Texto 1
Com o avanço das tecnologias digitais de informação e comunicação e o crescente uso das redes sociais, foram extintas,
para muitos, as divisas entre o espaço real e o virtual. A sociedade de hoje experimenta o resultado do surgimento de diversos
fenômenos que transformaram a forma como interagimos com o mundo, através do uso dessas plataformas, que ressignificam diariamente os processos sociais e comunicacionais. Nesse cenário, a morte e o luto receberam um novo sentido para o
ambiente online.
O professor do Centro de Pesquisa em Mídia, Comunicação e Informação da Universidade de Bremen, na Alemanha,
Andreas Hepp, considera que a midiatização cotidiana confere às redes sociais uma intersecção da vida pública com a privada, na qual as pessoas se envolvem e interagem umas com as outras, mesmo sem ter vínculos fora das telas.
A velocidade de transmissão de informações por meio das redes sociais, não só fornecidas em tempo real, mas também
reemitidas por meio do compartilhamento, tem o poder de alcançar, em poucos segundos, inúmeras pessoas, tornando a propagação da notícia ainda mais rápida entre os usuários. Com isso, entre tantos usos e sentidos que as redes sociais atribuíram
para o luto e a morte, tornar público esse momento pode assegurar manter viva a memória de uma pessoa que morreu por
meio da lembrança coletiva, já que a morte representa algo como o fim ou o esquecimento de tudo.
Por outro lado, para além do desejo de dar voz à dor da perda, a atitude de tornar público também pode ser associada
ao fato de que a morte é uma questão que naturalmente desperta curiosidade e, quando partilhada no ambiente virtual, tem o
poder de transformar-se em espetáculo, através de likes, comentários e compartilhamento, chamando ainda mais a atenção
das pessoas para o acontecimento.
(Patrícia Patrocínio. “Você já se perguntou sobre o ato de compartilhar o luto nas redes sociais?”. https://mercadizar.com, 16.12.2020. Adaptado.)
Texto 2
A morte, parece, já foi mais simples. Antes das vacinas, dos antibióticos e de outras intervenções da medicina, morria-se
com tanta facilidade que chegar à idade adulta era quase um jogo de cara e coroa. Um estudo publicado em 2013 na revista
Evolution and Human Behavior analisou 17 sociedades — de comunidades paleolíticas a modernos caçadores-coletores — e
concluiu que, em média, 49% da população morria na infância.
Não que se banalizasse a morte. Desde a chamada pré-história, há registro de rituais fúnebres, inclusive entre os extintos
neandertais. Os textos deixados pelos gregos enfatizavam o quão trágico era perder um familiar ou amigo; no Antigo Egito, as
preparações para esse importante momento começavam ainda em vida.
Morrer, porém, era esperado como parte do ciclo da vida. Talvez, os avanços da medicina tenham nos deixado mal-acostumados: não importa a doença nem a idade do falecido, sempre nos assustamos com um anúncio fúnebre.
Contribui para isso a midiatização da morte, exacerbada pela internet. Morrer tornou-se um espetáculo. Explora-se cada aspecto
da vida do falecido: as últimas palavras, o derradeiro jogo de futebol assistido, a lista de maridos/namorados/ficantes, frases célebres,
festas a que foi ou deixou de ir. Parece que não basta homenageá-lo, ressaltando seu legado. Alguns sites, contas de redes sociais
e programas de TV exploram cada aspecto de sua existência exaustivamente, com o estardalhaço midiático.
(Paloma Oliveto. “A espetacularização da morte”. www.correiobraziliense.com.br, 24.07.2025. Adaptado.)
Texto 3
Quando abro o jornal ou assisto a televisão, encontro a morte em abundância: ela está presente desde as matérias de
violência até os obituários de personalidades. Os meios de comunicação, enquanto moldura social, tornaram-se locais de
focalização das práticas simbólicas ligadas à morte. Hoje, esse simbolismo adentra as telas.
A transformação das tecnologias de informação doou à morte um significado ampliado, mas, ainda contraditório, oscilando
entre a proximidade e o afastamento, como observamos ter acontecido, em geral, nas sociedades ocidentais, em diferentes tempos. À medida que os homens constroem diversas tecnologias a fim de repensar a questão de sua finitude (a partir de técnicas
de reprodução, aumento da expectativa de vida etc.), no desejo de afastar a morte de si, erguem monumentos e obras com o objetivo de eternizar a passagem pela Terra. Instauram, nesse sentido, práticas comunicativas que comportam além da informação
do enunciado, relações subjetivas que atuam como jogos de veiculação de afetos, e a afetividade está diretamente relacionada à
comunhão (à comunidade). A relação da morte com a vida, nesse sentido, é tecida dentro da ordem simbólica, fazendo com que
a morte pertença tanto ao universo do indivíduo quanto ao universo social, porque travamos lutas cotidianas a fim de participar
da sociedade, pertencer ao nosso tempo, para que, depois de mortos, sejamos lembrados.
