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Tema de redação da UFRGS de 2024 – O Brasil é um país sem memória?

Considere, abaixo, o texto “Incêndio no Museu Nacional provoca reflexão: Brasil é um país
sem memória?”, de autoria do jornalista Leonardo Lichote, publicado no Jornal O Globo, em 08/09/2018.
Das chamas que consumiram o Museu Nacional parecia se erguer – palpável como os fragmentos
de documentos incinerados que também se erguiam dali – a confirmação do fracasso do Brasil em gerir
sua memória. Como se o crepitar do fogo chiasse a frase que, de tão repetida, se tornou um traço
incontestável de nossa personalidade: somos um país sem memória. Mas, para além do lugar-comum, o
que significa essa afirmação? Como nos tornamos uma Nação que deixa sua História queimar, quando
não voluntariamente a demole em nome da construção de algo mais moderno, seguindo a bençãomaldição de sermos “o país do futuro”, outra definição possível do Brasil?
O Globo conversou com pessoas que lidam com o tema e o pensam de diferentes formas. No
desdobramento que elas fazem da frase “o Brasil é um país sem memória” se desenha a consciência de
que há, aqui, muitos países e muitas memórias. Ou, como acredita o escritor Alberto Mussa, há país de
menos para dar conta de suas memórias.
— O Brasil não formou ainda uma noção de nacionalidade. Com o fim da escravidão, uma espécie
de esboço de nação começou a surgir, uma sociedade que pôde gerar um Machado de Assis ou mesmo
um Noel Rosa — afirma Mussa. — Mas então veio um projeto estatal de embranquecimento do Brasil,
com estímulo tremendo à importação de pessoas sobretudo da Europa. A imigração não é um problema.

