Conto 1 – Cela um
Parte 1
“Na primeira vez em que nossa casa foi roubada, foi nosso vizinho Osita que entrou pela janela da sala de jantar e levou a televisão, o videocassete e as fitas de Purple Rain e Thriller, que meu pai tinha trazido dos Estados Unidos. Na segunda vez em que nossa casa foi roubada, foi meu irmão Nnamabia que forjou um arrombamento e roubou as joias da minha mãe. Era um domingo.” Tinham ido para a missa, os pais foram visitar os avós e Nnamabia estava com o carro. Em vez de se rirem na missa, ele saiu por um momento e voltou ao final da missa. A narradora, sem nome ao longo do conto, chateou-se por pensar no que estava fazendo. Quando chegaram em casa, ela foi colher flores e Nnamabia anunciou em inglês, língua oficial da Nigéria, que foram roubados. Havia algo de teatral na bagunça. Os vizinhos foram até ver, mas o pai e a narradora sabiam daquilo tudo. Nnamabia era esperto, mas abriu a veneziana por dentro e sabia exatamente onde ficavam as jóias. Ele tentou se defender, falando as mesmas palavras teatrais que não faria aquilo. Sumiu por duas semanas e voltou chorando, cheirando a cerveja, tinha penhorado as joias com comerciantes Hausa, uma tribo do país. A mãe ainda quis saber por quanto, achando que foi pouco, a narradora queria bater na mãe pela falta de revolta do crime. O pai pediu um relatório do acontecido e dos gastos, até porque estava naquele hiato entre ensino médio e faculdade, era velho demais para apanhar. Guardou o relatório, praxe de professor, e falou alto como que ele poderia ter magoado sua mãe. Morreu o assunto ali. Mas Nnamabia seguia os filhos dos professores universitários do bairro, tiveram vida boa, vestiam-se bem, roubavam pela fama, mas os pais professores acusavam a ralé da cidade. Osita era dois anos mais velho que Nnamabia, mas não foi cobrado. Nnamabia roubou a própria mãe em vez de ir a outro lugar. “Talvez não se sentisse velho o suficiente, experiente o suficiente, para nada maior do que as joias da minha mãe.”. Nnamabia sempre foi assim, até mesmo comentavam da sua pele mais clara que o deixou lindo – caso de colorismo – e a filha era mais escura. Quebrou janela, perdeu livro, copiou chave, roubou e vendeu as respostas da prova, com os pais aumentando a mesada, dando dinheiro pra pagar ou nunca comentando do assunto. “Talvez o roubo jamais voltasse a ser mencionado se, três anos depois, quando estava no terceiro ano da faculdade, Nnamabia não tivesse sido preso e trancado numa cela na delegacia.”. Começaram os cultos, grupos violentos que dividiam richas e grupos inspirados em grupos de rap. Nnamabia era popular, o que gerava uma certa crença que ele não participava de um dos cultos, por faltar coragem e insegurança de querer participar em um. A polícia rondava, Nnamabia ria, e disse com olhos grandes que não era de um culto, sendo que respondeu isso preso na primeira visita.
Parte 2 Na manhã de segunda, três jovens roubaram um carro da professora e atiraram nos alunos em pleno meio-dia no campus. Os professores foram os primeiros a correr, cobraram mais por transporte e o reitor deu toque de recolher e cancelou as aulas noturnas, fato que confundiu a narradora – tudo aconteceu de dia. Nnamabia nem se abalou e andou pela rua no primeiro dia de toque de recolher. Foi preso e levado para outra cidade Enugu, onde os pais não conheciam quem era quem, “a capital do estado, onde ficavam a Divisão de Infantaria Mecanizada do Exército da Nigéria, o quartel-general da polícia e os guardas nos cruzamentos cheios de carros. Era o lugar onde a polícia podia fazer o que todos sabiam que fazia quando estava sob pressão para apresentar resultados: matar pessoas.”.
Parte 3 Foram visitar Nnamabia com suborno de comida e dinheiro para os policiais e levaram comida para Nnamabia. Ele estava contente, achava até bom ali pela organização do chefe da cela. Ele tinha subornado o chefe com dinheiro que enfiou no ânus ao ser preso. Não perguntaram de como foi preso, o que estava fazendo, mas ao partirem, o pai disse que devia ter feito o mesmo – prendido para aprender e mudar. A narradora não viu a diferença do irmão.
Parte 4 A situação ia piorando, Nnamabia ficava em uma cela que tinha que ficar de pé de tanta gente, ficou chocado com um garoto alto do Buccaneers que chorava de apanhar, viu um corpo morto saindo da cela um, mais por conta dos policiais tomarem seu tempo para que vissem o cadáver do que a curiosidade do menino. Quando apanhava, recebia apelidos de ser jovem mimado da universidade. A narradora vai se revoltando com as visitas, da sorte que ele tinha de poder comer ali, sem perceber que ele não tinha chances de ser solto. Ele gostava de sofrer.
Parte 5 Os comentários sobre a polícia sempre eram poucos quando eram confrontados ou parados. Toda situação era delicada de um sintoma maior do que o suborno. O chefe da polícia se gabava da prisão dos membros do culto, o dinheiro ia acabando e a narradora solta que não iriam visitar Nnamabia. O pai fica confuso, sem entender. Quando foram ao carro, com a mãe proclamando que não precisava ir, jogou instintivamente uma pedra, ouviu o estilhaço, o grito da mãe e esperou no quarto pela bronca que nunca veio. Realmente não foram, mesmo com o Peugeout 504 da mãe que era perigoso sair da vila.
Parte 6 Não se comentou do pára-brisa, os guardas comentaram da ausência e Nnamabia queria falar de ontem, mas de um velho que foi preso. É costume local prender o pai se não se encontra o filho, dizia em Igbo, língua que usa sempre para confessar ou se abrir emocionalmente. Humilhavam o velho, sem banho, sem comida, sem ter como subornar e ele se entristecia. Comia pouco e até queria levar para ele, mas os guardas nem se importaram. A narradora teve até compaixão pelo irmão malandro triste.
