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"A Visão das Plantas" Djaimilia Pereira de Almeida FUVEST FUVEST 2026 FUVEST 2027 FUVEST 2028 FUVEST 2029

“A Visão das Plantas” de Djaimilia Pereira de Almeida – Resumo de cada capítulo

Capítulo 1

Acordou em casa, tudo estava ao mesmo jeito mas ao mesmo tempo não. O pó cobria tudo, algumas roupas eram comidas pelas traças. “A mobília não saudou o seu regresso. Não tinha mais ninguém na vida.”. Sentia cheiros mas não eram tão confiáveis quanto seu ouvido. “Sobrava‑lhe a casa de jantar, a pequena saleta, os dois quartitos húmidos, a cozinha de tecto escuro aberta para a despensa, os frascos, caixas de farinha de milho bichada, garrafas de aguardente e o quintal, tomado pelas silvas, as urtigas e os cardos.”. A maresia fez com o capitão o mesmo que a casa, tinha degradado com o tempo. A natureza tomou conta da casa, tal como o mofo. Teve até medo da luz que entrava e do espírito da casa sair e o capitão fechou de novo tudo, respirando o pó. A casa tinha também cicatrizes, mesmo sem ter matado alguém. Ali, o capitão achou lugar para descansar o coração, mesmo que não merecesse.

Capítulo 2 Livrou-se da mobília velha e inutilizável, manteve uma mesa e duas cadeiras que usava para escrever. Mantinha-se sempre um silêncio, apreciava aquilo tudo. Queimou roupa velha e coisas que não usaria mais, despediu-se sem aplauso. Dormia na cama que a mãe se foi, sem sentir falta, sem ela saber dela. “Contava com a monotonia saborosa dos seus hábitos de capitão velho, retornado à casa de família desagravado para morrer em descanso.”

Capítulo 3 Ao poucos ia morrendo, achou consolo naquele pouco de jardim que ia arrumando e que a vida proliferava. O jardim se penetrava por tudo, remover tudo que ali havia de memória humana. Ele ia com calma, com as mãos, ora parando para fumar, ora sentindo o vento do mar de tarde. Tinha vezes que dormia, mas ia sempre mondando, limpando.

Capítulo 4 Temia endoidecer com o passar do tempo. Ia limpando, tinha já queimado vilas, feito a natureza se apavorar, mas ali continuava a mesmice. A natureza fazia o favor de lembrar que, no final, restariam apenas os cadáveres e a memória da morte, e assim ela conspira para que os homens adormeçam. Celestino, o nome do capitão, ia todo dia fazer algo novo, fosse em mar ou na casa. Pela mesmidão, a natureza achava um meio de se reconsolidar e ele ia perdendo a luta contra o tempo, queria pará-lo. Talvez fosse assim com Deus, “traz os resistentes à solta, prontos a rasteirar os felizes, no fundo do beco, para se desforrar do tédio.”.

Capítulo 5 Celestino plantou de tudo, de flores a árvores frutíferas e fazia o adubo. Chegou a ter exertos que pedia ou ganhava e tinha cactos que sabia a quantidade de espinhos. Tinha até uma caveira de conchas no bambuza que crescia bem. Padre Alfredo o visitou, indo dar sermão mas foi intoxicado pelos cheiros das flores e aquele sol a pino. Ia tirando conclusões daquele homem que cuidava tão bem das plantas. Gostava da mãe dele, era importante que nada o faltasse.

Capítulo 6 Costumava sair nas manhãs nubladas, de barba longa, sobretudo preto, cara de poucos amigos aos adultos e sorriso para crianças. “Tinha pelas crianças a simpatia de um admirador de obras perfeitas.”. As mulheres rezavam, os homens riam das histórias inventadas, as crianças morriam de curiosidade. Os cachorros nem visitavam a frente pois Celestino os espantava, até construiu um espantalho com cortinas esgarçadas e as pessoas inventaram histórias de rituais. Mas isso afastava os adultos, as crianças eram curiosas, três procuravam ver como ele era, mas viam um jardim florido, bem cuidado, e “um pires com três cubos de marmelada e três fatias de queijo curado.”.

Capítulo 7 Os boatos iam ao Padre, Celestino visitava a igreja, sem nunca se ajoelhar, sentava como se aquilo fosse sua forma de o assim fazer e se acalmar. Padre comentava que a casa tinha ouvidos a ele, sem que ele se quer dissesse algo.

Capítulo 8 Mas os boatos mais pareciam pelo passado do capitão do que a atualidade dita de um homem que dançava com o Diabo e falava línguas. Não conseguiu dele palavras ou até sua vida como uma pessoa com as mãos encharcadas de sangue e de rum, mas de um homem com ideias desconexas e talvez senil que não completa ideias, com as mãos cheirando adubo e terra. Ele se foi. “A loucura é o mais santo dos remédios. Ao contrário do que se dizia na vila e lhe assegurava a língua‑de‑trapos do sacristão, a casa não fora ocupada por um facínora, mas por um homem atrapalhado com os preparativos do seu enterro.”.

Capítulo 9 A narração abre aspas para a fala do Capitão, chamando as crianças como se falasse sendo Jesus Cristo, contando da história de sua vida ali na aldeia. Nasceu e não conhecia o pai, sabia que era Capitão, Nuno, delirava achando que caminhava em casa e o som do mar distante inquietava-o. Sonhava em ser dono da casa, de seu medo e da aldeia. Entre a narração, há um devaneio de se a história e a mentira valesse a pena se ele inventava, podendo ser possível analisar de ele inventar as histórias ou as plantas dali. Os pequenos suplicavam com os olhos para continuar. Foi ser capitão e a mãe deu a casaca e o cordão de ouro. Foi para a África, passou fome, febre, e foi apanhado por holandeses. Cuidaram dele, matou-os no sono e deixou a menina holandesa amarrada em um tronco de árvore lançada para a sorte. Foi assim sangue frio sempre e foi isso que o fez viver. Matou animais, queimou vilas e dormia tranquilo sem remorso.

Capítulo 10 As crianças comiam as amores, pedindo por mais, mais sangue. Conta como cuida das plantas, faz o café, cumprimenta e cuida de cada flor por pétala. Sonha e dorme pensando nelas. As crianças iam enjoando das amoras e o vento soprava as palavras de Celestino. A vizinha pensava que ia matar as crianças, o marido ria.

Capítulo 11 Os rumores a respeito do capitão pioravam depois da conversa com o Padre Alfredo. Dois anos se passaram e ele fazia parte do folclore da vila. As mães tapavam os olhos das crianças quando passavam por ali e as avós ameaçavam levar os netos para serem decapitados se não comessem tudo ou se comportassem mal. As crianças viam aquele velho grande mexendo nas flores. “Para pirata, era chato. Se calhar, disfarçava. Quem dera a Raul ter um roseiral bonito como aquele. Celestino deixou de querer saber se o espreitavam, se não lhe falavam. O espantalho fizera o seu trabalho.”. A casa de sementes vendia de má vontade e acusava de montar um altar para Judas Escariotes. Mas o mar chegava com gente nova e gente nova ia embora, por mar ou por terra, e foram logo deixando ele. Ele ia ficando cego e andando com dificuldade. Mas o que puxava todos do folclore eram as flores na primavera, quase como uma luxúria, uma tentação para pecar. De tarde, o capitão ia espreitar se o pires de guloseimas estava vazio. Sempre assim o encontrava.

Capítulo 12 Algumas frases soltas são citadas, misturando passado e presente do capitão, envolvendo cheiros, ratos, pessoas, conhecidas e ainda não citadas na história, além de, claro, falar das flores.

Capítulo 13 Celestino já não dava conta das trepadeiras e algumas plantas mais altas, planejou salgar a terra com a ajuda de ou Manuel ou Bentes. “de frente, a casa velha tinha rosinhas atrás das orelhas, de costas, era melaço e varejeiras.”.

Capítulo 14 Outra sequência de frases soltas, falando das rotas do capitão pelas Índias, os ratos, em uma previsão de que Celestino perdia noção da realidade e ia enlouquecendo.

Capítulo 15 Em uma noite que a vizinha o vigiava, um vento bateu e Celestino sentia que ia morrer. Mas a Natureza não o tomou, era livre para aquela casa que achou e criou com suas plantas.

Capítulo 16 “As plantas viam o jardineiro como as plantas vêem. Não se sentiam agradecidas. Tratavam o seu regador à semelhança da chuva que caía sobre elas nas noites de Outono. Florescerem não era o seu meio de meterem conversa com o jardineiro, mas uma forma de acentuarem a sua indiferença à declaração de amor que ele cultivava a cada hora. Tanto lhes fazia serem cuidadas por um assassino, se eram sujas as mãos que as amparavam ou o que viera antes do amor que ele lhes dedicava.”. As plantas não faziam diferença para ele, tal qual Celestino não via diferença na vida do motim dos escravos que matou jogando cal no porão. As plantas continuariam, perceberiam a mudança como um chapéu usado moldou-se a uma cabeça e foi jogado fora.

Capítulo 17 A vila ficava a mudar aos poucos, mas Celestino não veria a mudança ao século XX. Imaginava e passeava na vila que se indiferenciava por ele, não era ódio e nem repulsa, mas o tempo passou e era um fantasma que não assustava. O padre era quem o via com frequência, dizendo que não era tarde, mas quando que “tarde” começava? Tinha nada a dizer aos ouvidos de Jesus. Quem o esperava era a casa, o mar tinha findado.

Capítulo 18 Novas frases soltas, que se misturam entre descrições e alucinações, lembrou da holandesa de oito anos, em Júlio e Saraiva, da infância, dos novos tempos e do mar que o tragava.

Capítulo 19 Celestino envelhecia. Talvez ali tivesse descoberto o amor, ou até mesmo a prova viva de Deus que há bem em todos, ou que não há justiça alguma no mundo que um capitão que ceifava vidas agora cultive flores lindas. Talvez até do fazer bem que viesse de quem fosse cabeça oca. Pensava de vez em quando em atirar nas costas do Padre Alfredo com nariz empinado de perfumista depois de falar do calendário da paróquia. Também as crianças cresciam em sua volta e casais se faziam. Pode ser que cada flor fosse uma vida ceifada por ele, dali surgia o amor, ao contrário do que pensavam de que plantava as flores do seu caixão. Mas uma coisa era certa – o tempo passava. As pessoas espiavam esse homem que ali ficava no jardim ou deliravam de noite que ele invadia suas casas.

Capítulo 20 Há uma descrição de Celestino avançando por uma mata virgem, com os pensamentos de que a morte o rodeava e a floresta o engoliria.

Capítulo 21 Há uma breve explicação dos pais de Celestino, o pai viu o filho nascer sem saber como criar e ainda menos que ia morrer em pai, profissão da família. A mãe trabalhava muito, fazia de tudo em roupas que a sufocavam naquele calor de Portugal. Ainda assim, há uma descrição do madeireiro vendo aquela madeira vinda do Brasil que contava uma história, de uma mata que Celestino se perderia. Ao fim, Celestino viu o sol e caiu sangrando na praia. Alguns trechos falam de pensamentos desconexos, entre festejar com negros, a noite, as estrelas e pães.

Capítulo 22 “Aprendeu a fazer queijo. Cozia a sua broa. Recuperou o alambique.”. Perdia-se no tempo e não sabia mais traçar qual tempo estava, até mesmo repetia as atividades de infância agora velho. No ribeiro, enquanto ainda estava bêbado, pensou ter ouvido vozes e pensava se estava ficando louco. Pensou ser a holandesa que prendeu no tronco, mas não achou nada e nem teve respostas.

Capítulo 23 Descreve-se as manhãs em sua casa. Sobe a fumaça do orvalho no chão, como sobe o do cigarro do capitão. Começou a vida brincando com marinheiros e acabava ela brincando com jardineiros.

Capítulo 24 Várias frases soltas de móveis, chuva e sangue de noite.

Capítulo 25 Enquanto cuidava dos potes de terra, viu um brilho. Achou que era o pingente que sua mãe tinha lhe dado, mas ele ainda o tinha. Foi tomado de um ataque de loucura e cavou sem parar, como se sua alma fosse feita para isso e sua vida disso dependesse. Cavou até cair a noite, estava todo dentro da cova e chorou. Sua pele doía mas cavava, e assim adormeceu, sem saber o que procurava ou o que tinha por ali.

Capítulo 26 Já era meio-dia e foi acordado com o sol a pino. Sentiu um galo na testa e foi dormir com os pés gelados e as ideias embaralhadas.

Capítulo 27 No dia seguinte, amanheceu mais velho, com a pança, a corcunda e a pele áspera que antes havia de um corpo esguio. Foi se ver ao espelho e se espantava. Cortou a barba longa no queixo e a deixou cair aos pés desconhecidos, como se ela não fizesse parte dele. Barbeou-se, com paciência e com calma, já que tremia e se arrependia de ver aquela pele seca. O mundo teve outro sentimento, a cara feita fazia a chuva e o vento ter outro sabor. Naquele espetáculo da natureza, o capitão teve sua última aventura em leme e “Fechou a porta e foi para dentro ver se comia alguma coisa.”.

Capítulo 28 Tinha ficado doente em uma das tantas visitas do médico. Recomendava descanso e caldo. O padre, provocando-o, perguntava se não queria confessar. Ele respondia não com a cabeça e veemente. Na época do frio, temia das plantas morrerem e ia conferir tudo apesar da doença. Talvez pelo sistema de irrigação ou algo maior, as plantas continuavam as mesmas, e essas flores e frutos mostravam piedade aquele monstro de outrora. Na época de São João, foi levado por Manuel, primo do caseiro falecido Amadeu. Mas não gostava do barulho e da gente, tentou voltar para casa, perdeu-se e machucou-se ao cair no chão. Manuel o encontrou em um beco. Implorou para ser levado para casa. “Foi a primeira e única vez na vida que implorou alguma coisa fosse a quem fosse.”. Ficava cego, a pele nunca mais ganhou cor, conhecia as flores pelo tato e pensava que as flores o respondiam pelo tato. Alguns animais o visitavam, gato e rafeiro, tipo de cachorro de guiar gado, deixava alguns ossos, os coelhos, que cavavam buracos, torcia os pescoços. Junto ao limoeiro, enterrou os cabelos das barbas, tão distantes dele quanto jamais foram. Pode ser que seria assim enterrado no jardim ou saberia voltar ao jardim pelo cheiro. “Todos os dias o jardim estava diferente. Jamais se entediava.”.

Capítulo 29 Certa vez, o padre havia lhe trazido um peixe, mas esqueceu na cozinha e ele apodreceu. O cheiro o enojou, acostumou-se com as flores.

Capítulo 30 “Raul, Pedro e Luzia ainda apareciam. Queriam ouvir histórias do corso.”. Deleitava-se com as crianças, os risos e os olhares das histórias que contava. Mostrou também suas tatuagens e cicatrizes. Mas tudo aquilo deu vazão de curiosidade para pena e nojo. Um homem que viveu tanto e degolou todos era agora escravo do jardim e vítima do tempo. Era ironia do destino que o mar tenha o deixado em terra. Não cuidou do jardim, estava escravo dele. “Mas depois de as crianças se terem ido embora, não saberia dizer quem o tinha visitado.”.

Capítulo 31 Celestino recebia visitas nortunas, principalmente de uma negra que preparava uma refeição a ele a até mesmo a de Padre Alfredo mais jovem. Estava sonâmbulo, acordava em lugares diferentes, sujo, lambuzado, cansado, machucado, sem lembrar do que fez. As pessoas não o olhavam mais e as crianças não o visitavam.

Capítulo 32 “A casa e o jardim, que começara por compor à sua imagem, estavam desleixados.”. Não completava frases que escrevia e também as atividades do jardim não eram mais as mesmas belas de antes. Sonhava de olhos abertos, misturava infância, passado e o presente de uma vez, ora cantarolando, ora navegando. A holandesa aparecia de vez em quando, dormindo perto dele como uma neta fria. Pensava na morte e o que seriam de suas plantas.

Capítulo 33 Em vez de continuar sonâmbulo, sonhava acordado, as plantas iam saindo de seu corpo, inerte, sem reação, babando com o brilho da Lua e o estado vegetal do antigo capitão.

Capítulo 34 Sem saber que era a morte, uma negra de saia e avental vinha lhe fazer companhia de dia. Cuidava dele, dava de comer, lia enquanto podava as rosas. Aos poucos, ia sendo embalado. Em uma noite, voltou do bosque, distante da morte, mais velho, mais cedo, cada vez mais distante do que já foi e piorando.

Capítulo 35 A morte ia o chamando, agia como um menino de tão indefeso, fraco e sem força ou meio de reagir. A negra ia o chamando por Capitão, talvez por ser um nominativo, ou talvez para ver se ali restava o que ele já foi, coisa que não restava mais nada além da carcaça. “Com medo dela, entregue aos seus braços, entre o sono e o delírio, derrotado. Não era hoje, ainda não. De volta, deitava‑o na cama, tapava‑o, voltava à cozinha. A morte, quando quer, tem toda a paciência do mundo.”

Capítulo 36 Celestino agora era patriarca de uma casa que vinham vivos e alucinações. Vivia com a escrava e a menina holandesa, “a velha negra por ele mandada ao Atlântico e a menina que o capitão deixara no mato de olhos vendados.”. Ia passando o tempo, ele, morimbundo, ouviu da morte de Mendes, de gatinhos nascendo, e as mulheres da casa iam e vinham. Mal sabia o que era realidade. Ele ia perdendo forma assim como o jardim. Como a morte não o engolia para a terra, aos poucos tudo perdia-se forma para virar uma coisa só. Só via a menina holandesa de olhos vendados, pois o que a vida fez, a morte não desfaz. Assim iam passando seus momentos.

Capítulo 37 Os gatinhos nasceram. Celestino os vigiava, alimentava, e pode ser que, farto do ato, a mãe desceu a ladeira e nunca mais teve com a ninhada. Os filhotes da gata tigrada também viraram gatos e também se foram.

Capítulo 38 Via o espantalho a dançar pelas ventanias. Pensava em como ele dançava sem precisar de descanso e caldo, coisa que ele precisava. Ficava entre pensamentos de ventos e lembrando dos corpos de escravos mortos no episódio da cal, assim como vendo o corpo da escrava sem vida ao mar. Ainda estava ali, pensava, cuidava dos cravos e aos poucos ia se rastejando, como se dissesse à Morte que podia vir buscá-lo.

Capítulo 39 O Capitão ia se esquecendo de andar, de falar, retornava ao estado de menino amedrontado. O jardim tomava conta dele, por meio do medo. O espantalho agora dava medo, ouvia as vozes e se apavorava dos barulhos de fora, de quem seriam, de quando. Tinha medo das plantas virem estrangular ele, como a velha preta, que não aparecia mais.

Capítulo 40 Manuel um dia veio buscar o pirata para ver o mar novamente, tirar daquele jardim que tratava as flores como filhas e parecia até que seu desejo era se tornar uma flor. Manuel quis estar perto de um pirata sério, quis fazer seu pé molhar, esboçar algo, nada. Era um velho em outro mundo, sem pensamento conectado. Manuel se decepcionou e ficou em silêncio naquele velho que respirava e tiritava com o som da maré. Levou de volta para casa, comeram dois nacos de pão e deixou-o na cama, aquele capitão que todos souberam do regresso já tinham morrido. Virou cantiga de pescador. Morreu sem que as plantas parecessem saber. O médico e o padre viram-no na cama. Cobiçou o pirata, que nas mãos que o padre tinha, faziam as plantas morrerem.