Mas essas pessoas foram beneficiadas pelo sistema e em duas gerações se tornaram a elite do Brasil,
uma elite que não se identifica com o país.
Mussa ressalta que não defende ingenuamente a recuperação do mito da cordialidade ou da
democracia racial, mas sim que uma nação é formada pela contribuição de diversos povos:
— Seria importante que o pensamento filosófico europeu tivesse o mesmo valor do pensamento
mítico iorubá ou tupinambá. Assim que se constitui uma nação. Quando para você um cesto indígena
não significa nada, ou um tambor apreendido num terreiro de candomblé no início do século XX, você
não tem como cuidar dessa memória. Para se ter uma ideia, não temos nem um gentílico que nos
designe. Porque brasileiro, originalmente, é o português que veio aqui para pegar pau brasil e vender lá.
É uma atividade. Isso é muito simbólico do que o país passa.
Estudioso da História da presença africana no Brasil, o escritor e músico Spirito Santo ataca o
mesmo ponto e se refere a uma elite desenraizada que se comporta “como europeus de segunda classe,
ressentidos de sua suposta condição de asilados, degredados, piratas sem navio para fugir de uma ilha
estranha, já saqueada”. Ele faz questão de diferenciar brasis quando reflete sobre como o país lida com
sua memória:
— A grande maioria dos brasileiros cuida de forma exemplar de nossa memória por meio de
inúmeras manifestações culturais, disponíveis à atenção das instituições destinadas a organizá-los e
conservá-los, como as universidades, os museus. Mas o que fazer quando essas instituições assumem a
condição de espaços exclusivos de ascensão social para uma certa casta que se sente estrangeira e que
exerce poder por meio de arcaicos mecanismos de exclusão social de parte majoritária de nossa
população?
Sob outra perspectiva, a desvalorização da memória no âmbito institucional seria reflexo da própria
forma como o país lida com a cultura e a pesquisa. É o que pensa o antropólogo Roberto DaMatta, que
trabalhou por cerca de 30 anos no Museu Nacional.
— O Brasil não tem lugar para pessoas que fazem pesquisa, investigação e trabalho intelectual.
Essas pessoas existem, mas ninguém se interessa. Tanto que temos o ditado: “quem sabe faz, quem
não sabe ensina”. Educar no Brasil é tarefa de quem não sabe – define DaMatta. — Apostamos na
ignorância. Nada que não tenha a ver com algo prático, como ganhar dinheiro ou dar tiro em bandido,
atrai atenção.
Autor de “A utilidade do inútil”, o filósofo italiano Nuccio Ordine lembra que na mitologia grecoromana, a deusa da memória, Mnemosyne, era tida como a mãe de todas as artes e de todos os saberes:
— Perder a memória significa abrir mão de interrogar o passado para compreender o presente e
pre-ver o futuro — diz o filósofo, que marca a diferença entre memória e “raízes”. — A memória nos
ajuda a conhecer os grandes valores que unem toda a Humanidade. Em contrapartida, as raízes são
instrumentalizadas para construir uma perigosa narrativa da História fundada sobre uma ideia estática
de “identidade”, como os nacionalismos europeus que estão gerando formas perigosas de racismo.
Homero não é grego, assim como Jorge Amado não é brasileiro. A cultura é um patrimônio universal.
Na Grécia clássica, conta a antropóloga Regina Abreu (professora da pós-graduação em Memória
Social na UNIRIO), praticavam-se longos exercícios de memorização, de declamação, de repetição de
fatos considerados importantes.
— Memória é trabalho. Ela não se faz espontaneamente. É preciso convocar uma vontade de
memória — afirma a antropóloga, que defende que apenas o Estado pode assumir essa responsabilidade
em instituições como o Museu Nacional. — O trabalho ali empreendido é invisível, envolve muitos anos
em pesquisa. Tudo isso não traz visibilidade. Quem pode financiar este trabalho? O poder público. Nossas
elites econômicas, infelizmente, não estão interessadas em memória nacional. Preferem viajar para a
Disney ou visitar o Museu do Louvre em Paris. Como dizia Euclides da Cunha, elas continuam “cegas aos
quadros reais das nossas vidas”.
Disputa simbólica
A memória, muitos dos entrevistados notam, é um espaço importante de disputa simbólica. É
sintomático, por exemplo, que uma das primeiras declarações oficiais após o incêndio fizesse referência
à “lembrança da família imperial” (e não às pesquisas ou ao acervo do Museu Nacional).
— É na memória que definimos o que é mais importante e o que é menos. Ela não abarca tudo,
é uma ilha de edição — afirma, citando Waly Salomão, a historiadora Karen Worcman, fundadora do
Museu da Pessoa. — Quem está editando? É um poder imenso, porque isso influencia todos os valores
do país. O Museu da Pessoa nasce dessa consciência, ao se afirmar como um museu no qual toda e
qualquer pessoa pode integrar essa memória coletiva.
Ruy Castro, autor de biografias de personagens como Garrincha e Carmem Miranda, também
chama a atenção para esse “poder imenso”:
— Há várias passagens na história cultural do Brasil que foram “reescritas” 20 ou 30 anos depois
de acontecidas, e foi essa versão que passou a prevalecer. Como dizia George Orwell, quem controla o
passado controla o presente, e quem controla o presente controla o futuro. O texto acima vale-se de um fato traumático da história recente do Brasil – o incêndio que provocou
grande destruição do Museu Nacional e de seu acervo – para refletir a respeito de um tema importante
para compreender a sociedade brasileira, contido no subtítulo em forma de pergunta: “O Brasil é um país
sem memória?”.
Como se pode ver, trata-se de um assunto complexo, passível de ser expandido em diferentes
direções. Antes de tudo, porém, refletir sobre o tema é urgente e atual, exigindo a participação de vários
setores da nossa sociedade.
Isso posto, considere a seguinte situação.
Imagine que você é morador de alguma região do Rio Grande do Sul entre as que recentemente
foram afetadas pela maior enchente que já atingiu o Estado, o que causou danos enormes aos patrimônios
público e privado, e também à vida das pessoas residentes nesses locais.
Passada a catástrofe, um grupo de cidadãos do Estado lança a ideia de construir, em uma região a
ser definida futuramente, um espaço, um memorial, que reunirá a maior quantidade possível de materiais
diversos (informações, dados, testemunhos, imagens etc.), relativos à enchente. O fato é que essa ideia
encontrou resistência junto a outros grupos da sociedade organizada. Para esses, um acontecimento de
tamanhas proporções deve ser esquecido, devido ao sofrimento causado a tantas pessoas.
Em uma audiência pública ocorrida para debater a viabilidade, ou não, de construção desse espaço,
o grupo autor da ideia apresentou o texto acima, como forma de argumentar favoravelmente à sua
proposta.