(Renata Rezende Ribeiro. A morte midiatizada, 2015. Adaptado.)
Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva um texto dissertativo-argumentativo, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema:
Luto contemporâneo:
entre a espetacularização da morte e a manutenção da lembrança coletiva
Mês: março 2026
Proposta 1
Muitos adolescentes têm sido atraídos por comunidades em redes sociais conhecidas como “machosfera” ou “manosfera”, nas
quais circulam discursos de ódio e incita-se a violência contra mulheres. Você é um jovem jornalista que se propôs a participar
de uma dessas comunidades com o objetivo de reunir informações sobre aquele ambiente virtual perverso e produzir uma série
de reportagens a ser publicada em um jornal da mídia impressa. Concluída a pesquisa, você deu início à série escrevendo seu
primeiro texto: um depoimento pessoal. Nele, você: a) narra um episódio violento que testemunhou nessa comunidade virtual
e b) argumenta no sentido de combater discursos de ódio, que circulam no ciberespaço, dirigidos às mulheres. Para cumprir
essas tarefas, você deve, obrigatoriamente, apropriar-se de elementos da coletânea a seguir, demonstrando leitura crítica dela
na elaboração de seu texto.
- A comoção causada pela série Adolescência, da Netflix, é sintoma de uma revelação inconveniente: a de que o perigo está
dentro de casa. No enredo, o adolescente Jamie Miller (Owen Cooper), 13 anos, é autor de um homicídio. Ele esfaqueou Katie,
13 anos, sua colega de classe. E não se trata de um spoiler: a informação é apresentada logo no primeiro episódio. A questão
que a série levanta não é quem nem como, mas por quê. E não há resposta simples nem única. Online e sem conhecimento
dos seus pais, Jamie sofria bullying de Katie e acessava conteúdos redpill e incel, duas subculturas violentas da internet que
compõem a chamada machosfera ou manosfera. Redpill é o termo usado para designar indivíduos e grupos que pregam uma
superioridade masculina radicalizada e que compartilham conteúdos misóginos, de ódio e submissão de mulheres. Já incel, flexão em inglês das palavras involuntário e celibatário, indica pessoas que não conseguem encontrar um par romântico ou sexual.
Majoritários entre os incels, os meninos culpam as mulheres por seu celibato involuntário e, em muitos casos, pregam a violência
como uma vingança. Especialistas alertam que este tipo de conteúdo é cada vez mais comum na internet, atrai adolescentes
vulneráveis em busca de pertencimento e tem potencial para radicalizá-los a ponto de discursos de ódio online se concretizarem
em crimes cometidos no mundo real.
(Adaptado de Fernanda Mena. Radicalização de jovens é gradual e afeta vulneráveis, dizem especialistas. Folha de São Paulo. 25/03/2025.) - Em 2014, em Isla Vista, na Califórnia (EUA), Elliot Rodger, um jovem de 22 anos que se autodenominava incel, matou seis pessoas e feriu 14 em uma tentativa de “punir” as mulheres que o rejeitaram. Rodger gravou um vídeo antes do ataque e afirmou
que cometeu os assassinatos porque as mulheres não queriam fazer sexo com ele. Depois, ele mesmo se matou. Em 2018, dez
pessoas morreram atropeladas em Toronto, no Canadá, por um automóvel dirigido por Alek Minassian. Dias antes, Minassian
havia publicado em sua conta no Facebook diversas mensagens sobre sua frustração: “A Rebelião Incel já começou!”, escreveu.
Em 2021, foi a vez de Jake Davison, que divulgava muitas ideias associadas aos incels em suas redes sociais, matar cinco pessoas
no norte da Inglaterra. Após o ataque de Davison, as autoridades do Reino Unido manifestaram a intenção de declarar os grupos
incels como “organizações terroristas”.
(Adaptado de BBC News Mundo. Quem são os incels, o movimento sombrio retratado na aclamada série “Adolescência”. 21/03/2025.) - A expansão da machosfera exige uma resposta coordenada entre poder público e sociedade civil. A atuação precisa combinar
mecanismos legais já existentes, projetos de educação e iniciativas voltadas à prevenção da violência de gênero e da radicalização masculina. No campo jurídico, quatro leis brasileiras já são aplicadas em casos de violência online:
• A Lei Maria da Penha, de 2006, passou a proteger não só vítimas de violência doméstica, como também de agressões digitais.
• A Lei Lola Aronovich, de 2018, permite à Polícia Federal investigar conteúdos misóginos que incentivem o ódio contra mulheres.
• A Lei do Sinal Vermelho, de 2021, passou a reconhecer a violência psicológica como crime, com punição para situações que envolvam ameaças, perseguições ou manipulação emocional, tanto online quanto presencialmente.