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FUVEST 2026 Redação FUVEST

Tema de Redação FUVEST de 2025 – Análise das propostas

A seguir, encontram-se 6 textos que compõem a coletânea de apoio para 2 propostas de redação, das quais apenas
uma deverá ser escolhida.
Texto 1:
W. comenta que, durante a guerra, ele e outros prisioneiros foram escalados para limpar um hospital de campanha
nos arredores da cidade de Lviv, na atual Ucrânia. Lá chegando, ele foi levado ao quarto de um jovem oficial nazista
que, gravemente ferido e ciente da proximidade da morte, desejava pedir perdão a um judeu pelos crimes que havia
cometido contra membros da comunidade judaica.
Na ocasião, chocado com a confissão do nazista e sem saber se aquilo tudo não era uma armadilha, o autor deixou
o quarto em silêncio. Anos mais tarde, porém, ao refletir sobre o episódio, ele resolveu questionar alguns dos seus
conhecidos: “E você, o que teria feito no meu lugar?”.
Entre os comentários ao relato de W., o meu predileto foi escrito pelo filósofo H., amplamente reconhecido pelo seu
ativismo em prol dos direitos civis nos Estados Unidos das décadas de 1950 e 1960.
Em resposta a W., H. escreve que não teria perdoado o oficial nazista. No entanto, o que mais me chamou atenção
no texto de H. não foi exatamente a sua conclusão, mas a maneira como ele construiu o seu raciocínio, utilizando-se do
mesmo gênero textual de W., isto é, a partir de uma narrativa.
Antes de dizer o que ele teria feito no lugar do sobrevivente, H. relata uma situação vivida por S. (1853-1918), o rabino
de Brest, na atual Belarus, muito admirado tanto pela sua afabilidade quanto pelo seu grande conhecimento do Talmud.
Certa vez, em um trem que partia lotado de Varsóvia para Brest, o rabino sentou-se junto a um grupo de caixeirosviajantes que passava o tempo a jogar cartas. Um deles, incomodado pela postura de S., que nunca havia jogado
baralho e se recusava a participar das apostas, resolveu enxotar o rabino do vagão.
Sem conseguir encontrar outro assento vago, S. passou horas em pé até alcançarem Brest. Já na cidade, para a
surpresa do caixeiro-viajante, que ignorava a sua identidade, o rabino foi recebido por uma multidão de admiradores.
Ao tomar conhecimento de que o homem que ele havia agredido era o rabino de Brest, o caixeiro-viajante apressouse em lhe pedir desculpas, mas todos os seus pedidos e promessas de caridade foram refutados pelo rabino.
Vendo que o caixeiro-viajante estava claramente angustiado com toda aquela situação, o filho mais velho de S. resolveu
questionar o pai sobre a dureza da sua decisão, ao que o rabino respondeu: “Meu filho, eu não tenho condições de perdoálo. Ele não sabia quem eu era. Ele ofendeu um homem comum. Deixe que o caixeiro-viajante vá até ele e lhe peça perdão”.
Para H., essa anedota nos ensina que ninguém tem o direito de perdoar uma ofensa cometida contra outra pessoa.
Há, no entanto, algo de extraordinário na maneira como ele opta por também contar uma história para comunicar o seu
posicionamento. Isto é assim pois uma narrativa possui espaços vazios e inconsistências que abrem margem para a
discordância.
Juliana de Albuquerque. “Súplica de oficial nazista provoca reflexão sobre limites do perdão”. Folha de São Paulo. 03.04.2025.
Adaptado.
Texto 2:
O rancor do pai veio à tona mais forte ainda, compareceu inteiro, profundo. Culpou seu José não pelo que ele,
Venâncio, tinha feito, mas pelo que ele era. Por não ter escapado do que viveu, não ter se transformado em outra coisa.
Tentava se defender, argumentava consigo mesmo que não tinha escolhido jogar o filho longe, não tinha era sido capaz
de não jogar. Maldito. A liberdade é uma conversa fiada, é palavra de efeito, sempre no meio de uma frase para
impressionar os desatentos, no fundo estamos presos à incapacidade de ser outra coisa diferente do que somos, do
que a história da gente tramou. Queria uma saída, divagava. Apertou o filho nos braços e implorou a Deus pela vida
dele. O que ele tinha feito não tinha perdão. Negociou. O perdão não existe justamente para perdoar o imperdoável? As
bobagens, os pequenos atritos, os erros aceitáveis não precisam tanto de perdão, basta uma boa vontade, um pouco
de amor e tempo, e tudo se dissolve.
Carla Madeira. Tudo é rio.


Texto III
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen. Mar novo.
Texto 4:

Foto: Abdel Kareem Hana/AP.
Cessar-fogo em Gaza permite o regresso à casa.
Texto 5:
Nosso lar se enfeitou
A esperança germinou
Ah, tem muita flor pra todo lado
Pra curar a minha dor
Procurei um bom doutor
Me mandou beijar teu beijo mais molhado
Seja do jeito que for
Eu te juro meu amor
Se quiser voltar, tá perdoado!
Arlindo Cruz. Tá perdoado.
Texto 6:
Não me queixo; nunca me queixei de cousa nenhuma:
quando estimo alguém, perdoo; quando não estimo,
esqueço. Perdoar e esquecer é raro, mas não é impossível;
está nas tuas mãos.
Machado de Assis. Iaiá Garcia.
PROPOSTA 1
Redija um texto dissertativo-argumentativo, no qual seja exposto seu ponto de vista sobre o tema: O perdão é um ato
que pode ser condicionado ou limitado.¬¬
PROPOSTA 2
Redija uma carta a uma personagem hipotética que o(a) tenha acusado falsamente da prática de um ato moralmente
reprovável, explicando as razões pelas quais você lhe concede ou não o perdão. Sua redação deve conter,
necessariamente, as partes que compõem a estrutura de uma carta. ATENÇÃO: assine sua carta com o termo “Nome”

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"Balada de amor ao vento" FUVEST 2026 FUVEST 2027 Paulina Chiziane

“Balada de amor ao vento” por Paulina Chiziane – Resumo de cada capítulo

Balada de amor ao vento é o primeiro romance publicado de Paulina Chiziane que já tinha uma ideia do que escrever, mas o primeiro romance escrito por ela foi “Ventos do Apocalipse”.

São 20 capítulos, divididos em partes que demarcam passagem de tempo, mudança de plano ou troca de narrador. O tempo da narrativa é de Moçambique ainda colônia, com o nome da cidade de Maputo ainda como Lourenço Marques, antes do ano de 1976, da independência de Moçambique.

Capítulo 1 Parte 1 A narradora lamenta sua vida, está próxima da morte e lembra-se de Save, terra de sua infância, repleta de bela flora. Em contrapartida, está em Mafalala, terra que abomina, que é suja e triste. Foi para lá por amor, se é que sabia o quê era amor e se amou. Sua filha, mais estudada, contou sobre o mundo e como o era, ela pensa que há quem precise conhecer o mundo da mulher. Pensa em falar da sua história, nem sabe se será interessante, há tantas outras que vivem igual.

Parte 2 “Tudo começa no dia mais bonito do mundo, beleza característica do dia da descoberta do primeiro amor.”. Era época de festa e, obviamente, de namoro. Os rapazes vinham para os ritos de passagem para a fase adulta e iriam dançar e comer depois. A narradora prestou atenção em Mwando, ouviu dos homens sobre ele e também as amigas diziam para desistir, ele estudava para ser padre. Foi zombada pelos meninos e pelas meninas de não ter curvas e ficou assim, pensando nele e demorou para dormir. Perseguia o menino, ia na igreja para ver ele, até que um dia decidiu fazer o ultimato e se vestiu bonita para atraí-lo. Depois da missa, caminharam juntos e ela já desistia, quando ele perguntou o que se passava e ela dizia que de quem ela gostava não era recíproco. Ela revelou sendo ele, mas Mwamdo confessou que gostava dela, era a única que não zombava dele, mas tinha medo do padre. Ela o silenciou e finalmente se beijaram.

Capítulo 2 Parte 1 Mwando se martiriza, queria ser padre mas Sarnau a tentava. Por muito tempo, foi zombado pelos meninos e se isolava para se proteger. Queria ser padre, pedia ajuda para Cristo e tinha medo dos outros meninos contarem dele e de Sarnau. Escreveu uma carta, abriu seu coração, mas o padre surgiu ali e perguntou o motivo de estar tão apavorado. Leu a carta e entendeu. Amanhã ajustariam as contas.

Parte 2 O padre suspeitava do que acontecia com os meninos, principalmente pelas fofocas. Uma noite, em meio do que se culpava de não confiar neles mas vendo que estavam certos, apanhou Salomão e quase o bateu, não fosse o menino mais esguio, coisa que Mwando não foi e o padre descontou a raiva nele. Salomão e Mwando foram expulsos, nada aconteceu com a cozinheira, suspeita de ser a pessoa que estava no quarto de Salomão

Parte 3 Mwando logo se acostumou aos trabalhos dos outros jovens da idade. Passavam bom tempo juntos, Sarnau e Mwando se maravilham com a fauna e a flora do mundo. Mwando vê a obra de Deus e vê o motivo de amar, vendo tudo de cima é fácil se maravilhar. Ao meio de metáforas, os dois fazem sexo, com o uso das metáforas da maçã sendo o fruto proibido, a serpente no Éden e Adão e Eva. Sarnau pede uma oferenda para suas entidades protetoras, a defunta protetora, já que fizeram sexo. Ele hesitou, não gostava de servir outros deuses se não Cristo. Mas prometeu fazer uma oferenda grande. Sarnau o amava e assim dizia.

Capítulo 3

Parte 1

“Mwando ainda não ofereceu nada à minha protetora, mas eu perdoo, ele ainda não arranjou dinheiro, coitado.” Ele trabalha muito, não só com o pai mas com os afazeres de casa que as irmãs são preguiçosas. Sarnau o ama, ama muito, em tudo que vê sabe que o ama. Mas ele parece esconder algo, principalmente quando ele não olha nos olhos para dizer da ausência e cada vez passa menos tempo com ela.

Parte 2 Mwando diz que trabalhava muito nesses dois meses e daí o sumiço. Iria para longe, trabalhar, Sarnau o esperaria, mas ele tenta insistir até que conta a verdade da sua mudança eterna – estava para casar e não aceitava a poligamia. Sarnau se contorcia e chorava, aceitava até poligamia e a distância, mas ela estava grávida e tinha fome de amor. Despediu-se, ainda foi acolhida enquanto chorava e até resgatada de um ataque de cobra. Mwando perguntou o motivo dos ancestrais dela fazerem isso, ela disse que era para acalmar seu ódio e tirar a dor. Não deixou que ele falasse mais e foi embora.

Parte 3 Sarnau não dormia bem, não estava bem, tudo lembrava de Mwando e ela queria que a dor que sentia parasse de qualquer jeito. Enquanto sonhava com uma natureza acolhedora, via Mwando chegando, mas foi acordada por Rindau.

Parte 4 Sarnau decide se matar, vai até o rio e vai andando lentamente. Ela pensa em tudo que fica para trás e nesse último dia que está como todos os outros, belo. No momento que ela chega a uma altura considerável do rio, seu corpo quer viver, mas era tarde. No entanto, ouve vozes, pensando que são do outro plano. Se vê em sua rasteira, tinha sido salva por pescadores que a viram. Sua mãe, curandeira, falava de uma centopeia que entrou nela e fez um nó e que devia sair de Sarnau. Ela gritava e finalmente chorou. Foi como se ela se libertasse de tudo. O sangue jorrava por conta do aborto.

Capítulo 4 Sarnau iria casar e as pessoas se despediam dela. Estava com véu, era prometida ao rei da terra e nunca antes houve um lobolo, quantia paga para firmar o casamento, como o dela. 36 vacas que não pariram, virgens, e mais dez homens com pele de leopardo. Estava contente, nunca tinha planejado tal situação. Ela explica que a rainha tinha uma pretendente para seu filho, Khedzi, mas quando não só se descobriu que essa mulher de pele mais branca, predileta dos homens poderosos, que levantava a capulana, vestido ou saia, para qualquer copo de aguardente, e era filha de feiticeira. A rainha viu que sua mão era delicada, sem marca de trabalho, não a quis e era indigna. Todos se assustaram e ainda mais que apostaram suas filhas, que faltavam ou beleza ou vontade de trabalhar. Um dia, a rainha de encontrou com Sarnau, filha de Rindau, sem lembrar dela. Enquanto a via trabalhar e interessada, pediu para beber, e deu de beber com a concha da mão. A rainha ficou interessada e chamou-a para trabalhar por uma semana. Era comum, fez tudo como deveria ser feito sem pestanejar e, em uma reunião magna, declarou que Sarnau seria a esposa de Nguila, o príncipe, beberrão e forte. Enquanto aceitava o lobolo, a tia repetia o que precisava dizer, que era homenagear a família e enriquecer a terra. Neta de uma moça com lobolo de una peneira de feijão, ela se engrandecia. Até conversa com o leitor, como ela poderia ser bonita se não era no estilo clássico de beleza. Dizia que a beleza variava de cultura para cultura. “É como vos digo, cada mundo tem a sua beleza. No campo é mais belo o rosto queimado de sol. São belas as pernas fortes e musculosas, os calcanhares rachados que galgam quilómetros para que em casa nunca falte água, nem milho, nem lume. São mais belas as mãos calosas, os corpos que lutam ao lado do sol, do vento e da chuva para fazer da natureza o milagre de parir a felicidade e a fortuna.”

Capítulo 5 Parte 1 Sarnau ouve conselhos enquanto está na palhoça se preparando para o matrimônio. Ouve de tudo para aguentar os problemas do matrimônio, pois homem deve ser servido. É uma sociedade patriarcal e se perdoa o homem. Ela pensa que está com a vida feita e é invejada, as mais velhas continuam a aconselhar. No casamento, o príncipe assina com caneta de ouro e Sarnau usa o dedo, sinalizando que é analfabeta, em frente ao padre Ferreira. Vislumbram a festa, tanta gente dançando, homem bebendo ou sendo embriagado para poderem curtir-se ou curtir outros. Sarnau acha tudo lindo.

Parte 2 A família chora, até seu pai que ela nunca o viu chorar também chora e ela não entende, não era momento de felicidade? A velha tia explica que homem é para ser servido, e ela no casamento era como milho no pilão, explicado pela tia, seria amassada, triturada e moída para a felicidade do lar, e assim o suportaria. A mãe chorava de felicidade, até porque explicou que há quem chora por tristeza. Ela ia, infelizmente, a sua escravidão. Chegando no novo lar, via sorrisos, mas ninguém que conhecesse. Pensava na irmã e na família longe.

Capítulo 6 Parte 1

Sarnau acorda, nem acredita na nova vida. Faziam duas semanas do casamento e a festança intensificava com mais presentes. Vestia um vestido diferente por dia, escolhidos pela rainha. Trabalhava para as sogras que a testavam. A oitava sogra foi enfeitiçada, disse a Sarnau que a casa era cheia de feiticeiras e também coxeava por isso. “Uma lagartixa amarelo-acastanhada despenhou-se da árvore caindo no meu regaço, e fugindo célere enterrou-se no areal. Arregalei os olhos, o coração pulsou, e fui percorrida por um grande arrepio. Presságio de desgraça!”. Ela assim disse que não morreria, foi pendurada e amaldiçoada mas iria morrer de velhice. Eram mais cabeças ao currau.

Parte 2 – Gatilho de violência Sarnau estava contente ao dia e, apesar dos maldizeres do casamento, queria ver Nguila. Quando chegou ao quarto, viu ele com Mayi em sua cama. Aprendeu que quando visse o marido com outra que era para preparar banho e não se zangar. Até mesmo Nguila a chama, vendo que chorou, perguntou se alguém tinha morrido e deu um tapa nela que saiu até um dente. A rainha a acudiu entre lágrimas e sangue. Ela o consolou, dizendo que eram de terras distantes e nasceram e foram moldadas em sofrimento. Soube que essa Mayi tinha tatuagens em relevo e a pele lisa era feitiçaria de veneno de cobra. De noite, sonhando difícil, a sogra a acordou para que fosse dormir com seu esposo. No que retornou, Nguila a abraçou, dizendo que devia ensinar a não ter ciúmes e gostava muito dela, era a primeira, tinha respeito e apreço mais do que a outras. Mas ela se impacientava que não engravidava, como Mayi engravidou, mesmo que fizesse pouco tempo que estivessem juntos.

Parte 3 “Não imaginam o paraíso em que vivi quando declarei a minha gravidez.”. Seu marido lhe enchia de carinhos e amor, na cultura de Moçambique, a gravidez é fortemente celebrada e para os homens a mulher grávida é motivo de festa. Ela vestia-se e ornamentava-se. Mas, “Como o girassol, a felicidade dura apenas um sol.”

Capítulo 7

Parte 1

Mudança de narrador para terceira pessoa, um homem chora em sua cabana triste, abandonado. Era Mwando, casou com Sumbi, uma mulher linda, mal acreditou quando a conquistou, como os outros também não acreditaram, e teve o casamento arranjado, os pais queriam casá-la com nobre, na falta de um, foi pelo menos um homem culto e que parecia nobre. “Os homens não choram, ensinam os pais aos filhos. Mwando é homem e chora, mas com razão.”. O lobolo era alto, doze vacas. Com cinco vacas, a família arranjou uma forma de pagar em prestações as vacas. As seis ao casamento, três quando nascesse a primeira criança e três com a segunda. Já no primeiro dia de casamento ela não cumpria seu lugar como mulher. Apesar de Mwando ter se apaixonado por aquela mulher que trabalhava em pilão, ela fingia dores de cabeça e ficava na mesa como um homem. E continuava assim, os dois se amavam, acordavam tarde, nada produziam. “Só come quem trabalha, ensina a sabedoria popular.”. E ele a ajudava nas poucas vezes que ela fazia algo da casa, pegou mal, a vizinhança se afastava e ela logo se tornava tirana. Os carinhos viraram obrigações, exigia presentes mesmo que a família dela não faltasse dinheiro. Mwando se endividou, esgotou as despesas, mesmo que ele não visse problema em agradar a mulher. Ela sempre vinha com sorrisos, e presentes de admiradores quando o dinheiro dele se esgotou. Mas o lobolo e o lugar da mulher em Moçambique é diferente, ela jamais deve trazer prejuízo. Interviram no caso, “Mulher lobolada tem a obrigação de trabalhar para o marido e os pais deste. Deve parir filhos, de preferência varões, para engrandecer o nome da família. Se o rendimento não alcança o desejável, nada há a fazer senão devolver a mulher à sua origem, recolher as vacas e recomeçar o negócio com outra família. Mulher preguiçosa não pode ser tolerada, muito menos a libertina.”. O pai ficou louco que ele respondia aos anciões, que eram de outra religião e pregavam outra fé, ele pensava ser elevado por ser cristão e ignorava os preceitos éticos e morais de uma boa família, mas o pai também era culpado. Não deu outra, afastaram-se da vila, viveram em uma cabana em desgraça e só piorou com o filho morto, com o pretexto que era feitiçaria dos defuntos não apoiarem a união. Mas Sumbi já tinha casamento com gente rica, “amor com pobreza não faz felicidade, arrumou as coisas dela e partiu.”.

Parte 2 Chorava, estava depressivo. Amaldiçoava a religião dos antigos e se culpava, sentia remorso de como era vítima antes das opressões na adolescência e infância agora como adulto, pelos anciões. Pensava e repensava e teve um pensamento. “Homem que é homem deve saber resistir às vicissitudes da vida, pois todos os seres vivos têm as suas amarguras.”. Rezou, gritava alto, chorava e precisava ouvir isso. Entendeu tudo que passou e passa e tinha ressuscitado.

Capítulo 8 Sarnau estava triste, tinha duas filhas e faziam dois anos que o marido dela não a tocava e estava com amores com Pathy, a quinta esposa. Mal comia a comida dela, reclamava de algo ou estava indisposto e brigava com ela. As gêmeas demandavam muito e ela batia nelas como se fossem culpadas. Ela lamenta a morte do rei, Zucula, que trouxe tantas outras mortes e desgraças para o reino. Morreu de cócoras, com uma cobra, e assim foi enterrado. O dia era feio e cheio de sinais ruins, e as pessoas se matavam ao longo dos dias ou iam embora dos postos. A rainha morreu de joelhos e também assim foi enterrada. Em meio a isso, ainda havia uma guerra. O filho, Nguila, era rei e curtia o momento. Sarnau vestia o mesmo ouro da rainha e tivesse quem a invejava, mas comia mal e vivia mal. E para piorar, Mwando a encontrou e ele estava péssimo, nem era o mesmo que lembrava de fisionomia. Apesar de ter enxotado, foi até sua cabana e se amaram. Ela até propôs que continuassem os encontros em uma gruta de fantasmas que era afastada, mas Mwando a lembrou de sua posição e ela se despediu, saboreando o momento de vitória.

Capítulo 9

Parte 1 Sarnau estava em dilema. Por um lado, amava Mwando e seu amor a tranquilizava. Por outro lado, tinha poder, status e riqueza com seu casamento polígamo. Pensava no lado ruim também que Mwando a fez sofrer muito mas do marido polígamo que amava e a deixava de lado.

Parte 2 Lamentava que Mwando não iria mais vê-la, era rainha e não seria coisa boa. Visitou a gruta dos fantasmas, escondendo sua rota, e lá viu Mwando a esperando, ele sofria que poderia ser punido mas queria ver Sarnau. Mais uma vez se amaram, trocaram promessas de amor.

Capítulo 10

Parte 1 Sarnau engravidou de Mwando, mas ela conseguiu fazer um feitiço para que Nguila se encantasse por ela. O feitiço foi tão forte que ela se tornou mais amoroso com todas, exceto Pathi que vivia com ciúmes e tinha até pedido um feitiço que matasse todas as outras 6 esposas. Agora dividia o amor e sempre dormia depois da meia noite com Sarnau, sendo carinhoso. Ela implorava à defunta protetora que o fizesse parecido até com o bisavô, menos com o pai original. Pensou em fugir, mas não trocaria o bem-estar por nada, podia ser um menino e governar tudo. No parto, descobriram que Pathi fez um feitiço para que Sarnau morresse nele em um sonho de Nguila e foi espancada fortemente, além de tomar veneno e ter dado uma diarréia. Sofria. Sarnau sofria de emoções, não sabia até quando poderia continuar com essa mentira do filho ilegítimo e do amor de Mwando.

Parte 2 Mwando pedia que fugisse com ele, queria Sarnau só para si e sofria com as migalhas de carinho e a impossibilidade de se quer ter o filho. Sarnau pedia paciência, o rei aguardava ansiosamente a criança e poderiam fugir quando nascesse.

