era um porco, recebeu o murro no queixo e sangrou, ele disse que quebrou seu dente em soluços. Era brincadeira e pediu até que retribuísse, ela contou que estava grávida de novo e Max queria o filho, disse de conhecer o mundo e comprar uma ilha. Ana Clara disse de se enfiar com mafiosos. Ele lembrava de uma amante peluda que perguntava de ir ao casamento, ela não conseguia focar naquele delírio, pensava em sua história de cinderela. Tentou saber as horas, ia se aprontar rápido, tinha mania de relógio. Ao se ver no espelho, se afastou da imagem, assustada com o que viu dela.

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"O Sol Na Cabeça" Geovani Martins Literatura Brasileira Literatura Marginal Resumo de Cada Capítulo UFPR 2025

“O Sol Na Cabeça” de Geovani Martins – Resumo de Cada Conto

Coleção de 13 contos. O livro homenageia seus irmãos e irmãs, sua mãe Neide e sua companheira Érica.

A obra é composta por uma coleção de 13 contos, é o livro de estréia do autor.

Quem é Geovani Martins Ana da publicação da obra = 2018 O que caracteriza um conto (brevidade e dualidade histórica) Quais são os contos (Rolézim, Espiral, Roleta-russa, O caso da borboleta, A história do Periquito e do Macaco, Primeiro dia, O rabisco, A viagem, Estação Padre Miguel, O cego, O mistério da vila, Sextou, Travessia) Construções importantes (linguagem da periferia carioca, uso da memória, antítese e paradoxo) Elementos importantes (a favela como integração do indivíduo, as drogas como cotidiano, interrupção abrupta e desconforto)

“O sol na cabeça de Geovani Martins: um estudo de crítica e tradução” por Andréia Guerini e Willian Moura – ******https://www.scielo.br/j/ct/a/KhJQhNHtyLC8vP7qdkFwNdy/?lang=pt#ModalTutors

Conto 1 – Rolézim

“Para Matheus, Alan e Gleison”

Acordou e o sol era impiedoso, tudo estava quente e sentiu que o dia não seria fácil. Tinha dois reais na mesa que o narrador tinha para comprar pão, mas precisava de mais 1,80 para inteirar uma passagem, era fácil dar o calote na ida, mas na volta era o problema. Ia investir os dois reais no pão, pegar um café e ir para a praia de barriga cheia, tudo menos ficar ali no calor. Passou na casa do Vitim e mais lugares com a mesma situação: sem maconha; querendo ir para a praia; sem dinheiro. Teco tinha até um farelo que ganhou de um trampo, trabalho, mas queria ficar em casa. Iam para a praia cantar as novinhas, banharem-se e dormirem que nem criança depois. Teco até deu um baseado, queriam arranjar belengo, cocaína, o narrador achava estranho querer usar aquilo no nariz com aquela lua, aquele sol forte. O narrador nunca cheirou cocaína, lembrou de uma conversa com o irmão quando ele tinha a idade que ele tem agora, 22, era papo de gente grande, sentia, um amigo morreu de overdose no caminho para comprar mais. Proibiu o irmão de experimentar qualquer coisa e manter no baseado, mais nada. Prometeu, puxava até loló, mas sabia se controlar. Mas hoje via que era melhor ficar no baseado, até bebida era uma merda, falou de quando perdeu o sentido bebendo cachaça no aniversário, lembrava de nada e seguiu até mina no beco, coisa que podia custar a vida ainda mais se ela fosse namorada de outro. Iam de ônibus, os amigos travados e o calor estralando. O narrador achava estranho esse costume de ficar drogado enquanto era oprimido. Lembrou dele e do Poca Telha queimando um na laje da tia e chegaram mais dois com o Mano de Cinco cheirando linhas, tudo com olho vermelho, ficaram ouvindo barulho onde não tinha e o Poca Telha e ele dando risada, para piorar o Mano de Cinco pilhou falando que era a polícia tentando pegar eles, saíram peidando e tentando se esconder. Bem diferente de quando realmente teve operação quase na semana seguinte, tirando a vida do Jean, que era apaixonado por futebol, jogava na base do Madureira e era pouco para virar profissional e até ir no Flamengo ou Botafogo. Até no enterro ele tirava onda, fazia graça, tinha 4 namoradas chorando por ele com a mãe dele. O narrador amaldiçoou os policiais. Chegaram na praia “com o sol estalando”. Muitas mulheres, bunda, água gostosa. Problema era a cara de cu, de incomodados, da galera, tinha policial na praia escoltando e quebrando a brisa, empatando, impedindo, de acender o baseado. O narrador tinha duas teorias: eram maconheiros e queriam pegar o baseado deles; era traficante querendo revender pra playboy. O narrador tinha medo de quando policial queria trabalhar, “coisa boa num é!”. Quando os policiais foram embora, outro problema, nada de seda. Ninguém tinha vontade de pedir pros playboys, até porque quando estavam sozinhos parecia que iam ser assaltados, em bando pareciam que iam pular em ti. O Tico e o Poca Telha chegaram em dois menós, moleques, que pareciam estar na larica, fome após fumar maconha, e deviam dá um dois, fumar maconha, compravam tudo de doce e comida, ficavam ali como se estivessem na Disneylândia, bobeando, mas foi chegar a galera já tinham medo de assalto. O narrador tinha raiva, mas se controlava por causa da mãe e do irmão, neurótica e que prometia não falar mais se fosse dar problema. Foi o narrador para achar seda, reclamou até dessa galera que antes fumava até em guardanapo, agora era só seda smoking, conseguiu a boa com um rasta que falou que os vermes, policiais, estavam na atividade, mataram um boliviano na areia, os policiais tiveram que abafar o caso para não repercutir, ele estava devendo dinheiro e era exagero. Falou para o rasta que só ia aproveitar a praia. O rasta falou antes para ficar na atividade e depois para não perder a fé em Deus. O rasta era do Maranhão, terra que todo mundo fuma bem cedo, desde os 10, como ele e o narrador. Aproveitou a brisa, ficou vendo gaivota, aproveitou a marola, tanto de fumar maconha quanto o mar em si, sentia a água, era levado até a areia e depois competiam de quem ficava mais tempo sem respirar com todos sendo fumantes. O melhor foi depois, os mesmos que recusaram seda foram tirar foto como se fossem donos da praia e passaram dois, um pegou a mochila, o outro os celulares, ficaram procurando mas os menores já tinham vazado e ficaram rindo dos playboy que saíram só de canga. Ainda assim, pensou no rasta falando que a praia estava ativa e na polícia que podia enquadrar eles. A fome surgiu em todos de noite e a polícia estava querendo fiscalizar os meninos e outros menores. Quando quase terminaram de passar pela fila que fizeram no muro, pediram para eles encostarem também. Explicou que quem tivesse sem identidade, sem dinheiro pra passagem ou muito mais que para a passagem, ia para a delegacia. Ficou pensando na raiva da mãe, largou o chinelo e saiu correndo. Lembrou do irmão jogando golzinho, era rápido, e o narrador corria rápido e nem olhava para trás. O irmão morreu pela polícia, ele sabia que não era X9 e foi no lugar de outro. Pensou na família, todo mundo olhava ele, decidiu ver se a polícia o seguiu e eles desistiram para revistar os outros. Construções importantes: vivência no Rio como morador de favela, democratização dos espaços Elementos literários importante: o dialeto de periferia carioca, oralidade como transcrição

“Espaço urbano, opressão e resistência: as figurações da cidade em ‘O Sol na Cabeça’, de Geovani Martins – considerações finais de pesquisa” por Leandro Borges Silva – https://www.editorarealize.com.br/editora/anais/coneil/2020/TRABALHO_COMPLETO_EV144_MD1_SA7_ID62614092020113539.pdf