Parte 7 Houve uma nova morte no campus, o que abriu um precedente para prenderem um menino e ele confessar que o Nnamabia seria solto. Não levaram suborno e iam ansiosos e temerosos pela estrada. Chegando lá, até os policiais que agradeciam o suborno estavam sérios. A situação se agravou e Nnamabia não ia ser solto. Entre o desespero da mãe e o policial tentando explicar. Foram para uma outra delegacia, afastada e guiada para o policial que iam levar para economizar gasolina. Ele tinha apanhado, comentou como as crianças eram deixadas depois para a sociedade para serem punidas sem terem sido criadas direito. Nnamabia contou que o velho foi humilhado para ter um banho gratuito e ele foi levado para a cela um. Nunca foi perguntado ou dito o que aconteceu na cela um, foram para a casa.
Conto II – Réplica
Parte 1
“Nkem está fitando os olhos esbugalhados e oblíquos da máscara do Benin que fica sobre a lareira da sala quando descobre que o marido tem uma namorada. “Ela é bem jovem. Deve ter uns vinte anos”, diz sua amiga Ijemamaka ao telefone.” Ijemamaka conta como Obiora era um bom homem, viu ela dirigindo os carros dele por Lagos, mas levar a namorada para a casa era demais. Nkem agradecia, mesmo que não quisesse ouvir a voz da amiga, mas a outra parecia até feliz de falar daquilo. Conversaram do aumento dos preços e da promessa que nunca cumpriria de ir para Nova Jersey. Ao desligar, pegou um copo de água, encheu e deixou na mesa. Via uma réplica de máscara do Benin e lembra dos vizinhos que começaram também a colecionar e diziam da dificuldade de acharem originais. Nkem imaginava o ritual, dos homens fortes que usavam as máscaras para proteger o pai, como Obiora contava mas não sugeria do ritual, mas até mesmo de que os jovens preferiam não fazer aquilo.
Parte 2
Nkem se mudou na primeira gravidez, era tudo bonito e encantador de se contar como vivia ali e dos vizinhos que ajudavam. Ela parecia incapaz pelo sotaque de se virar sozinha, mas aceitava a ajuda. Sabia que Obiora queria que os filhos fossem independentes e de classe, afastando-se da realidade da Nigéria. Os vizinhos notaram a ausência de Obiora que não morava mais lá depois dos primeiros meses. Ele se riu ao telefone, falando que eles olhavam torto para quem vivesse diferente. Nkem tinha contato com outros casais, inclusive nigerianos, e as histórias não batiam.
Parte 3
Pensa em como foi todo o processo da aquisição da casa, da vida que vivia de plástico como Obiora disse. Quando um homem foi trocar o lustre, elogiou a casa, e viu nos olhos dele aquele sentimento de que esperanças absurdas são feitas naquele país. Pensava em como ficava indo, os filhos foram para escolas, estudavam, participava de clubes de pessoas que vieram para os Estados Unidos e tinham casa. Obiora ganhava mais dinheiro, apareceu em notícias e ia menos agora para lá, com medo de perder os contratos do governo. Logo iria buscá-lo no aeroporto e pensava em como tinha que se arrumar o cabelo e os pelos pubianos ao gosto dele. Percebe a ausência presente dele, vê o closet, as colônias, lembra do Natal que ele não estavam e ligaram do seu número sem resposta. Ele ligou de volta, falando que podia ser um garoto passando trote. Ela assim queria que fosse.
Parte 4
Ela se fita no espelho e corta os cabelos com intensidade e revolta. Lembra de uma conversa com uma mulher que generalizava os homens, falando que eles deixavam o dinheiro aqui mas iam para a Nigéria para serem bajulados. Amaechi, a empregada, é chamada e Nkem pede rispidamente que limpe o chão. Ela o varre, com respeito, mas a relação de empregada e patroa era difícil, havia uma igualdade forçada que passava-se tanto tempo que era uma ouvinte, alguém para se confessar. Pediu perdão, ela o aceitou.
Parte 5
Recebe uma ligação rápida do Obiora que estava trabalhando e corta para trabalhar mais. Nkem até tenta falar, mas não tinha forças. Pensa na casa tão vazia de um homem, das correspondências ali fechadas e da cama usada de um lado. Pensa na mulher de cachos curtos e que tem uma foto dela, além de como até ela mesmo saía com homens casados, coisa comum da Nigéria. Ela pensou na primeira vez que viu Obiora, diferente de antes, que os homens davam pequenos presentes e elogios, mas não passavam disso pois ela era da roça e com pouca instrução, Obiora a levou para jantar, conheceram-se num dia chuvoso, tomou vinho e achou azedo e se forçou a gostar, foram conhecendo pessoas, integrando-se na vida até ele a pedir em casamento. Era mais como ela ficasse feliz de ter sido informada que estavam se casando, não que precisasse dar uma resposta e escolher. Nkem decidiu sair de casa e fitou a foto da mulher de cachos curtos.
Parte 6
Nkem acompanha Amaechi cozinhar. Ela pergunta para a patroa como quer as coisas, o que sempre faz, mesmo que Amaechi cozinhe melhor. Elas discutiam sempre de coisas americanas em perspectivas nigerianas, mas finalmente falaram do Obiora, sem ser da janta ou da roupa, mas que Nkem descobriu uma namorada na casa. Mal podia definir sua casa, ela vivia ali nos Estados Unidos, mas Amaechi recua e vai falando que não era da conta dela. Nkem quer conversar, diz que os homens são assim, com namorada em casa ou não e que Obiora era bom homem e a amava. Mas que ela no fundo sabia. Nkem pensa nessa recusa e se sabia mesmo, até mesmo no que Amaechi disse de Ijemamaka poderia saber, mas vai saber se ela não teria inveja, normal entre as mulheres na mesma situação de Nkem.
Parte 7
Decidiu ligar para a casa de Obiora, coisa que não fazia. Era meia noite por lá e um empregado novo atendeu o telefone. Perguntou várias vezes quem estava por ali, como se procurasse a namorada. Desligou, pensava naquele país que ganhou o visto e na proposta de Amaechi de uma bebidinha, para comemorar. Pensa em voltar para a Nigéria, mas como?
Parte 8
Foi diferente buscar Obiora no aeroporto, não ia risonha como sempre. Ele conseguia comprar a ausência com presentes e saídas, mas logo as crianças questionariam o pai ausente. Quando Obiora a viu, questionou o cabelo. Nkem viu as crianças quietas na viagem, talvez sentiam a ressalva. Nkem disse para Obiora dar atenção às crianças.