• A Lei 15.123/25, conhecida informalmente como “Lei dos Deepfakes”, de 2025, reconhece a violência psicológica contra mulher
praticada com uso de inteligência artificial ou qualquer outro recurso tecnológico.
(Adaptado de Sara Coutinho. Machosfera: a violência de gênero no ambiente digital. Nexo Jornal. 19/06/2025.) - Segundo Christian Dunker, professor de Psicologia Clínica da USP, os sentimentos expostos pelo red pill revelam dificuldades
enfrentadas pelos próprios homens, que se veem com culpa e vergonha. “Sofrem porque se sentem criminosos sociais, porque
são obrigados a transformações que têm efeitos depressivos. E a violência, muitas vezes, é efeito colateral disso. É um sofrimento mal reconhecido, negado e invisível socialmente. Evolui, em tese, para formação de sintomas, para violência e disruptividade
social.”
(Adaptado de Leon Ferrari. Red Pill: O que ‘coaches’ de masculinidade, como ‘Calvo do Campari’, têm a ver com machismo? Estadão. 12/03/2023.)
Proposta 2
Você trabalha no setor de Recursos Humanos (RH) de uma empresa e, certo dia, escutou de um/a jovem estagiário/a o seguinte
desabafo: “Se tudo der errado, vou virar CLT”. Foi então que você notou que, atualmente, “ser CLT” adquiriu um sentido pejorativo e que a expressão tem sido usada como xingamento entre jovens. Preocupado/a com essa conotação jocosa atribuída aos/
às celetistas, você decidiu escrever uma nota de esclarecimento formal e institucional a ser enviada a todos/as os/as estagiários/
as da empresa. Em sua nota, você: a) explica o significado de “ser CLT” e sua importância histórica; e b) argumenta no sentido
de esclarecer aos/às estagiários da empresa os impactos desse regime trabalhista para o país. Para cumprir essas tarefas, você
deve, obrigatoriamente, apropriar-se de elementos da coletânea a seguir, demonstrando leitura crítica dela na elaboração de
seu texto.
- CLT é a sigla para a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), conjunto de normas reguladoras estabelecidas para assegurar
os direitos trabalhistas no Brasil. Trata-se de uma lei de âmbito federal que tem como objetivo determinar os direitos e deveres
dos empregados e seus empregadores. Ou seja, a CLT serve para regulamentar a relação de trabalho de ambas as partes, o que
inclui a remuneração, jornada e condições de trabalho, saúde do trabalhador, férias, licenças, vale-transporte, aviso prévio, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), seguro desemprego etc. É importante ressaltar que a aplicação da CLT se refere aos
empregos formais, em que o trabalhador tem a carteira assinada e jornada de trabalho registrada. Com abrangência nacional, a
CLT garante a proteção dos direitos do trabalhador e evita a ocorrência de abusos, assegurando condições justas e dignas de trabalho. Além disso, estabelece quais são as obrigações dos empregadores, como pagar a contribuição para a Previdência Social.
(Adaptado de Diário Oficial – Portal de envio de matérias. 30/08/2024.) - Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), no Brasil, assim como em outros
países, a indústria capitalista mecanizada associou, em seus primeiros tempos, “tanto a exploração extensiva como a intensiva
da força de trabalho”. Os operários eram submetidos a jornadas de 10 a 12 horas, muitas vezes acrescidas de horas-extras. Era
comum aumentar a velocidade das máquinas, impor multas ou utilizar violência contra os trabalhadores. Foi a partir de 1932,
com o início da implantação da ampla reforma trabalhista da Era Vargas, que o tema passou a ser tratado com profundidade. Em
4 de maio, o presidente baixou o decreto 21.364, que instituiu a jornada de oito horas diárias e 48 horas semanais na indústria.
A CLT limitou o período de trabalho adicional a duas horas-extras diárias. Além disso, criou as férias de 30 dias e, posteriormente, incorporou o descanso semanal remunerado (Lei 605/1949).
(Adaptado de Senado Federal. Jornada de trabalho de 8 horas na indústria completa 75 anos. Senado Notícias, 03/05/2007.) - O Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) foi criado em 1967 pelo Governo Federal para proteger o trabalhador em
momentos de vulnerabilidade como demissão sem justa causa, pagamento de tratamento para doenças graves, entre outras
possibilidades. Além de ser uma poupança do trabalhador, os recursos do FGTS podem ser utilizados para a compra de moradia nos casos de aquisição de imóvel novo ou usado, construção, liquidação ou amortização de dívida vinculada a contrato de
financiamento habitacional. No período de 2009 até setembro de 2022, foram investidos R$ 725 bilhões do FGTS em obras
de habitação popular. Desde 2009, já foram contratadas 6,8 milhões de unidades habitacionais e foram gerados mais de 22
milhões de empregos diretos e indiretos com os investimentos oriundos de recursos do FGTS. A importância do uso dos recursos do Fundo para o desenvolvimento do país ultrapassa ainda os benefícios da moradia digna, pois o FGTS financia, também,
obras de saneamento e infraestrutura, gerando melhorias na qualidade de vida, ao proporcionar água de qualidade, coleta e
tratamento do esgoto sanitário.