Capítulo 11

Parte 1 O parto foi difícil, com a luz da lua, cantavam e pediam que viessem bem. Mas Sarnau sofria, diziam que comeu ovo, mas o filho vinha de um adultério e por isso era mais penoso. Descobriram que Phati a enfeitiçava e apanhou. Quando baixou o feitiço, saiu o bebê. Ela teve pena de Phati, apesar de oponente. Para trazer mistério, a criança nasceu de pele clara e a cara da mãe. Apontaram a pele como um indicativo da relação das duas oponentes, mas era a pele de Mwando. O rei se embriagava de felicidade. Ela se perguntava onde estava Mwando.

Parte 2 Phati vigiava Sarnau em cada passo. Os encontros com Mwando continuavam e os seus planos de fuga também. Ela temia o pior e decidiu encerrar os encontros. Ia trazer mal para a família e o pequeno Zucula que já andava e tinha dentes. Diria seu último adeus.

Capítulo 12

Parte 1 Sarnau estava em dilema, sabia que devia deixar Mwando, mas seu amor a confortava contra Nguila que a espancava e a machucava fisicamente. Entre suas tatuagens e machucados sangrando, Mwando a beijava e a amava, pedindo para ser sua e fugir para além do rio. Ela pensava nas crianças antes de seu amor.

Parte 2 Estava decidida em não ir com Mwando, mas Phati a viu e a denunciou como feiticeira, pois só gente com gênio e ligada às religiões de Moçambique e feitiçaria que poderia adentrar as grutas sem ser atingido. Contaria tudo a Nguila e ela não seria ouvida segundo Sarnau, mesmo que ela tivesse voltado a ser a favorita do rei.

Parte 3 Nguila estava machucado, via a verdade nos olhos de Phati mas não sentia nas palavras de Sarnau. A dor que sentiu da possibilidade de traição da rainha e da possível mentira de Phati machucou seu íntimo mais do que o orgulho e mataria uma delas após beberem o licor da verdade, o wanga. Quem estivesse mentido morreria. Queria se embriagar para esquecer. Quando trouxe o fumo e a aguardente, abraçou Sarnau e chorou. “Descobri que ele me amava de verdade, com a sua maneira polígama de amar.”. Chorou também, arrependida. Fugiu na noite enquanto Nguila dormia e sentiu ser vigiada, era Phati de novo. Nocauteou-a e acordou Mwando em sua palhota, deixou tudo e as crianças.

Capítulo 13 O capítulo começa com Sarnau rezando para a defunta protetora que protegesse Mwando, agora pescador, do mar inquieto. Há um retrocesso de como chegou ali. Remaram para longe de Mambone, a correnteza ajudou e Mwando remava rápido. Sarnau chorava, amaldiçoava Phati, mas ao menos tinha a felicidade eterna. Chegaram em Bazaruto, venderam o barco e partiram para Vilanculos. Trabalhava com indianos e fazia tudo, já que Sarnau não saía da palhota que cabiam dois para não ser descoberta. Ele veio, frio da chuva e cansado do trabalho. A pesca foi boa, comia feliz e gostava do calor de Sarnau. Ela estava feliz, não tinha os filhos ou o título mas tinha um marido que era todo o apoio emocional e social. Ele dormiu em seus braços, ela pensava em dias melhores.

Capítulo 14 Parte 1 O sono, segundo o narrador, é importante para conectar o racional e os deuses, espíritos com racionalidade. O período de agosto era difícil para pesca mas bom para colheita. Mwando vagabundeava, ajudava em coisa ou outra mas mais ficava conversando e ouvindo a fofoca do rei e da rainha, ouvia o povo a favor da rainha que fugiu e o homem que a levou como herói. Queria saber cada vez mais, como se fosse alheio, mas o sono ia vindo com mensagens que não decifrava. Em uma noite, foi até o oráculo e nada entendeu, mas em um bar, enquanto bebia, encontrou um antigo amigo de infância e irmão de circuncisão, Nhambi. Ele vinha com outros guardas reais, também era um. Mwando não sabia se fugia ou invocava a amizade de antigos tempos, mas Nhambi veio com palavras duras e amigáveis. Contou que o rei sofria, Mwando era a menor das preocupações, mas ele mandou matar Phati com as vozes do povo aclamando que ela enfeitiçou a rainha e que o homem que a levou era um espião da tribo inimiga de guerra. Mwando sentia vergonha e se arrependia, Nhambi cuspiu no chão e o acusou de ser pior que mulher, devia ter orgulho e não ter agido daquele jeito. Como dívida de ter sido salvo de um ataque de cobra, aconselhou que decidisse se ficava por ali e morria, que eram ordens do rei, ou fugisse e nunca mais voltasse.

Parte 2 Mwando estava como um fantasma para Sarnau, contou que Phati morreu, o rei sofria e sua família corria perigo. Ele iria partir, apaixonou-se por Sarnau por ser nobre, agora era uma simples camponesa com nada de mais. Sarnau o lembrou do filho e que prometeu amor eterno. Reclamou que o filho nem com ela estava e poderia voltar ao rei. Ela disse que morreria e Phati sabia muito bem o que fazia. Deu de costas, correu atrás dela e tomou um golpe que deixou-a desacordada. Acordou pela manhã, viu os pescadores e as mulheres pegando caranguejos. Chorava e ninguém a acudia. Mwando era nuvem na sua vida.

Capítulo 15 Parte 1 Narra-se a partida de negros em um barco de Espírito Santo. De fora, o cenário parece corriqueiro e se acostumaram de ver esse tipo de situação. Dentro, era pior, choravam, clamavam por Deus e pelos defuntos, sem serem ouvidos. Estavam por lá mal sabiam os motivos, era desde guerra, mal entendido ou só ser negro. Mwando estava lá, ele se relacionou com uma mulher prostituta e um sipaio, soldado indiano, não gostou. Tentaram testar o português, falava e escrevia bem, mas na hora dos documentos que ele não tinha vistos foi o fim. Apanhou e foi levado ao barco. Outros negros libertos oprimiam os negros escravos. Iam para Angola, terra de opressão, cacau, café e cana.

Parte 2 Os escravos foram separados e os colonos se abraçavam exageradamente. As mulheres iam para o tabaco e os homens para canaviais e os campos.

Capítulo 16 O capítulo narra e descreve a natureza que os escravos e os colonos armam acampamento para fazerem dali o local de colheita em linguagem poética. Ler o capítulo.

Capítulo 17

Parte 1 Um negro morreu com a cabeça presa na máquina, mandaram chamar o Padre Moçambique, o católico, e Januário, para prestar os costumes africanos. Mwando era tal padre, tinha fama, fazia as celebrações como os padres brancos mas cobrava muitas vezes menos. Os colonos viram vantagem e até deram regalias, como casa e mulher. Era a boa ponte entre os escravos e os colonos. Januário tinha o nome de padre cachaça de tanto que tomava. Tinha um boato de um escravo que pediu para ser enterrado de cócoras e que não trabalhassem por oito dias. O colono riu e enterraram ele de qualquer jeito. Seu corpo aparecia por toda parte e até foi na casa do patrão estourar toda a louça. Quando viu o corpo de novo ali fresco, fez como pediu.

Parte 2 Quinze anos se passaram e assim foi indo a vida de Mwando. O cabelo ficou grisalho, juntou boa grana, tinha casa, mas o coração queria ir de volta para Mambone. O choro foi comovente das pessoas, mas precisava ir. Chegando onde havia a palhota, encontrou um armazém pesqueiro e nenhuma informação de Sarnau. “A resposta negativa deixara-o convencido de que ela talvez tivesse regressado à terra natal.”. Saiu de Vilanculos e voltou a Mambone, ia caminhando pela noite para não ser reconhecido. Os cães latiam como se fosse fantasma, a mãe de Mwando pedia proteção aos defuntos e ele anunciou sua chegada. Ela chorou muito, seu pedido foi atendido de ver seu menino. Contou da morte do pai, soube que Sarnau não era casada e vivia em Lourenço Marques uma vida desgraçada. Estava focado em ver Sarnau.

Capítulo 18 Um mercado barulhento com pessoas vendendo de tudo e um cheiro terrível é onde Sarnau se encontra. Faziam 16 anos que tentava de tudo para Mwando voltar e nada. Tinha agora dois filhos, Phati e João. De início, chamava Phati de Chivite, trabalhava para indianos e dormia em um armazém ao fundo com os cãos e de lá ela nasceu. Mas no segundo mês piorou e no terceiro nem chorava ou comia. Na falta de dinheiro para hospital, foi a uma curandeira que viu que um espírito se alojava nela, que sofria, o espírito de Phati. Ela ia matar um por um, o remédio era nomear e fazer renascer Phati, pura, inocente. No dia seguinte, após fazer o ritual de nascimento, o bebê desatou a chorar e comia bem. João era filho de um outro cristão que o enxotou, não pegava bem ter filhos por aí. “Ser cristão é uma coisa, mas a perversão e o afastamento dos deveres paternais porque se é cristão, é coisa que ainda não entendo bem. A poligamia tem todos os males, lá isso é verdade, as mulheres disputam pela posse do homem, matam-se, enfeitiçam-se, não chegam a conhecer o prazer do amor, mas tem uma coisa maravilhosa: não há filhos bastardos nem crianças sozinhas na rua.” Mas, não importa. “Com a poligamia, com a monogamia ou mesmo solitária, a vida da mulher é sempre dura.”.

Capítulo 19 Enquanto voltava para casa, derrubou os tomates que caminhava na chuva ao trombar com um homem. Pediu que pagasse pois era sua única fortuna e reconheceu o homem sem querer acreditar. Mwando correu atrás dela e a puxou. Ele pedia perdão, ela disse que sofreu, e ainda acusou ela de ter virado puta. Respondeu que ele tinha tirado sua virgindade, sem pagar a defunta protetora, tirou de seu casamento sem pagar resgate e a deixou sozinha e ficou sem nada, até o útero se foi de tão podre que estava. Ele contou que também sofreu, tinha virado escravo por um indiano ciumento e ficou quinze anos trabalhando em cana e café e gastou tudo que tinha para vê-la. Ela aceitaria, mas que pagasse 24 casamentos. O rei exigia reparo do lobolo, ainda que tivesse se casado com Rindau, irmã de Sarnau, e as 36 vacas deram origem a outros casamentos, resultando 24 lobolos. Ou ele pagasse, ou nada feito. Ele queria pagar, mas tinha nada, sofria mais porque dizia não ter filho e Deus assim o castigou, mas ele tinha, Zucula, o mais velho, era rei, as gêmeas casaram-se em Mambone e Phati estava em seu ventre quando fugiu. João não tinha pai. Ficou eufórico, mas não tinha como pagar. Ela disse que deixaria as lembranças e saiu dali sem saber com qual força. Mwando a chamava na escuridão e ela rejeitou o chamado.

Capítulo 20 Sarnau sofre, chora mas os filhos não notam. Mwando foi até a casa dela, apresentou-se à Phati que abriu a porta e sorria com a resposta dele ser o pai. João sorria muito e os dois pediam para que ele ficasse. Mwando respondeu que ficaria se Sarnau quisesse. Ela mandou os filhos dormirem que o dia era longo. Chovia lá fora, ficaram ali se encarando. Ele disse que as crianças precisavam de um pai, e ela precisava de um homem. Ele tinha vencido, ela tinha o orgulho, mas de quê? Ele chamou de novo o nome dela, tinha negócio, dinheiro, casa, podia ser que desse certo. Puxou o candeeiro e apagou a luz, ficou a escuridão. “Continua a chover lá fora.”.

Tempo da obra: Moçambique antes da independência, com a indicação da cidade de Maputo como Lourenço Marques.

Lugares da obra:

Personagens da obra:

  • Sarnau: Seguidora da religião dos antigos e dos defuntos protetores, sofre para poder ser amada seja na monogamia ou na poligamia
  • Mwando: Cristão, sofre para poder ter respeito e lugar como homem em Moçambique, adotando os valores da modernidade e rejeitando a sua raiz
  • Padre: Sem nome mencionado, antigo mestre de Mwando, hipócrita nos valores cristãos
  • Salomão: Ex-aluno do colégio de padres, teve um caso com a cozinheira
  • Cozinheira: Sem nome mencionado, teve um caso com Salomão
  • Rindau: Irmã de Sarnau
  • Mãe de Sarnau: Sem nome mencionado, curandeira
  • Rei Zucula: Pai de Nguila, rei justo e inteligente
  • Rainha : sem nome mencionado, também veio de uma terra distante, sofreu muito como Sarnau
  • Nguila: Príncipe e futuro rei, marido de Sarnau, beberrão, violento e protetor
  • Khidze: Ex-pretendente de Nguila, feiticeira, preguiçosa e libertina
  • Mayi: Uma das mulheres de Nguila, é a primeira que Sarnau descobre compartilhando a cama do rei
  • Sumbi: Ex-mulher de Mwando, casamento arranjado, preguiçosa, libertina e fugiu para outro casamento
  • Phati: Quinta esposa de Nguila, favorita dele, feiticeira e invejosa
  • Gêmea 1: Filha de Sarnau e Nguila, demanda muita atenção, apanham da tristeza da mãe como se fosse culpada
  • Gêmea 2: Filha de Sarnau e Nguila, demanda muita atenção, apanham da tristeza da mãe como se fosse culpada
  • Zucula: Filho de Mwando com Sarnau, Nguila acredita ser seu filho
  • Nhambi: Amigo de Mwando, guarda do rei, procurava o sequestrador de Sarnau, mas poupou o amigo que admirava e respeitava muito
  • Phati/Chivite: Filha de Mwando com Sarnau, foi renomeada para descansar o espírito da esposa ciumenta
  • João: Filha de Sarnau com um cristão, enxotou pois não era uma boa aparência ter um filho com uma prostituta
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FUVEST FUVEST 2026 Redação FUVEST

FUVEST 2025 acesso 2026 – Sugestões e apostas de tema de redação

I – O homem deixou de ser social?

II – Devem existir limites para o humor?

III – O lazer e o meio ambiente: entre o direito e a conservação

IV – As diferentes faces do ódio

V – O papel da política no mundo contemporâneo

VI – Qual é o legado da pandemia da COVID-19?

VII – De que maneira a minoria contribui para a maioria?

VIII – Existe espaço para o tédio?

IX – O mundo contemporâneo está perdido com a nova geração?

X – O celular é o novo crucifixo?

XI – “União e reconstrução”: o Brasil é o país do futuro?

XII – Qual o futuro da arte?

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"Memórias de Martha" FUVEST 2026 Julia Lopes de Almeida

“Memórias de Martha” de Julia Lopes de Almeida – Resumo de Cada Capítulo

Publicado em 1899

Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida (Rio de Janeiro, 24 de setembro de 1862 – Rio de Janeiro, 30 de maio de 1934, morrendo de complicações de febre amarela) foi uma escritora, cronista, teatróloga e abolicionista brasileira.

Foi casada com o poeta português Filinto de Almeida, apesar de ser mais famosa e mais apta do que ele, o marido foi nomeado a participar na ABL em seu lugar. Existe uma expressão chamado “nobre consorte”, que é alguém que participa da família real sem ter o sangue, tal qual ele é acadêmico consorte da ABL. Era filha de Visconde, escrevia escondido, antes de poder se ver a atividade de escrita como inclusa para mulheres. Foi jornalista em “O País” por 30 anos, começando primeiro a publicar na Gazeta de Campinas, cidade que mudou para viver em sua infância. Vai para Lisboa, em 1886, escreve com sua irmã “Contos Infantis” em 1887, sendo a pioneira em literatura infantil no Brasil. Quando casa-se com seu esposo, ele já era diretor da revista “A Semana Ilustrada”, já colaborava nas publicações. Em 88 volta ao Brasil e publica “Memórias de Martha” que saiu em folhetim em “O País”.

O livro é composto por 12 capítulos, com um final que foi apenas publicado em folhetim.

Capítulo 1 Com o gênero “memória”, o narrador-personagem começa a falar do esboço que são suas lembranças da infância, como da casa, do quarto, do quintal, tal qual nem fica o sentimento de saudade, mas o de dúvida. Lembra-se de uma mudança, mandando por as coisas na rua por um homem zangado, a mãe em prantos, seu pai enfaixado morto na cama e que devia beijá-lo. “O frio e o cheiro do cadáver deram-me náuseas”. Pensando que ia ser levada com o morto, saiu correndo para o quintal, sentindo-se livre e também com a cabeça em mente da punição do Pai do Céu de suas travessuras, mais do que o medo que iria morrer, já que ouvia todo dia que Deus iria castigar tudo que ela fazia pela boca da mãe. Mal lembrava do pai, nem sabe se o amou pois a convivência era pouca. Mais passava o tempo trabalhando, já a narradora, agarrada à saia da mãe e ouvindo histórias arrepiantes de pecadores e do castigo de Deus. Mas ela não distinguia “o movimento de transição da nossa vida desse tempo para o outro, em que habitamos um cortiço de São Cristóvão.“. Não tinha criados e nem sabe para onde foram, nem a mestiça, a mãe ficava a engomar dia e noite, suspirando, peito magro e com as mãos queimadas. Crescia devagar, até eventualmente ia brincar com as outras meninas do cortiço, mas elas eram mais brutas e violentas e logo a faziam chorar alto. A mãe vinha ao socorro, lábios queimados e respirando forte, protegendo a filha. A mãe dava uns trapos para que ela brincasse e logo caia ao sono, acordando e estava coberta com um lençol, cabeça no travesseiro e um mosquiteiro que a protegesse. “Os dias sucediam-se sem que se notasse a menor alteração em nossa vida.”. O café da manhã era café e pão, a parte dela maior que a da mãe, sempre se sentia atraída pelo barulho das crianças e logo voltava chorando, cheia de agressões verbais de ser lerda, palerma e lesma, ela mais fraca e tímida que todas, e das agressões físicas. Estranhava no começo como existia tanto barulho, tanta gente e tanta gritaria ali. Ficava na tutela da mãe para não ficar como ela, como se a observasse a todo momento e sentisse o cheiro do desvio de caráter. “Fui sempre medrosa e dócil.”. Sempre ficava na casa de uma outra violenta moça enquanto a mãe fazia entregas. Lembra-se bem de uma cena, Carolina, filha dessa ilhoa (que é da ilha) percebeu que ela tinha fome, coisa comum de passar tanto tempo depois do café da manhã e da idade. Deu um bocado de carne e farinha e ela devorou com vontade, soltando palavras meigas e a ilhoa chegou. Perguntou como ela arranjou a comida e a Carolina respondeu logo, tomou seis socos na cara e caiu ao chão, mesmo dizendo que não tinha fome, ela avisou que era para aprender que ninguém mexia na comida sem sua permissão. Chorando, foi como encontrou a mãe ela. Contou a história para a mãe que, a partir dali e depois de tanto tossir, nunca mais a deixou com a ilhoa e levava ela nas entregas. Em uma das entregas da primeira semana de sol, no meio do caminho, a mãe se escondeu de uma moça bonita, ela a conhecia. Perguntou o motivo de não a cumprimentar, “A resposta tive-a anos depois, do tempo, da idade, do destino e dos desenganos.”. Pensando nisso na casa da freguesa, foi passar um tempo com uma das meninas que se divertia em mostrar o que tinha, mais por vaidade do que empolgação. Após ver os brinquedos, as posses e as salas da casa, elas se viram em um espelho e a narradora se achou feia ao lado dela. “Ela me compreendeu e demorou-se maldosamente a confrontar-me com altivez. Eu me sentia humilhada e com vontade de chorar… Em casa da ilhoa ou em casa da freguesa, caía sobre mim, com todo o peso, o horror da minha incompreendida situação.”. A mãe chama a menina, Lucinda, para que dê um vestido a ela que não servia mais. Ria da situação que colocava um vestido pelo outro, Lucinda a chamou de macaquinho. Obedecia como um robô de mexerem como bem entendiam e ela sentia raiva de ter que aceitar esmola e ter a vida tão diferente de Lucinda. A mãe agradecia. A irmã mais velha de Lucinda a beijou, apagando seu ódio. “As crianças pensam; e as impressões que sentem são as mais duráveis e profundas muitas vezes.”. Voltou lá, sem Lucinda, a moça tinha mais roupas para doar. Perguntaram se sabia ler, mas agora poderia ir para uma escola para aprender com novas roupas, para a alegria das senhoras. Passou a tarde feliz na alcova, com as outras crianças, Maneco, oito anos, fedia cachaça e procurava ponta de cigarro para fumar, pálido e orelhudo, era o que o mais lhe afligia e mais procurava ela. Rita era sua irmã, cinco anos, falava palavrão de um volume tanto quanto era bonita, morena e engraçada. Lucas era mais jovem, vivia sujo e mentindo. Todos ouviam as histórias curiosos e invejosos, menos Carolina que se curvava para lavar os esfregões.