Parte 9
Obiora trouxe para casa finalmente uma peça original. Ela estava encantada. Chegou a perguntar da história, e até se os meninos eram felizes por matar pelo pai em vez de só não fazerem aquilo. Obiora riu como se não entendesse e disse que felicidade hoje era diferente de antes. Chamou-a para tomar banho e Nkem percebeu sua barriga redonda, pensou se sempre foi assim com homens casados, flácido. Ele a chamou para o banho e até parece que usou a situação que não a ouvia para dizer que logo o pai que morava por dois meses na casa e vinha no Natal seria questionado. Ele não ouviu e fazia tempo que não a chamava para se banhar, despiu-se e foi com ele.
Parte 10
No banho, enquanto ensaboava as costas de Obiora, dizia calma e enfatizando a união de como queria registrar os filhos em Lagos no próximo ano escolar e poderiam visitar os Estados Unidos nas férias. Ela foi até elogiada do cabelo antes, mas parecia tentar se convencer também que ia. Obiora perguntou o motivo, respondeu que queria saber quando um empregado mudava. Obiora disse que podiam conversar, talvez fosse aquela coisa de nunca ter que decidir que Nkem gostava do relacionamento, mas ali parecia decidido.
Conto III – Uma experiência privada
Parte 1
“Chika entra primeiro pela janela da loja e segura a veneziana aberta enquanto a mulher vem atrás. A loja parece estar abandonada desde muito tempo antes do começo da onda de violência; as fileiras de prateleiras vazias de madeira estão cobertas por uma poeira amarela, assim como os contêineres de metal empilhados num canto. É um lugar pequeno, menor que o closet que Chika tem em casa.”. Chika tinha perdido a bolsa original e ouviu da moça que perdeu o colar. O sotaque e a fisionomia das duas eram diferentes, Chika ia percebendo e pensava que a outra mulher, sem nome mencionado, era muçulmana, o lenço, o sotaque, rosto estreito e a beleza das coisas baratas diziam que era Hausa, e quanto Chika vestia um rosário forçada pela mãe, pele clara, era Igbo e cristã. Era a mesma briga de lá fora, os muçulmanos atacando os igbos a machadadas, mas ali ela agradeceu. Tudo aconteceu rápido na feira, saiu correndo e as duas estavam por lá, os gritos vieram em várias línguas. A rua continuava quieta, Chika entendia menos da situação do que entendia a muçulmana, sua participação de revoltas eram poucas e tremiam ao ouvir as pessoas começarem a fazer barulho do lado de fora. A muçulmana disse para fechar a janela e ela assim o fez. A poeira da loja pequena ficou densa por ali. Apesar de mal saber o que acontecia, quem matava e quem se perdia, logo sairia dali e veria as carcaças em chamas, carros quebrados, de um igbo cristão que passou em cima de um alcorão na rua e foi atacado por muçulmanos que estavam por ali e chamaram mais para se juntar. Ela vai imaginar tudo e vomitar, tudo naquela época de cinzas de Natal de bodes que se queimavam na época. Na hora, estavam discutindo da fumaça e sentaram. Chika ainda dizia de sujar e pensava nas camisetas que comprou com a irmã, Nnedi. Ela nunca a encontraria, levaria uma foto que tiraram ainda fora e com um sorriso forçado. Estavam de férias ali em Kano, eram universitárias em Lagos e explicava para a muçulmana, pensando se entendia aquilo. Explicou da tia, diretora da secretaria, conversava daquilo tudo que parecia notícia, não que poderia acontecer com ela. Sentou perto até demais da muçulmana e sentiu o mesmo cheiro de sabão em barra da empregada. A muçulmana disse algo genérico de ser obra do mal, Chika via quão esguia era e até se perguntava do que achava e até se tinha como ela achar algo. Ela perguntou da residência de Chika, que pensava na irmã discutindo de tudo aquilo de religião e política. Chika explicou da residência, a muçulmana disse que era feirante, não sentiu sarcasmo ou ironia, falava séria. Desejou que as bancas estivessem a salvo, mas ela disse que sempre destruiam tudo. Não queria continuar falando daquilo, pois eram hausas que matavam igbos e depois os cristãos que matavam muçulmanos de vingança. A muçulmana falou do peito e tirou algumas notas dali guardadas e o peito ardia. Chika lembrou de quando se confundiu toda ao avaliar um menino, disse do mamilo dela e viu que tinha filho. Recomendou algumas coisas, que ouviu pela primeira vez, agora já com 5 filhos. Disse que foi o mesmo com sua mãe, mesmo que fosse ela e Nnedi, mentia assim quando nervosa. Falou da filha que estava vendendo amendoim e se perdeu na confusão. Chika pergunta se era o neném e a muçulmana fica impaciente, dizendo que era Halima, a primeira, que o bebê estava em casa. Chika desejaria que houvesse algo que tivesse deixado Halima em casa naquele dia. A muçulmana chorou baixinho, numa experiência privada, sem gritos e pedidos como Chika estava acostumada. A muçulmana pediu que Alá protegesse sua filha e a irmã de Chika. Chika sabia que não era “amém” que deveria dizer, mas também não sabia o que os muçulmanos diziam, concordou com a cabeça.
Parte 2
As lojas já estavam abandonadas fazia tempo a decreto do governo. Encontraram uma torneira e saía uma água espessa suja. A muçulmana se lavou e ia rezar. Chika queria dar espaço, sabia que era uma experiência privada. Pensou em como zombava a religião da mãe, da reza, menosprezava, e quis acreditar em algo. Dado um momento, quis fugir, esperava até que a muçulmana a impedisse ou a abençoasse, mas ela a olhava com os olhos assustados e dizendo do perigo. Foi embora, com a promessa de que traria a família para levar a muçulmana para a casa que era longe.
Parte 3
Enquanto anda pelas ruas, ela não ouve nada. Quase que de forma proposital, vê corpos e mais corpos enfileirados e carbonizados. O cheiro a deixa enjoada e ela corre desesperada de volta para a loja com dor na perna. Ela bate desesperada de volta para a loja que a muçulmana estava e a janela abre. Fala da perna e oferece caixotes como banheiro improvisado. A muçulmana tem dor de barriga e depois se limpa na torneira. As duas ficam na canga. No futuro, Chika leria notícias que simplificariam os corpos queimados e da violência dos muçulmanos, ficaria revoltada com o uso de palavras e até jogaria o rádio na parede.