(Adaptado de ABRAINC Explica: FGTS e sua importância para a habitação. ABRAINC, 02/02/2023.) - Um argumento utilizado é que a CLT prevê direitos demais, o que encarece a contratação de mão de obra e desencoraja os
empresários. “Esse é mais um dos argumentos descaradamente falaciosos”, refuta o sindicalista Renato Bignami. “Empregos
são criados quando o governo cuida adequadamente da economia do país e estimula atividade produtiva. A função das leis
trabalhistas é proteger o ser humano da exploração no trabalho, garantindo a ele bem-estar e qualidade de vida para que a
sociedade como um todo progrida”, conclui. Essa história de que as empresas não suportariam o custo dos direitos trabalhistas
é velha. Nos anos 1960, quando se propôs o 13º salário, os empresários se opuseram duramente à medida alegando que era
dinheiro demais a ser pago e que acabariam indo à falência. Obviamente, a previsão catastrofista não se confirmou. Pelo contrário, os empresários passaram a lucrar mais, já que o salário extra na mão do trabalhador no fim do ano estimulou o consumo,
o comércio e a indústria.
(Adaptado de Senado Federal. Westin, Ricardo. CLT chega aos 80 anos com direitos do trabalhador sob disputa. Agência Senado, 28/04/2023.) - Até dezembro de 2024, o pagamento do 13º salário tem o potencial de injetar na economia brasileira cerca de R$ 321,4 bilhões. Este montante representa aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e será pago aos trabalhadores do
mercado formal, inclusive aos empregados domésticos; aos beneficiários da Previdência Social e aposentados e beneficiários de
pensão da União e dos estados e municípios. Cerca de 92,2 milhões de brasileiros serão beneficiados com rendimento adicional,
em média, de R$ 3.096,78. As estimativas são do DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos.
(Adaptado de DIEESE. Pagamento do 13º salário poderá colocar R$ 321,4 bilhões na economia do país. Nota à imprensa, 13/11/2024.)
Proposta de Redação
POLÔNIO [para Laertes]
Ainda aqui, Laertes! Já devia estar no navio (…).
Vai, com a minha benção, vai!
(Põe a mão na cabeça de Laertes.)
E trata de guardar estes poucos preceitos:
Não dá voz ao que pensares, nem transforma em ação um
pensamento tolo.
Amistoso, sim, jamais vulgar.
Os amigos que tenhas, já postos à prova,
Prende-os na tua alma com grampos de aço;
Mas não caleja a mão festejando qualquer galinho implume
Mal saído do ovo. Procura não entrar em nenhuma briga;
Mas, entrando, encurrala o medo no inimigo.
Presta ouvido a muitos, tua voz a poucos.
Acolhe a opinião de todos – mas você decide.
Usa roupas tão caras quanto tua bolsa permitir,
Mas nada de extravagâncias – ricas, mas não pomposas.
O hábito revela o homem,
E, na França, as pessoas de poder ou posição
Se mostram distintas e generosas pelas roupas que vestem.
Não empreste nem peça emprestado:
Quem empresta perde o amigo e o dinheiro;
Quem pede emprestado já perdeu o controle de sua economia.
E, sobretudo, isto: sê fiel a ti mesmo
E, tão certo quanto a noite segue o dia,
Jamais serás falso para ninguém.
Adeus. Que minha benção faça estes conselhos frutificarem em ti
No trecho acima, Polônio dá uma série de conselhos a seu filho Laertes, sendo o principal “sê fiel a ti mesmo”.
Com base nesses versos e na leitura global de Hamlet, escreva uma redação dissertativo-argumentativa, em
prosa, com 20 a 30 linhas, em que discuta a seguinte questão:
É possível, nos dias atuais, ser fiel a si mesmo, como aconselha Polônio?
Seu texto deve atender à norma-padrão da língua portuguesa, conter um título, além de ser inteiramente
escrito com caneta. Não assine nem identifique a redação de forma alguma.