Capítulo 2

“Dias depois entrei para a escola pública da minha freguesia.”. Foi até falar Carolina e os irmãos que ia, viram ela indo com o vestido. O começo foi difícil, acostumou-se. Ficou colada à uma mulata que tinha os estudos mais avançados e paciência para ensinar ela. “Ficava a meu lado; era feia, escura, marcada de bexigas, com olhos pequeninos e amortecidos, o cabelo muito encaracolado e curto.”. Tinha doze anos, fazia 3 anos que estava na escola, não subia de nível. Estimava-a muito. Chamava-se Mathilde. Avançava nas letras por sua conta. Apesar de várias vezes sumirem objetos na sala, um dia sumiu uns sapatinhos e acusaram Mathilde, que negou, acusando-a do sumiço do sapato e de tantos outros objetos. Ao vasculharem sua caixa, acharam os sapatos e ela recebeu as humilhações de cabeça baixa. Ficou de pé no canto da sala de exemplo, não conseguiu acompanhar a aula, mas acompanhou a atitude de todos e nunca mais dirigiu uma palavra à Mathilde. Isolada, tornou-se agressiva, inauturável a tal ponto que a expulsaram. Viu-a sair sem chorar, aos fins dos trinta e tantos anos, sentia dor no peito. “Substituí a Mathilde, na grande convivência colegial, por Clara Sylvestre.”. Não ensinava como Mathilde, mas a cuidava com muito esmero, era sempre muito cuidada e ganhava até parte da merenda dela. Era forte. Ela sempre carregava pó de arroz e a narradora achava lindo. Inventava histórias de Lucinda com suas roupas e Clara por alguns momentos ficava com inveja, queria esse luxo todo. “De Carolina e dos irmãos ranhosos não falei nunca no colégio.”, mesmo ela tendo sido salva da fome e apanhado por isso, era perigoso manchar sua reputação na escola. Depois de dois anos, passou, foi de vestido branco e laços, não reconheceu na época, mas a mãe teve que trabalhar muito. Foi um dia de vitória. As amigas falavam das férias, das viagens, a narradora ficava triste. Ia passar as férias com a mãe que só trabalhava, emagreceu e ficou pior, via de longe Carolina que trabalhava e também piorava. “Era a doença, era o cansaço, porque ela, estupidificada pelo meio, nem tinha consciência do sofrimento.”. Maneco continuava nos vícios, ainda mais que o pai, Seu Joaquim, incentivava-o pela ausência e pelo ensinamento. Mesmo com a violência toda, a narradora voltava à casa da ilhoa, cansada do tédio da casa. Um dia a ilhoa chamou sua mãe, Martha, para que a menina fosse com ela. Tinha ganhado doces e repartilhava com as crianças, notou a falta do Maneco, mal sabia a mãe do paradeiro. A casa da ilhoa, mesmo com tantas crianças, era o menos sujo do cortiço. O quarto tinha o que dava, coberto do que podia. A ilhoa perguntou para procurar Maneco mas Rita contou que logo vinha. Os pensamentos da ilhoa que ele estava bebendo se concretizaram, ele voltou que não se aguentava. A mãe esmurrou ele forte, batia de quase matar ele e a Carolina de suplicar que parasse. Rita assistia apavorada. A ilhoa contemplava o corpo dele estirado ao chão e que era uma maldição o Joaquim na vida, contou do avô que morreu do mesmo vício, mas Joaquim não tinha o mesmo, mas ensinava Maneco a beber. Rita ficava ali assistindo, Carolina ia chorando e levava o irmão para o quarto, ele chiando na respiração. Dessa vez, a briga na volta de Joaquim com a ilhoa foi mais longa e mais barulhenta. Martha fechou a porta e mandou a narradora dormir.

Capítulo 3 Um surto de difteria e de sarampo afetaram o cortiço, Martha cuidava da narradora com força e com dedicação. Nessa febre, delirava com pedidos que a mãe só podia a olhar e não realizar. Comprou uma boneca pois queria a mesma de Lucinda, que viajava. Ela comprou, via na cara dela a decepção, deixou-a no assoalho por alguns minutos mas brincou com ela, enfeitou-a e dormiu com ela nos braços. A mãe continuava a se esforçar no trabalho. Voltou para a escola e sentiu saudades dos dias ociosos, foi com Rita para estudar dessa vez, protegendo-a, tomou gosto de ser sua mentora e a palavra final das decisões dela. Muitas meninas iam e vinham, sem saber de onde e para onde, deixando uma tristeza sem fim e sem compreensão pela idade. Ainda Clara Sylvestre foi estudar e tinha ciúmes da relação da narradora com Rita, tinha amizade com outra cabocla risonha, mas até se resolviam tempos depois rindo entre si. Virou favorita da professora, sentava perto, comentava da facilidade e da paciência e as crianças traziam alecrim e perpétuas de presente. Chegou dezembro, passou com louvor nos exames e a mãe pensou estar apta ao trabalho, mas não tinha jeito com a engoma e deixava comida queimar. A mãe não repreendia, mas lhe dizia que devia se acostumar, até porque um dia iria morrer e precisava ser independente. Desatou a chorar e prometeu trabalhar bem, para no outro dia entornar as panelas e apagar o fogo. “Eu tinha então onze anos.”. Passou as férias tristes, Carolina, ainda resiliente e e sensata, continuava a sofrer agressões. No primeiro dia de escola, estava lá, e ouviu uma conversa da professora animando uma adjunta para ter liberdade financeira e social ao se tornar professora. Na mesma noite, a narradora sonhou em ser professora, tinha frutos do trabalho, a mãe ficava feliz com o sonho do emprego. Mas ela não sonhava em dar sossego para a mãe do quanto trabalhava, ou ser útil ou poder ter dinheiro, mas de não ter que mais morar em cortiço era um sonho por si. Estuda a mais e tinha frutos, dava para a mãe que guardava entre cartas da família e retratos do pai, uma caixinha que dizia sorrindo ser o passado e o futuro dela. Voltando para casa um dia com Rita, a narradora vê a ilhoa com roupa rasgada e cabelo solto sendo segurado pelos soldados, com o Joaquim vociferando enquanto sangrava. No susto, descobriram que a ilhoa levou Maneco ao médico, emagrecia muito, não dormia e tremia, era o vício, não tinha nem mais cura, a morte era o fim. Deixou-o com Carolina e foi atrás de Joaquim, o filho ia morrer, mas ele iria antes. Tinha muita gente e mais gente chegou depois com os soldados, mas a ilhoa só via o dono, amarelo, alto, no balcão seboso, magro, quebrou tudo que tinha em volta enquanto quebrava o Joaquim. Carolina chorava enquanto continha o irmão, Martha foi ajudar Carolina. Martha notou as pernas inchadas de Carolina, perguntou se foi ao médico. Como toda doença e problema que tinha, dizia que era nada. Ela já nem calçava meias, outra pessoa disse ser a umidade dali. Martha deu caldo ao menino e janta à Rita. A ilhoa voltou no outro dia, mal entrando, já chorava.

Parei aqui – Capítulo 4 “O cortiço em que morávamos gozava da fama de ser um dos mais pacatos do bairro devido à previdência do proprietário, um carroceiro português que morava com a família no local, na primeira casa à esquerda do portão.”. Gabava de escolher a dedo quem morava ali, e as pessoas iam se amontoando pelo preço, acostumando-de às promiscuidades e à barateza. A narradora se demorava como podia para não voltar ali. Até mesmo nomeou o cortiço de “avenida”, arranjou quitandeiros para darem frutas e fez uns tanques para as lavandeiras. Não foi nem dessas cortesias que continuavam, mas é que nem aumentou o aluguel e nem tinham outro lugar para ir. Eulália era outra moradora, de perto da ilhoa, falava alto, mulata gorda, todo sábado voltava da feira com cachaça. Ainda faziam assobios de canções africanas e improprérios, respondia dançando, fazendo careta ou caindo ao chão. Nas segundas, cheia de nódoas de pancadas, ia à Martha pedir trabalho. Ela a admoestava, dizia não deixar ela na mão e ela cumpria o serviço. Direita da casa moravam galegos, mulher, marido que trabalhava na fábrica e duas filhas, fechavam a porta da casa para não compartilhar comida, nem com “tio Bernardo, o idiota velho que o carroceiro sustentava e a quem todos davam os magríssimos sobejos.”. Era explorado. Dois tiroleses eram bem calmos, apesar de um ter tentado roubar uma mulher paraguaia, mas Túlio intervia e trabalhavam bem, mais Túlio do que Giovanni. Depois de uns dias, Giovanni matou Túlio dentro da casa, fugiu de madrugada e tio Bernardo viu a culpa. A gente comentava, a narradora viu o corpo de Túlio ensanguentado, boca aberta e olho esbugalhado, não por muito tempo pois a mãe a apressou, mas foi o suficiente para marcá-la. Averiguaram que levou dinheiro guardado de Túlio e Giovani o matou no sono. O medo tomou conta dela, o dia era até passável, mas de noite achava que ia ser assassinada a qualquer espreita, mesmo que a mãe dissesse que elas eram muito pobres para serem alvo de qualquer coisa. Até uma noite confundiu uma saia com o Giovani, a mãe a protegeu e embalou no sono. Foi aos poucos voltando ao normal. Emagrecia e, em um dia que costurava, a mãe a ficou vendo e disse como ela parecia com o pai. Pela primeira vez, deixou de trabalhar e parecia querer falar dos mortos e a narradora perguntou. Falava que ela tinha os olhos e a cor da pele, disse que se conheceram em uma festa e inicialmente foi difícil para se juntarem. Ela era pobre e ele também, mal tinha dinheiro para o dote e foi morar com ele e a sogra na casa da sogra. O pai dela era viciado em apostar jogando cartas e mal tinha como pagar as dívidas, piorou quando a mãe dela morreu. Foram se arranjando após a morte do avô enquanto apostava, eles tinham pouco mas eram bem considerados e virou caixeiro-viajante após a filha nascer. Porém, foi assaltado e não acreditaram na história, perdeu muito dinheiro e se matou. Chorou pela primeira vez a morte do pai, perguntou como levaram a morte do pai na empresa, Braga & Torres, culparam-no. “A viúva de um ladrão não podia continuar na mesma classe da qual a memória do marido a arrancara. Não era só uma mulher pobre, era uma mulher vilipendiada. Estávamos bem no cortiço, só aquele lugar é que nos competia…”. Os barulhos todos do cortiço cessaram, até a brisa parou de vir da janela.

Capítulo 5 “Os meses foram correndo. Eu estudava muito, mas, ou pelo esforço intelectual, ou por fraqueza física, estava sempre nervosa, irritada e magra. A minha preocupação constante era ser vítima de um desastre imprevisto.”. A morte era uma preocupação constante, tudo levava um medo de morrer ou achar a mãe morta, ainda que Martha tentasse distraí-la. Não foi mais à casa da ilhoa, a visão de Maneco ainda, tremendo, cada dia mais magro, só piorava tudo. Em uma tarde, viram luz no quarto da casa da ilhoa mas nada relacionaram, na manhã seguinte de domingo, ficou em casa e fazia frio, até que passou um caixão de defunto na casa da ilhoa. Foi ver, a casa estava aberta e ainda assim menos suja que as demais. Rita via tudo com os olhos bem abertos. Carolina andava com as pernas bem inchadas, tirando roupa de um baú. Maneco estava morto na cama, pálido. Tinha morrido de madrugada, fazia dias que não saía da cama, a morte era certa e esperada, mas a família sofria. Rita beijou-o na bochecha, Carolina na boca enquanto o molhava de lágrimas, Joaquim o abençoou, a ilhoa o segurava no colo longamente e o beijou e colocaram-no no caixão, sem flores, sem cerimônia. A narradora, comovida com tudo, quase a chorar, fugiu para casa. Na aula, no dia seguinte, pálida, recebeu notícias da mestra que ela foi aceita para receber ordenado, salário. Mal conseguia se segurar para contar a notícia para a mãe, mal entendia as lições. Parece que foi até de propósito que duas meninas que ela acompanhava tinham o irmão, filho de carpinteiro, a esquecer de buscar elas e ela sem poder ir para casa logo. Quando deram 4 horas, vieram e ela saiu voando para casa. Chegou abraçando a mãe, disse que poderiam até mudar para perto da escola, um chalézinho pequeno mas aconchegante, só que tomaria todo o dinheiro do ordenado. Deixaram sempre em mente aquela casa até que um dia surgiu a ousadia de alugar, um menino fitava ela enquanto ela explicava as aulas de física, era bom moço. Só que ela sabia nada de amor, se quer recebia cartas ou qualquer coisa e nem sabia como reagir. As meninas se riam e ele vivia a vendo e fitando, perdia seu rumo. Um dia, ela foi com a mestra para ir embora para casa, mas chegando perto, lembrou que teria que mostrar o portão do cortiço, todo feio, ela até inventou uma enxaqueca para diminuir o passo. Ela aconselhou dormir bem agasalhada, deu-lhe um beijo e se foi. Até viu a sombra dele na parede, mas nunca mais o viu. Foi assim que decidiu alugar “pequeno chalé cor de pérola, de venezianas verdes e lambrequins de madeira a guarnecer o beiral do telhado.”. Mas, depois de tantos anos, chegou à conclusão que o menino estava interessado era na professora.

Capítulo 6

A narradora morava no novo chalezinho, a mãe continuava a trabalhar o mesmo tanto, mas o ar era melhor. Pensava bastante no menino, estava apaixonada. Nunca mais o viu por muito tempo, meses, julgava ter sido a entrada do cortiço. Mas ela achava o amor improvável por ser feia. Talvez amasse o que ele representava, o Amor, o sentimento e a hipótese. Continuava na mesma escola, com afinco, dedicação, nunca deixando-se de parar de se esforçar, pois não considerava ter talento, apesar do comentário da mestra, o que tinha era “muita boa vontade.”. Deram o apelido de Santinha pela professora apontar como exemplo e de forma maliciosa. A narradora ignorava. “Assim, cheguei à idade de vinte anos, passando o melhor tempo da vida a estudar para ensinar ou curvada sobre a costura, ao lado de minha mãe, que enfraquecia muito e trabalhava sempre…”, não tinha amigas ou hobbies, pouco a pouco os olhos perdiam o brilho. Martha notava o espírito da filha e pedia que a mestra eventualmente a chamasse para jantar. Ficou entusiasmada com o convite da diretora para jantar com outros, ela tinha muito poder na narradora, já que ensinou desde o ABC e trabalhava com afinco, assim cobrando dos outros. Estava por perto dela, mas profissionalmente, o convite deixou-a feliz. Vestiu o melhor vestido, com rosa fresca, feito do crochê do recreio das meninas, a mãe a acompanhou e a esperaria, não tinha vestido bom para ir e a esperaria onde apenas os criados poderiam vê-la. Ficou perdida na festa, sentia-se feia vendo tantas jovens bem vestidas, dançavam, riam, lembrava-se da vez que se viu no espelho com Lucinda e o abismo que existia ela e as outras senhoras. Até olhava para a mobília e a casa, tão distante de si. A dona da casa apareceu, cumprimentou-a e ela logo a puxou para uma sala, apesar da narradora ter tentado, em toda sua timidez, resistir. Viu sua mestra, jovial, contava do seu sogro e da surpresa do aniversário do marido, senhor Jeronymo de Andrade. Após ter ouvido da família e de amigos, as pessoas dançavam, até que uma hora ela foi chamada para dançar. Ela queria sair daquilo, quem o acompanhava fazia de má vontade, ela se confundia toda, voltou para a cadeira derrotada. Quando serviam chá, pegou e guardou alguns biscoitos para a mãe, alguns rapazes viram com desaprovação e ela sentiu vergonha. Ouviu de um casal de idosos que já eram duas da manhã, sendo que sua mãe a esperava às onze. Ainda tentou achar a dona da casa mas saiu correndo. A mãe estava lá, no frio, ainda a esperando, dizendo que valia se ela tivesse se divertido. Ouviu tudo enquanto ajudava a filha se arrumar para dormir. No outro dia, desculpou-se à mestra de ter saído sem se despedir e ela perguntou se tinha se divertido, como nem tivesse feito falta. A narradora afirma que foi para trabalhar ali que tinha nascido mesmo.

Capítulo 7 “Decorreram muitos meses sem a mais leve mudança.”. Aquele “soirée”, festa, deixou uma má impressão na memória, gostou no momento, mas ficou mortificada depois que relembrava. Chegaram as férias, e, com ela, febre e tosse. O humor mudava e também tinha vertigens. O médico disse que precisava casar. Aquilo a chicoteou, parecia histerismo, a mãe a olhava com preocupação, o médico até tentou desviar para que ela tivesse folga, uma viagem ou coisa do tipo. A narradora não achou a ideia boa, a mãe foi contar à mestra em lágrimas. A ocasião coincidiu com a mestra indo passar férias com ela em Palmeiras da Serra, RJ. A mãe pediu dinheiro adiantado a um homem freguês antigo, Miranda, consertou-lhe e comprou roupas e a passagem, deu tudo sorrindo. Custou para soltar a mãe, chorava muito. Na viagem, via toda a paisagem bonita. Chegou na estação tarde, alguns estrangeiros por ali que eram da família e os levaram para a casa, espaçosa, com muitos quartos, em um local com muito verde e com muita paz e luz. Foram 3 pessoas com ela, além de uma criada, “O chefe da família gostava de caçar, a mulher de ler, eu de escrever à minha mãe.”. O chefe ia caçar, as mulheres passeavam, a mulher, Dona Anninha, com livro e a narradora com o cesto de trabalhos. Muitas vezes aproveitavam para ler na varanda do chalé do senhorio, a narradora simpatizava com uma arara que não lhe dava muita bola. Assim passavam os dias, aproveitando a natureza, lendo, cosendo, entre cheiros de flores, colhendo algumas, até colhendo framboesas e ouvindo o germinar da natureza. Em um dos passeios, um grupo de rapazes apareceu e um deles conhecia D. Anninha, Luiz, seu primo, falava de como gostava do lugar, ia até no inverno, mas que era bom viver na cidade para saber aproveitar o campo. Prometeram de almoçar no dia seguinte, era estudante de medicina depois que a narradora soube das contações dele. Naquela noite, a narradora misturou a sua face, “de rosto oval, grande bigode castanho, olhos maliciosos e ternos a um só tempo, cabelo ondeado e sedoso, mãos finas, esguias e brancas.”, com a do menino de três anos atrás, arrumou-se diferente e esqueceu de sua fealdade. Ele chegou atrasado, reclamava de ser estudante de medicina. O almoço foi feliz com seu espírito. Ele contava de um sonho de ter um castelo, com muita arte, pessoas felizes e belas, rodeadas por fauna e flora se tivesse muito dinheiro para poder oferecer tudo isso e ser lembrado como um bom governante. Até transpirava de contentamento do trabalho cotidiano e do afastamento da cidade. O marido de D. Anninha dizia que queria sossego e paz, nada de música e de festas ou de danças, mesa farta, espingarda cheia e sossego. A mestra perguntou à narradora, Martha, o quê faria se fosse rica. Ela era modesta, falou pouco e Luiz a observava. Na volta, foram de braços dados e ele contava da sua vida e de suas aspirações. Ela ouvia atenta, e queria ser sua esposa. A mãe veria tudo e ficaria feliz.

Capítulo 8 Martha, a narradora, vive um amor inocente com as visitas de Luiz, com flores e poemas que traz. Ela até se ri no momento presente da escrita das memórias. Em uma das tardes, caiu uma chuva forte, D. Anninha ia séria encontrar abrigo, Luiz ia rindo, Martha estava apavorada pois ela sempre teve problemas em lidar com tempestades e ficava cega de medo. Encontraram abrigo com um negro velho lenheiro. Passados quinze minutos, outra mulher apareceu, do hotel, “nova, alta, bonita, rosto cor de leite e rosas, de uma frescura encantadora, emoldurado pelos anéis sedosos do cabelo loiro-cinzento”, Luiz ficou encantado. Dado um sossego, conseguiram sair para ir ao hotel, um estrondo de trovão fez Martha gritar e Luiz a segurou e ajudou-a até o hotel. Dormiu bem e se revigorou. No dia seguinte, ficou a impressão boa do carinho de Luiz por ela e de como a cuidou, e se apagou a memória da norte-americana. Luiz não foi almoçar, esperaram-no em vão, mas chegou uma carta de um criado que a mãe da mestra não ia bem e precisava da presença dela. Voltariam no dia seguinte e Martha continuava confiante que ele apareceria, pelo menos para se despedir na estação. Daí que ela o vê de novo, em um dia belo e bonito, com fauna e com flora romântica, braços na rapariga de ontem e conversando intimamente em um banco antes de ir à estação. Via-os de perfil e das poucas palavras que entendeu, ouvia ele perguntando a ela se o amava e ela respondia que sim. Teve raiva daquela beleza dela, “Passei indiferente pelos chuveiros de flores douradas, vaporosas, que pendiam dos galhos musgosos das árvores folhudas, e deixei-me cair quase desfalecida num combrosito gramado, à beira da estrada.”. D. Anninha ficou preocupada se tivesse ocorrido algo a ela antes de irem para a estação, ela chegou a perguntar o que significava a conversa, ela o traduziu, ficou por isso mesmo, conversa de ingleses. Via com o comboio os lugares belos de antes que passeou com Luiz. Voltou mais forte, tinha até engordado e ficado mais feliz antes com Luiz, mas evitava falar dele. A mãe a acolheu, quis saber de tudo e contou que Miranda tinha grande interesse na filha, lia as cartas com felicidade. A mãe estava mais magra e abatida. “No fim de uma semana recomeçaram as aulas.”.