Parte 4
A manhã vai chegando e elas ouvem vozes do lado de fora. A muçulmana abre a janela e reconhece alguém, falando em Hausa e sem que Chika pudesse entender. A muçulmana queria ir embora antes do exército chegar ali. No futuro, a tia ficaria preocupada com Chila e Nnedi, sem saber do paradeiro e pensando como aceitou elas ali. Não sabemos da história da filha da muçulmana, Halima. Elas se despedem, a muçulmana disse o que fazer com a ferida na perna de Chika, e ela pediu o lenço, caso sangrasse de novo, apenas querendo uma lembrança. A muçulmana hesitou, talvez não entendendo, mas logo disse que sim.
Conto IV – Fantasmas
“Hoje eu vi Ikenna Okoro, um homem que eu acreditava estar morto há muito tempo. Talvez devesse ter me abaixado, pegado um punhado de areia e atirado nele, como meu povo faz para ter certeza de que uma pessoa não é um fantasma. Mas sou um homem educado no Ocidente, um professor de matemática aposentado de setenta e um anos e supostamente munido de ciência o suficiente para rir com indulgência dos costumes do meu povo.”. A aposentadoria não tinha chegado, os funcionários já o conheciam de tempos e de hábito daquilo. Amaldiçoaram os administradores, falavam do que aconteceu e também o narrador-personagem, chamado de Prof. muitas vezes, era como se fosse mais respeitado e importante pelo título. Perguntavam da família, ele tem Ebere de esposa e Nkiru de filha, desejavam que a filha estivesse nos Estados Unidos em vez da Nigéria, local que acreditavam que as pessoas eram ingratas. O narrador percebia coisas banais, como alguém comendo banana, o pomo de Adão de outro, a pele ressecada do período próximo ao hamatã de todos. Via os homens dividindo dinheiro e se zombando ao comprar amendoim e bananas e pensa se era para ter ficado assim, salvo fosse o cargo no Ministério Federal das Estatísticas e os dólares que a filha mandava sem ser pedido. Pensou que era covarde demais para se submeter em tais condições que viu. Daí que vê Ikenna Okoro. Ele o chama, James Nwoye, e assim o narrador explica que ele não o conhecia intimamente, mas pela fama que tinha na universidade e como desafiava as normas e falava da revolução. Os colegas admiravam ele, mesmo sendo da sociologia. E ele ainda sorri com todos os dentes, James tinha perdido um, recusado-se a fazer um procedimento e teve inveja. Lembrava da morte dele, 6 de julho de 1967, uma guerra de invasão e resistência de Biafra. Apesar do povo fugir, via a união e as notícias que logo tomariam conta de retrocederem as tropas e tomarem de volta o campus. Ikenna tinha voltado, talvez para pegar materiais ou manuscritos, mas a notícia que ficou foi de alguém indo contra o exército e sendo morto. Julgaram ser Ikenna. Ele contou, rindo, diferente da risada que dava quando discordavam dele. Pensou até na situação e em como haviam sabos, sabotadores da causa que trocavam sua segurança para uma passagem longe da Nigéria e ali se encaixava bem. Ele disse que não era assim, sem ter ouvido qualquer insinuação, mas que fugiu com a Cruz Vermelha para a Suécia. Achou estranha a história, mas sabia que teria mais nada depois daquilo. Ele ficou todo o tempo na Suécia, eles tinham voltado logo depois em 1970 para Nsukka e viram a casa destruída, usada, violada, desrespeitada. Foram para os Estados Unidos, arranjou vaga de professor por um amigo e voltaram em 1976. Ikenna perguntou de Zik, a outra filha de James, que havia perdido uma boneca no dia da fuga e Ikenna sempre insistia em pagar uma Fanta a ela. “A guerra levou Zik”, eu disse, em igbo. Falar dos mortos em inglês sempre teve, para mim, um inquietante caráter definitivo.”. Ficou aliviado de não ter que explicar como, até comentou que teve outra filha e Ikenna falava rápido, uma história de como contava de Biafra quase que repetidas vezes para um público. James sentiu uma nostalgia e fugiu em pensamentos. Falaram de outro colega, Chris Okigbo, poeta e gênio que faleceu lutando pelo país. Achou ter falado muito e tentou contar outra história de quando fugiu, jogaram um homem ensanguentado na parte de trás do carro e como sujou e o fez pensar em Ikenna, mesmo que tudo fosse exagero. Ikenna falou que ouviu tantas histórias, respondeu que não casou de novo, a vida na Suécia era mais do mesmo e voltou para ver as coisas ali, “como se isso significasse algo além do que fazemos com nossos olhos.”. Perguntou da mulher, errando o nome, e James disse que ela morreu faziam 3 anos em Igbo. Ikenna lamentou, James percebeu como ele era um homem de possibilidades, o que poderia ter sido. Ele comentou das visitas que recebia de Ebere, Ikenna achou estranho mas não falou, apenas entonou. James pensava o que seria se tivessem ganho a guerra, do que seria se falasse para a filha das visitas e lembrou da primeira vez que ouviu a casa sendo visitada por ela e o cheiro de Nivea que ficava ao acordar. Pensou no neto que não falava Igbo e não entendia o motivo de cumprimentar mais velhos, pois pequenas cortesias no outro mundo precisam ser justificadas. Contou mais da filha, tentando desviar do comentário e falou do diploma e seu emprego. Ikenna olhava para o flamboyant com os homens e pensava na época de estudos e como era diferente, mesmo que ele e James tenham estudado nos Estados Unidos. Contou também da situação do reitor, antigo dançarino, ia despertando memórias em James, contou do desvio de dinheiro, a má administração e a falta de aposentadoria. Outros mentiam a idade para não aposentarem. Ikenna teve revolta, ouviu aquela voz de antes. James respondia que era assim mesmo, com um gesto de balançar a cabeça que significava que era um assunto inelutável. Perguntou da vida, em Igbo, aposentadoria era “descanso da velhice” e ele assim o fazia, caminhava, via manuscritos, comia sopa, falava com a filha e deixou de ir para a igreja. Estava convicto que a incerteza que os levava para a religião e agora passava os domingos na varanda com os abutres espiando ele. Um outro redomoinho se formou e James convidou para que fossem para sua casa, mas ele precisava ir. Convidou para ir depois mas sabia que não iria. Voltou dirigindo, vendo a paisagem, pensando no que foi, o que não é mais e o que é ali. Chegando em casa, teve uma mistura de tempos, pensando na estratégia táctica de que os sobreviventes de Biafra nunca mencionavam ou discutiam dos sobreviventes e da guerra, de como a televisão não pegava sinal, do escritório gasto, da filha ligar e contar do neto e da visita de Ebere que esperaria.