Capítulo 1
Acordou em casa, tudo estava ao mesmo jeito mas ao mesmo tempo não. O pó cobria tudo, algumas roupas eram comidas pelas traças. “A mobília não saudou o seu regresso. Não tinha mais ninguém na vida.”. Sentia cheiros mas não eram tão confiáveis quanto seu ouvido. “Sobrava‑lhe a casa de jantar, a pequena saleta, os dois quartitos húmidos, a cozinha de tecto escuro aberta para a despensa, os frascos, caixas de farinha de milho bichada, garrafas de aguardente e o quintal, tomado pelas silvas, as urtigas e os cardos.”. A maresia fez com o capitão o mesmo que a casa, tinha degradado com o tempo. A natureza tomou conta da casa, tal como o mofo. Teve até medo da luz que entrava e do espírito da casa sair e o capitão fechou de novo tudo, respirando o pó. A casa tinha também cicatrizes, mesmo sem ter matado alguém. Ali, o capitão achou lugar para descansar o coração, mesmo que não merecesse.
Capítulo 2 Livrou-se da mobília velha e inutilizável, manteve uma mesa e duas cadeiras que usava para escrever. Mantinha-se sempre um silêncio, apreciava aquilo tudo. Queimou roupa velha e coisas que não usaria mais, despediu-se sem aplauso. Dormia na cama que a mãe se foi, sem sentir falta, sem ela saber dela. “Contava com a monotonia saborosa dos seus hábitos de capitão velho, retornado à casa de família desagravado para morrer em descanso.”
Capítulo 3 Ao poucos ia morrendo, achou consolo naquele pouco de jardim que ia arrumando e que a vida proliferava. O jardim se penetrava por tudo, remover tudo que ali havia de memória humana. Ele ia com calma, com as mãos, ora parando para fumar, ora sentindo o vento do mar de tarde. Tinha vezes que dormia, mas ia sempre mondando, limpando.
Capítulo 4 Temia endoidecer com o passar do tempo. Ia limpando, tinha já queimado vilas, feito a natureza se apavorar, mas ali continuava a mesmice. A natureza fazia o favor de lembrar que, no final, restariam apenas os cadáveres e a memória da morte, e assim ela conspira para que os homens adormeçam. Celestino, o nome do capitão, ia todo dia fazer algo novo, fosse em mar ou na casa. Pela mesmidão, a natureza achava um meio de se reconsolidar e ele ia perdendo a luta contra o tempo, queria pará-lo. Talvez fosse assim com Deus, “traz os resistentes à solta, prontos a rasteirar os felizes, no fundo do beco, para se desforrar do tédio.”.
Capítulo 5 Celestino plantou de tudo, de flores a árvores frutíferas e fazia o adubo. Chegou a ter exertos que pedia ou ganhava e tinha cactos que sabia a quantidade de espinhos. Tinha até uma caveira de conchas no bambuza que crescia bem. Padre Alfredo o visitou, indo dar sermão mas foi intoxicado pelos cheiros das flores e aquele sol a pino. Ia tirando conclusões daquele homem que cuidava tão bem das plantas. Gostava da mãe dele, era importante que nada o faltasse.
Capítulo 6 Costumava sair nas manhãs nubladas, de barba longa, sobretudo preto, cara de poucos amigos aos adultos e sorriso para crianças. “Tinha pelas crianças a simpatia de um admirador de obras perfeitas.”. As mulheres rezavam, os homens riam das histórias inventadas, as crianças morriam de curiosidade. Os cachorros nem visitavam a frente pois Celestino os espantava, até construiu um espantalho com cortinas esgarçadas e as pessoas inventaram histórias de rituais. Mas isso afastava os adultos, as crianças eram curiosas, três procuravam ver como ele era, mas viam um jardim florido, bem cuidado, e “um pires com três cubos de marmelada e três fatias de queijo curado.”.
Capítulo 7 Os boatos iam ao Padre, Celestino visitava a igreja, sem nunca se ajoelhar, sentava como se aquilo fosse sua forma de o assim fazer e se acalmar. Padre comentava que a casa tinha ouvidos a ele, sem que ele se quer dissesse algo.
Capítulo 8 Mas os boatos mais pareciam pelo passado do capitão do que a atualidade dita de um homem que dançava com o Diabo e falava línguas. Não conseguiu dele palavras ou até sua vida como uma pessoa com as mãos encharcadas de sangue e de rum, mas de um homem com ideias desconexas e talvez senil que não completa ideias, com as mãos cheirando adubo e terra. Ele se foi. “A loucura é o mais santo dos remédios. Ao contrário do que se dizia na vila e lhe assegurava a língua‑de‑trapos do sacristão, a casa não fora ocupada por um facínora, mas por um homem atrapalhado com os preparativos do seu enterro.”.
Capítulo 9 A narração abre aspas para a fala do Capitão, chamando as crianças como se falasse sendo Jesus Cristo, contando da história de sua vida ali na aldeia. Nasceu e não conhecia o pai, sabia que era Capitão, Nuno, delirava achando que caminhava em casa e o som do mar distante inquietava-o. Sonhava em ser dono da casa, de seu medo e da aldeia. Entre a narração, há um devaneio de se a história e a mentira valesse a pena se ele inventava, podendo ser possível analisar de ele inventar as histórias ou as plantas dali. Os pequenos suplicavam com os olhos para continuar. Foi ser capitão e a mãe deu a casaca e o cordão de ouro. Foi para a África, passou fome, febre, e foi apanhado por holandeses. Cuidaram dele, matou-os no sono e deixou a menina holandesa amarrada em um tronco de árvore lançada para a sorte. Foi assim sangue frio sempre e foi isso que o fez viver. Matou animais, queimou vilas e dormia tranquilo sem remorso.