Conto 2 – Espiral

O narrador comenta que começou cedo, achava estranho, passava na frente de uma garotada de escola particular e eles tinham medo, o que era curioso, pois eles fugiam dos meninos maiores. Pelas ruas da Gávea, ele se sentia os moleques que metiam medo nele. Ele até gostava da sensação de medo dos outros, mas “não entendia nada do que estava acontecendo.”. Há quem diga que morar na favela da Zona Sul é privilégio se comparado às outras favelas, mas a diferença é o que separa asfalto da Zona Sul e o chão do morro. É ter que andar em ruela, desviar de fio elétrico, ver amigo de infância portando arma, desviar o olhar de ratos, policiais, de cano, para depois de quinze minutos dar de frente a um condomínio com plantas ornamentais e aula de tênis. “É tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros.”. A primeira perseguição o narrador jamais esqueceria, começou como toda vez, como ele assustando com o susto dos outros, era uma senhora no ponto de ônibus, ele engoliu o choro, foi chegando perto, fixando na bolsa como quem procurasse algo e ela procurava ajuda em volta. Só que mesmo ela indo embora, ele seguiu sem motivo, ia acelerado, devagar, deixando ela desesperada até que entrou em uma cafeteria. Ele sentiu nojo, pensou que aquilo podia ser invertido com sua mãe e avó sendo desconsideradas por quem corria dele sem motivo algum, mas sentiu mais ódio de que, mesmo assim, a senhora não pensava nele. Ele sentia que não dava para parar, pois eles, os perseguidos, nunca parariam. “Veio a solidão.” e uma apatia a tudo. Ele começava a se afastar de tudo e todos, mas se aproximar desse estudo de caso que fazia, entendia o terreno, as vítimas, mas era muito curto o período de reação e muitas variantes, precisava focar em um único indivíduo. Um dia, cruzando esquina, esbarrou com um homem que já levantou o braço se rendendo para um assalto aterrorizado. O narrador falou para ele sair dali logo, segurando o choro como na primeira vez. Era ele, decidiu seguir. O nome dele era Mário, ouviu perto do lugar que trabalhava, tinha filhas, duas, talvez de sete, oito anos e a outra com quatro no máximo cinco. Nunca pegou o nome porque seguia a família de longe. Batizou a mais velha de Maria Eduarda e a mais nova de Valentina, nomes equivalentes para as caras de bem alimentadas. A esposa ganhou o nome de Sophia. Ainda mais quando via o piquenique no Jardim Botânico, era uma família de comercial de margarina, tirando a babá toda de branco. Tentou forçar os encontros por 3 meses, no começo era um misto de intimidação ou não notar a presença. Até ele perceber a perseguição, ficava mais atento e preocupado, tinha vezes que claramente o perseguia, deixando a tensão crescer, até ele naturalmente fingir entrar em outro lugar. Chegaram ao momento presente e ele ficou rondando uns dias pela casa. O que era para Mário um privilégio morar perto do trabalho, ficava tentando dar voltas para despistar o narrador, o que era inútil pois ele sabia onde Mário morava. Isso era custoso ao Mário e ao narrador, que não sabia onde isso daria. Um dia, decidiu seguir até o fim e viu que ele tomava o caminho mais curto para casa, ambos suavam e tinham a cara vermelha. Ele entrou no prédio que nem máquina, e ele ficou encarando da rua para ver pela janela. Viu Mário transtornado segurando uma pistola automática. O narrador riu, sabendo que, para continuar aquilo, precisaria de uma arma de fogo também. Elementos literários importantes – Clímax, dualidade histórica Construções importantes – O preconceito, abstração da humanidade

“’O Sol na Cabeça’: a enunciação literária em ‘Espiral’ e as cenografias paratópicas no espaço discursivo êmico” por Izilda Maria Nardocci e Anderson Ferreira – https://pdf.blucher.com.br/openaccess/9786555500325/05.pdf

Conto 3 – Roleta-russa

Quando chegou na casa, geral estava tentando se escalar no pé de acerola, com o sol queimando a cabeça e brigavam para ver a fotonovela pornô do Mingau, achada em casa nas coisas do primo desaparecido. Paulo se juntou à turma sem interesse, não que não gostava, até pirava na televisão com os programas conotativos, mas a cabeça dele pirava em outra coisa. Dois brigavam entre si pela masculinidade e pela família, Paulo viu toda aquela cena meio que já prevendo o que aconteceria, quando veriam o revólver. Paulo já mexeu em uma arma e mexia, sentia o peso da arma do pai, não sabia se era bom ou ruim o que sentia. O ar pesava, queria ver os detalhes. Almir, pai de Paulo, prometeu uma vida melhor agora que saiu de ser frentista de posto de gasolina para segurança noturno, ia ganhar mais dinheiro, mas teve uma conversa séria a respeito da arma enquanto o garoto tinha apenas 10 anos. Enquanto repete aos quatro ventos que educa o filho pela culpa e remorso em vez do medo, ainda com a falta da mãe na vida do menino, Paulo nem sabia onde terminava e começava remorso, respeito, medo e culpa pelo pai. Mas tem vezes que Paulo preferia ser descoberto do que ouvir sermão. O pai conversava e pregava, o filho tinha vezes que pensava que o pai tinha descoberto, não queria decepcionar o pai, e quando o via chorando, chorava também sem saber o que acontecia. Eram dois patetas chorando, porque o filho não sabia o que fazer. Pensava em parar de mexer no revólver, comportar-se nas aulas. Dessa vez, Almir tomou banho em vez de dormir após o almoço, coisa que era tão ruim quanto leite com manga, porque disso tem gente que morre.”. Pensando que devia lembrar o pai da arma, perguntou o que ele ia fazer já que se arrumava, ele dizia que daqui a pouco voltava. Quando ouviu o portão bater, trancou a porta como quem não consegue abrir por fora e ficou a sós com a arma. A felicidade veio grande com o remorso, sentia-se mal de noite e no dia seguinte repetia tudo de novo. Era tudo um sonho, “mas nunca seria o bastante enquanto não levasse a arma para a rua, enquanto não a exibisse pra sua galera.”. Mas a maioria estava enfiada em casa vendo desenho depois do almoço ou voando pipa. Mas não ligava para as batalhas de desenho japonês, ficava com a arma, carregava e descarregava, colocou no peito, imaginava como seria ser perfurado pela bala, desceu ao estômago e depois ao pênis, que, inclusive, ficou ereto. Tirou o revólver de vergonha. Em uma conversa, falam da bala de festim e da história do Bruce Lee que tomou um tiro de um em um filme. Paulo descarregou o revólver e queria jogar no time dos ladrões no polícia e ladrão, queria desviar, fugir, provocar, mas ficou no time dos policiais, ainda que não gostasse de perseguir. Queria apontar na cabeça dos amigos e fazer o som com a boca do tiro, que entrava como buraquinho e saía fazendo estrago. Os moleques ainda brigaram de tipo de arma, de filme, de exército e irmão mais velho. As brincadeiras de corrida, as favoritas de Paulo, iam ficando para trás e preferiam cada vez mais brincadeiras que valiam algo como aposta, tazo, carta. Elas até voltavam em festa de rua, lembravam quando morreu um cara na frente da casa da Dona Margarida, o que acharam estranho, pois só ele foi morto, não levaram nada. Ainda reclamaram que a tia dele só via de morte, o que ela parou, pois não queria ver estampada a cara do primo. Paulo queria toda aquela comoção e conversa para sempre, ele não era bom ou excepcional em nada, sentia até que nem faria diferença se um dia fosse embora dali, mas sabia que no fundo tinha algo de diferente. Tentou contar que o pai já tinha matado alguém com aquela arma, mas logo falaram que ele estava sonhando com toda a história de ouvir o pai com outras armas e conversando bem cedinho. Falaram que estavam tirando as balizas de futebol e iam pedir para deixar mais um pouco e daí surge o problema: significava que estava anoitecendo e os homens iam sair para namorar e as crianças entrariam para casa; além de que o pai dele teria já voltado. Paulo saiu correndo sem se desculpar, sentiu ódio do pai por testar ele daquele jeito, raiva de ser um filho assim, pena do pai pelo filho que tinha, triste por ter caído naquela armadilha, medo de não ter pensado em uma desculpa antes, e “de qualquer forma, tudo era uma grande merda olha do por qualquer lado que fosse.”. Chegando em casa já viu os sapatos do velho e sentiu o cheiro de cigarro. Tudo ia ficando cada vez mais pesado e ele nervoso, já via o pai sentado querendo conversar. Ele ouviu o chuveiro, devolveu o revólver, segurou o choro e proclamou que era homem, tinha passado dos limites e contaria tudo ao pai. O banho demorava mais que o normal, jurava que não seria mais assim, assim como jurou tantas vezes. Queria que o mundo acabasse antes do banho, mas não foi assim, ele ouviu o chuveiro desligar, o pai esfregar a toalha no corpo, bater o Prestobarba na pia e finalmente abrir a porta. Elementos literários: narrador onisciente, digressão Construções importantes: sentimento de pertencimento, a violência como elemento que convive ”Cidades, possibilidades e violências: o Rio de Janeiro em ‘O Sol Na Cabeça (2018)’” por Marcelo Reis – https://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/article/view/118005/pdf