Capítulo 9 A frustração amorosa lhe tirou todas as energias. “Tornei-me excessivamente nervosa; passava outra vez horas em silêncio; a mínima coisa me impacientava; tinha o gênio irregular e frenético.”. Uma noite, foi acordada pela mãe, gritava em sono e queria saber o motivo, ela respondeu rispidamente e a mãe se assustou. A filha não sabia como se remediar. O médico remediou banho de mar e distrações, a mãe redobrava os esforços e o trabalho, a filha dormia mal, mal se esforçava no trabalho e chegava descontado no ordenado. Em um passeio, a mãe foi sentar, arfando, a filha continuou um pouco. Ela viu uma área pobre, com lama, crianças e o sol se pondo. O trem passou e a criançada quis acenar aos passageiros, a narradora ficou naquela melancolia, sentindo saudade de algo. Foi aí que notou uma senhora perto dela, elegantíssima. Foi até umas crianças, repartindo dinheiro. Depois notou, quando voltava, que aquela dama elegante, bem vestida e imponente era Clara Sylvestre. Em um silêncio, viam-se, Martha até queria abraçá-la naquele mistério, mas não entendia bem. Conversaram, reconhecia a cara mas não lembrava do nome, mal falavam do básico, tinha ido dar dinheiro a uma moça que perdeu uma criança, passavam necessidade. Alguns meninos deram lugar ao carro, chamando Clara. Ela se despediu, pedindo que a esquecesse, não merecia sua amizade. Ria indo aos rapazes e Martha chorava. Contou para a mãe, contemplava o caso e ficou na memórias essas palavras de que não merecia a amizade, ela que era inveja de Martha, da doçura, do espírito, da beleza. Mas ela queria penetrar naquilo, parecia feliz, bonita, rica, como ela era triste? “Quem valia nada era eu, sempre ignorada por toda a gente, sempre feia, o que me torturava, sempre envergonhada dos meus vestidos mal-ajeitados, do meu calçado barato, do meu modo esquerdo e retraído!”, mas Clara sempre a olhava com doçura. Essa neurose de ser pobre e de ser feia durou muito tempo, não sumiu por todo, mas chegou uma ocasião que ficou mais calma. Estudava, dedicava o tempo para decidir ser professora. “Envelheci, emagreci, trabalhei sobreposse”, mas a alma vencia onde o corpo caía. Um dia, sua mestra contou do casamento de Luiz, que era com Leonor, sobrinha de Anninha, a imagem que vinha era dela, não de Luiz. Mas a mestra a fez focar no concurso de professora que saiu em “A Gazeta”. Colocava toda a raiva em estudar, até mesmo na filha do paralítico deixada de lado que alimentava sua inconformação. Foi tranquila, como jamais foi a uma prova, mas a mãe ficava ansiosa, era o momento de saber se deveria trabalhar mais um ano, com o corpo cada vez mais debilitado. “Com que orgulho eu penso na desvelada solicitude que tem, em geral, a mulher brasileira para o filho amado! Não o repudia nunca, trabalha ou morre por ele. Coração cheio de amor, perdoemos-lhe os erros da educação que lhe transmite e abençoemo-la pelo que ama e pelo que padece!”.

Capítulo 10 Miranda, solicitador, rábula, advogado sem diploma que exerce as mesmas funções, trouxe a notícia para a mãe de Martha que ela passou no concurso de professora. A mãe recebeu a filha alegre, no mesmo dia que Luiz casava. Ela só pensava nas promessas e na menina bela, trancou-se no quarto com pretexto de se organizar. A mãe trouxe a notícia que Miranda pediu sua mão em casamento, não respondeu. Ela disse que tinha se apaixonado pelas cartas, a filha mal o conhecia, só de vista, achou estranho mostrar as cartas. Mas ela estava soberba, ficava orgulhosa da filha, Miranda era bom cliente e bom trabalhador. Martha filha não queria casar, alcançou uma posição independente. A mãe só queria a ver casada, era velho mas bom homem. Só que as cartas escritas eram frutos da paixão por Luiz, não era a mesma agora, não amava o que ela era, mas o seu momento. Pensava em toda sua vida, aos 24 anos só trouxe a paixão de um velho e, sem casar, mal teria um bom destino, ficaria velha, ranzinza, amarga ao mundo. Elas se desentenderam, mas decidiu-se com o casamento. “Só muitas horas depois pude ter calma para refletir. E refleti que o meu casamento seria uma vingança para os ultrajes que a minha imaginação de moça recebera sempre.”

Capítulo 11 O noivo era bem singular e nada de especial. “Era um homem de estatura mediana, gordo, calvo, com muitos fios brancos a luzirem-lhe na barba preta; de feições miúdas, dentes pequeninos; e peito robusto.”. A filha reagia com pouca ou quase nenhuma emoção. A mãe se empolgava tanto com a situação que lembrava de uma frase ou outra de uma carta e até trouxe a memória do pai de Martha filha. Miranda pediu envergonhado que parasse, a filha o olhou, triste. Ele sorriu a ela. Quando ele se foi, pontuou à mãe os erros de português. A mãe citou exemplos de situações que as mulheres se nivelavam ou diferenciavam da inteligência do marido, e que, no final das contas, devia fingir ou se igualar ao homem. Ela pouco se empolgava, dizia o que queria para mãe e ela fazia, enquanto se isolava e chorava. A cadeira era no Engenho Novo, na estação, foi agarrada pelo braço pela ilhoa, atropelou de perguntas e dizia da vida. Carolina casou-se, mesmo com a perna, explorava ela no trabalho e vivia batendo nela. Tinha dois filhos e morava no cortiço de Gamboa. Rita casou com um barbeiro. O marido saiu nas notícias mesmo que elas não tenham lido, passou uma carroça e deixou sem pernas. Tomaram caminhos diferentes, Martha filha admirava a ilhoa, estava mais velha, mas era resistente. “Dias depois tomei posse da minha cadeira de professora.”, Miranda e a mãe queriam uma data para o casamento. Adiava, ficava indecisa, finalmente decidiu dia e hora. Enquanto passava pelos papéis que guardava, caiu um papel com poemas de Luiz. Leu, relia, começou a recitar e até a mãe pediu que lesse. Perguntou de quem era, a filha respondeu de um primo da mestra. Ficou vendo a noite de estrelas, ventava e a mãe até avisou da folha sair voando. Ela não se importava tanto. “Foi assim passada a minha última noite de solteira!”

Capítulo 12

Casou-se com poucas pessoas presentes, Sr. Jeronymo e sua mestra e sua mãe. D. Anninha desejou felicidade e sabe que seria feliz. A primeira semana foi sem preocupações, a mãe estava feliz com tudo. Finalmente poderia retribuir os anos de luta da mãe, de resignação e de exploração com uma vida calma. Mas a luta da mãe contra a morte se perdeu, 8 dias de matrimônio foi quando teve uma síncope e só piorava, nem médico tinha solução. Martha filha gritava, ficava ao lado da mãe que enfraquecia sem se levantar. Um dia, a mãe olhou a filha, deu-lhe um beijo e pediu que saísse. Obedeceu. Aflita, andava pela sala e voltou, viu-a estirada e estava morta. Teve um ataque, debatia-se, gritava, estava sem chão. Ficou ali, aos pés dela.

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"O Cristo Cigano" FUVEST 2026 Sophia de Mello Breyner Andresen

“O Cristo Cigano” de Sophia de Mello Breyner Andresen – Resumo e explicação de cada poema

Cristo Cigano História em versos dividida em 12 partes, baseada na história original espanhola do Cigano Cachorro, contada por João Cabral de Melo Neto a Sophia Melo, que também era devotamente católica. 1 poema separado e outros 11 numerados. Não fica claro se é um longo poema dividido em 12 partes ou um livro de poemas. O certo é que ela renegou o livro, achando-o, ao longo do tempo, muito distoante de sua obra.

A palavra faca

O poema abre como uma referência a João Cabral de Melo Neto, autor de “Morte vida severina”. São versos livres, há uma preocupação no uso das palavras de forma precisa, como a faca, que terá um significado de estrutura do poema, da apresentação da narrativa, de ligação a João Cabral de Melo Neto, do ofício do escultor e do fim do Cristo Cigano.

  1. O escultor e a tarde

Há uma descrição do escultor, organizado em dois quartetos, um quinteto e um terceto. A história começa na primavera, época de vida, tema comum da obra de Sophia de Melo. Trabalha-se também com referência ao Barroco nesse poema, já que dualidades se chocarão, como antíteses e paradoxos e oposições. O destino lhe esperava, nesse meio de vida.

  1. O destino

Os homens de preto podem ser uma referência às batinas de padre, pedindo o trabalho. Assim como usa “Seu”, em letra maiúscula, para se referir a Jesus Cristo.

  1. Busca Mas o escultor não conseguia ver a morte para esculpir o rosto de Cristo expirando, perto de morrer. Existiam duas possibilidades, ou ele achava alguém perto da morte, ou teria que matar alguém. Segundo o Novo Testamento, Cristo morreu de ter sido esfaqueado, então era também outra coisa que poderia ter levado à obsessão do escultor pela faca que não só o instrumento do ofício. Renegava a morte, só recriava da vida e a vida o cercava. Procurava, sem entender a morte. “E como te amarei Tanto que em meus dedos Tua imagem floresça E entre as minhas mãos O teu rosto apareça?”.
  2. O encontro

Ele finalmente encontra um cigano se banhando na margem do rio, nu. Na história, aparentemente existia um cigano chamado Cigano Cachorro, popular na região. Apesar dele não ter nome aqui, ele é o mesmo da história e é descrito de forma sensual.

  1. O amor O escultor se apaixona pela visão. Abandonou a crença de que esculpia a vida e teria ele esculpido. Sabia que seria seu fim, que entraria em conflito com suas crenças e sua obra máxima.
  2. A solidão Aqui se dá ele procurando pelo cigano
  3. Trevas Agora ele procura uma face oculta, envolto em trevas de um mundo que a ele antes era claro, entrando em dualidades.
  4. Canção de matar Ele usa a faca para fazer o paralelo do amor ao objeto da obra, de como sua morte dará vida ao seu rosto que esculpirá em madeira, tal qual na história original de uma estátua de quase dois metros talhada em madeira. Ele assim se libertaria da obsessão com a faca, trazendo morte.
  5. Morte do cigano Com 3 versos, anuncia a morte de como foi rápido o processo. Curioso notar o uso de sons sibilantes, como uma faca que corta o ar. Assim como o uso de sons plosivos, como se fosse o choque, um encontro de corpos, um golpe.
  6. Aparição O cigano vai morrendo, e aquele intermédio entre vida e morte vai se pintando ao rosto, para que o escultor possa ver. Uma das possíveis histórias originais é que o escultor viu o Cigano Cachorro falecendo e depois reconheceram o seu rosto na escultura final, mas a outra teoria é que ele realmente o matou e depois viram a semelhança do rosto e deduziram que ele matou o cigano.
  7. Final Nada da vida foi seu modelo, a lenda acabou assim. Não é um poema da vida, mas da morte, da complexidade e da dualidade de estar vivo.
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"Opúsculo Humanitário" FUVEST 2026 Nísia Floresta

“Opúsculo Humanitário” de Nísia Floresta – Resumo de Cada Capítulo

Seu nome e pseudônimo são uma homenagem total. Sua cidade natal leva seu nome. Viveu até os 74 anos, morreu de pneumonia.

Coleção de 62 artigos publicados de forma esporádica, em uma coletânea sobre a educação no século XIX para as mulheres. Ela mesmo foi proprietária de uma escola, Augusto, em homenagem ao pensador Augusto Comte, pai do positivismo e companhia de Nísia. Recebeu críticas duras no âmbito pedagógico e pessoal.

A educação era exclusiva aos homens, sem contar a popular frase “O melhor livro é a almofada e o bastidor”, que retrata a mentalidade da época de mulher ser um objeto a ser admirado e ocioso.

Conceitos importantes: Educação é religião; As falas são contraditórias; O feminismo atual não é o mesmo de hoje

Nísia faz uma dedicatória ao irmão.

Capítulo 1 Nísia clama pelo país, atrasado e liberal, da educação das mulheres. Ela destaca como a educação da mulher foi fator definitivo do desenvolvimento. Na Ásia, mesmo os povos babilônicos com dinheiro e sabedoria, viviam na ignorância. O que faltava era Deus.

Capítulo 2 Agora ela fala do Egito, que mesmo com os faraós, toda a sabedoria e toda a riqueza, não cultivavam a sabedoria pela mulher. “A beleza física, entre esses povos, era o único mérito real da mulher”. E ainda que tivesse beleza, era competida. Nenhum dos grandes compreendeu o mal do embrutecimento do sexo. Armavam-se contra impérios e outros reis e eram fraco de pensamento esclarecido. Sempre quis a mulher inculta para cumprir seu papel humilhante.

Capítulo 3

Agora na Grécia, contava de Licurgo, “foi o primeiro que melhor soube harmonizar os interesses da pátria com as vantagens da civilização.”. Teve tantos filósofos marcantes e se destacou ao mundo, a vida adoçou pois as mulheres participavam da sociedade, não de objeto de prazer, mas trabalho de espírito. Mas havia algo que impedia o avanço contínuo e seu estabelecimento – o paganismo, não acreditar em Deus foi a ruína deles e de tantos outros grandes povos.

Capítulo 4 Os romanos tinham mulheres exemplares, mas que não as viam como iguais. Eram heróicas, mas queriam subjulgá-las para controlar. As que se destacavam, faltavam educação, e nem os gloriosos romanos conseguiram se manter por quererem controlar as mulheres. Se houvesse educação, não haveriam Messalinas, Tulias e Agripinas.

Capítulo 5 “É uma verdade incontestável que a educação da mulher muita influência teve sempre sobre a moralidade dos povos, e que o lugar, que ela ocupa entre eles é o barômetro que indica os progressos de sua civilização.” Os bárbaros do Norte e os selvagens das Américas e da Oceania exemplificam seu ponto, deixaria de lado os europeus para falar de outros povos. Pois, mesmo com o Renascimento e avanços tecnológicos, nada mudou da educação da mulher. Lamentou o sangue derramado pelas terras, ainda mais dos reis e nobres que ficaram nos castelos, repetindo em ecos que era o papel divino. Os gregos desapareceram, haviam novos filósofos, mas a terra no Oriente se tingia de sangue e imperadores pioravam os direitos aos povos. Apenas as cristãs conseguiam ter um alívio no coração de uma vida, coisa que, para a autora era verdade. Assim ficava a educação feminina, estacionada, com povos se perdendo no anticristo, na riqueza e no sangue derramado. Ler capítulo 5

Capítulo 6 Agora o foco é nas três grandes nações da Europa Moderna e os Estados Unidos. Começa-se pela Alemanha, exemplo de país de direitos às mulheres. Baseiam a felicidade doméstica na moral esclarecida das mulheres. Aponta como os homens do Sul mantêm a ignorância da educação tão comum dos homens do Norte.

Capítulo 7

Ela explica a vantagem da mulher germânica sobre as mulheres antigas e modernas. O espírito de família e o respeito à velhice são intrínsecos, e isso o que ela concorda, devem ser melhores mães, esposas, pensadoras mais profundas como os grandes exemplos de pensadores da Alemanha.

Capítulo 8 Agora o foco é na Grã-Bretanha, povo que engrandece nas letras e nas ciências e na educação feminina. Seja pela rainha ou pelos escritores, a nação colheu muitos frutos dessa educação cultivada. Desde cedo vê as vantagens do sexo que são, ainda mais na nova vida de casada e as virtudes da vida doméstica. Assim que na França e Inglaterra se dá essa diferença da donzela e da esposa, tal qual do galanteio tão diferente reagido aos países, pois as inglesas já sabem da sinceridade e da independências nos primeiros anos.

Capítulo 9 As inglesas se destacam pela instrução do espírito, ainda que as romanas e as gregas se destaquem pela educação moral e dos costumes. A educação dos ingleses é moral, e assim deve ser a da mulher, baseada na religião. Dá exemplos de escritoras que pontuam bem essa relação da religião como base da educação e o progresso inglês, como Jane Austin, Maria Edgeworth, Inchbald e Hannah More.

Capítulo 10 Agora aponta Voltaire, sarcástico com as mulheres, e Montesquieu, desviado da visão justa das mulheres. Traçam linhas que tratam a mulher como objeto de prazer, são poucos que viam a necessidade de libertarem as mulheres de seu estado de escravo e aplicar a educação na vida delas.

Capítulo 11 Agora o foco é na França. Povo hospitaleiro ao estrangeiro, o desenvolvimento veio com o compartilhamento da inteligência com a mulher. Se retirasse esse direito, a nação cai. A francesa reina mais forte pelo espírito do que qualquer outra comandante de outro reino. Não foi só pelos exemplos do direito da educação que a França se distingue, o amor maternal se destaca. Sendo assim, a mulher moderna

Capítulo 12 Assim como a Inglaterra, a França tem mulheres produtoras de todas as classes. Traz duas que destacam a necessidade da educação moral como base, Staël e George Sand, escrevendo e produzindo e provando que a mulher será o modelo da família e digna. Se falta essa dignidade e energia, é que faltou essa educação.

Capítulo 13

Agora destaca-se a beneficiência da mulher francesa. Ela aponta como são tão benéficas, educadas na religião, que vão até para lugares que nem sua língua falam ou os homens não as respeitem. Pensou até quando isso seria possível, tamanha dedicação para a Pátria e ser menosprezada. Ainda mesmo há quem aponte, inclusive na França, que a instrução seria mais prejudicial que benéfica, sendo que se bem instruída na moral, não há exceção que minta a regra. Mesmo que esses três países se destaquem no que diz da educação da mulher, ainda há muito o que se progredir.

Capítulo 14 Agora fala-se dos Estados Unidos da América, país jovem, com gozo intermediário das vantagens da educação da metrópole com a falta da aristocracia europeia. Destacam-se pelo cunho da verdade e do útil. Semelhantes aos franceses, são polidos, mas menos ociosos para ocuparem-se com galanteios. Ainda com o amor pelas ciências com tantas escolas, aplicam apenas ao que é útil e podem tirar resultados ao país.

Capítulo 15 É notório como a mulher na América é tão companheira e participativa da vida conjugal. Pela busca da verdade, depositam esforços nas ciências, investem-se em comércios e crescem perante os outros países europeus.

Capítulo 16 O livro de Mrs Stowe destaca-se pelos preceitos que a autora defende, educação religiosa e moral, a quem a autora compara com o Evangelho moderno que todos deveriam consumir, “Cabana do Pai Tomás”. Para a autora, ficava a esperança de que as gerações lessem as obras, ou ao menos decorassem as páginas para ter essa educação americana.

Capítulo 17 Volta-se o foco ao Brasil. Mesmo com esse regresso da história da Europa, Ásia, os pensadores, os países e os exemplos, o Brasil continua sem mover os obstáculos da educação da mulher. “Deus depôs no coração da Brasileira o germe de todas as virtudes”. Deve-se abrir a possibilidade de educar e desabrochar as infinitas felicidades de uma sociedade livre e civilizada.

Capítulo 18 Há uma lamentação em tocar no assunto da vaidade e de vontades pessoais de se fazer história. Deve ser um trabalho de séculos, mas espera-se que os homens da nação comecem a agir para que percebam que a verdadeira felicidade da nação está em educar a mulher. Cabe, ao presente, contentar-se nesse cenário de exploração de mata virgem, mas que, no futuro, os frutos virão de um país justo a elas que inspiram.

Capítulo 19 Mais de um moralista já estabeleceu e ao longo da obra se destaca a máxima de que a “educação da mulher muita influência tem sobre a moralidade dos povos, e que é ela o característico mais saliente de sua civilização.”. Analisa-se o Brasil durante seus 3 séculos, e as primeiras mulheres brasileiras, mas não as indígenas, que será feito outra hora. Não será analisado com os brasileiros, que pouco escreveram, mas com os viajantes estrangeiros.

Capítulo 20 Lamenta-se a herança de Portugal de desprezar o sexo feminino, ocupavam com missionários e guerras e deixavam a mulher para a serventia da casa, que levavam nenhum trunfo da guerra. Procurando glória onde menos havia, pouco se fez da educação da mulher, ainda assim, saíram alguns gênios dessa terra.

Capítulo 21 O exemplo de Públia Hortênsia de Castro mostra que a mulher na educação é na sociedade é mais impedida pelos preconceitos do que sua capacidade. E pegando os grandes homens de Portugal, era possível ver o exemplo da nação em relação ao posicionamento da educação da mulher.

Capítulo 22 Portugal perdeu sua glória, subiu como uma nação nobre e caiu no poder. Inclusive teve que colocar o Brasil no manto da escuridão da escravidão, desviando ela da Europa. A autora é fortemente contra a escravidão. Diz que a metrópole trouxe tudo de pior ao novo solo do Brasil. Ainda que tenha tido escritores exemplares, a situação foi ruim. Mas nem só de escritores se faz uma nação. Inclusive, elogia Nóbrega e Anchieta, “esses verdadeiros apóstolos do Cristianismo.”.