Capítulo 10 As crianças comiam as amores, pedindo por mais, mais sangue. Conta como cuida das plantas, faz o café, cumprimenta e cuida de cada flor por pétala. Sonha e dorme pensando nelas. As crianças iam enjoando das amoras e o vento soprava as palavras de Celestino. A vizinha pensava que ia matar as crianças, o marido ria.
Capítulo 11 Os rumores a respeito do capitão pioravam depois da conversa com o Padre Alfredo. Dois anos se passaram e ele fazia parte do folclore da vila. As mães tapavam os olhos das crianças quando passavam por ali e as avós ameaçavam levar os netos para serem decapitados se não comessem tudo ou se comportassem mal. As crianças viam aquele velho grande mexendo nas flores. “Para pirata, era chato. Se calhar, disfarçava. Quem dera a Raul ter um roseiral bonito como aquele. Celestino deixou de querer saber se o espreitavam, se não lhe falavam. O espantalho fizera o seu trabalho.”. A casa de sementes vendia de má vontade e acusava de montar um altar para Judas Escariotes. Mas o mar chegava com gente nova e gente nova ia embora, por mar ou por terra, e foram logo deixando ele. Ele ia ficando cego e andando com dificuldade. Mas o que puxava todos do folclore eram as flores na primavera, quase como uma luxúria, uma tentação para pecar. De tarde, o capitão ia espreitar se o pires de guloseimas estava vazio. Sempre assim o encontrava.
Capítulo 12 Algumas frases soltas são citadas, misturando passado e presente do capitão, envolvendo cheiros, ratos, pessoas, conhecidas e ainda não citadas na história, além de, claro, falar das flores.
Capítulo 13 Celestino já não dava conta das trepadeiras e algumas plantas mais altas, planejou salgar a terra com a ajuda de ou Manuel ou Bentes. “de frente, a casa velha tinha rosinhas atrás das orelhas, de costas, era melaço e varejeiras.”.
Capítulo 14 Outra sequência de frases soltas, falando das rotas do capitão pelas Índias, os ratos, em uma previsão de que Celestino perdia noção da realidade e ia enlouquecendo.
Capítulo 15 Em uma noite que a vizinha o vigiava, um vento bateu e Celestino sentia que ia morrer. Mas a Natureza não o tomou, era livre para aquela casa que achou e criou com suas plantas.
Capítulo 16 “As plantas viam o jardineiro como as plantas vêem. Não se sentiam agradecidas. Tratavam o seu regador à semelhança da chuva que caía sobre elas nas noites de Outono. Florescerem não era o seu meio de meterem conversa com o jardineiro, mas uma forma de acentuarem a sua indiferença à declaração de amor que ele cultivava a cada hora. Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino, se eram sujas as mãos que as amparavam ou o que viera antes do amor que ele lhes dedicava.”. As plantas não faziam diferença para ele, tal qual Celestino não via diferença na vida do motim dos escravos que matou jogando cal no porão. As plantas continuariam, perceberiam a mudança como um chapéu usado moldou-se a uma cabeça e foi jogado fora.
Capítulo 17 A vila ficava a mudar aos poucos, mas Celestino não veria a mudança ao século XX. Imaginava e passeava na vila que se indiferenciava por ele, não era ódio e nem repulsa, mas o tempo passou e era um fantasma que não assustava. O padre era quem o via com frequência, dizendo que não era tarde, mas quando que “tarde” começava? Tinha nada a dizer aos ouvidos de Jesus. Quem o esperava era a casa, o mar tinha findado.
Capítulo 18 Novas frases soltas, que se misturam entre descrições e alucinações, lembrou da holandesa de oito anos, em Júlio e Saraiva, da infância, dos novos tempos e do mar que o tragava.
Capítulo 19 Celestino envelhecia. Talvez ali tivesse descoberto o amor, ou até mesmo a prova viva de Deus que há bem em todos, ou que não há justiça alguma no mundo que um capitão que ceifava vidas agora cultive flores lindas. Talvez até do fazer bem que viesse de quem fosse cabeça oca. Pensava de vez em quando em atirar nas costas do Padre Alfredo com nariz empinado de perfumista depois de falar do calendário da paróquia. Também as crianças cresciam em sua volta e casais se faziam. Pode ser que cada flor fosse uma vida ceifada por ele, dali surgia o amor, ao contrário do que pensavam de que plantava as flores do seu caixão. Mas uma coisa era certa – o tempo passava. As pessoas espiavam esse homem que ali ficava no jardim ou deliravam de noite que ele invadia suas casas.
