Considere o texto “Estudar? Para quê?” de Michael França, Ciclista, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico, economista pela USP, pesquisador do INSPER e visiting scholar nas universidades de Columbia e Stanford, publicado no Jornal Folha de São Paulo.
Num país marcado pela segregação sistêmica, poucos mitos são tão insistentes quanto o da educação como o principal passaporte para a ascensão social e diminuição das desigualdades. Muitos pobres sabem disso. E convencer um jovem desfavorecido a investir anos de sua vida no estudo, renunciando ao lazer ou à renda imediata que poderia vir de algum subemprego qualquer, é como pedir um ato de fé. Contudo, tal fé não costuma se sustentar quando vários exemplos ao redor teimam em contradizer a promessa. E a promessa é de que, se o jovem pobre estudar com esforço e dedicação, adquirirá habilidades e competências que abrirão portas no mercado de trabalho. O problema é que esse discurso ignora um ponto fundamental. Para muitos que vêm de origens desfavorecidas, o retorno da educação é menor. Quando chegam ao mercado, eles enfrentam discriminação e têm menos oportunidades do que os filhos das elites. Essa percepção mina sua confiança. Ao olhar para o futuro, esses jovens costumam ver poucos exemplos de pessoas como eles que conseguiram ascender socialmente por meio dos estudos. Eles sabem que o caminho da educação exigirá anos de sacrifício, dedicação e privações, sem garantia de que conseguirão se sustentar durante todo o percurso. Muitos, diante desse horizonte, desistem antes mesmo de começar. O efeito desse quadro se vê dentro das próprias escolas. Estudantes de baixa renda, em muitos casos, não se engajam nos estudos. Porém, nada disso tem a ver com suas capacidades, mas vem do fato de que eles não são ingênuos e percebem desde cedo que o esforço dos desfavorecidos, na dividida sociedade brasileira, raramente é recompensado. No fim, isso alimenta um ciclo perverso em que baixos níveis de dedicação levam a piores resultados, que, por sua vez, reforçam a descrença na educação. Uma profecia que se cumpre sozinha. Nesse contexto, os papagaios da educação, ou seja, aqueles que repetem exaustivamente que o país só avançará com ensino de qualidade, precisam aprender uma valiosa lição. A lição de que não se pode depositar todo o peso de uma sociedade excludente nas costas das escolas e dos professores. Não cabe a eles a tarefa de operar milagres. É preciso entender que a educação não é um sistema isolado. Ela não começa nem termina dentro da sala de aula. Ela é moldada pelas interações sociais, pelo ambiente em que cada estudante está inserido, por suas vivências, pelas expectativas em relação ao futuro e pela possibilidade de transformar o conhecimento acumulado em realização. Se a sociedade como um todo continuar relativamente fechada para os jovens periféricos, o valor da educação como promessa enfraquece. Dessa forma, avançar na oferta de uma educação de qualidade é um passo. Um passo importante, mas, ainda assim, representa apenas um passo. Sem transformar o mercado de trabalho, sem reduzir o peso da discriminação em nossa sociedade, sem justiça tributária, e sem reformas estruturais que corrijam as disparidades nos pontos de partida dos cidadãos brasileiros, nenhuma escola e nenhum professor conseguirão evitar que uma legião de estudantes se torne, cada vez mais, desencantada com o sistema. O texto é uma homenagem à música “Dá o Pé, Loro”, de Guinga. Disponível em: . Acesso em: 24 set. 2025.
A partir desse texto, considere a seguinte situação. O texto de Michael França foi publicado em uma coluna de “opinião” do Jornal Folha de São Paulo, logo ele recebeu todo tipo de comentário: algumas críticas bem fundamentadas, alguns elogios, muitas opiniões e também – como é bastante comum hoje em dia em redes sociais, fóruns de discussões etc. – vários comentários violentos. Em função dessa situação, o Jornal resolveu lançar uma edição especial de um caderno, onde serão publicados textos que discutem de forma substancial as ideias do artigo de Michael França. O Jornal estabeleceu apenas um critério para aceitar inscrições: o texto enviado deverá ter sido previamente escolhido por uma escola; portanto, ele será representativo do debate feito no interior dessa instituição. O fato é que sua escola decidiu participar do processo promovido pelo Jornal, e você decidiu participar também. Para tanto, a escola forneceu informações importantes para enriquecer o debate, sugerindo a leitura de parte da “Introdução” do estudo “Evasão escolar e o abandono: um guia para entender esses conceitos”, publicado no Observatório de Educação Ensino Médio e Gestão do Instituto Unibanco.