Como você pode imaginar, esse texto causou grande controvérsia entre os presentes na audiência,
motivo pelo qual foi criada uma comissão que ficou encarregada de apresentar, em nova audiência pública,
argumentos sobre a pertinência das ideias, contidas no texto, à situação em questão.
Considere que você faz parte dessa comissão e que deverá apresentar seu ponto de vista
sobre a adequação das ideias formuladas pelo autor do texto para refletir sobre a viabilidade,
ou não, de criação de um espaço de memória da catástrofe.
Em outras palavras, você acha que os argumentos apresentados por Lichote, referentes
à construção da memória no Brasil, podem ser aplicados para discutir a construção, ou não,
de um espaço de memória relativo à catástrofe que atingiu o Rio Grande do Sul?
Você deverá organizar seu ponto de vista em um texto dissertativo, que será lido por você na
próxima audiência pública, em que estarão presentes grupos favoráveis e contrários à proposta.
Bom trabalho!
Instruções
A versão final do seu texto deve:
1 – conter um título na linha destinada a esse fim;
2 – ter a extensão mínima de 30 linhas, excluído o título – aquém disso, seu texto não será avaliado –, e
máxima de 50 linhas. Segmentos emendados, ou rasurados, ou repetidos, ou linhas em branco terão esses
espaços descontados do cômputo total de linhas.
3 – ser escrita, na folha definitiva, com caneta e em letra legível, de tamanho regular.

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Tema de Redação da UFRGS de 2023 – “Qual História pode e deve ser ensinada?”

O tema de redação da UFRGS do ano de 2023 e acesso 2024 foi “Qual História pode e deve ser ensinada?”. O tema tinha como base o texto motivador com o título “Deixem a História em paz” de Jaime Pinsky. Baseado na leitura, você deveria escrever um texto que concorda ou discorda dos pontos apresentados do texto e que deveria ser lido em um grupo de discussão sobre o ensino de História na escola entre pais, alunos e professores.

Você pode conferir as instruções e o texto motivador neste link ou vê-los a seguir:

Em junho de 2022, Jaime Pinsky, historiador, editor, professor Titular de História da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Livre Docente pela Universidade de São Paulo (USP), publicou um texto no Jornal Correio Braziliense, em que apresenta seu entendimento a respeito da História e do ofício do historiador. Leia o texto abaixo.

Deixem a História em paz
Se as lições da História fossem claras, Solano Lopez não seria considerado herói no Paraguai e bandido no Brasil, e Duque de Caxias não seria cultuado no Brasil e considerado um carrasco sanguinário no país vizinho. Ouço, em conversas informais, médicos, advogados, economistas e administradores de sucesso me informando (consolando?) que pensaram em estudar História, admiram muito os historiadores e gostam das lições que ensinam. Sinto decepcioná-los, meus caros, mas história não é para amadores. Na verdade, a maioria nem sequer tem ideia do que é História, embora todos se sintam no direito (obrigação?) de palpitar sobre o assunto, e até de exigir a troca de professores em muitas escolas.
Mas vamos por partes. Sim, senhores, História é uma área de conhecimento que nos toca profunda e diretamente, não é aquela coisa idiota e decorativa (nos dois sentidos) ensinada em meados do século passado no Brasil e em muitas escolas de primeiro mundo até hoje. Basta examinar livros didáticos, supostamente de História, em escolas públicas nos EUA: não passam de compêndios parecidos com listas dos infindáveis presidentes americanos e alguns cidadãos de destaque, algo sobre suas vidas, outro tanto sobre suas obras e poucas e até nenhuma palavra sobre as sociedades em que atuaram, a condição das minorias, a democracia na prática (não só a democracia formal), o papel das mulheres, a vida dos indígenas, dos negros, dos imigrantes e assim por diante.
História não é a narrativa, ou uma narrativa, nem qualquer narrativa sobre coisas que aconteceram. História implica se apropriar do passado a partir do presente. Se um estudioso de qualquer época e de qualquer tema do passado decide pesquisar algum fato que tenha acontecido, ele vai, obrigatoriamente, olhar esse passado a partir do seu presente. E seu presente, o ponto de vista a partir do qual ele se dá conta daquilo que aconteceu, será, hoje, diferente do ponto de vista de alguém que estudou esse passado há, por exemplo, um século. Um elefante será sempre um elefante, mas se o ponto de vista levar o observador a conhecer o elefante pela frente, ele poderá ver uma tromba enorme, mas se o enxergar por trás, verá apenas um rabinho. Deixando a zoologia de lado, é evidente que não se pode deixar de considerar a historicidade do próprio historiador.
Uma historiadora que se debruce hoje sobre a história das mulheres no período colonial brasileiro será levada a fazer investigações que outra, vivendo um século atrás, não terá feito. O comportamento, a prática social, a relação que as mulheres têm com o próprio corpo, a moral sexual, os objetivos profissionais, até mesmo seus anseios e sonhos têm a ver com sua realidade econômica, política, religiosa. Mulheres da Arábia Saudita só receberam autorização para dirigir veículos há poucos anos e isso, seguramente, pode parecer revolucionário para moradoras de países vizinhos, algumas ainda sujeitas a imposições machistas vestidas de dogmas de fé.
Mas a coisa toda parecerá um arcaísmo insuportável em sociedades que superaram esse dilema há muitas décadas. O historiador precisa ter sensibilidade e conhecimento empírico e teórico para pesquisar, entender e apresentar a questão. História não é para amadores. Uma questão precisa ficar clara: História não tem partido, não é de esquerda, nem de direita. Quem trabalha com ela precisa utilizar todas as técnicas que aprendeu, na faculdade ou fora dela, para não confundir a atividade docente com um espaço de pregação política. Seu compromisso, como docente, é com o conhecimento histórico estabelecido a partir de pesquisas feitas por gente séria.
Hoje, temos centenas de cursos de história no país, com gente boa se formando em muitos lugares. Temos também livros sérios que apresentam questões fundamentais da história com linguagem acessível a professores e alunos. Buscar obras de qualidade para ter bons pontos de partida é uma atitude necessária para não transformar a sala de aula em campo de batalha, ou palanque político. Por outro lado, cabe aos dirigentes educacionais oferecer suporte aos seus docentes. Tenho visto um movimento inaceitável de pais de alunos querendo interferir em programas de curso, em abordagens de temas sensíveis, chegando até a instrumentalizar seus filhos para questionarem de modo grosseiro os professores quando estes não apresentam abordagem histórica que os interessa.
Ler para os filhos, ler com os filhos, ler para dar exemplo aos filhos é, sem dúvida, uma forma melhor de ajudar o processo educacional do que insurgi-los contra os professores de História. Pedir para que as escolas cuidem mais da iniciação científica de seus alunos, para que o país tenha ainda alguma chance de chegar a um patamar que desejamos, é outra. É só querer ajudar de verdade.