Conto 4 – O caso da borboleta

Ninguém nasce borboleta, ela é uma dádiva do momento presente. Entretanto a borboleta não pensava nisso lá fora, realmente era azul e foi lagarta, estava ocupada em voar de árvore em árvore. Breno tinha nove anos, mas diferente de lagarta, ele vira adulto, e homem não voa. O sonho do Breno era voar, seja como piloto ou jogador de futebol. Não chegou a pensar sobre, mas sabia que era menino e não lagarta, sua avó dizia sempre que não se nascia borboleta. Pensava em como ela comia, já tinha visto passarinho e beija-flor e lagarta comer, menos borboleta. Teve fome e foi à cozinha. A avó dormia na novela das sete, coisa que adorava fazer. Não quis acordar e foi para a cozinha que era antes um quarto e tinha janela, coisa que todos achavam curioso e estranho, Breno sempre viu a cozinha daquele jeito e gostava, achava azar de quem não tinha janela. Pensou em comer biscoito ou ovo, tinha tamanho para fazer o segundo. Entra uma borboleta enquanto procura biscoito, era maior e mais bonita. Ela fica desnorteada e batendo nas paredes, Breno tenta ajudar a guiá-la pela janela. Ela voa direto para uma panela com óleo usado para a batata frita do almoço. Pensou que só se queimaria com o fogo aceso e tirou a borboleta com papel toalha, deixou-a encima da janela e foi comer biscoito. Ficou pensando na borboleta no óleo e se fosse ele nadando em uma panela que coubesse uma criança, não gostava de imaginar, mas era difícil, ainda com o estímulo da mão suja de óleo. Lembrou do pó de borboleta que cegava e teve medo de passar mal porque lambeu o óleo. Foi à cozinha e viu que ela estava morta, quis enterrar ela de pena. “Decidiu que a borboleta seria seu bicho preferido, caso não passasse mal por conta daquela lambidinha no dedo.”. Deixou a borboleta na janela e ia avisar a avó para não usar mais o mesmo óleo, deixou ela cochilando, tentou não passar mal, pensou de novo na frase da avó, sentiu uns trecos no estômago e dormiu. Elementos literários: descrição de sensações, comparação Construções importantes: descoberta de emoções, o lugar como influenciador de sensações ”Favela, infância e adolescência: o discurso narrativo do lugar e de todos os lugares em ‘O Sol Na Cabeça’” por Robson Fagundes dos Santos – https://dspace.unila.edu.br/server/api/core/bitstreams/73f438f5-35c5-42d8-8c35-c1850d4133ea/content

Conto 5 – A história do Periquito e do Macaco

Quando a UPP apareceu no morro, era mais difícil comprar drogas, dava até pena de ver a criançada vendendo, mas tudo se acostuma, infelizmente. Há um locutor silencioso, ao qual o narrador diz que foi a melhor coisa ele ter ido para o Ceará, aproveitavam as conexões com o jornal e qualquer coisa era primeira página, mesmo que a carga fosse pouca ou uma arma, ainda que ninguém saiba o que esteja acontecendo no morro ou até mesmo se prenderam alguém grande. Só piorou com a ocupação da polícia, tinham que dar satisfação, não havia paz. Não demorou tempo para os traficantes que estavam lá antes deixarem de manter a ordem pois foram para outros lugares e de novo surgir a violência, as armas e, finalmente, a morte. Antes eram alguns tiros de aviso, mas evoluiu para morte dos dois lados. Na Rocinha, chegou um momento que a polícia ficava de um lado e, segundo o narrador, os vagabundos de outro. Até dava para fumar maconha, mas piorou muito a qualidade desde a chegada da UPP. Não sabia-se muito bem o que ia rolar, se ia subir exército como no Alemão, ia ter que vir os moradores pedir para parar ou se iam lutar até a morte, mas a única certeza é que a maconha mudou mesmo. Entretanto o pior de tudo é quando entra o Cara de Macaco. Era um tenente que fazia vigia na região da Cachopa, a mesma que o narrador morava, ele conta que o tenente gostava mesmo era de tratar mal viciado, ele colocava a culpa nele, não no traficante, chegou a pegar um cara em um beco, fazer usar tudo e ainda levar a cabeça na parede de apanhar. Outro dia, pegou o Neguinho fumando baseado, ele jogou na vala e ele já apontou a arma perguntando onde que ele arranjou. Era na subida da Vila Verde, todo mundo ia lá, deu uma coronhada e perguntou de novo, ou tomava bala ou descia na vala, não pensou duas vezes e parece que pegou leptospirose. O pior foi na ladeira da Cachopa que ele pegou um playboy pegando de tudo, era a compra do mês de drogas, falava que ele financiava a compra de armas dos traficantes, coisa que era a própria polícia, e o playboy ia crescendo e respondia de volta, lógico, ele tinha as costas quentes, era filho de juiz, aí que o Cara de Macaco ficou espumando de raiva. Ele já subiu querendo fazer maldade e a galera tentou avisar, mas o Buiú se deu mal, ele estava na laje, lugar que os policiais falavam para fumar lá e ninguém mexia, nem o Cara de Macaco sabia subir, mas mandou descer, levou até a casa do Mestre e arregaçou o Buiú a noite inteira, de ter até cenoura no cu. Mas o Buiú era irmão de leite do Periquito da Rajada, coisa que o Cara de Macaco não sabia, e tão piroca das ideias, maluco, quanto o tenente. Era necessário ser maluco, pois a voz fina não dava respeito, mas quando trocava bala ele virou braço direito do dono do morro. A raiva que ele já tinha de policial só piorou com o irmão e o tenente, ele dizia que ia se vingar, até tentaram convencer a não fazer nada ou deixar passar que era coisa do momento, mas sujeito homem não ia deixar barato. O Periquito nem dormir direito dormia, aí bolou um plano, precisava de uma menina gostosa, de deixar gente maluca, como a Vanessa. No que ela chegou, disse ao tenente que tinha tesão de homem de farda, lógico que ele ficou com ela sozinho no barraco e de pau duro, mandou todos os caras com quem fazia ronda, que eram sempre cinco ou mais pessoas, para longe. A ideia era que o Periquito estivesse esperando com uma M16, ela ia entrar no banheiro, ele seguia e matava ali. Só que ele já foi tirando a roupa, ela conseguiu até tirar o colete e ir fingindo que gostava, gemendo alto para o Periquito ouvir, que já encostou o cano e o tenente nem teve como reagir, Vanessa cuspiu na cara do tenente. Os manos ajudaram a levar o corpo e queimar, ele teve que sair dali, coisa que já sabia porque ia ficar feia a situação e ficou. Embora dentro de um mês, a paz voltou na Cachopa. Sem achar o corpo, uma notícia de jornal lamentava a morte de Roberto de Souza, que até o narrador chegou a ter pena dos filhos que choravam a morte do pai, mesmo odiando polícia. Contexto histórico – Instalação das UPP’s (Unidades de Política Pacificadora) em 2013 Elementos literários – Locutor silencioso, alegoria Construções importantes – A polícia como aparato do Estado, o paradoxo de justiça ”’O Sol Na Cabeça’ e os campos de força da bios” por Vanessa Augusta Cortez dos Santos Cunha – https://www.abralic.org.br/anais/arquivos/2018_1546968876.pdf