Conto V – Na segunda-feira da semana passada
Parte 1
“Desde a segunda-feira da semana passada, Kamara começou a passar um tempo diante dos espelhos. Ela virava de um lado para o outro, examinando sua barriga proeminente e desejando que fosse chata como a capa de um livro, e então fechava os olhos e imaginava Tracy acariciando-a com aqueles dedos manchados de tinta. Fez isso agora, na frente do espelho do banheiro, depois de dar descarga.”. O menino que Kamara cuidava, Josh, perguntava do que era no banheiro e respondia o que queria comer, tendo já jogado fora o suco verde estrategicamente na ida da mãe ao banheiro. Toda semana mudava o que ocupava a geladeira de bebidas para o menino, e sabia que logo mudaria pois Neil, pai de Josh, devia ter escondido a revista da receita. Josh estava cansado mesmo que quisesse ver ela cozinhar, o que gostava, tinha praticado muito para a competição de leitura. Colocou um desenho para assistir e viu uma criança morena – elogia na Nigéria e ofensa nos Estados Unidos. Lembrou da surpresa de Neil quando falou que era nigeriana e falava inglês bem, como se a língua pertencesse a ele. Tobechi, marido de Kamara, aconselhou não falar sua escolaridade, não seguiu o conselho, aceitou o trabalho de falta de oportunidade. Ainda ouviu que poderia ensinar uma língua nigeriana ao Josh, ele estudava muito e até ouviu que ele era birracial, até que ela repetiu dizendo que era mestiço, Josh pediu em um tom que não repetisse. Ela se desculpou, sem saber porquê, mas o tom a induziu. Ficou surpresa ao receber a ligação que perguntava da sua disponibilidade. Ouvia muito da educação preocupada com o futuro do menino, dele sempre preocupado com o que não faria ou faria em vez de preocupado com o momento, mas Neil parecia ser um homem que queria ser ouvido e assim o deixou. Ouviu da dieta que não entendeu muito os ingredientes e perguntou da mãe de Josh, Tracy. Ele disse que estava ocupada, era artista plástica e trabalhava no porão. Não devia ser incomodada e repetiu que não incomodaria ninguém, ouvindo um tom que ouvia de empregadas na Nigéria. Pensou de novo naquilo tudo de emprego, mas queria um motivo para sair do apartamento. Passaram-se 3 meses. “Três meses trabalhando como babá de Josh. Três meses ouvindo Neil falar de suas preocupações, cumprindo as instruções que a ansiedade dele o levava a dar, desenvolvendo uma espécie de piedade afetuosa por ele. Três meses sem ver Tracy.”. Tracy era um som ambiente, mal surgia ou aparecia e sua existência era deixado de lado. Até Neil tratava com neutralidade dela. Kamara gostava da atenção que Josh a dava. Tudo ia assim, até segunda-feira da semana passada. Viu Tracy pela primeira vez de leggings, suéter, mão com tinta e dreadlocks. A partir dali, começou a querer perder peso e usar maquiagem, na esperança de vê-la de novo. Narra também como Neil acrescentava dinheiro quando chegava tarde e falava de fazer a janta como se fosse difícil abrir pacotes e colocar no forno. Neil ligou e perguntava de Josh e da maratona, queria até o levar para sair e perguntou se ela não queria ir. Mentiu que queria ir para casa, tempos atrás até gastaria mais tempo ao telefone, mas não queria aquela intimidade. Lembrou-se de um dia que Neil procurava por Josh após ver uma notícia de um pedófilo parecido com um dos entregadores. Tinha pena disso tudo dos americanos. Viu como os americanos ficavam de barriga cheia e isso dava tempo de se preocuparem com doenças que acabaram de ler, gabarem-se da criação e dos sacrifícios como se fossem exceção. Tobechi até perguntava da casa deles, mas queria se afastar daquilo que haviam se tornado.
Parte 2
Passa-se um pouco de Tobechi e Kamara, ficaram juntos na universidade e e faziam de tudo juntos. Casaram-se logo pois o tio tinha contatos nos Estados Unidos e arranjou o visto para Tobechi, ele trabalharia e levaria a mulher. Mas foi mais difícil, trabalhava por mais anos e sem ter dinheiro o suficiente para poder bancar a vinda e o visto de Kamara. As tias sussurravam casa vez mais alto dela ficando por ali. Mas o dia chegou, tinha o green card dela ali, que nem verde era.
Parte 3
Kamara foi para Filadélfia com um visto de turista e Tobechi era o fiador, contou como eles se casariam de novo nos Estados Unidos e facilitaria o processo. Estava gorducho, um sotaque americano que comia as palavras e queria estapear ele. Virou gerente do Burger King e era outra pessoa do que lembrava, não associava a voz que falava no telefone com o desconhecido que via. Até o prazer de casar não teve. Queria poder falar com família e amigas da tristeza e dos dias melancólicos, mas ela tinha uma vida melhor que elas. Até tentava engravidar para poder se ocupar, deixando de tomar o anticoncepcional regradamente, mas ficou feliz no dia que Tracy a viu e até Tobechi notou. Ela tinha travado no trabalho, perguntou como estava e já foi ver os dentes de Kamara, como um pai que vê os filhos e a elogia, perguntando se já posou. Respondeu que não. Foi se achando na casa, coisa que Kamara achou que ela se perderia. O filho a viu, ficou contente. Falavam da universidade, riam juntos. Kamara não queria que ela se fosse e até disse de Josh ver seu trabalho, Tracy a viu e convidou Josh para ir. Mostrou um trabalho que era pinceladas e tintas que pouco diziam para Kamara. Via a bagunça e procurava qualquer motivo para continuar por ali. Até que de tanto olhar, Tracy perguntou quase sussurrando se ela não pousaria nua. Kamara mal sabia o que dizer e Tracy disse para pensar. Kamara chamou Josh para comer espinafre, desejando que tivesse dito algo mais ousado.