PINSKY, J. Deixem a História em paz. Disponível em: . Acesso em: 27 set. 2023.

O texto é claro: o Professor Pinsky é contundente em defender seu ponto de vista, especialista que é em sua área do conhecimento. Podemos, a partir da leitura de suas ideias, destacar um conjunto de argumentos que o levam a defender suas opiniões; e isso não apenas sobre a História narrada em livros, mas também sobre o papel que têm, na construção dessa narrativa, a escola, os alunos, os pais de alunos e a comunidade em geral.
Agora, considere a seguinte situação.
Você está no último ano do ensino médio e faz parte de um grupo formado por pais, alunos e professores cuja função é debater o futuro do ensino na sua escola. Desta vez, o ensino da História será o grande tema de discussão: Que História pode e deve ser ensinada?
Esse assunto tem grande relevância, porque ele faz pensar sobre o nosso passado e o nosso presente; ele também faz refletir sobre manifestações de preconceito, de intolerância, de autoritarismo, de racismo e de tantas outras formas de discriminação. Uma boa discussão a respeito de tudo isso faz ver e entender melhor nossa conexão com a História da humanidade, o que inclui avaliar nossas ações, tanto positivas quanto negativas. A partir disso, podemos criar sociedades mais equitativas, justas e inclusivas.
O texto “Deixem a História em paz” certamente é um bom ponto de partida para o debate sobre o futuro do ensino de História em sua escola e, por isso, foi apresentado ao grupo do qual você faz parte, como forma de dar início à conversa.
Após a leitura feita pelo grupo, decidiu-se que algumas pessoas deveriam apresentar uma opinião fundamentada sobre as ideias veiculadas pelo texto do Professor. Você está entre as pessoas escolhidas. O conjunto dessas opiniões conduzirá o grupo a levar em conta, ou não, o texto como um parâmetro.
Como um dos escolhidos, você foi encarregado de dissertar sobre as ideias do texto “Deixem a História em paz”, de Jaime Pinsky. Nessa dissertação, você deverá apresentar ao grupo o seu ponto de vista a respeito dos argumentos expostos pelo historiador. A sua dissertação será lida perante o grupo e, certamente, será levada em conta para auxiliar a balizar o futuro do ensino de História em sua escola.
Lembre bem: você terá a oportunidade de opinar sobre algo que pode ter grande impacto na sua escola, o que pode incluir outras disciplinas do currículo e, na formação da cidadania de seus colegas.
Bom trabalho!