Conto 6 – Primeiro dia

André já foi embora sem nem deixar escreverem na camiseta, estava de saco cheio de todos e tudo da escola Antônio Austregésilo, nome feio demais só que não rimava com nada para piorar. Além disso, era repetente, tinha quase doze anos em uma escola cheia de sete e oito anos. André tinha confiança que estudar no Henrique seria melhor, queria fazer a fama com as porradarias semanais contra a galera do Getúlio e ser um neurótico reconhecido. André era desligado, estava sempre pensando em estar em outro lugar, mas pensava agora na nova escola. As férias ajudavam a deixar ele de volta ao mundo, mas jurava agora que daria gosto de ser aluno, não pelo estudo, nem por ser excepcional em brigas, mas para escapar de ser chacota e chamado de pirralho pelos mais velhos. Deixou todo material exceto o caderno do Flamengo e uma Bic, a mãe se esforçava e fazia diferença na renda comprar tudo, mas fazia questão, só que André queria impressionar, ser estudioso não era uma opção. Ainda assim, viu a quadra, a escola, andava atento mas aproveitou o novo lugar. Viu duas meninas fumando escondido no intervalo, pensou até o que seria dele no futuro, diante da cumplicidade e amadurecimento. A última aula foi francês, queria aprender inglês para ter fama e ser popular, até simpatizou com a língua quando descobriu como falar “pescoço” em francês. Dois moleques da oitava série diziam que não ia ter almoço, um playboy de cabelo de chapinha loiro mandou todos ao banheiro. Apesar de tentar parecer firme, André temia pederastia como ritual de novatos e parte das regras da escola, mas não era. Era o teste da Loura do Banheiro, que foi violada naquela escola e morreu. Quem chamasse ela três vezes no espelho, ou corria ou enfrentava dois destinos, ficar possuído ou ser sugado para o espelho. O André pediu um teste de verdade, a realidade é que prometeu nunca mais fazer aquilo porque morreu de medo. O loiro sentenciou ele a fazer já que não acreditava. Luzes apagadas e portas trancadas, pensou em tudo que perderia se vacilasse. Firmou as pernas e a chamou. Elementos literários – Metáfora, brevidade do conto Construções importantes – Aceitação, lúdico ”A representação do espaço social: entre o subúrbio e o (sub)mundo em ‘Clara Dos Anjos’, de Lima Barreto, e ‘O Sol Na Cabeça’, de Geovani Martins” por Viviane Chagas de Lima – https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/50889/1/DISSERTAÇÃO Viviane Chagas de Lima.pdf

Conto 7 – O rabisco

“Não era pra estar ali.”. Tomou cerveja, já estava com a lata de spray de tinta na mão e ouviu uma moça gritando por ajuda. Os moleques de tinta iam na esperança de ter cerveja, cigarro, erva e tinta para um grande rolê, ganhando fama, juntos, como carrapatos. “O mundo tá de saco cheio desses moleques, Fernando também.”. Tinha outro nome, Maluco Disposição, mas abandonou o xarpi, tentava se distrair com outra coisa e mudava sua relação com a cidade. Desde que Raul, o filho dele, nasceu, abandonou a vida, ainda lutava contra o desejo de pintar, evitava até usar caneta. Se quisesse ser presente e ficar vivo, ia, no máximo, só pixar em baixo, em lugar seguro, que era uma morte muito pior. Quando já ouviu os tiros, nem sabia de onde vinha, já saltou para o terraço com os reflexos em dia e viu que o moleque da tinta já tinha ido embora. Não ia roubar, ia deixar de presente sua marca no mundo, uma frase em homenagem aos amigos que deram a vida pela arte dos Racionais, “Pesadelo do sistema não tem medo da morte.”. Sabia que ladrão e pichador era tudo o mesmo nos olhos da polícia, mas sabia que fazia parte do jogo aquela parte que o caçava. Não ia conseguir pixar, ia esperar eles encontrarem ninguém para ir embora, um empate. Queria ser eterno, por isso aquilo tudo, ficar na memória, mas o filho mudou a perspectiva, foi chamado de pau-mandado por querer parar. Tem dias que o sol aparece até de noite e ninguém dorme, seja de calor ou da cabeça não descansar. O pessoal se aglomerava para ver justiça contra um homem desconhecido. Fernando queria era pixar tudo, rabiscar e mostrar que a vida continua mesmo com ou sem rabisco. Pensava em como tudo parou naquilo, mas a vida tem forças que vão uma atrás da outra, não dá tempo de planejar, só de reagir depois de tudo que aconteceu. Lembrava do pai que voltava para casa e a mãe sabia o som da batida dele de bêbado. A mãe não deixava entrar, ele até queria deixar, tinha memórias de infância boas, mas vinha um mau pressentimento. Assim como veio agora, um nó na garganta que antes ficava de forma positiva, fazia-o se mover. Dessa vez, a vida passou em lampejos desordenados, não como filme, mas presságio, seu corpo sufocava de medo sendo espetáculo para as pessoas ali e o desfecho de tudo. Pensou em como seria melhor com o pai que gastou toda a aposentadoria na cachaça em vez de tentar continuar a abrir a porta da casa. O peso das escolhas veio, não adiantava mais querer pedir desculpa ou dar do melhor ao Raul, o pai já estava morto. Havia uma possibilidade de não o terem visto, estudava o tempo que passou ali e em como sair, jogou uma lata e confirmou que era pichador, ao menos não saía morto, mas que levaria porrada daquela área residencial tomaria. Abriram a porta e subiu gente, mesmo que sobrevivesse à surra, coisa que já matou também outros, ainda ia ter que explicar como que levou aquilo, sem contar que o pai trocou o filho por álcool, ele estava trocando por tinta. Pulou para outro telhado, sentiu o pé doendo muito, quis gritar mas só se escondeu. Sabia que o silêncio que reinava agora ali era definitivo. Ainda sonhou em poder rabiscar o seu nome ali nos prédios, Loki. Elementos literários: Foco narrativo para simpatizar, jornada do herói Construções importantes: O picho como reivindicação do espaço social, conflito de desajuste ”Sujeitos em trânsito: figurações do espaço urbano em ‘O Sol Na Cabeça’, de Geovani Martins” por Evandro Batista Siqueira – https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/37271/1/Sujeitos em trânsito. Figurações do espaço urbano em O sol na cabeça%2C de Geovani Martins.pdf