Parte 4
Josh estava se preparando para a maratona e Neil estava ansioso, até dizia ser campeão por só participar. O menino havia feito um cartão celebrativo judaico, mas só podia dar a ela na sexta. Kamara ficou contente com o gesto, mas se reprimiu, ainda mais quando foi lavar a louça e Neil contou que os cartões eram para membros da família. Foram embora e Kamara estava inquieta para falar com Tracy. Teve coragem, mas quando a porta se abriu ela estava distante e impaciente. Tentou falar de Josh, mas ela queria fechar a porta. Conseguiu deixar aberta ao tocar no assunto de que posaria nua. Encolheu a barriga enquanto falava. Tracy sorriu e disse que a pintaria, mas não naquele dia, não era um bom dia.
Parte 5
Neil consolava Josh com biscoitos e açúcar de não ter ganhado a competição. Kamara viu a professora de francês, Maren, usava roupa apertada e muito blush, nada do que Kamara pensava de uma professora de francês. Neil falava que a maratona tomou tempo dos estudos e ela veio ali para poder estudar o tempo perdido. Ele falava de Josh mesmo ainda estando na sala com uma voz grave, ignorando o menino poder ouvir e como se precisasse de alguém que falasse que ficaria tudo bem. Kamara gostava de como a tratava e pensou nas possibilidades que teria de ver Tracy com ele preocupado e agora com a notícia que chegaria tarde. Já planejava a ligação para Tobechi e estava até de sutiã novo. Tracy subiu, estava travada e cumprimentou Neil como se fossem irmãos. Ela consolou Josh e teceu elogios a Maren, perguntando também se ela já tinha posado. Aconselhou a fazer sem nunca tirar os olhos dos olhos dela e mordendo a maçã. Kamara sentou-se ao lado de Josh e pegou um biscoito.
Conto VI – Jumping Monkey Hill
“Todos os bangalôs tinham telhados de palha. Havia nomes como Baboon Lodge e Porcupine Place pintados à mão ao lado de portas de madeira que levavam a caminhos de pedra, e as janelas eram deixadas abertas para que os hóspedes acordassem com o farfalhar das folhas de jacarandá e o som ritmado e tranquilizador das ondas do mar se quebrando. As bandejas de vime continham uma seleção de chás sofisticados.”. Em meio a tanta riqueza, coisas rústicas e luxo, Ujunwa acho estranho o workshop ser ali. Era um tipo de resort na Cidade do Cabo que gente rica tirava foto de lagarto, sem se dar conta do que existe por mais disso. Descobriu que o resort foi escolhido por Edward Campbell, nigeriano com um sotaque britânico cômico, responsável pela organização e que falava demais. Ele era velho, entre 70 e 90 anos, ela tinha acabado de perder o emprego no banco em Lagos e ficou aliviada do Ugandês que estavam esperando ter chegado. O resort era paradisíaco e temático em uma visão colonial da África. Até Ujunwa esperou ver macacos nas árvores e Edward no jantar que infelizmente não haviam. Haviam vários na janta, “A sul-africana branca era de Durban, mas o sul-africano negro vinha de Johanesburgo. O tanzaniano era de Arusha, o ugandês de Entebbe, a zimbabuense de Bulawayo, o queniano de Nairóbi e a senegalesa que, aos vinte e três anos, era a mais jovem ali, viera de Paris, onde fazia faculdade.”. Por fim apresentou Ujunwa, ela pensava com quem se daria bem e ia medindo doses e receios de cada um. Talvez o mais chamativo sendo das regiões, histórico e o que cada um era ali. Contou do workshop, patrocinado pelo mesmo grupo da Fundação de Artes Chamberlain, mesmo do prêmio Lipton que o bajulador ugandês era ganhador e agora chefiaria o workshop. Teriam uma semana para escrever com um notebook para cada um em seu respectivo bangalô e na segunda semana revisariam em conjunto. Apresentou sua esposa, Isabel, ativista, que dispensava apresentações, parecia que ela compensava o que ele não tinha. No café, como se quisesse se integrar, falava que identificava que Ujunwa tinha sangue real. Ela queria perguntar se Isabel perguntava o mesmo dos amigos londrinos, mas mentiu falando de uma jornada de um português em tempos passados que originou seu sangue. Ela falou feliz que sabia identificar e pediu ajuda na casa dos animais. A mãe de Ujunwa se ria muito ao ouvir de tudo. Ujunwa ficou contente e tentava se lembrar da última vez que a mãe riu tanto. Pensava na história e escreveu sobre Chioma, um nome comum a ela, uma garota formada em Economia em Nsukka e que procurava emprego. Depois de tanto mandar cartas, foi convidada e molestada, saiu dali. Continuava a ajudar a mãe na butique e resolveu pedir ajuda ao pai. Eles tinham uma richa, deu telefonemas, dinheiro e uns papéis. Não ouviu perguntas da mãe e viu a foto de uma outra mulher na mesa. Corta para o jantar, há uma conversa de pedirem avestruz e Ugunwa acha estranho, mas Edward ri falando que é típico. O frango ácido que ela comeu fez ela considerar realmente ter pedido o avestruz. Bebeu duas taças de vinho – a maior quantidade de sua vida – e ouvia conversas paralelas do Edward de Chardonnay ser enfadonho enquanto falava com a senegalesa de cuidar de cabelo crespo. Edward, o ugandês e Isabel ficaram na sala e os escritores saíram para conversar. Matavam os mosquitos a tapas e conversavam de esteriótipos de nacionalidades, riam-se de si, falavam dos escritores famosos e também contaram de si, de suas vidas e suas relações parentais. Até perguntaram de Ujunwa, a única que não falava, sobre como era seu pai e até mesmo da escrita ser terapia para ela. Mais tarde, voltou a escrever bebendo chá, e Chioma tinha agora uma chance de um emprego permanente no banco se conseguisse abrir contas em uma soma total. Mas o vice-gerente não a olhava como todos que a olhavam. Queria encantar, mas ele não a via. Em um carro, foi sendo chamada para contar das contas e sentar no colo. Ela lembrava da Mulher Amarela e o que sua mãe contou dela, tinha um relacionamento por mais de ano, seu marido comprava coisas para ela e o insulto máximo foi ir em sua butique e tentar comprar com o dinheiro que na verdade era dele. Bateu na mulher com a ajuda das amigas da redondeza e o marido se zangou, falando que os levou à vergonha. Sumiu. As familiares tentavam de tudo para pedir que ele voltasse e o apoio da mãe que se recusava. A loja ia falindo. Ela dava descontos, anúncios e adaptava os sapatos, tais quais o que Chioma usava naquele dia. Assim ia a rotina no resort de três refeições até que no sexto dia o primeiro conto era analisado, o do zimbabuese. Ujunwa notava que Edward sempre ficava percorrendo o olhar nela sem se fixar no seu rosto. Ela ouviu um comentário de Edward que queria era que ela deitasse quando ela se ofereceu para se levantar em um dia quente com poucas cadeiras ao sol. Só os homens ouviram e um deles riu, ela riu de reflexo. Até quis contar a zimbabuense sobre o ocorrido, mas ela parecia distante, talvez do conto dela. Era um conto cheio de floreios que falava de um professor de ensino médio em