Capítulo 23

A sede de ouro e a ambição de terra e poder foi o que atraiu muitos ao Brasil, desejos piores do que o caráter dos selvagens. Os selvagens são mencionados como os aborígenes da Oceania ou os nativos dos Estados Unidos. Até D. Pedro denunciou como vinham corruptos e avarentos, ainda que magistrados ou agentes fiscais para o Brasil em 1822. “De tais homens não podia provir vantagem alguma para o progresso das ideias, e por conseguinte da educação da mulher.”. Ficou para fazer trabalho têxtil e de comida, e ainda que existissem virtudes, ficavam escondidas como diamantes brutos nas famílias patriarcais do Brasil.

Capítulo 24 O Brasil vivia no ego superinflado de Portugal, orgulhoso de um passado glorioso que não possui mais e enriquecendo pessoas de outro país e sofrendo todos os males. Nem mesmo haviam escolas, a ciência era negada, precisavam ir até Portugal para serem educados. Se era intencional, pouco importa, pois isso só resultava no mesmo fim de que a mulher nenhuma educação poderia ter. Infelizmente, o que faziam eram ficar em casa, salvo exceções que tinham educação, recebiam migalhas, e se ocupavam de tecer.

Capítulo 25 “As escolas de ensino primário tinham antes o aspecto de casas penitenciárias do que de casas de educação. O método da palmatória e da vara era geralmente adotado como o melhor incentivo para o desenvolvimento da inteligência!”. Ainda que algumas instituições isentassem as meninas da palmada, ficava a audiência e até xingamentos e tapas na cara, coisas que não competiam para criar a modéstia para as mulheres. Isso quando exerciam o magistério e não entendiam dele. Ficava ao cargo de jesuítas torturadores e mestres charlatães o ensino, que só sabiam soletrar alguns clássicos. E os pais, por terem tido a mesma educação, assim a consideravam normal, e seria preciso educar os pais para ter uma boa educação aos filhos. Ler o capítulo.

Capítulo 26 “Quanto mais ignorante é um povo, tanto mais fácil é a um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder.”. Ainda assim, quanto maior é o poder ao soberano menos seguro ele é. “A força não pode nunca persuadir, mas sim fazer hipócritas.”. A mulher deve ter a possibilidade de elevar sua moral e uma boa educação. Todos que tentaram apenas focar na parte física da beleza, não entenderam o ponto do espírito da mulher. Ainda que nenhum homem prefira ter uma mulher que se alegre com futilidades do que uma que se honra com as virtudes da sociedade.

Capítulo 27 Referenciando e relativizando Platão, a mulher é uma alma servindo-se de um corpo. A autora acha inaceitável a mulher se dar ao ócio, aos sentidos do corpo do que elevar o intelecto da razão e sua aproximação com Deus. Dessa forma os falsos adoradores e amorais se aproveitam de controlar mulheres que não desenvolvem o intelecto para terem escravas. Ainda se usa da fraqueza física como justificativa de inferiorizar a mulher, sendo que o que destaca o homem é o intelecto, e nisso a mulher também pode ser igual ou melhor. O que se torna paradoxal, uma vez que o corpo menos robusto deveria evidenciar a necessidade de se ocupar com as faculdades intelectuais. Ainda mais, quem elogia a mulher pela fraqueza, cai em uma falácia maior de ter que admirar ela pela fraqueza.

Capítulo 28 Há uma lamentação para quem acha que a mulher veio para ser alvo de prazer e nada mais terá da vida se não uma vida sem luz. Ainda se pensa na utilidade e no tempo que se despendeu de Aristóteles e todos os filósofos de criarem a filosofia e a razão para tão pouco usarem. Há uma clareza que nem todos os homens possam ser instruídos igualmente, o mesmo se espera das mulheres, mas que pelo menos seja instruídas, e que seja bem feito. Volta-se a fazer um regresso histórico de importância para a análise da situação.

Capítulo 29 Diante de uma explosão vulcânica, portugueses procuraram refúgio no Brasil, que estava de braços abertos. Criaram-se tribunais, escolas, academias, os portos fechados para estrangeiros se abriu e a colônia teve melhoramentos com a vida da família Real, agora com o nome de Reino. A educação feminina continuava como na condição da colônia, com ineptos pedagogos, padres charlatões ou as mães da família, aprendiam tudo menos o que poderia torná-la mais digna. Ainda que pudessem ter a vantagem de estudar em tantos lugares da Europa, as mulheres nem podiam aprender a ler. Existia o dizer de que ensinar a ler e a escrever seria a porta de entrada para escreverem cartas de amor, até mesmo os pais que queriam ensinar eram censurados. Lamentável a situação que continua, sem elevar as mulheres, porque se faz-se essa crítica aos do passado, incluem-se os do presente, pois ainda pensam assim, apenas viciando o espírito em sua simplicidade primitiva.

Capítulo 30 Há um paradoxo, pois se há o apontamento da falta de instrução ser essencial pois prejudica a mulher, como as mulheres brasileiras não eram celebradas como as mais virtuosas? “Mas todos sabem, a não serem os povos selvagens, que é um paradoxo, e paradoxo ridículo, avançar-se que a ignorância é o melhor estado para o desenvolvimento das virtudes morais.”. Mesmo que se ouça o brado de abandonar vícios, outros continuam. São um povo que celebram os antepassados, apontam as virtudes que prolongam, mas cometem o erro de não aprenderem dos passados e abandonarem os vícios. “Do número desses erros é o que nos inspirou este escrito.”.

Capítulo 31 Analisam-se as escolas régias, o início da instrução com profissionais duvidosos. Deixava-se por elas dizerem que sabiam ensinar, e a elas deixavam o ensino do sexo. Ganharam essa fama e os pais não conseguem bancar escolas particulares, ficam assim frustrados. Admira-se o desleixo dos profissionais, passando ou não por ensino que os capacitavam a ensinar e pareciam nada capacitados. Dará espaço a análise dos frutos.

Capítulo 32 Analisa-se a emoção da independência do Brasil, que, mesmo com o amor da mulher de D. Pedro I, pouco podia fazer pela educação. Pouco se podia fazer quando tantos brasileiros queriam fazer um ato ingrato. Lamenta-se a falta de avanço na educação, sauda-se José Bonifácio de Andrada.

Capítulo 33 Desde 1831 o Brasil tem governo nacional, tal qual será o alvo das críticas da situação, ou falta da, educação feminina, ainda que exista o consenso geral que a educação não está bem regulada e organizada, ela se mantém a mesma. Esse bárbaro sistema, sem frutos, e que não só tolera o sistema que deixa na mão de falsos educadores e diretores a punição física, mas implora e exige a educação moral que deveria ser dada em casa, não com um estranho como punição travestida de educação. Quem tenha poder, ainda confessa que tem obediência dos subalternos, mas dos filhos não conseguem nada – o problema é mais moral do que de trabalho. Parece, como a metáfora da autora, “ao sadio e vigoroso dono de um terreno fértil, mas inculto pela preguiça de seus braços, que vai pedir ao seu vizinho, a quem falecem iguais vantagens, o alimento necessário para a vida.”. E nenhuma casa se quer é preparada para poder cuidar, seja pelo desafio grande ou de forma educacional preparativa, já que se ocupam de falar mal um do outro e de colocar picuinha em alunos. Essa confiança do brasileiro no estrangeiro e a falta de cuidar do seu que toleram esses erros a mais do que tolerariam se fossem brasileiros. Ler o capítulo.

Capítulo 34 Comenta-se sobre as leis da educação no Brasil. Levam-se mais as casas de educação como uma estimativa e atividade financeira, local que frustrados e melindrosos comerciantes recorrem ao falharem nos projetos. Comparam-se os europeus de que não vêem motivo de sair do país para educar, e lamenta tal qual António Feliciano Castilho lamenta como um país pode perder seus gênios e criadores de tais por falta de recursos. O que atrai, no final das contas um europeu para o Brasil que não existe nos Estados Unidos, é o amor à natureza e o interesse financeiro material, em nada atrai a população que falta de princípios europeus.

Capítulo 35 Faz-se uma caricatura que qualquer um no Brasil que saiba ler e escrever se denomina apto a ser diretor de colégio. Pior é a inércia do governo e do povo de não exigirem uma reforma da educação e os auto-proclamados diretores que tentam decidir como melhorar a educação da mocidade que sofre com eles. Há uma intertextualidade da autora de que ela espera virar a folha do jornal, uma vez que esses capítulos eram publicados regularmente em um jornal por ela, que veria a notícia da educação da mulher, nada encontrariam e esperariam pelo melhor no dia seguinte. Apesar das lamentações, fará-se uma análise do que realmente foi feito pelo governo em relação a esse assunto.

Capítulo 36 “Pelo Quadro demonstrativo do estado da instrução primária e secundária das províncias do Império e do município da Corte, no ano de 1852, vê-se que a estatística dos alunos, que frequentaram todas as aulas públicas, monta a 55.500, número tão limitado para a nossa população; e que neste número apenas 8.443 alunas se compreendem!”, a desproporção mostra o desrespeito e o atraso. “Na província de Minas, onde a instrução se acha mais geralmente difundida, entre 209 escolas de primeiras letras, só 24 pertencem ao sexo feminino!”, sem contar a citação infeliz de um dos presidentes da província que a mulher deve ser ensinada a ser criada de si e do marido, tal qual relação com a província e os escravos, confundindo o espírito brasileiro e o povo mineiro. “Na ilustrada Bahia, de 184 escolas primárias, 26, somente, são de meninas. Menos egoísta para com o sexo a sua rival na glória, o heroico Pernambuco, fiel a suas tradições, lhe sobressai em equidade, pois que de 82 escolas, 16 pertencem ao sexo feminino. A província do Rio de Janeiro, com 116 escolas, dá ao sexo 36. No município da Corte, a sede do governo imperial, onde devia-se mais facilitar a instrução do povo, acham-se apenas criadas nove aulas de meninas!”. Há estados que nenhum número se quer chegou. Soma-se o baixo número, o método educacional e a decadência moral e a situação fica pavorosa.

Capítulo 37 Gonçalves Dias é citado com sua revolta contra o sistema educacional, desde o uso de material ao método e os lugares. Fica-se repetindo do avanço, ainda que a educação não melhore, abrem-se bailes e teatros que só mostram sexo e aplaudem como se aquilo fosse arte. Ela idealiza o passado, que deveria ser respeitado e igualado ou ser melhor que tal. Pouco se vê realmente de progresso da nação, menos ainda da educação.

Capítulo 38 Como celebrar o progresso do Brasil se o próprio governo aponta o problema na educação? Há um comparativo de um historiador francês, Ferdinand Dinis, de que as mulheres do Brasil e os costumes de lá remotam como se fossem atividades do século XVI, sem nada a Europa influenciar mudanças. Reflete-se sobre esse falso progresso, denúncia da condição da mulher e da situação da educação brasileira defasada e má armada. Ainda houvessem outros tempos que os meninos se aventurassem para ter o mínimo de educação, mas os pais não arriscam as filhas com uma parcela de perigo do que havia antes, ainda que preocupações justas. Considera-se a mudança de atitude para os que tiveram contato com europeus, ou a Europa, ou até que tivessem fortuna.

Capítulo 39 Passado os governantes e as instituições, agora serão analisados os pais de família. Infelizmente, apesar de serem uma âncora que impeça o naufrágio dos barcos da mocidade, ainda se enganam com aparências. Sempre se levam a colocar as meninas em colégios que possuam muitas delas, sem relevar o que levam elas ali, seja condição financeira, mérito ou promessas. Até cita-se de uma educadora que impôs um limite do número de alunas para melhorar a qualidade, coisa que surpreendeu em um sistema que visa lucro. Não há como ultrapassar a educação da mãe, dado que o tempo que se investe é relacionado ao resultado da educação final.

Capítulo 40 Há uma divergência dos objetivos das instituições públicas ou privadas de ensino, mas o que elas possuem em comum é ensinar e criar o sentimento de ciúmes e inveja entre seus membros. Há até uma citação de um diretor que conta da emulação ser um sentimento nobre, contrário da inveja. Essa emulação, esse sentimento de se igualar ao outro, só pode ser bem feito quando o trabalho em casa é exemplar na criação das meninas. Mesmo que duas meninas tenham a mesma instrução escolar e o sentimento de emulação, se a mãe não a educa não se terão duas meninas iguais. Ou seja, os pais precisam visar colégios que as diretoras sejam reconhecidas pelo zelo e dedicação ao ensino, já que as meninas poderão gozar das horas de estudos reguladas e a falta de tanto contato com os escravos. Tocará-se em outro assunto da decadência dos bons costumes da mocidade.

Capítulo 41 Um estranho hábito que se fez comum no Brasil foi o de terceirizar a amamentação. Não só o problema vem da falta de cumprir com a obrigação do papel da mãe, mas de deixar para as escravas mais esse serviço após todas as condições que já vive. Já de cedo, com leite impuro, como diz a autora, a criança logo aprende que a alimentação e ser servido são naturais como chamar os pais, e que assim sempre será feito, servido. Já aprendem cedo os maus costumes ensinados aos pais, salvo a situação que escapam de não saberem ainda o que fazem. Assim como cita Fénélon, as crianças já aprendem comandos antes mesmo de falarem, são influenciados logo cedo. Citando Agostinho, as crianças aprendem por repetição e por mostragem o nome dos objetos. Todavia, as mães preferem se afastar do choro e do aborrecimento da atividade e dar aos negros, impregnando as crianças com os pensamentos sem moral. É necessário que as brasileiras tomem seu ofício de amamentarem e serem exemplos.

Capítulo 42 Os afazeres de casa são rodeados de escravos, ensinados pelo chicote. As meninas logo se acostumam a ver esse espetáculo humilhante e tratar até a própria ama como objeto de ser útil ou não a ser vendido ou jogado fora. Se quer conseguem repelir essa ingratidão e a raíz anticristã rega um lar sem valores cristãos, que, mais uma vez, para a autora é sinônimo de educação. O que era para ser um embrião de inteligência se torna um ser violento, que vai lhe envenenando pouco a pouco o seu estado natural. Outra preocupação é a falta de respeito ou de limitar os assuntos abordados na frente de crianças, discutem e falam palavras que deixaria até pessoas mais velhas coradas, iniciando-as em um caminho tenebroso que falta idade e valor cristão a ser cultivado.

Capítulo 43 Condenam-se os pais, cheios de vício e má conduta, cita-se Dr. Rendu e sua análise problemática do Brasil, povo sempre seminu, vivendo na escravidão e em comum lugar e tempo, difícil algo mudar no país enquanto continuasse a escravidão. Dói, como aponta a autora, ouvir críticas de estrangeiros, não só porque ferem o orgulho nacional, mas que são verdade. Clama-se imitar os bons costumes, sem copiar tudo.

Capítulo 44 A autora diz que é útil imitar os aspectos positivos dos outros países, como os ingleses no respeito da religião e da lei, os alemães no hábito do pensamento e o empenho de melhorar, os franceses na sua civilização e inovação, e de todos citados pelo empenho no trabalho e procura de avançar. Lamenta-se o Brasil como país que nada se assemelha a esses, da estagnação de querer melhorar e de como até as partes mais pobres dos Estados Unidos gozam de uma educação melhor do que o Brasil inteiro. Não é nem na erudição o problema, já que se pode aprender essa educação em outras gerações, mas a educação moral e religiosa que se perde nas famílias é o grande problema. Relaciona Voltaire que aprendeu música aos 84 anos, pois o importante é o ensino religioso desde a infância para não corroer o ser. Mora no lar o exemplo das meninas, do desleixo, da ira, até mesmo de ensinarem maus costumes e péssimos hábitos. “Uma mãe é então o quadro mais eloquente, para lhes servir de norma em sua conduta futura, o modelo que devem primeiro copiar; se esse modelo não é perfeito, como poderá a menina apresentar uma cópia perfeita?”.

Capítulo 45 É possível notar alguns núcleos familiares privilegiados que estão isento deste contato da podridão e da corrupção da educação. Ainda no meio corrupto, são exemplos de humanidade, de filhas que respeitam, aceitam e toleram os pais e seus crimes, e das esposas, de doar-se em espírito, alma, corpo e desejo ao lar, e das mães, direcionando e tomando as dores das crias. As mulheres vencem, mas não são felizes, a vida é uma constante luta. Congratulam-se os pais que seguem o caminho direito, que, apesar da sociedade decadente, são exemplos para as mulheres do lar. Comparam-se as meninas francesas, inglesas e alemãs das brasileiras, aquelas, respirando a inocência, livres, estas, presas em espartilhos e maquiadas como mulheres adultas. Crianças moldadas em uma moda absurda que impede a liberdade da infância.

Capítulo 46 Conta-se de um episódio aterrorizante de um colégio com oitenta alunas. “Uma menina de 6 anos frequentava como externa aquele colégio.”, ela era simpática e doce, mas assustou a diretora que, ao vê-la respirando com dificuldade, tirou o espartilho que a sufocava e apertava os órgãos. Lamenta-se que os médicos levam nenhum crédito e nada avisam as mães, vaidosas em querer ver as filhas assim. Não deu outra, a filha procurando validação da mãe, vestiu de novo na manhã seguinte, caiu nos braços da diretora e morreu. A mãe só pode ver o fruto do desejo de ver a filha bela em vez de criança e livre. A diretora, tantas vezes advertindo as mães do perigo, tomou o exemplo para alcanças as mães e as alunas, tanto pela proteção da mocidade quanto o choque do ocorrido. Repetiram-se os valores cristãos, da liberdade para as meninas, valorizarem o espírito acima do corpo, as filhas foram noticiar as mães de forma preocupante, as mães se convaleceram, mas logo esqueceram do ocorrido. “Algum tempo depois os espartilhos, tirados às que haviam testemunhado essa pungentíssima cena, voltaram de novo a comprimi-las. A imagem da morte havia desaparecido e a moda reconquistava todos os seus loucos e funestos excessos!”. Ler capítulo.

Capítulo 47 “As lições e os esforços de uma ou outra pessoa, desta ou daquela outra família nada podem contra a generalidade dos princípios e hábitos seguidos por uma nação inteira.”. Mesmo com pais que criem corretamente e com a moral e a religião em dia, os filhos se sentirão estrangeiros da pátria. A natureza do governo é um cheque social. A liberdade na educação é mal entendida, as meninas vão por superficialidades, línguas sem saberem a história, conhecimentos básicos de geografia e do mundo sem relação e de modo decorado, bordado bruto para elogios, dança para ser visto no salão, música e canto sem conhecer nada da origem. Em vez de dar bom exemplo, reprimir ações negativas e apoiar as positivas, deixa-se para ensinar tudo depois e se desculpa e se negligencia com a máxima de que é uma criança. Nada poderá se esperar da nação brasileira de progresso se a educação, no geral, seja pública, privada e domiciliar, não ter uma grande reforma. É inútil diretores quererem mudar filhos viciados e pais esperarem milagres de uma mudança de atitude de negligência domiciliar. Existe potencial, mas fica nisso.

Capítulo 48 Repete-se o assunto da importância da participação da mãe na educação, para que colha frutos da educação escolar melhor. Delas é a importância de ocupar com ocupações úteis e também pequenas distrações inocentes. É ensinar desde cedo o valor do trabalho, de como se engrandece com propósitos de produções materiais e intelectuais. Devem bastar a si mesmas, procurar o intelecto a ser desenvolvido fora ou dentro de casa, mas com exemplos de tal em casa.

Capítulo 49

Reflete-se no mau exemplo das agressões físicas e verbais que as crianças vivenciam frente aos escravos, não só que testemunham mas são incitados pelos pais a fazerem também. Defende-se que os escravos tenham coração nobre, que pode faltar a educação religiosa para engrandecerem, mas pior ainda são os senhores que acreditam comprar um animal em vez de verem um ser humano. Mas ainda assim, com todo esse histórico, jamais se perdoa desobediência, de negros sem educação propriamente aplicada, restando o silêncio e a revolta de Deus. Afastai esse costume bárbaro, diz a autora, para que todos possam gozar de um mundo cristão.

Capítulo 50 Denuncia-se o costume do tédio, tão acostumado pelas escravas em volta, reforçado pelos exemplos dos pais. Isso é possível ver na mudança da nobreza que tirou o ensino de saber de títulos para afazeres úteis e produtivos ao corpo e à mente ao exemplo da Revolução Francesa que a nobreza teve que servir à burguesia por nada saber fazer. Vêem-se no Brasil todas as classes ociosas, banhadas em dinheiro proveniente de trabalho, não de preguiça. Certamente que o ócio desperta a inteligência como cita Helvécio, mas a preguiça e a languidez eram outras e em outro lugar, não se adequando a teoria que funciona na Europa e não funciona no Brasil.