Conto 8 – A viagem

O conto é em homenagem a Rapha, “é claro.”. O narrador, Rafa, desembarca no Cabo do Arraial, fugindo de toda a festa de fim de ano que é em Copacabana. Estava ao lado de Nanda e completamente apaixonado. Pensou que a viagem os uniria, saindo do ambiente universitário para ali. Gabriel estava lá e estava contente com isso, era um dos primeiros amigos e ficava feliz de ter por perto, ainda mais que a namorada gostava dele também. A casa era de um argentino, amigo de Gabriel, Juan, gostava de falar e rir alto, fumar maconha e achar camarão de boa qualidade, tinham fumado três baseados já, o narrador retribuiu com LSD. Só que Juan já ficou falando “no, no, no” e ninguém entendeu se ele não aceitava por ser um desses maconheiros intolerante a outras drogas ou outra coisa. Só que Gabriel voltava com a tesoura e ria da situação que entendia, porque a qualidade da maconha era bem maior do que do Fundão, e isso explicava o narrador ver tudo em câmera lenta. A voz de Juan ecoava com a gargalhada de Gabriel e o desconforto de Nanda, parecia um Zé Droguinha querendo usar tudo que podia antes das 2 da tarde. A voz ecoava nas paredes e tremia ele todo, mas que ele guardasse o LED porque era difícil achar e queria estar fritando na queima de fogos. O narrador ficou feliz em poder salvar a pátria para deixar todos muito loucos na virada, todos riram, agora, invadidos por uma onda coringa. Tentou dividir tudo por igual, ainda tomou um pouco com a Nanda, ficaram falando de coisas de sinceridade, promessas de infância e tentando explicar viagens psicodélicas inexplicáveis. Ele até desenhou ela nas almofadas, ficaram calados e curtindo a brisa. Querendo fumar mais maconha, com vergonha da dele e de pedir do argentino, contentou-se com cigarro. Só que Juan procurava algo nos bolsos e na sala e o narrador ria, achando que ele procurava maconha também, influenciado pela fumaceira que fazia, mas não era isso, ele achou uma cápsula enorme de cocaína, “Gabriel esbugalhou os olhos e soltou” uma gargalhada. Ele ia rindo com os olhos brilhando com o serviço, Gabriel nunca usou cocaína, até pegou um pouco para deixar a boca dormente, curiosamente, o narrador aponta que ele só usa maconha, doce e lança-perfume, o último em ocasiões especiais. Nanda até olhou ao narrador que tentou não dizer nada com o olhar e ela aceitou uma linha. Ele ficou até ciumento por dividirem um canudo feito de uma nota de dois reais, mas não queria mostrar que era facilmente influenciável para usar também. Depois, saíram na rua, Juan e Gabriel conversavam em espanhol e a onda batia no narrador, que ficava maravilhado com os dedos e com as coisas ao redor, como as árvores, ser bom estar vivo e morar na Terra. Rafa fica preocupado com Nanda estar fungando e a onda bater errado de misturar drogas. Ele pergunta a ela o que acha do Juan, diz que o acha muito louco, no sentido de feliz, de falar, de entender mesmo sem saber a língua, e que é por isso que vive assim, ele tinha até perguntado se era no sentido de drogado, mas no fim do ano todo mundo fica, de amor, de estresse, de drogas, é quase um fim do mundo e todos tentam viver ao máximo para aí se decepcionaram que nada acabou. Rafa pergunta se ela acha Juan gay, ela o acha engraçado, perguntou se ele ficou interessado nele e falou que não conhecia o lado ciumenta dela. Chegaram na praia e a felicidade os invadiu, o dia era quente e a água fria, mais uma vez o equilíbrio universal, o narrador nem percebeu que Nanda tirou a roupa para ficar de biquini e nem viu se o Juan tinha malícia no olhar de ver ela tirando a roupa. Era uma maravilha ver mulher tirando roupa, mas queria ver a malícia do olhar ser presente nele. Juan olhava para o céu, Nanda para o mar, parece que ficava, como fica sempre pensando demais, pensando em como todos os átomos se reuniram para estar tudo ali naquele exato momento. Gabriel nadava de um lado ao outro, Rafa achava bonito como a liberdade tomava conta do corpo dele. Com dedicação como sempre tinha, Juan foi ver as ondas, depois de um tempo, se reuniu com os meninos na água. Nanda tomava sol na areia. Rafa boiava na água, fascinado com os tons de azul, pensando como era íntimo da água, conectado a ela e como era isso que os tornava próximos, mesmo que não se conhecessem de antes, eram amigos. Nanda se juntou e a felicidade e festança foi tanta de ficar pegando areia do fundo e jogar água que os ciúmes e a neurose foram embora. Foi perceber só depois que estava explorando outros cantos, o que sua alma precisava. Andaram movidos pela alucinação, pois já estavam cansados, o narrador imaginava o que passava no íntimo de cada um, viam praias belas e mal se comunicavam, se não fossem por gestos e gargalhadas. Até que Gabriel disse que era melhor voltar pois ia escurecer. Juan garantiu e sugeriu que ir pelas dunas era um caminho curto, Rafa ficou maravilhado, pensando em quanto tempo toda aquela areia estava ali, como eram pedras antes e quanto tempo precisa passar para virar aquilo. Todo o pensamento se foi quando percebeu que o grupo era perseguido por dois loiros altos, fortes, com roupa de academia. Não queria alarmar o grupo, achou que ia ser taxado de Doidão do Grupo, mas a verdade o enchia e sentia que ia explodir se não fizesse nada, não deu outra, avisou o grupo, virou o Doidão, saiu correndo puxando Nanda. Ela perguntava o que ele tinha, Juan e Gabriel ficaram olhando, mas logo viram que os dois playboys eram da geração saúde e corriam bem melhor que todos, além de conhecerem melhor onde estavam correndo. O primeiro a ser pego foi Gabriel. Rafa não conseguia ver de onde vinham os assaltantes e se encheu de ódio, aquilo não podia estar acontecendo naquele dia, e calculou para derrubar o brutamontes como um jogador de futebol americano. Juan, vendo a ação, sacou Nanda e fugiam. Rafa se debatia, tentando não ser imobilizado, gritou que tinha nada, aí os assaltantes falaram que não eram gringos, pois estavam focando em assaltar turista, não morador, aí Gabriel cresceu e mandou eles respeitarem os moradores. Rafa achou tudo aquilo inacreditável. Mas eles estavam confusos com tudo, achou que ia reverberar no relacionamento com Nanda, mal podiam planejar o próximo passo e deram de cara com um pântano. Mal viam algo na frente, uma bad imensa bateu no narrador e ele chorou, chamavam Juan e Nanda e nada, por sorte, Gabriel não conseguia ver. Chegaram ao final e deram com o centro da cidade. Ele continuava triste, desesperado, até que Nanda o chamou de uma farmácia, ela foi comprar mertiolate, ela saiu correndo com Juan e não parava para não dar chance de anoitecer, daí foi se cortando em tudo que era espinho. Ela achava estranho como via a dor e não a sentia. Juan permanecia o mesmo, feliz e desastrado. O narrador queria dormir, ainda faltavam dois dias para o fim de ano, ficou pensando o que mais o ano poderia o reservar. Elementos narrativos – Sinestesia, texto descritivo Construções importantes – O olhar complexo de coisas simples, o uso de drogas ”A importância da obra ‘O Sol Na Cabeça’ para a literatura brasileira, e sua relevância sob uma perspectiva social” por Isabelle Laurence Marques Fonseca Silva – https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/21863/1/ILMFSilva.pdf