Capítulo 20 Há uma descrição de Celestino avançando por uma mata virgem, com os pensamentos de que a morte o rodeava e a floresta o engoliria.
Capítulo 21 Há uma breve explicação dos pais de Celestino, o pai viu o filho nascer sem saber como criar e ainda menos que ia morrer em pai, profissão da família. A mãe trabalhava muito, fazia de tudo em roupas que a sufocavam naquele calor de Portugal. Ainda assim, há uma descrição do madeireiro vendo aquela madeira vinda do Brasil que contava uma história, de uma mata que Celestino se perderia. Ao fim, Celestino viu o sol e caiu sangrando na praia. Alguns trechos falam de pensamentos desconexos, entre festejar com negros, a noite, as estrelas e pães.
Capítulo 22 “Aprendeu a fazer queijo. Cozia a sua broa. Recuperou o alambique.”. Perdia-se no tempo e não sabia mais traçar qual tempo estava, até mesmo repetia as atividades de infância agora velho. No ribeiro, enquanto ainda estava bêbado, pensou ter ouvido vozes e pensava se estava ficando louco. Pensou ser a holandesa que prendeu no tronco, mas não achou nada e nem teve respostas.
Capítulo 23 Descreve-se as manhãs em sua casa. Sobe a fumaça do orvalho no chão, como sobe o do cigarro do capitão. Começou a vida brincando com marinheiros e acabava ela brincando com jardineiros.
Capítulo 24 Várias frases soltas de móveis, chuva e sangue de noite.
Capítulo 25 Enquanto cuidava dos potes de terra, viu um brilho. Achou que era o pingente que sua mãe tinha lhe dado, mas ele ainda o tinha. Foi tomado de um ataque de loucura e cavou sem parar, como se sua alma fosse feita para isso e sua vida disso dependesse. Cavou até cair a noite, estava todo dentro da cova e chorou. Sua pele doía mas cavava, e assim adormeceu, sem saber o que procurava ou o que tinha por ali.
Capítulo 26 Já era meio-dia e foi acordado com o sol a pino. Sentiu um galo na testa e foi dormir com os pés gelados e as ideias embaralhadas.
Capítulo 27 No dia seguinte, amanheceu mais velho, com a pança, a corcunda e a pele áspera que antes havia de um corpo esguio. Foi se ver ao espelho e se espantava. Cortou a barba longa no queixo e a deixou cair aos pés desconhecidos, como se ela não fizesse parte dele. Barbeou-se, com paciência e com calma, já que tremia e se arrependia de ver aquela pele seca. O mundo teve outro sentimento, a cara feita fazia a chuva e o vento ter outro sabor. Naquele espetáculo da natureza, o capitão teve sua última aventura em leme e “Fechou a porta e foi para dentro ver se comia alguma coisa.”.
Capítulo 28 Tinha ficado doente em uma das tantas visitas do médico. Recomendava descanso e caldo. O padre, provocando-o, perguntava se não queria confessar. Ele respondia não com a cabeça e veemente. Na época do frio, temia das plantas morrerem e ia conferir tudo apesar da doença. Talvez pelo sistema de irrigação ou algo maior, as plantas continuavam as mesmas, e essas flores e frutos mostravam piedade aquele monstro de outrora. Na época de São João, foi levado por Manuel, primo do caseiro falecido Amadeu. Mas não gostava do barulho e da gente, tentou voltar para casa, perdeu-se e machucou-se ao cair no chão. Manuel o encontrou em um beco. Implorou para ser levado para casa. “Foi a primeira e única vez na vida que implorou alguma coisa fosse a quem fosse.”. Ficava cego, a pele nunca mais ganhou cor, conhecia as flores pelo tato e pensava que as flores o respondiam pelo tato. Alguns animais o visitavam, gato e rafeiro, tipo de cachorro de guiar gado, deixava alguns ossos, os coelhos, que cavavam buracos, torcia os pescoços. Junto ao limoeiro, enterrou os cabelos das barbas, tão distantes dele quanto jamais foram. Pode ser que seria assim enterrado no jardim ou saberia voltar ao jardim pelo cheiro. “Todos os dias o jardim estava diferente. Jamais se entediava.”.
Capítulo 29 Certa vez, o padre havia lhe trazido um peixe, mas esqueceu na cozinha e ele apodreceu. O cheiro o enojou, acostumou-se com as flores.