Capítulo 51 A educação física é tão mal entendida quanto à moral. Ficam em colos de escravas, estudando em casa, mal saem de casa a vida inteira, salvo algumas poucas exceções e só aos domingos, para ir à missa. Desculpam-se em governar a casa, mas em completa desordem e sem saber como ordenar. “Neste aprendizado e nesta indolência decorre a vida da menina, a quem se repete de contínuo a velha arriscada máxima “reprime todos os impulsos da natureza, e embelece-te para seres mulher”: isto é, habitua-te desde a infância à hipocrisia e procura reinar pela matéria embora o teu reinado seja de pouca duração.”. Ela cita um exemplo, Selena, do pai que narra ter ensinado em certo grau a ter força, educação e ocupar-se utilmente. Via as consequências de outros pais e países, que deixavam as meninas se ocupar de inutilidades, até mesmo da música de forma superficial, resultavam em meninas que atraíam maridos que a viam pelo físico e torravam o dinheiro do casamento. Cita Domingos José Alves de Magalhães, da nação viciada em preguiça, vaidade e avareza, fechando as portas das Ciências ao mundo.

Capítulo 52 Agora se volta a atenção para as classes pobres, sem tempo de poderem ascender social, intelectual e economicamente. Assim se compara com as mulheres europeias dos países da França, Alemanha e Inglaterra, que criam filhos e ainda auxiliam no trabalho dos maridos, colhendo frutos de crianças que apreciam e respeitam o trabalho, diferente das brasileiras que não se vêem ou são tratadas como independentes, mas que são do marido, vivem para e por ele e sem ele são nada. Dá-se nisso que o casamento a torna inútil, no sentido da produção e individualidade. Deve-se dedicar-se ao trabalho, forma de engrandecimento e de colher o respeito do marido, em vez de se deitar sobre a falsa promessa da eternidade de um matrimônio.

Capítulo 53 Analisa-se os pobres da França, que, com o trabalho e a ascensão, mantém a dignidade até mesmo na vestimenta, contrário dos brasileiros que se esbaldam em luxúria, cedendo ao crime e à ociosidade. Cita dois pensamentos de como a preguiça, a falta de contato com Deus, deixa a população viciada e inerte.

Capítulo 54 Diz-se que a análise seria feita não só da província, mas de todo o Brasil. “Todos os brasileiros, qualquer que tenha sido o lugar de seu nascimento, têm iguais direitos à fruição dos bens distribuídos pelo seu governo, assim como à consideração e ao interesse de seus concidadãos.”. São duas classes distintas que existem no Brasil, rica, que esgota a terra comprando metais com dinheiro da família, e pobre que sobra apenas as ciências e as artes para terem um pouco de nome e de respeito. Clama-se pelo amor ao trabalho e a união do povo.

Capítulo 55 Traz o assunto da falta de exemplos por parte do clero para a mocidade se inspirar. A religião enriquece a alma, muito mais importante do que qualquer riqueza material. Assim, a mulher também precisa ser instruída na religião, dado que, sem ela, nenhuma civilização pode se chamar de avançada. Mas falta instrução, bons exemplos do clero, até modos de como instruir eficientemente. Relaciona também uma moça bem instruída que Luís Filipe se admirou pelo fato dela ter tanta instrução e ter que aprender catecismo ao chegar na França.

Capítulo 56 Traz-se um relato de um padre da França que veio ministrar um dos primeiros cursos de catecismo em uma das capitais no Brasil doze anos atrás. Só que, iludidas no pensamento de levar as meninas para a educação, logo perceberam que o padre era o resumo da mocidade, alguém que vai para a Igreja como um centro de flertes e de festas. São necessários bons exemplos no púlpito.

Capítulo 57 Faz-se um apanhado geral do perfil corrompido do brasileiro, que apesar de ser modesto, dócil e generoso, é corrompido pela escravidão, preguiça e falta de religião. Até mesmo que diz o Conde de Castelnau que aqui existe clero, mas não padres. Por fim, tecerá-se um assunto em torno dos caboclos, os indígenas que possuem pele cobreada.

Capítulo 58 Enquanto a autora faz uso de um de seus poemas, “Lágrimas de um Caeté”, ela lamenta o indígena, fadado à soberba e violência do branco. Lamenta-se como não há mais como Padre Anchieta que procuram catequizar e educar o indígena, sobravam poucos dos tantos que viviam por ali. Por fim, lamenta como a morte do povo foi feita para agradar um povo que nem era o brasileiro, e pior ainda, sem benefício nenhum a ninguém.

Capítulo 59 Deseja-se focar na mulher indígena. Elas se assemelhavam às mulheres com valores cristãos, fiéis ao lar e fora, acompanhavam o marido no trabalho e na casa, ocupada com afazeres e forte. Foi a primeira a sofrer as vantagens da civilização trazida pelos europeus, tratadas como escravas, como objetos. Falavam de Cristo e agiam com hipocrisia. Porém, mesmo em meio da natureza, considerados selvagens, agiam de tal forma que era heróica e inspirava até os mais educados cristãos, já que eles eram espontâneos e não educados na fé cristã. Elogia a ética e a moral da conduta indígena, citando Paraguassu, esposa de Diogo Álvares Correa, o Caramuru. Também há a referência de Poti e de Moema, figuras da literatura e da história. Lamenta-se, mesmo que tenham algumas vitórias e honra, vão sumindo e talvez desaparecerão por completo.

Capítulo 60 Trata-se agora da fidelidade, característica inata da esposa indígena. Denuncia o esteriótipo dos indígenas serem preguiçosos e contra os valores cristãos, sendo que eles sempre se mantêm ocupados pelos exemplos que já tiveram contato. Poderiam ser de ótima ajuda para a sociedade, mas toda a atrocidade de serem escravizados, substituídos pelos negros e tomarem esteriótipos que não cabem a eles só afastam essas pessoas que também querem ver o país crescendo. Enquanto o governo não tomar medidas de educar esse povo, qualquer coisa é apenas faixada.

Capítulo 61 Resume-se que o brasileiro procura no estrangeiro as soluções, sendo que o próprio brasileiro tem meios e gente para resolver. Cita alguns trechos da obra “Viagem às Margens de Mucuri” e de como é infrutífero e cruel o modo que tentam controlar os indígenas e como respondem, além de como o matam e o violentam e suas reações. Reforçam até que eram resilientes na tortura e no tratamento desumano, começaram a serem agressivos e a responderem quando as mulheres e as crianças foram alvos de tortura. Lamenta-se toda a situação e de que a mulher indígena merece lugar melhor na sociedade, todo o tratamento é anti-nacional e anti-cristão. Espera-se que no futuro isso mude. Fará-se mais um apanhado geral das mulheres no geral.

Capítulo 62 Faz-se um pensamento da exclusão da mulher como princípio importante das sociedades, mesmo que ela seja o grande objetivo e motivo de atitudes e de ações de governos e homens ao longo da história de diversas sociedades. Pede aos pais que eduquem as filhas, saibam da religião, não sejam bonecas para exposição, saibam seu povo, sua utilidade, a história do país, que removam esses preconceitos da fragilidade do sexo e clamem pelos seus direitos e seu lugar de respeito no Brasil, tal qual os homens e o povo do Brasil reconheçam. Se temos uma terra fértil, bela e princípios elevados fáceis de serem adotados, o Brasil tem o fim certo de ser uma elevada nação.

Partes divididas: Do capítulo 1 ao capítulo 5 – Antiguidade
Do capítulo 6 ao capítulo 17 – Modernidade
Do capítulo 18 ao capítulo 24 – A herança de Portugal no Brasil
Do capítulo 25 ao capítulo 38 – O sistema e a legislação da educação no Brasil
Do capítulo 39 ao capítulo 51 – A moralidade e a hipocrisia das famílias brasileiras
Do capítulo 52 ao capítulo 54 – Os ricos e os pobres no Brasil
Do capítulo 55 ao capítulo 57 – O clero no Brasil
Do capítulo 58 ao capítulo 61 – A mulher indígena no Brasil
Capítulo 62 – Resumo geral

“Emancipação e educação feminina em ‘Opúsculo Humanitário’ de Nísia Floresta” por Francisco Aedson de Souza Oliveira e Jéssica Luana Fernandes – https://periodicos.ufersa.edu.br/kuab/article/view/12599/11601 ”As representações do feminino através das obras ‘Opúsculo Humanitário’ e ‘Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens’, de Nísia Floresta” por Milena Bruno Ferreira – https://repositorio.ufms.br/jspui/bitstream/123456789/5777/1/A ESCRITA DE AUTORIA FEMININA.pdf#page=33 ”Nísia Floresta e a recepção de romancistas estrangeiras em ‘Opúsculo Humanitário’” por Larissa Karoline Campos Oliveira – https://historiaeliteratura.fflch.usp.br/sites/historiaeliteratura.fflch.usp.br/files/inline-files/IISEMINÁRIO HISTÓRIA %26 LITERATURA _0.pdf#page=44

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FUVEST FUVEST 2026

FUVEST 2026 – Lista de obras de leitura obrigatória

Pela primeira vez, um vestibular pediu uma lista completamente composta de autoras. Havia uma lista anteriormente que a FUVEST 2028 teria outras obras, mas a mudança foi feita ainda em 2024.

Dessa forma, a FUVEST do ano de 2025, acesso 2026, possui 9 obras novas comparadas ao ano passado.

A lista de obras de leitura obrigatória da FUVEST 2026 ficou da seguinte forma:

Você pode conferir os resumos das obras clicando no nome delas.

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"As Meninas" FUVEST 2026 Lygia Fagundes Telles Resumo de Cada Capítulo

“As Meninas” de Lygia Fagundes Telles – Resumo de Cada Capítulo

Romance, ano de publicação 1973. “Para Paulo Emílio”.

Obra publicada durante o período da Ditadura Militar, supostamente o livro passou pela censura porque a obra deve ter sido vista pelo censor como algo bobo ou sem profundidade, ainda que tenha narrações explícitas dos crimes e das torturas cometidas na época.

A obra possui 12 capítulos e 4 narradores diferentes, as três protagonistas e um narrador em terceira pessoa. A narração de Lorena é marcada por conectar os temas das ideias que possui, uma atrás da outra, sem concluir ou retomar qualquer ideia, como se fugisse de um pensamento. Também tem as expressões “morrer de pena”, “se matar”, “já pensou?”, “p da vida” e “ai meu Pai”. Chama Lia de Lião ou pelo nome completo, Lia de Melo Schultz, e Ana Clara de Ana Turva ou Aninha. A narração de Lia é a mais organizada de todas, tenta sempre se distanciar dos desejos individuais e pensa em outros e no coletivo. Tem as expressões “não sei explicar”, “extraordinário”, “verboten”, “putz”. Chama as meninas pelo próprio nome que possuem ou até a Lorena de Lena e a Ana Clara de Ana ou Ana Turva. A narração de Ana Clara é a mais caótica, ela retoma ideias, mistura o que pensa, não termina frases. Ela varia entre estar sóbria e lembrar da infância traumática da mãe droga e dos amantes abusivos e estar drogada misturando as ideias, memórias, ilusões e metáforas. Também tem as expressões “Ah”, “Dureza”, “Pomba”, e é a que mais usa palavrões como “Desgraçado”, “Puta”. Chama Lorena de nhem-nhem.

Conceitos importantes: Alienação; Amadurecimento; Identidade. Recursos linguísticos importantes: Anáfora x Função Fática; Paragrafação e construção de orações; Estrangeirismos e referências

Capítulo 1

O narrador acordou, sentou na cama e deitou pois era cedo para banhar-se. Ficava pensando em coisa melhor do que tomar água de côco e fazer xixi no mar como dizia o tio da Lião, que era pensar o M. N., Marcus Nemesius, um ginecologista, diria quando caísse o último véu. Lembrava de Lião, Lia de Melo Schultz, e como escrevia, pensou na frase de que a cidade cheirava pêssego, pois era época. Dedicou a Guevara, era sobre uma reflexão da vida e a morte em latim. Ainda pensa na língua, de Guevara gostar e ela não, até quando pensava na morte em tempo livre, achava que a língua combinava. Combinava os pensamentos com M. N. e o cheiro de pêssego na cidade. Foi do pensamento do rosto peludo de M. N. paralisado de um lado, para a palavra “infinitamente” e de volta a pensar em pele de cobra que tocou. Pensava nos detalhes que Deus fazia e os pormenores do gozo com M. N., foi para Ana Clara que contava do delírio do namorado quando tirava os cílios postiços. “Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo.”. Pensava até que a boca era mais excitante, mexendo-se desde fala até morder um pêssego, que queria escrever um livro entitulado “O Homem do Pêssego”. Um homem cheio de dureza e marcas de tal se deliciava ao passar a mão no pêssego maduro e essa cena tinha deixado a narradora maravilhada. Ele brincava de morder e não finalmente se deliciar com o pêssego e a narradora ficava na ponta do pé, engasgou com o leite que tomava quando ele finalmente se lambuzou com o suco do pêssego. Lorena Vaz Leme, o nome da narradora, não tinha vergonha. Queria ser santa, mas o Anjo Sedutor e ela toda não davam. Pensou em acender incenso, purificar-se, mas tinha sono tal qual o gato, Astronauta. Procurou por ele. Pensava como ele era preguiçoso mas astuto, bom e demônio. M. N. não o conhecia. Queria oferecer sangue a Jesus, mas podia oferecer apenas música, tinha horror a sangue e curtia Jimi Hendrix, mesmo que morreu de overdose. Levantou da cama, dançou um pouco e foi ao toca-discos. Procurava o disco de Jimi Hendrix. De pijama branco com flores amarelas e uma corrente de coração de ouro no pescoço, perguntou agora onde estava Rômulo. Deixou o disco ser tocado de leve.

Parte 2

Uma voz vinha do jardim chamando Lorena, Lorena Vaz Leme. Enquanto dançava quase a cair, Lia de Melo Schultz, Lião, a chamava que queria falar com ela. Lorena comentava da primavera, sem dar bola a Lia. Ela tentava segurar a meia acima da perna, mas o elástico já tinha se ido. Lorena até comentou ser melhor sandália, mas Lia precisava andar o dia todo. Lorena pensava na cafonice, pior mesmo era joanete, que devia ter vindo de uma Joana com pés deformados e deu origem aos joanetos. Lorena ofereceu suas meias, Lia rejeitou por serem suíças, queria francesas. Pensou que nem ia dar, era doideira usar meia para engrossar perna, mas ela ficava magra. Lorena terminou dizendo que estava apaixonada e se mataria se M. N. não a telefonasse.

Parte 3

A narradora muda para Lia, pensava na falta que Miguel fazia para ajudá-la. Lorena dizia de ouvir Jimi Hendrix e comer biscoito, mas Lia preferia sua música e seus biscoitos, detestava o colonialismo cultural de Lorena, a achava fresca. Lia continua a pedir pelo carro emprestado pela manhã. Tentava segurar as pontas como Miguel dizia, preferia ficar presa, como ele, mas aguentava Lorena e o jeito que mudava de foco, desde os biscoitos a acenar para Madre Alix com uma careta ao fim. Lorena perguntou se Lia tinha uma metralhadora na sacola, a faculdade continuava de greve. Irmã Bula brincava com o gato, atenta às duas meninas, Lorena imitava uma metralhadora. Perguntava como não sequestrariam M. N., desviando da pergunta do carro de Lia. Ela acendia um cigarro e preferia sofrer do que ver outros sofrerem, em especial Miguel preso. Tinha raiva, queria morrer, chorar. O povo estava longe, a burguesia fazia tudo sem medo. Intelectual era pior que tira, o crime acontecia. Tinha vontade de chorar, faltava lenço e até pediu a Lorena, que focava de novo em outra coisa do que o carro. Maurício, não estava ali, mas era torturado com um bastão elétrico. Miguel tinha dito que morreria se adiantasse algo, mas preocupavam-se mais com a cor de graxa de sapato a usar.

Parte 4

Lia pediu a caixa de lenço verde das ofertadas por Lorena. Lorena dá o lenço verde de Istambul, tão precioso, mas que tentou se conformar que era lenço para Lião que estava já impaciente. Percebeu a depressão existencial. Pensou se era Miguel preso ainda, pensou em todos os outros presos e a possibilidade dela também ser presa. Tinha medo mesmo do pensionato e quando via padre e freira por perto. Lião devolveria no dia seguinte, Lorena até disse para ficar e pegar outro e jogou o rosa. Pensou no lenço que não abriu que se conectou com o coração dela que não abria e borbulhava o sangue, tal qual o episódio com a espingarda com Remo que era tudo brincadeira e a mãe viu. Não quis mais pensar naquilo e queria sentir o sol. Lorena reclamou de como não ficava bronzeada para Lião e ela perguntou do velho, que era como chamava M. N., amado de Lorena. Ficava irritada de como o chamava de velho. Falava de comer caviar e Lorena notava como Lião mudou. Perguntou se foi para pior. Pensava em secreções, empadas com café e em tomar vinho com M. N. e comer lagosta, chamava de lagostim. Até chegou ao pensamento das crianças do Nordeste que passam fome e como precisava carregar esse povo nas costas. Pensou que Deus podia ter seus motivos. Lião dizia que devolvia amanhã o lenço, Lorena sabia que não, era mesquinha, sabia que não podia emprestar coisas pessoais. Irmã Bula chamava por Lia pela janela. Lião tem medo e Ana Clara posa de indiferente. Ela chega e pega vários lenços para se limpar depois do sexo, sem cerimônia e poesia. Pensava em como ela agia diferente, até de se masturbar, Lião achava tudo estranho e se impressionava com o tanto de mulheres que faziam nada, herança de Idade Média. Duas abelhas foram perto e Lorena afastou, pensando que M. N. podia aprender que para afastar bastava ser assim brando. Viu a abelha esfregando as patas e associou à memória de Lião estudando sobre masturbação. Teve a primeira experiência em uma aula de piano, enquanto tocava o banco a estimulava, tocou sem errar e a mãe a elogiou. A segunda vez foi em banho de banheira, o jato quente passou pelo corpo e passava o pensamento de Felipe e sua moto.

Parte 5

A narração muda para outra pessoa além de Lorena e Lia, a gata cheirava a sacola de couro de Lia, desconfiada. Lembrava de Lorena que conversava com Mieux para ter certeza de tudo. Falavam do banheiro a ser reformado, Mieux era motorista e tinha um caso com a copeira, era galanteador. Ele já imaginava como seria o quarto, enquanto contava para a mãe de Lorena, toda afobada. Como ele ia por trás e não o viam, Mieux passou a mão na bunda de Lorena.

Parte 6

A narração volta para Lorena, ouviu Lião chegar e aceitou a oferta de chá. Ela estava eufórica de uma chamada. A narração de Lorena é marcada pela interjeição “Ai meu Pai”, tinha dó de Lião, estourou de falta, sem dinheiro na metade do mês, namorante preso. Ela faz movimentos para desenvolver o busto, ela se acha a mais bonita e se mantinha como a modelo das três, mexeu na água e preparava o chá. Lião perguntou de baixar o volume da vitrola e já diminuiu tudo. Lorena vai para muitos pensamentos inacabados, tratando do prazer das pequenas coisas até a pensar de novo em M. N., ofereceu frutas, ficou lamentando-se de M. N. não ligar e iria se matar. Lião roía o biscoito, Lorena não entendia como ela, com bunda de baiana, vestisse roupas que não a dessem vantagem. Lorena pensava em qualquer outra coisa, especialmente sobre o corpo, do que os pedidos de Lião para pedir o carro, coisa que ela sempre era salva por Lorena – dinheiro. Zombou ainda das pernas, Lia tentava manter o foco de como e quando pedir o carro. Lorena até pensou no mundo infestado de máquinas, ainda mais em Era de Aquário. Lia poemas, falou de Tagore. Discutiam do amor que acabou, Lia dizia como tudo estava na Bíblia, achava nada novo os poemas. Lorena se encantava com os romances clássicos e Lia mal tem paciência para isso. Ela para a água de ferver do chá, como seu pai ensinou, deu o cinzeiro para Lia depositar a maçã e começou a brincadeira tão comum de entrevistar uma a outra. Fingiu que segurava um microfone e pediu a “sua opinião sobre alguns problemas importantes da nossa comunidade”. Descobre-se que Lia faz Ciências Sociais, trancou a matrícula e rodou de tanta falta. Ela escrevia um romance, mas rasgou tudo, Lia se surpreende, ainda mais que ela gostava tanto. Ofereceu uvas e Lia recusa. Fala da novidade de uma poetisa do Amazonas que ficaria no quarto de Lia, pensou que poderia ser índia, deu o chá para Lia que o mexia e a encarava, além de pedir mais açúcar. Começou a discussão de onde ela devia ficar, Lia apontou o quarto de Lorena que tinha até banheiro, comentou do hábito de índio tomar banho, falaram de deixar no quarto de Ana Clara, mas todo o uso de drogas que ela faz, ainda não mencionado, afetaria a naturalidade da índia, além de que ela logo sairia, pois estava combinada de casar com o industrial, que na verdade era traficante. A todo momento Ana Turva, apelido de Ana Clara, estava dopada, além de dever dinheiro a ponto de ir gente bater na porta do pensionato. Lia mal sabia do fato dele ser traficante, Lorena comentava até das picadas de agulha. Lorena sonhava nesse milagre do casamento e até emprestaria dinheiro, que ela dizia ao contrário para não afastar, superstição, e que precisava casar virgem. Lia ria que ela devia acreditar num milagre de verdade, não em casamento com gente rica, crença de cristão que ela achava graça. Lorena dá mais chá e ouve a voz de drogado do Jimi Hendrix, fica pensando, “voz turbilhonada de quem pede socorro mas não quer ser socorrido”. Comentam que ela estava melhor ontem e Madre Alix a ajudaria com uma análise. Lia achava loucura.