Conto 9 – Estação Padre Miguel

“Na época estava proibido fumar crack na Vintém. As coisas tinham fugido do controle: muito roubo, briga, perturbação.”. O consumo até existia e o comércio, mas eles tentaram limitar, quem sofria mais eram os moradores. O narrador afirma que o lucro era imenso, não iam parar, e a pedra mais trazia problema do que outra coisa, não lembrava se era proibido o consumo na favela ou na linha do trem, onde era mais intenso o uso. Até teve certeza da linha do trem pois havia ninguém mais por lá. Era tudo cercado de lixo e dejetos humanos e não-humanos, ali se reunia de tudo, gente do trabalho, da escola, tudo a noite escondia. O narrador não fumava mais, o lugar lhe causava cada vez mais nojo, ele até ria no auge do crack sobre piadas de cracudo, mas quanto mais passava por lá e ouvia histórias de antes do vício, sentia vontade de chorar. Lembrou de uma mulher que conheceu, tentou vender um guarda-chuva, daí contou que abandonou Alagoas e toda a vida para tentar a sorte no Rio com a família. Contou da filha que tinha nove anos, que o marido aparecia volta e meia na linha, apanhava, trancava a mulher no quarto mas voltava ali de qualquer jeito, ela achava um jeito. Ela chorava desesperada. O narrador não sabia se acreditava na história, até contava os dentes dela enquanto ela chorava. Ela dizia como o marido precisava de alguém melhor, chorava de verdade e pediu um abraço. Na falta de um, cedeu a maconha que tinha, falando que dava um barato bom. Até comentaram de como era a qualidade de antes, como vinha em outro saquinho, Rodrigo, amigo do narrador, comentava disso, o narrador mal sabia, os saquinhos na Vila Vintém sempre mudavam mesmo. Lembrava do grupo inseparável, Rodrigo, Felipe, Alan e Thiago, uma vez foram passar ali, fazer a cabeça e visitar a filha do Léo, mais um pai. Pensava também se a amizade sobreviveria até a vida adulta. Alan comentava do gosto de amônia, enquanto Thiago dizia que o importante era no fim todo mundo estar de cara murcha. Deu nem duas voltas na roda e Rodrigo já ia preparar outro baseado. Felipe falava que era melhor investir, ele sabia onde ficava coisa boa. O narrador já previa a conversa, só pensavam em droga, já falava para inteirar 10 cada um. Alan falava que não tinha como, a droga era o que movia a cidade do Rio, se parasse por uma semana, a cidade morria. O narrador adiciona que era droga e medo. Era o terceiro baseado e só vinha uma pressão na cabeça. Mesmo que a Amanda fosse do bonde e até fumasse, até pensou se não era melhor outro dia essa visita, um filho muda uma pessoa e todos fediam amônia, além de ser já oito horas. Foram andando, até cantaram “Recado à minha amada” do Katinguelê, mas logo voltou o silêncio. O silêncio incomodava o narrador, esse abismo entre outra pessoa que sabe se lá como se rompe. Voltavam a conversar dos dez contos para inteirarem na maconha no Jacaré, discutiam do horário para pegar, de pagarem certo e o narrador sabia que era uma tentativa de voltar à normalidade anterior. Aí começou uma história do Alan, estava todo arrumadinho para não ser pego pela polícia e aí surge uma cracuda, olhou ele de cima em baixo e disse que chupava o pau dele por cinco reais, pior, já retrucou falando que chupava de graça. Os outros já o chamaram de galã das cracudinhas do Jacaré, já até disse do possível problema e da falta de dente como vantagem, começaram a rir e pararam só quando o trem passava. Até pensou se não era efeito da onda, como quando o Vítor sentia nada ao tomar um pedaço de quadrado pela primeira vez. Era sempre mais fácil ver de pé se bateu ou não. Mas aí o narrador não sentou de volta, sentia uma agonia. Tinha vontade de sair andando dali e seguir seu rumo, mas ficou quieto segurando a bad e sem contar a eles. O narrador sempre falava que a onda tinha que ser aceita, ria e achava estranho os outros que fritavam, mas era alertado que sua hora chegaria. Mas logo voltou à calma, achou estranho como ele sofria daquele jeito e ninguém viu, sentiu que podiam todos serem sozinhos, “sem nunca permitir que o outro habite nossa intimidade”. Ele até ficava neurótico antes, achando que as pessoas o vigiavam, prestavam atenção em tudo, pior ainda quando fumava. Mas não era verdade, ninguém ligava, “Nossa dor, nosso vício, nosso vexame, é tudo muito distante dos outros.”. Passaram o baseado, era o último, fumou sem gosto e pensou se todo aquele corre com a polícia, fumar maconha com amônia e ficar ruim valiam algo, mas pensou que essa felicidade que tinha com os amigos eram o importante. Levantou e estava cansado, queria ir para casa. Apareceu um amigo do Rodrigo, pedindo folha de caderno e falando gago. Ele ia fumar, até ofereceu um fininho, mas falaram que só servia fumar aquela erva com pedra. O narrador viu de longe uma mulher fumando em uma lata de Guaravita, o crack tomou conta da favela e era difícil controlar tanto viciado. O narrador até desistiu de falar algo porque adiantaria de nada, pensou que tudo poderia ser dez minutos, juntar o restante de cada grupo e fumarem. Nisso, apareceram dois caras em uma moto, o passageiro segurando AK e quando o narrador viu já estava na parede, levando bronca que não podiam fumar crack, mas a moça já chorou gritando que estava grávida. Falou de volta que se quisesse o filho vivo, não estariam fumando, depois de mais intimidação do motorista mostrar a pistola, o da AK perguntou quem queria ser o primeiro, apontando o cano na cara de cada um por um tempo. Nunca viu tanto medo na cara de todos, pensou o que aconteceria se deixassem de existir naquele momento. Como sempre, estava sem identidade, esquecendo dos alertas da mãe de sempre andar com a sua. Ouviu o pagode e conectou as ideias, ele estava querendo jogar terror, era muito provável o tiro atravessar a parede e pegar morador, e não iam levar todos favela a dentro para matar. Agora era focar em parecer apavorado e não sorrir de deboche como sempre faz. Soltou a ordem de sair correndo e uma rajada de tiros para o ar, corriam todos desesperados e a grávida mais ainda, ele ia menos rápido, via todos e pensava que um dia escreveria aquela história. Contexto histórico – 2012, Governo Dilma, intensificação do combate ao uso de crack Elementos literários – Interrupção da normalidade, o sentimento de ser diferente Construções importantes – O sofrimento do morador, a culpa do indivíduo ”A representação da favela nos contos de ‘O Sol Na Cabeça’, de Geovani Martins” por André Natã Mello Botton – https://abralic.org.br/anais/arquivos/2018_1547745521.pdf

Conto 10 – O cego “Seu Matias nasceu cego.”. Nunca viu arma, mulher, mar, mas vivia como se o mundo fosse feito para ele, pois também ouvia, cheirava, tocava, falava e sentia. E falava muito, pois usava sua voz para arranjar uns trocados. Tudo variava, religião, começo de mês, bom humor, consciência, mas recebia o suficiente para trabalhar dia sim e dia não. Não gostava das crianças, atropelavam uma fala da outra e era difícil ver tudo, gostava de falar com os idosos, pessoas que falam com gosto, sem medo de gastar tempo pois usam ele para falar com detalhe. O pai morreu aos 6 anos sem fazer diferença ou sentido, vivia bebendo demais. Os irmãos forma embora: Marcos com uma mulher mais velha com filho; Mariana com o pai da criança. Dona Sueli foi derrubada pela doença, só ficou Matias e as fofoqueiras para cuidarem dela. As vizinhas até perguntavam dos filhos que não cuidavam dela, ao qual ela respondia que criou os filhos para o mundo. Pensava em como se alimentar e ganhar dinheiro, não queria ficar com a caneca mendigando, queria conversar, contar a história. Treinou o que falaria no ônibus, do pai, da mãe, pediria para Deus abençoar todos, os que contribuíram e que não podiam. Os primeiros dias foram fáceis, sabia onde colocar piadas, mas a tristeza de ter que repetir a história, a solidão vinha com a contemplação do que viveu e vivia tomava seu coração “e viver de caridade passou a ser um inferno.”. Aproximou-se de um menino chamado Desenho, todos juravam que era bandido. Fazia avião, buscava quentinha para traficante, comprava pó para viciado, e gastava a grana que ganhou comprando baseado na mesma boca. Um dia Matias sugeriu irem juntos, e ele lembrava levemente, aí que aumentaram os ganhos, tinham dó do suposto filho de cego, e também ganhava bem mais que no morro, para alegria dele e conforto da mãe. Entretanto a idade veio, Desenho já era velho para bater uma laje, aos 16 comprou uma moto e virou mototáxi. Matias ia ficando velho e ia sozinho. Ficavam separados, não que falassem muito, mas continuavam o contato. No final do trabalho, pegava o dinheiro do velho, comprava o tanto de maconha e cocaína que podia e ficavam “a noite inteira fumando e cheirando, num papo angustiante em que não se olha no olho.”. Elementos literários – Limitação criativa, preenchimento criativo de descrição Construções importantes – Marginalização de membros da sociedade, deixar ao leitor que complete a história ”(Re)pensando subjetividades marginalizadas ‘no’ e ‘pelo’ discurso literário de Geovani Martins” por Élida Cristina de Carvalho Castilho – https://repositorio.ufms.br/jspui/retrieve/c2b92fb6-f1e8-4da2-80f4-926f24601479/ÉLIDA CRISTINA DE CARVALHO CASTILHO – VERSÃO FINAL.pdf