uma igreja pentecostal que o pastor declarou que eles não teriam um filho até obrigarem as bruxas que amarraram o útero dela confessarem o que fizeram. No jantar, vários comentários, Ujunwa achava o conto bom apesar dos floreios, mas ouviu desde que algumas partes eram desconexas até do conto ser datado demais. Voltaram para dormir, no dia seguinte comentavam do café da manhã. O conto da senegalesa passava em um velório e ela se abriu sobre a homossexualidade, emocionando-se ao ler. O ugandês até esqueceu que chefiava o workshop e Edward mordia o cachimbo falando que a história não refletia a África com o tópico. Ujunwa até perguntou e ele a observou como uma criança descomportada. A senegalesa falava rápido em francês e declarava-se senegalesa e Edward respondeu em francês. Disse que ela talvez tomou muito Bordeaux e riram do comentário. As mulheres do workshop se revoltaram, a zimbabuense e a sul-africana. Foram elas para o bar e Ujunwa se perguntava da senegalesa. Estavam lá as mulheres e o queniano. Ujunwa se sentia mal de ter rido do comentário de Edward e disse de como se sentia com ele a observando. Eles reafirmaram o ponto, ela se sentiu traída por parecer tão óbvio e voltou ao quarto. Sua mãe não atendia. Deitou-se e acordou sem ter escrito nada. O tanzaniano leu um trecho do conto de assassinatos no ponto de vista de um miliciano e foi consagrado como um conto atual e que devia ser lançado no Ordinary. Ujunwa achava aquele conto uma matéria do The Economist com charges. O conto de Ujunwa continuava com ela com o cliente que tecia elogios e suas lembranças com as artes e as letras. Ela se lembrava da reprovação em seguir carreira em literatura e disse que podia ser um hobby. Lembrou da lata de metal que tinham seus escritos com anotações do pai que a apoiava. A mãe dizia que ela precisava dos livros da escola. Ao contar para o cliente de como ela tinha aquele serviço, ele aceitou ser cliente, quando convidou para o seguirem e verem perfumes, ela foi embora, sem ouvir os chamados, e iria buscar seus pertences no escritório. Ujunwa nem queria ler o conto, muito menos tomar café. Ficou sabendo pelo queniano do comentário de Edward querer ver o umbigo nu da senegalesa. Depois de pensar nesse comentário e tudo que poderia ter dele sendo ouvido e dito, perguntou diretamente à senegalesa o que ela achava. Foram na loja de souvenirs e teve até o tanzaniano sendo cutucado de ser gay por gostar de bijuterias e respondeu que estava sempre aberto. Comentou sério que Edward tinha contatos interessantes e deviam estar abertos para possibilidades, ainda ele que não queria ser professor. Ujunwa comprou um colar de marfim falso e Isabel comentou de como deviam deixar em paz os animais. Ujunwa disse que era real, Isabel ficou espantada, queria alongar que matou ela mesma em uma caçada real mas não disse. Leram o conto de Ujunwa, o ugandês comentou da história forte, tanzaniano da atmosfera de Lagos, a sul-africana não gostou do anterior ter dito do termo terceiro mundo. Edward nåo gostava da inverossimilidade do tratamento grosseiro, ainda mais na Nigéria que mulheres têm poder como a ministra. O queniano gostou do conto e achou o final improvável e era pura ideologia, não era gente de verdade. Ujunwa riu vitoriosa, sem compreenderem, explicou que a única coisa inverossímil é que ela tirou o detalhe que pediu para o motorista do jipe levá-la para casa. Segurou algumas lágrimas, assim como mais detalhes que queria dizer, mas ia voltar para ligar para a mãe. Pensava se aquilo seria um final plausível.
Conto VII
No seu pescoço
Parte 1
“Você pensava que todo mundo nos Estados Unidos tinha um carro e uma arma; seus tios, tias e primos pensavam o mesmo. Logo depois de você ganhar a loteria do visto americano, eles lhe disseram: daqui a um mês, você vai ter um carro grande. Logo, uma casa grande.”. O conto fala-se em uma segunda pessoa da comunicação, atribuindo o “seu” e “você” para o leitor/personagem. Falam das coisas que queriam dos Estados Unidos antes de se despedirem, coisas simples, muito menos do que a casa grande e as armas, sendo a última que pediam para não ter. Respondia que traria. O tio levaria ela, agora marcada como mulher a personagem, para se ajeitar. A empresa que ele trabalhava estava desesperada para ter diversidade e pagava até a mais. Morava em bairro de gente branca mas valia. Dizia que era dando que se recebia, em proporções iguais. Ela foi tentar a sorte em uma vaga de caixa de posto de gasolina com os ensinamentos do tio e foi matriculada em uma universidade comunitárias. As alunas tinham coxas grossas, bronzeado artificial, esmalte vermelho e perguntavam num misto de arrogância e ignorância da vida, da língua e do seu cabelo. O tio contou depois que ouvia dos vizinhos que os esquilos sumiram depois que chegou dos boatos dos africanos comerem qualquer animal selvagem. Sentia-se bem com o tio, comia garri, a esposa a chamava de nwanne, irmã, e falavam igbo. Era como se estivesse em casa, apesar de ser em Maine. Mas uma noite o tio foi até o porão, em que ela dormia em volta de caixotes e apertou sua bunda soltando gemidos. Ela o empurrou e disse que ela não era criança, ela tinha vinte e dois anos e podia ter mais que ele ajudaria, era o que acontecia ali e em Lagos. Trancou-se no banheiro até o tio sair e fugiu. Viu ainda o tio passando de carro sem buzinar e lembrou do que ele disse de dar e receber. Foi parar em Connecticut, quase 450 kms de Maine. Na última parada de ônibus de Greyhound se ofereceu em um restaurante para trabalhar dois dólares a menos do que as garçonetes. O gerente, Juan, sorriu mostrando o dente de ouro e sabia que imigrante trabalhava bem, era um, nunca teve alguém da Nigéria e aceitou pagar um dólar a menos, mas por fora, detestava imposto. Não dava para estudar pelos altos preços e falta de universidade comunitária. Ia estudando pelas bibliografias e no quarto de tapete e camas manchados. Pensava na família que sofria no trabalho, recebia pouco e idolatravam ela que ganhou na loteria. Ia guardando as notas que recebia do Juan que eram bonitas, em vez das de gorjeta. Nunca escrevia nada, até que aprendeu sobre a franqueza e abertura dos americanos que falavam de assuntos que os nigerianos guardavam para contar quem lhe desejavam bem. Queria contar de como deixavam notas amassadas com restos de comidas como se fossem oferenda, de que imploravam para crianças ficarem quietas, de gente rica que era magra e gente pobre que era gorda, queria contar até das roupas, mas nunca tinha dinheiro o suficiente para pagar as contas e os presentes e nunca escreveu, nem sabiam onde estava. Se debatia entre a parede e até Juan disse de bater no namorado violento. Riu de nervoso. Tinha algo na garganta que a sufocava, não tanto para que não pudesse dormir, mas tinha algo no seu pescoço.