Capítulo 30 “Raul, Pedro e Luzia ainda apareciam. Queriam ouvir histórias do corso.”. Deleitava-se com as crianças, os risos e os olhares das histórias que contava. Mostrou também suas tatuagens e cicatrizes. Mas tudo aquilo deu vazão de curiosidade para pena e nojo. Um homem que viveu tanto e degolou todos era agora escravo do jardim e vítima do tempo. Era ironia do destino que o mar tenha o deixado em terra. Não cuidou do jardim, estava escravo dele. “Mas depois de as crianças se terem ido embora, não saberia dizer quem o tinha visitado.”.
Capítulo 31 Celestino recebia visitas nortunas, principalmente de uma negra que preparava uma refeição a ele a até mesmo a de Padre Alfredo mais jovem. Estava sonâmbulo, acordava em lugares diferentes, sujo, lambuzado, cansado, machucado, sem lembrar do que fez. As pessoas não o olhavam mais e as crianças não o visitavam.
Capítulo 32 “A casa e o jardim, que começara por compor à sua imagem, estavam desleixados.”. Não completava frases que escrevia e também as atividades do jardim não eram mais as mesmas belas de antes. Sonhava de olhos abertos, misturava infância, passado e o presente de uma vez, ora cantarolando, ora navegando. A holandesa aparecia de vez em quando, dormindo perto dele como uma neta fria. Pensava na morte e o que seriam de suas plantas.
Capítulo 33 Em vez de continuar sonâmbulo, sonhava acordado, as plantas iam saindo de seu corpo, inerte, sem reação, babando com o brilho da Lua e o estado vegetal do antigo capitão.
Capítulo 34 Sem saber que era a morte, uma negra de saia e avental vinha lhe fazer companhia de dia. Cuidava dele, dava de comer, lia enquanto podava as rosas. Aos poucos, ia sendo embalado. Em uma noite, voltou do bosque, distante da morte, mais velho, mais cedo, cada vez mais distante do que já foi e piorando.
Capítulo 35 A morte ia o chamando, agia como um menino de tão indefeso, fraco e sem força ou meio de reagir. A negra ia o chamando por Capitão, talvez por ser um nominativo, ou talvez para ver se ali restava o que ele já foi, coisa que não restava mais nada além da carcaça. “Com medo dela, entregue aos seus braços, entre o sono e o delírio, derrotado. Não era hoje, ainda não. De volta, deitava‑o na cama, tapava‑o, voltava à cozinha. A morte, quando quer, tem toda a paciência do mundo.”
Capítulo 36 Celestino agora era patriarca de uma casa que vinham vivos e alucinações. Vivia com a escrava e a menina holandesa, “a velha negra por ele mandada ao Atlântico e a menina que o capitão deixara no mato de olhos vendados.”. Ia passando o tempo, ele, morimbundo, ouviu da morte de Mendes, de gatinhos nascendo, e as mulheres da casa iam e vinham. Mal sabia o que era realidade. Ele ia perdendo forma assim como o jardim. Como a morte não o engolia para a terra, aos poucos tudo perdia-se forma para virar uma coisa só. Só via a menina holandesa de olhos vendados, pois o que a vida fez, a morte não desfaz. Assim iam passando seus momentos.
Capítulo 37 Os gatinhos nasceram. Celestino os vigiava, alimentava, e pode ser que, farto do ato, a mãe desceu a ladeira e nunca mais teve com a ninhada. Os filhotes da gata tigrada também viraram gatos e também se foram.
Capítulo 38 Via o espantalho a dançar pelas ventanias. Pensava em como ele dançava sem precisar de descanso e caldo, coisa que ele precisava. Ficava entre pensamentos de ventos e lembrando dos corpos de escravos mortos no episódio da cal, assim como vendo o corpo da escrava sem vida ao mar. Ainda estava ali, pensava, cuidava dos cravos e aos poucos ia se rastejando, como se dissesse à Morte que podia vir buscá-lo.
Capítulo 39 O Capitão ia se esquecendo de andar, de falar, retornava ao estado de menino amedrontado. O jardim tomava conta dele, por meio do medo. O espantalho agora dava medo, ouvia as vozes e se apavorava dos barulhos de fora, de quem seriam, de quando. Tinha medo das plantas virem estrangular ele, como a velha preta, que não aparecia mais.
Capítulo 40 Manuel um dia veio buscar o pirata para ver o mar novamente, tirar daquele jardim que tratava as flores como filhas e parecia até que seu desejo era se tornar uma flor. Manuel quis estar perto de um pirata sério, quis fazer seu pé molhar, esboçar algo, nada. Era um velho em outro mundo, sem pensamento conectado. Manuel se decepcionou e ficou em silêncio naquele velho que respirava e tiritava com o som da maré. Levou de volta para casa, comeram dois nacos de pão e deixou-o na cama, aquele capitão que todos souberam do regresso já tinham morrido. Virou cantiga de pescador. Morreu sem que as plantas parecessem saber. O médico e o padre viram-no na cama. Cobiçou o pirata, que nas mãos que o padre tinha, faziam as plantas morrerem.