Conto 11 – O mistério da Vila

“Em memória de dona Maria de Lourdes”. Ruan, Thaís e Matheus voltaram para a rua refrescada da chuva de verão. Ao final da rua, morava uma senhora antiga, a dona Iara, e dessa casa que já via a terceira geração de família crescer, vinha o cheiro de macumba. Os moleque armaram dois golzinhos entre lombadas, tentando chegar mais perto da casa, ouvir o barulho de morcego, rato e bambu rangendo ao lado do valão. Até que um sai correndo em disparada e todos vão, naquele terror de primeira infância. O que saiu correndo disse que viu algo saindo do rio, em meio de risadas e sorrisos de cumplicidade. Um sempre concordava, aumentando a ansiedade. Dona Iara era cumprimentada durante o dia, iam para buscar cigarro, o resultado do jogo do bicho, parecia santa de dia, mas de noite era outra forma, com o cheiro e o barulho de coisa rangendo. As crianças comentam como macumba era coisa do diabo, que podia ser coisa de gente de bem e até possuir. Quando mudou, ainda era vivo Jorge, seu marido, que era pai de santo e reunia até os católicos na gira no quintal. O passar dos anos fez o número diminuir, que parecia vir com o crescimento de igrejas em volta, os antigos frequentadores convertidos agora deixavam o terreiro mal-falado. Usou as lembranças para se consolar, mesmo querendo vender a casa que tinha raízes suas com o terreiro. Um dia, um menino chamado Matheus estava ardendo de febre, igreja e médico não ajudavam, mandaram chamar dona Iara. Enquanto rezava e passava erva, todos gritavam cânticos de igreja. No final, tragou cachaça, pediu para todos também o fazerem, fizeram, e disse que ia melhorar, com a resposta de que Deus estava com eles, era só um susto. Quando dona Iara se foi, fizeram um pacto de nunca contar na rua o que aconteceu ali, só Matheus que contou para Ruan, mais ninguém. Em outra vez, a casa do Ruan ficou infestada de carrapato, dona Iara pegou três, colocou numa caixa de fósforo e mandou colocar em uma encruzilhada. A avó levou Ruan e Ruan só contou para Matheus. Da família de Thaís, menos o pai era testemunha de Jeová, ele era alcoólatra. Thaís não comemorava aniversário, não comia doce de Cosme e Damião, não doava sangue e nem usava troco para comprar cigarro ou jogo do bicho da dona Iara mas foi ela quem desamarrou a barriga no ventre no parto. “A mãe de Thaís nunca contou para ninguém.”. As crianças voltam de novo para o lugar do susto, escondendo-se com o coração batendo forte, que no fim dava história animada na frente do bar do Galo Cego. Em uma noite, soltou um barulho forte, a porta. Mílton, um dos filhos de Iara saiu correndo pela vila, suado, cheirando, eles achavam que estava possuído. O carro do tio do Matheus logo chegou e levavam o corpo desacordado de dona Iara para o carro. As crianças se espremiam escondidas para ver tudo, Ruan e Thaís sentiam vontade de abraçar e chorar, a velha saiu para o pronto-socorro. A porta estava aberta, ninguém sabia o que dizer e nem queriam contar a história no bar do Galo Cego. Ruan fechou a porta e todos foram embora, com a noite suspensa por um medo diferente. Ficaram sabendo pelo Matheus que soube dos filhos dela, era derrame ou infarto, por pouco não morre e ia ficar no hospital. Sem que vissem, Thaís pedia a Jeová pela vida de dona Iara, todos os dias e ocasiões, sem saber se era pecado orar por macumbeira. Ruan ficou em casa, sozinho, sem fazer barulho. A avó perguntou se brigou com os amiguinhos, ele disse que não queria que dona Iara morresse e a lembrou dos carrapatos. Ela disse para pedir para Deus, melhor, um santo, pois Deus ia ouvir o santo. Ruan olhava para as figuras que sempre conviveu e nunca pediu nada ou se quer prestava atenção. Ia pedir para Nossa Senhora, parecida com dona Iara, desistiu. Não sabia o que dizer e a quem, mas São Jorge, com um cavalo e uma espada que era capaz de matar um dragão era quem podia fazer qualquer coisa, as palavras saíram naturalmente, o pedido também e agradeceu antecipadamente. Ruan e Thaís voltaram para as brincadeiras da rua sem parar de orarem e pedirem preces, só Matheus parecia apático. Ruan ficou inconformado com sua indiferença da dona Iara, cobrou dele pela história de segredo e ia bater nele se mentisse da reza. Matheus saiu e foi embora. Dona Iara voltou perto do horário da novela, apoiada aos filhos, as crianças queriam espalhar as boas-novas. Ruan e Thaís foram à casa de Matheus, Ruan se desculpou e propôs de visitarem dona Iara, ele aceitou as pazes e falou que preferia ficar ali jogando videogame. Ruan soltou que se fosse assim, esquecia as pazes e nem precisava mais conversar com ele. Como eram melhores amigos, pausou o jogo e foi com o bonde. Chegando lá, dona Iara estava vestida de branco como santa com uma vela acesa ao lado de um copo de água, igual a vó de Ruan. A casa tinha um cheiro estranho, com pouca luz, mas o suficiente para os olhos de dona Iara brilharem. Thaís disse que pediu a Jeová pela vida dela, beijando a cabeça da velha, ela agradeceu e disse que devia estar viva por Deus. As crianças acharam estranho como falou de Deus, ela contou do que passou no hospital, teve medo da morte, contou de como chegou lá, como era a rua, das festanças. Eles ouviam tudo atentos, até das histórias de Orixás. Quando deram conta, já precisavam ir, Ruan contou da promessa de São Jorge, dona Iara riu, falando que ele era filho de Ogum, como disse a avó dele. Dona Iara se recuperou, voltaram os dias de cheiro com as brincadeiras. Nem parecia que tinha acontecido algo, era tudo o mesmo, menos Ruan, que invadia a vila sozinho, que ia para ouvir as histórias de seu protetor e pai, Ogum Iê. Elementos literários – Tradição oral, a memória como símbolo da literatura contemporânea Construções importantes – Sincretismo religioso, religião de barganha ”Ancestralidade e memória da cor ausente em ‘O Sol Na Cabeça’, de Geovani Martins” por Cláudio do Carmo