Introdução
A escola tem um papel social essencial quando se trata de potencializar vínculos sociais, de desenvolver habilidades físicas e cognitivas e de tornar o aluno um agente social. No entanto, existem percalços e negações diárias do direito à educação que aumentam a probabilidade de os jovens não darem continuidade aos estudos. Por trás de situações de abandono e evasão escolar, existem motivações diversas, desde gravidez, falta de conexão dos conteúdos com os interesses dos estudantes, necessidade imediata de geração de renda, entre outros. A predominância de currículos e práticas pedagógicas que não incluem a perspectiva de grupos historicamente excluídos, por exemplo, acaba por aumentar os índices de evasão e exclusão escolar de estudantes negros, LGBTQIAPN+ e com deficiência. As taxas de evasão consolidadas até 2023 mostram uma trajetória de queda nos últimos anos, totalizando 3,0% no ensino fundamental e 5,9% no ensino médio, conforme divulgado no Censo Escolar 2023. Um estudo assinado por Reynaldo Fernandes, com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Ministério da Educação (MEC), traçou em 2011 um perfil dos jovens com maior risco à evasão: são os de baixa renda, em sua maioria negros, forçados precocemente ao mercado de trabalho ou que engravidam já na adolescência. Fernandes apontou que esses fatores “externos” à atividade propriamente escolar se articulam a um processo contínuo de desinteresse e desengajamento, levando, por fim, ao abandono. Além disso, é na adolescência que o problema se apresenta com maior intensidade e por isso os índices de evasão no ensino médio são bem superiores aos do ensino fundamental. Segundo a edição 2023 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua Educação), que é realizada pelo IBGE, a taxa de escolarização entre os jovens de 15 a 17 anos naquele ano foi de 91,9%. Essa taxa retrata a proporção de estudantes de determinada faixa etária em relação ao total de pessoas dessa mesma faixa etária. O dado indica, portanto, que 8,1% dos adolescentes com idade típica do ensino médio estavam fora da escola em 2023, fato que dialoga com as muitas deficiências dessa etapa de ensino na educação brasileira. Tem relação, também, com o impacto das questões sociais na vida dos jovens e com experiências escolares que podem ter sido negativas em suas vidas desde o ensino fundamental. Adaptado de: . Acesso em: 24 set. 2025.
Ora, como você já deve ter percebido, o texto de Michael França é opinativo; nele, o autor apresenta seu ponto de vista sobre dificuldades encontradas por jovens, em especial os mais desfavorecidos, para se manterem na escola, e também sobre a relação entre a educação desses jovens e o mercado de trabalho. O texto da “Introdução” é predominantemente informativo; nele, são fornecidos dados que ilustram o problema da evasão escolar no Brasil, além de apontar possíveis causas disso.
De certa forma, podemos considerar que, no primeiro texto, o autor lança um olhar crítico ao futuro, ao argumentar que “Para muitos que vêm de origens desfavorecidas, o retorno da educação é menor. Quando chegam ao mercado, eles enfrentam discriminação e têm menos oportunidades do que os filhos das elites”. No segundo texto, vemos um olhar para o presente, ao afirmar-se que “existem percalços e negações diárias do direito à educação que aumentam a probabilidade de os jovens não darem continuidade aos estudos”.
Pois bem: a situação que está sendo proposta aqui é você escrever um texto, na modalidade dissertativa, que assume um ponto de vista em relação ao artigo “Estudar? Para quê?”, utilizando, para isso, o levantamento informativo presente na “Introdução”, fornecida pela escola.
A seleção dos textos apresentados pelos alunos à escola, entre os quais estará o seu, ficará a cargo de uma comissão composta por educadores de diversas áreas do conhecimento (literatura, sociologia, filosofia etc.). Lembre que o seu texto poderá ser escolhido pela escola para representá-la na edição especial do Jornal.
Observe que você poderá privilegiar diferentes aspectos presentes no artigo publicado no Jornal, formulando opiniões de aproximação ou de distanciamento em relação à análise feita pelo autor. O mais importante, porém, é que você consiga fundamentar – de modo bem-informado, ético e responsável – a sua interpretação a respeito das ideias trazidas para a discussão; é isso que se espera
de um debate que seja realmente relevante.
Bom trabalho!
Instruções
A versão final do seu texto deve:
1 – conter um título na linha destinada a esse fim;
2 – ter a extensão mínima de 30 linhas, excluído o título – aquém disso, seu texto não será avaliado –,
e máxima de 50 linhas. Segmentos emendados, ou rasurados, ou repetidos, ou linhas em branco terão
esses espaços descontados do cômputo total de linhas.
3 – ser escrita, na folha definitiva, com caneta e em letra legível, de tamanho regular.