Parte 2
Vivia ouvindo comentários se era da Jamaica ou de doações para a África dos clientes. Mas um perguntou uma vez se ela era igbo ou iorubá, sabia dizer que não era fulani. Ficou surpresa. Ele começou a vir muitas vezes, era interessado, sabia da Nigéria, da cultura e dos povos. Veio por três dias, nunca querendo se mostrar a mais, mas querendo conversar, o que era proibido no restaurante. No quarto dia pediu para Juan a colocar em outra área para não lidar com ele e ele a esperou no estacionamento no final do turno, convidou-a para ver “Rei Leão”. Viu os olhos dele, cor de azeite de oliva extra virgem, coisa que mais gostava do país. Ele contou que tinha passado um tempo sem estudar para se encontrar e tinha se formado rápido se comparar que a Nigéria as universidades fecham rápido pela falta de dinheiro e desvio. Ele riu quando ela perguntou se ele se achou na África ou na Ásia. “Você não sabia que as pessoas podiam simplesmente escolher não estudar, que as pessoas podiam mandar na vida. Você estava acostumada a aceitar o que a vida dava, a escrever o que a vida ditava.”. Teve medo de sair com ele de novo, ele tinha um olhar faminto que a interessava e a amedrontava. Quando ele apareceu de novo, disse logo que saía com ele com medo de não perguntar de novo. Foram para o Chang’s e os biscoitos da sorte tinham papéis em branco.
Parte 3
Ela logo se sentiu mais tranquila para aos poucos revelando um pouco de si e das mentiras que contou. Disse que no Jeopardy torcia para antes tudo que não fosse homem branco, o que Akunna estava acostumado da criação da mãe professora de estudos femininos. Contou do pai ser motorista e não professor, e de uma história vergonhosa do pai se humilhando para não pagar os custos de uma batida que a filha via de longe. O motorista, que era o trabalhador e não o dono, o dono estava no banco de trás, gostou daquela humilhação e disse para ir. Era naquele misto de chuva e pântano até que os familiares ganhavam dinheiro desatolando carros. Akunna disse que entendia, mas ela não aceitou, disse que as coisas eram assim e detestou essa simpatia dele achar que todos deveriam ser compreensíveis como ele era.
Parte 4
Chegaram a ir em um mercado africano e ele via os rótulos, o dono chegou a perguntar de onde era e enganou falando que era nascido mas morava muito tempo nos Estados Unidos, o que era mentira. Comeu garri e onugbu, mas vomitou na pia. Ela ficou contente que poderia fazer onugbu com carne agora, pois ele era contra a morte dos animais que induzia medo na carne e o uso de glutamato monossódico e por isso gostava tanto do Chang’s que não usava. Ela ficou chateada, o garçom a tratava como impossível terem um relacionamento e o seu conhecimento básico de mandarim ser ele ter uma namorada em Xangai. O sexo foi fingido e depois ela contou o que se passava. Ele disse ter entendido, mesmo a expressão significando o oposto.
Parte 5
Ele dava presentes caros, ele confessou que um avô de Boston deixou uma herança confortável antes de doar boa parte. Na cultura dela, presente tinha que ser útil e ele se ria. Guardava os presentes de sapato e bolsa para dar aos parentes na Nigéria. Ele se oferecia para pagar a passagem, mas ela não queria que adicionasse aos países que visitou para se vangloriar. Um dia, dando um passeio ao rio do Estatuário de Long Island, elevaram a voz e ele a acusou de estar exagerando, enquanto ela apontou falando que achava que ele era americano de verdade, já que só considerava os pobres de Mumbai como indianos e ele não era gordo como os pobres que servia. Foi embora e depois voltou estendendo a mão. Trocaram carinhos, alisavam o cabelo um do outro depois do sexo e ela ajudou a passar hidratante nas costas queimada. “Aquilo que se enroscava ao redor do seu pescoço, que quase sufocava você antes de dormir, começou a afrouxar, a se soltar.”.
Parte 6
Conheceu os pais dele. Diferente de como tratavam nas ruas as pessoas que viam aquela combinação com simpatia demais ou antipatia exagerada, os pais a perguntavam de forma relevada. Mas Akunna estava tenso com tudo e ela não entendia. Voltando para casa, sentia raiva de como os pais queriam que ele fosse feliz e até bancar financeiramente e ele não aceitava. Mostrou também a casinha no Quebec que passariam alguns dias e ele não quis ir. Para ela, aquela casa podia ser um banco na Nigéria. Sentia-se incomodada e até derrubou um copo. Akunna notou, perguntou e ela disse que estava tudo bem. No chuveiro, chorou, sem saber o motivo.
Parte 7
Finalmente escreveu, enviou o dinheiro e falou seu endereço. Recebeu uma cara expressa da mãe, contando do pai que morreu no volante 5 meses atrás. Usaram o dinheiro para um enterro decente. Ela chorava desconsolada. Não sabia identificar se alguns dos dias que passou mal foi quando sentiu ele morrendo ou se foi algum dos dias que estava em outro plano no Chang’s ou em Manchester. Akunna a consolava, dizendo que iria com ela. Ela iria sozinha, e ele a lembrou do green card, que devia voltar dentro de um ano. Ela nem saberia se voltava. No aeroporto, abraçou-o e deu de costas.