Conto 12 – Sextou

Quando a mãe do narrador descobriu que ele fumava cigarro, ela não deu um esporro como achou que teria, mas parou de dar dinheiro e falou que se era grande o suficiente para ter vício, podia trabalhar. Até ficou bolado, mas entendeu o papo. O primeiro trabalho foi de boleiro com Márcio, professor de tênis. Arranjou dinheiro para as compras e até dormiu com seu primeiro Nike quando comprou um. Tinha o maior orgulho em cada pisada, ainda mais quando foi para a escola com ele. Gostava da sensação de ajudar em casa, queria trabalhar para sempre. Entretanto, o mesmo desejo sumia quando precisava trabalhar para gente que nem olhava na sua cara com o sol ardendo na cabeça. Odiava os idosos mas principalmente os mais novos, o jeito de falar, andar, tratar funcionário, pensava no que gostaria de responder, só que o pior de tudo eram os problemas que reclamavam, que iam desde a empregada não foi para não aguentarem mais irem para a aula de inglês. Em casa ou na escola a raiva passava devagar, com os amigos e a comida na mesa. Um dia, tudo explodiu, um aluno disse que parecia um personagem de desenho, mandou tomar no cu que não era amigo dele, nem o aluno e nem ele acreditou no que aconteceu. A mãe ficou bolada, Márcio disse que quase fode com o trabalho dele e parou de falar com o narrador. Ele se sentia mal, foi ele que o levou para ver um jogo de futebol pela primeira vez, e ver o Flamengo fazer gol dava vontade de ir abraçá-lo e celebrar. Trabalhou em outras coisas, mas era sempre fazendo algo para os outros, chegar na hora e ter sangue de barata. A convivência com o padrasto piora a, a mãe ficava quieta, o narrador ia na máxima de “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, apesar de pensar que aquilo era uma bobagem, “o caralho”. Arranjou um trampo de indicação de panfleteiro, 30 reais por dia, das 8 às 16, diferente de como não se firmava em outras coisas antes, ficou quase um ano, dava para quem pegava o papel, quem não pegava, sempre tinha outro. Tinha tempo o suficiente para sonhar. No primeiro dia chegou bem antes, viu gente grávida, mais velha que os avós e muita gente. Pensou até não ser ali, mas viu o amigo, chegou o fiscal momentos depois e ele entregou um maço de papel, tinha que entregar na rua da Carioca, na esquina. No começo sentia vergonha, olhavam-no com raiva ou pena, levava para o pessoal até entender que não era ele, mas o que ele representava, um entregador de papel. O difícil era quando passava gente que conhecia, fingia que não estava ali, um amigo ouviu que ele estava na correria e até que queria se arranjar ali, outra era uma menina que estava desenrolando, só que ele continuou trabalhando e ela passou batida. Quis usar o pagamento da primeira semana em maconha, salvar quem salvou ele nos corres, pagar a internet e algumas coisas da casa, ia ficar duro, mas trabalhar o dia inteiro tem essa vantagem, nem dá tempo de gastar o dinheiro. Comprou uma passagem de um cracudo, podia ser golpe mas ele conhecia onde ficava, arriscado tentar dar um golpe, garantiu que tinha duas passagens, pegou o trem depois de tanto tempo e estava lotado no horário das cinco. Os camelôs tentavam achar espaço que nem tinha, em São Cristóvão os novos passageiros tentavam achar espaço e os antigos diziam para pegar o próximo trem aos empurrões. No Maracanã, choveu. Pensou na desgraça de uns e na felicidade de outros, eram dos garotos inseparáveis, magros de vareta, aproveitavam do clima e do dia para fazerem negócios. Conheceu eles quando foi comprar maconha, ele tinha rodado, ficou puto, e os garotos o salvaram. Chegou em Triagem, mal conseguia chegar na porta e pisou no pé de um. Não tinha força para passar, aí em Jacarezinho empurrou e saiu, sabendo que não ficaria para ouvir as reclamações. Estava enlameado, tinha até pouca gente que poderia achar normal, pensou que se tivesse operação, ia ter que achar outra rota. A maconha ali já fez muito sucesso e era ponto de outra facção, até encontrou um amigo por ali um dia, só não voltou com o amigo mototáxi porque ficar com droga no erro era difícil. Estranhava a falta de gente, da galera fumando maconha que era em abundância, além dos cracudos que não o abordavam pedindo qualquer coisa com insistência. Foi comprar a maconha com um menino que disse que a polícia já tinha passado de manhã, não tinha mais nada no dia e estava tranquilo agora. No que ele compra cigarro, a tia disse algo que ele não associou até ele ser encontrado por um policial na estação “Cuidado com os tiras!”. Eles abordam e começam a perguntar da maconha e, principalmente, do dinheiro que fez os olhos deles brilharem. Ele tenta concordar em ir para a cadeia, assinar papel, dar a maconha, mas que precisava do dinheiro. Os policiais, sem identificação, riem, falaram que ele perdeu tudo e tentavam esquematizar que tinham achado muito mais maconha com ele do que ele dia. No final das contas, ele vai com a maconha e fica sem o dinheiro, deram, após ele reclamar, 4 reais para pegar o trem. A passagem que comprou do cracudo não funcionou e teve que pular o muro do trem para economizar. Em casa, os amigos perguntaram se ele foi abordado, explicou como levaram o dinheiro e deixaram com a maconha. Foi dechavando, pensando em cada perrengue que passou com a polícia, ia crescendo o ódio que passou todas as vezes e naquele dia, foi ver tinha feito um charuto. Fumou, a galera reclamava dos vermes, mas fumou com tanto ódio, tristeza e desânimo que preferia que tivessem levado a maconha. Elementos literários: Regionalismo, hibridismo Construções importantes: Cidade partida, desigualdade social ”A identidade marginal periférica em ‘O Sol Na Cabeça’, de Geovani Martins” por Dra. Ana Paula Franco Nobile Brandileone – file:///Users/alessandroperre/Downloads/2049-6625-1-PB.pdf

Conto 13 – Travessia

Beto já tomou bronca pela primeira vez ao encontrar com o o dono do morro que mandava sumir com o corpo, não queria saber de processo ou problema, se não, quem ia para a vala era ele. Já fazia ano que entrou na boca, segurava a metralhadora mas nunca atirou uma vez. A favela nem tinha mais aparição da polícia, estavam em uma época de calma, era tanta calma que muitos entraram na boca e nem tinham como fazer algo para mostrar o valor, ficavam apontando para o invisível e imaginando tudo. O problema é que a falta de experiência de mostrar que era sangue frio ia ter que ser colocada agora para dar embora do presunto. O problema todo veio que o cara comprou pó e fez cumprimento de outra facção, em vez de dar um coro ou uma bronca deu uma rajada. Passou a adrenalina e o ódio do momento e viu que o corpo também era filho de Deus e de uma mãe, a merda já estava feita no primeiro tiro. Era tudo difícil, tinha que ver um carro para levar ao lixão, de moto não dava, já sentia que ia ser taxado de vacilão do morro. Ficou pensando em como perdeu a chance de ganhar grana, via todo mundo antes de carro importado e ele precisava pagar fiado em marmita, “bandido duro é foda”. Beto, vai contando o narrador, ia pedindo ajuda e todo mundo se desviava, na hora de arranjar droga e pagar de bandido com arma todo mundo aparecia. Ficava puto com o dono do morro que não deixava desovar o corpo no mato, a polícia nem subia para pegar droga, imagina entrar para procurar corpo de drogado morto, mas tinha que respeitar. Arranjou um Chevette para pagar depois, já sentia que ia ser parado, polícia gostava de parar carro assim, sem documento, com lanterna faltando. Pensou em levar de madrugada, mas aí mesmo que iam parar ele com sede de fazer trabalho. Decidiu ir no fim da tarde com a ajuda de Deus. Fazia tempo que não dirigia carro, no morro era de moto. Pensava no nome do corpo espremido no porta-mala, quis até que nem tivesse família e lembrou de como se afastou da mãe quando trocou os cultos por maconha. Teve dó da mãe, bastava o filho ficar na boca, mas ser assassino e ter que lidar com as fofoqueiras do culto ia ser uma desgraça, povo bom para cuidar da vida dos outros em vez da palavra de Deus. O pior rolou, o Chevette morreu em área de milícia, já estava todo doído de dirigir nervoso por trinta minutos e nem tinha grana para desenrolar ali. Viu um bar com uns coroas jogando sinuca, bebendo cerveja e que muito provavelmente tinha um miliciano. Os mesmos velhos já iam em direção ao carro e dava para ver a arma na silhueta da camiseta, vinham três. Ia explicar sem saber como, pode ser que se falasse que o presunto era viciado aliviasse, mas o número de tiros denunciava que trabalhava na boca, e aí ficou pensando em como ia morrer, ser torturado antes até verem dinheiro, e não iam ver, estava queimado e o pessoal do morro ia falar para matar mesmo, era destino de vacilão. Pensou na mãe de novo. Pensou agora em Deus. E o Chevette foi, ajudaram sem nem perguntar, ele mesmo já ajudou e nem sabia o que ia dentro, talvez as coisas melhorassem, era cria do bagulho, não tinha motivo para ficar taxado para sempre. No lixão, tinha até gente procurando, mas ele viu que nem prestavam atenção e já puxou o saco de lixo, pesado. Se fosse no mato, ia tacar fogo com gasolina, mas ali o fogo se alastrava e ia ganhar fama de vacilão e até pagar por isso, aprendeu a se controlar naquela situação e deixou para os urubus. Avaliava se voltava ao plantão, podia mostrar à galera que passou, errar era humano, qualquer um pode perder a cabeça, ou se não voltava e depois vinha no sapatinho. Só sabia que sentia ódio. Voltou e era como se visse o morro pela primeira vez com os moradores, cachaceiros, gente vendendo droga, e sua vida desmoronou na boca, mandaram o papo de vazar e nem se despedir, o morro ali não era lugar para gente emocionada. Achou que ia tomar bala, era feio morrer para vacilão, ele era cria, achou que não ia ser assim pela reação de quando voltava. Deu meia-volta, sem medo de tomar tiro pelas costas. Ia descendo, lembrando de coisas da infância, festanças, correr, sonhos de trabalho, sonhou em ser jogador de futebol, piloto, técnico de informática, nunca pensou no tráfico, olhava tudo pela última vez, sem saber onde dormir, com o peito doendo de amar e odiar aquele lugar e saber que tudo seria diferente a partir daí. Elementos literários: In Media Res, Anedota Construções importantes: O outro lado do tráfico, desconforto ”A representação da violência em ‘O Sol Na Cabeça’, de Geovani Martins” por Keury Carolaine Pereira da Silva – https://repositorio.uema.br/bitstream/123456789/1868/1/Dissertação – Keury -1 PDF- A.pdf