Parte 7

A narração volta para Lia. Ela recebe a xícara e contempla a riqueza dos objetos no quarto, pergunta da grana da família. Lorena fica séria, comenta como a agência de publicidade de Mieux deu em nada e gastaram muito com a loja de decoração e ainda gasta. Lorena já entendeu a conversa de que ela queria dinheiro e perguntou se precisava. Lia queria chá, via a amiga fazendo exercícios e afirmou que talvez precisasse para fazer umas operações na Ana Clara. Lorena teve pena, Lia achava isso revoltante, um sentimento de superioridade isso de morrer de pena de todo mundo. Viu a coleção de sinos de Lorena e perguntou como ia, o irmão de Lorena, Remo, ia trazer alguns da Tunísia. Ela sonhava com esse mundo que o irmão viajava e Lia lembrava da amiga alienada que pediu para ir a uma reunião da universidade. Assistiam filmes de vietcongue com sangue, os comentários eram poucos e cortados por olhares julgadores, são muitos filmes, bebiam uísque e comiam patê, além de debaterem o que poderiam ver depois. Uns pedem carona ao final, riem, mas são vigilantes e bem informados os intelectuais. Sabem quem foi preso e torturado, acham superior, sabem do estupro, tem gente que dá detalhe, há quem peça uma suavização do tom, para curtirem o encontro e não falarem daquilo. Contam também de quem sumiu e nunca mais voltou. Supostamente, mesmo que esse livro tenha sido publicado durante a Ditadura Militar, ele passou pois o censor achou a leitura chata e tabelou a obra como uma história longa sobre meninas. Lorena mostrava os sinos e falava da nacionalidade. Lia pensava no livro rasgado, podia aproveitar o que tinha escrito em outra coisa, como em um diário, “estilo simples, direto”, mas ninguém gostava do que escrevia, ponderava se as pessoas possuíam bom gosto ou sabiam o que era bom. Lia lembrou mais uma vez do carro, Lorena ameaçou se matar se ouvisse mais uma vez. Mencionou como devia pegar um sino para saber por onde ela andava e que todos deveriam fazer isso, como as cabras. Lorena queria dar um orixá para Lia, presente que foi da mãe. Dizia da separação dos dois, de como lamentam quando ficam sem notícia, do pai que resistia. Lorena falava do amado telefonar e se Lia iria jantar. Lorena nem ouviu e Lia só deu um afago na cabeça e foi embora. Aumentou o som da vitrola. Via a amiga indo embora e observava como ela parecia ter esquecido algo. Lorena disse para ficar tranquila com a história do carro, ela mesma tinha ganhado um e nem foi buscar o cheque, deixava uma chave para Lia pois não gostava de conduzir. Lia está distante, Lorena tenta fazer caretas, fazia muito melhor do que Remo e Rômulo. Pediu para estacionar na esquina e combinaram qual caixinha ficaria a chave. Lorena respeitava esse turbilhão de demônios de Lia e perguntava nada. Lorena perguntou de novo quem tinha o hímen complacente e Lia riu como a muito tempo Lorena não tinha visto. Lorena pensava em resolver os problemas, até da virgindade. Lia lembrou de pedir de volta o dinheiro de Ana Clara, mas Lorena pediu para chamar ao contrário, de “oriehnid”. As duas levantam o punho fechado, com a saudação antifascista. Ela foi andando embora, Lorena pergunta se ela tinha uma banana. Supôs que ela ia embora feliz, marchando como soldado em dia de desfile. Ler página 25

Sugestão de leitura extra – “Por que a Ditadura Militar não censurou ‘As Meninas’?” por Thais Morgado dos Santos e Rosa Maria Valente Fernandes – https://periodicos.unisantos.br/leopoldianum/article/view/689/562

Capítulo 2

Alguém chama pela Coelha, Ana Clara, Ana Clara Conceição, chamado pela Lorena de Ana Turva, se esforça para abrir os olhos, já que tinha uma orla negra vinda de um soco. Tentou disfarçar que tinha sono com um beijo e uma mordida em quem a chamava, Max. Ele estava preocupada que Ana Clara estava gelada, ela dizia que era que não estava brilhante. Ela dizia que o amava, mas ele não entendia como se ela não gostava de fazer sexo. Ana Clara dizia que estava travada, comentou que veria um analista, ele disse para comentar de como se contraía que nem ostra, coisa que ela odeia, e ele teve vontade de comer ostra com vinho branco. Max procurou por um baseado e entregou a Ana Clara, falando de como aquilo engrena, mas Ana Clara pensava em como nada engrenava e como sua cabeça era sua maior inimiga, só deixava ela triste, só o porre deixava ela em paz. Ana Clara disse que não poderia demorar muito, Max vai para a cozinha e a narração se mistura em terceira pessoa com a de Ana Clara pensando em como todos só queriam fazer amor com ela e a usavam como objeto. Ela mesma sabia que era bonita, tinha um metro e setenta, “uma beleza de modelo”, mas ela sentia nada, estava travada, na falta de uma palavra melhor. Ela mal sentia tesão pelo Max que amava, imagine com o anão que estava para casar, que a chamava de Escamoso. Dava a desculpa que era virgem, por isso era fria. Ele ria, como os outros, Ana Clara ia da mesa para a cama e vice-versa, queria era só dormir, sem ninguém a chamando para “fazer um amorzinho”. Queria que sua cabeça virasse uma abóbora, tal qual das histórias da mãe. Sempre ficava na falta de dinheiro, até porque também nunca cobrava dos outros o dinheiro que emprestava. Ela tenta lembrar do nome do dentista com a ajuda de Max, mas ela bloqueou e só lembrava pelo apelido, Doutor Algodãozinho. Olha para o copo, lembra do papo de Lorena sobre neve, mas mal existia neve por ali e ela achava lindo, achava ela uma enjoada. Comia o gelo e falava do dentista que trocava o algodão do buraco dos dentes por muito tempo sem fazer nada. Max disse que ela tinha bons dentes, julgou que ele trabalhava bem, mas ele negligenciava o trabalho, o algodão escondia o buraco abrindo para fazer uma ponte, tanto na mãe quanto na filha. Ele cantava e ela se esforçava para dormir para ir embora logo. Pensava nesse estereótipo de canção e em avós, tal qual na possibilidade de Madre Alix poder ter sido sua avó. Ela pergunta a Max se freira podia ser avó, mas ele estava ocupado escolhendo discos. Ela o achava lindo, inicialmente pelos dentes perfeitos, mas em janeiro ela se casava com vida nova, dava a desculpa que era sua vez de ser rica, a dele já foi. Ele faz uma analogia com uma hóstia do disco que escolheu e Ana Clara dizia que tinha ódio de Deus, mas ela tinha mesma era da música, tal qual mania da Lorena, “uns negros berrando o dia inteiro um berreiro desgraçado”. Tinha ódio de negro, ainda que o dentista fosse branco de olho azul, ele era sacana. Doutor Hachibe, aparentemente o terapeuta dela, contou que as pessoas expulsam os nomes para se protegerem, mas o apelido ficava. Adiantava nada, ela lembrava dos barulhos do dentista e adiantou nada bloquear o nome. Lembrava dela ser cliente assídua como uma outra negra. Lembrava da cera que ia sendo colocada no buraco e da única paz que teve quando seu nervo foi tapado e não fisgava mais. Lembrava dos cheiros, da cera com creolina queimando o dente, o cheiro de mijo, não de pipi que nem Lorena falava, o de cerveja choca da boca do Doutor Algodãozinho. Cheiro é um elemento muito importante na construção de mundo em literatura infantil, Ana Clara é visivelmente abalada com cheiros e pode ser que nunca se distanciou ou superou a infância. O cheiro de cerveja vinha pois ele tomava depois do jantar, horário dos clientes miseráveis. Queria machucá-lo, xingava-o. Max interrompia que queria ser abraçado pois tinha frio. Doutor Algodãozinho falou que os quatro dentes da frente estavam perdidos, Ana Clara chorava desconsolada e ele dizia que faria uma ponte e deixaria perfeito tal qual a mãe e como faria com Teo, que era desdentado. Sentia o frio da correntinha que beliscava a pele, não era chique ou de ouro, era escura e tinha mancha de sangue. A mão fria ia vindo, a boca quente repetindo a ponte, ela fechou a boca mas o nariz estava aberto, tendo as memórias, lembrava do cheiro de cimento da construção que só fazia barulho e deixava irritado Teo na casa, das flores da floricultura que trabalhou, e especialmente do suor, vômito, mijo e do Doutor Algodãozinho. A narração vai se misturando na confusão da ponta e de Doutor Algodãozinho apalpando ela, com tanta força que estourou um botão da blusa e logo ele foi depois para baixo, Ana Clara queria o botão de volta mas ela se confundia com a luz e fechava os olhos. A ponte ia levar ela para longe de tudo, dos homens baratas da construção, para um novo emprego, longe da mãe, ia fazer um curso noturno de manicure e um homem se apaixonaria por ela e se casaria. As unhas do dedo de barata do Doutor arrebentavam a calça e ia a cutucando, lembrava de tantas baratas na construção e como elas fugiam dos ataques. Lembrou-se e confundiu-se com o ataque do Doutor Algodãozinho em sua mãe, Ana Clara pegou uma barata e jogou na sopa para misturar, o amante da mãe ia quebrando móvel da casa e sua mãe só porque a janta não estava pronta. Os pensamentos se confundem entre ela chorando e gritando enquanto era apalpada, com a sopa ficando pronta depois do banho de barata, pensou que poderia se safar porque a sopa ficou pronta e a moça negra ouvia lá fora, o Doutor Algodãozinho tinha medo dela. Foi lá falar com ela que não tinha como atender, deu até uns remédios para suprir a dor, e ela ia ouvindo tudo, os comprimidos balançando, ela guardando na bolsa, dizendo que entendia a dor e a situação, o portão fechando e o sapato de borracha fazendo barulho. Ana Clara chorava pedindo uísque e Max a abraçou, os dois se uniam e o copo até caiu. Ela queria dinheiro acima de tudo, que se dane fazer amor ou superstição. Ela respondeu que tinha depressão. Ficava revoltada com os diferentes terapeutas e na hipocrisia que adultos choravam por infância, morte e depois abusavam dos outros, ainda mais sexualmente com ela. O casamento seria vida nova, ela falava alto, seria livre pelo dinheiro, não por ser como Lia, uma terrorista subdesenvolvida, destrancaria a matrícula e seria uma intelectual burguesa. “Liberdade é segurança”. Discutia em mente com Lia e si mesma sobre a vida melhor que seria. Sem ônibus, sem contrariar, quis saber as horas mas Max delirava em um relógio que tinha. Ela tentou esmurrar ele, ganhou uma mordida no pescoço e ela ria sem poder pedir que não, já que o Escamoso veria e perguntaria o que era. Ficava enraivecida quando ele esfregava na cara a família que tinha. Ela não tinha uma, morreram todos em um vôo internacional na Escócia, achava chique morrer para um monstro escocês. Tentou lembrar de um nome, “Até o Amargo Fim”, Max queria era comprar uma ilha. Continua pensando na possibilidade de uma família e do ano novo. Ela e Max não se entendem porque cada um fica em uma loucura, até dizem um ao outro que são lindos e se amam mas não respondem outras perguntas. Ana Clara lembra de outro terapeuta e diz como é feliz ali. Chamou Max de lindo como David, ele teve ciúmes, ela explicou a estátua de Michelangelo que Lorena contou sobre. Ele falava de viajar, ela falava que ele não era mais rico, ela contou da coleção de sinos em resposta dos postais de Max e ele disse que seu piu-piu era maior que o de David. Ana Clara pensava na sua vez de ser rica, em como Lorena e Lena emprestavam dinheiro para suas enrascadas, ia casar e ser virgem de novo. De novo Max escolhe música do berreiro. Já passa ela por agressões demais, quer carinho. Pensou na agressão do corpo, de ser violada, humilhada, gastaria dinheiro com bobeiras. Pensa no dinheiro, na vida nova enquanto Max vai a beijando. Ia pedir dinheiro para a operação de virgindade. Pensava na Lena, na Lorena que já foi rica. Ela sentia frio, se cobriram e ele pediu que se casassem. Ela perguntava das horas de novo, Max a comparava com a governanta. Ela reclama dos nhem-nhem-nhem de Lia e as ideias comunitas de Lorena e precisa explicar de novo as amigas para Max – Lia era a magrela cabeçuda, Lorena era a gorda bossa retirante. Max achava ruim ver tristeza, queria ver mais gente contente, pedia que ficasse mas ela achava estar grávida. Ele ficou inocente e pediu para terem, seria bom até que fossem gêmeos e misturava francês com a Mademoiselle da governanta que lembrava. Ela se sentia lúcida e achava ruim, ainda mais achava ruim que foi ficar pobre. Perguntava da irmã e Max não queria falar dela. Tentava ameaçar com gelo, mas Max só delirava da Mademoiselle e do japonês que cronometrava o tempo de natação, ela queria saber da irmã de qualquer forma. Ele deu de falar da mãe, Ana Clara queria saber mas ele só delirava entre falar com alguém que não estava lá e chorar. Agora lembrava de ver a casa derrubada, mas ficava mais triste da Jaboticabeira que estava no chão entre os destroços das paredes de seus quartos que deu espaço a um edifício. Queria ser rica, queria a infância de Max, ganhou uma massagem enquanto Max contava de um chinesinho. Queria conversa com Max, não tinha, ano que vem era vida nova.

Capítulo 3

Parte 1

A Lorena volta a ser narradora e pensa nas torturas, pensava que não era forte, era delicada e logo soltava tudo. Pensava no Bank of Boston, na Marinha e também em Rômulo e Remo, assim como Rômulo que tomou um tiro sem querer no peito enquanto brincavam com uma arma sem saber que estava carregada. Pensava na morte de Rômulo que se conectava com a ideia das plantas dorme-maria. Lembrava do Astronauta, o gato, pensa em Carlos Drummond de Andrade e em como as pessoas são sentidas pela presença e ausência, como um testemunho das pessoas desaparecidas durante a Ditadura Militar. Lembrou da mãe que a deixou para ficar no quarto de choffer e foi morar com Mieux que cada vez mais tirava seu dinheiro. Pensava em como tudo era preto lá fora, mas se alienava no seu mundo rosa e dourado. Lia comentava que precisava-se de peito de ferro para aguentar a cidade. Gostava do dinheiro que vinha no envelope, era Deus que a visitava e dia de comprar discos. Bastava sua alienação e pensava nas pupilas que dilatavam como quando Lia pegava as notícias do mundo. Ficava com a pupila cheia como o Astronauta com medo ou Ana Clara de tão drogada. Pensava no equilíbrio de Madre Alix no pensionato que dava medo. Pensava em como Lião se enraivecia com a música de Hendrix, falava que nem tinha Wagner, mas tinha leite. Foi comer uma maçã e pegou os livros do curso de Direito para estudar. Como quem já mal tem paciência para começar, pensou saber tudo e estaria pronta para uma prova no dia seguinte se a greve acabasse. Via o livro que Lia tinha o hábito de ficar rabiscando e marcando e viu um trecho marcado que dizia de obedecer a Pátria como se obedece Deus, precisava-se dar de todo e amar não importa como. Achava estranho, pois jurava que Lia achava que o povo era a Pátria e que ela não acreditasse em Deus. Enquanto abria as torneiras da banheira, lembrava de Lia chegando com as malas e “O Capital” escondido em saco de pão mal escondido. Era filha de alemão, Herr Paul, Seu Pô, ex-nazista, comerciante tranquilo, com baiana, Dona Dionísia. Supostamente o pai era desligado e quando viu o que era nazismo, arrancou a farda e veio marchando para Salvador, coisa de cinema. Herdou do pai a resiliência e da mãe o corpo. Lembrou de conhecer Lia, oferecer para tomar um banho de banheira e como ela via tudo da Lorena. Ela até preparou o banho, mas ela cochilou na poltrona. Pensava em que música Ana Clara e Lia podiam ser, ela era uma balada medieval. Tentava mostrar e dar o que as meninas não tinham, como a música, até pensava agora em descobrir o cinema. Lião ainda transbordou da água e se sentiu mal, erro de cálculo de Lorena. Ela emprestava o que dava para as meninas, oriehnid para Ana Clara, carro para Lia. Lia gostou do banho. Lorena precisava se misturar com a massa, ainda que tivesse medo. Falava do corpo de Ana Clara, era magrérrima, tinha peitos pobres, era mais pálida, dizia que estava apenas constatando, até porque fazia de tudo pela Ana Clara, dava oriehnid, apertava a mão nos abortos, sabia que ia ter problemas com ela na vida, mas emprestava desde o primeiro dia que a viu e já pegou a emprestar tudo, preferia até isso do que a Ana Clara moribunda de agora. Era cheia de dívidas, mas alteza, agora nem saía do quarto. Pensava se envelheceriam, pensava nela quase surda e virgem, Lião gorda energética de aventuras, Ana Clara mentirosa toda maquiada mentindo a idade. Sabia do amor, ouviu tantas histórias que sabia até mesmo os efeitos das drogas. Lembrava da cena de Ana Clara abortando e Lorena presente, aumentava o volume da música para fugir desse pensamento. Lorena tomava sol mesmo que não ganhasse bronzeado e ficasse vermelha ali com seu almoço de maçã, triângulo de queijo, bolacha de água e sal e cenoura. Via uma conversa de formigas confusa, pensou que Ana Clara poderia ser uma raposa. Queria enganar mas era alienada, foi engravidar e nem para ser do noivo e lá ia ela dar oriehnid e apertar a mão na intimidade que achava ruim. Ajudava, amai o outro, ajudava Ana Turva que se chamou de Ana Preta nos raros momentos que teve de humor. Ela era amada, ovelha negra sempre é amada, como Madre Alix a adorava e deu o Agnus Dei a ela, de uma outra freira que virou santa que Ana Clara não sabia o nome. Lembrava do quarto de Ana, desorganizado totalmente, foi procurar do perfume que ela usou todo e culpou o gato. Mandou Sebastiana lavar a roupa embolada e ela ficou maravilhada com o quadro que tinha dela ali. Pensou ser modelo, Lorena explicou que quase, queria ser bonita assim para M. N. a procurar ali. Mas vai saber, tinham que combinar diferente, ficava na esperança.

Parte 2

Lorena foi avisada que uma carta chegou do estrangeiro, apesar de ela estar esperando um telefonema. Irmã Bula estava arrancando algumas plantas de forma violenta, ela falava do Papa, do vício aumentar no mundo e Lorena pensava em como ela era bruta na jardinagem e bordado, tal violência remetia com Rômulo e sua mãe que tentava tapar o buraco do tiro, estava pálido, era tudo brincadeira e ele empalidecia. Tentava fugir de novo dessa lembrança da morte, pensava nas letras do bordado mal feito do lenço da freira. Pensava no uso das letras, como morriam, viviam, e nas plantas que a irmã arrancava sem julgamento. Pensava na omissão de coisas subentendidas, mas ela queria a verdade, nada omisso, como queria de M. N., queria a verdade, mas ele “sugere reticências. Omissões.”. Ela ficava torrando no sol, pensando na vida, o que de forma curiosa é diferente dos pensamentos de Ana Clara, que não consegue separar a linha entre um pensamento concluído e outro, fazendo com que as ideias se misturem, e de Lia, que tenta focar seu pensamento para não lembrar da verdade de outros pensamentos que tenta não ficar pensando para sofrer menos. Lia pensava na omissão, em como M. N. disse que a mulher dele não devia saber. Não entendia a paixão dele por uma mulher obesa, vesga e com dentadura postiça. Pensou até que todas as esposas eram belas fadas antes. Gostava nem da esposa dele. A mãe dele contou que a tia já foi bonita, comportava-se como ainda fosse. A tia Luci mostrava todo o corpo cheio de cirurgias, pernas com varizes, operação no pé, os peitos que os médicos tentavam botar na cabeça dela que pareciam ter quinze anos, entretanto a voz não escondia a idade. Tinha até pensado que M. N. casou por interesse do dinheiro, mas viu que era amor mesmo, mas ele caiu no problema da burguesia de sua esposa que era a avareza, a soberba e a gula, como Lião percebia que a burguesia de país subdesenvolvido é gulosa. Tinha cinco filhos, Lorena não entendia como. Lembrou até de ter ido ler cartas e ver seu futuro, era um caso difícil, mas ela tinha vários homens que chegariam para ela, prometendo amor, mesmo que ela só quisesse seu rei proibido. Lia falava de pedir ajuda para Iemanjá, mas Lorena gostava de fadas. Mas era tudo proibido, queria casar, queria a papelada para dar segurança que Mieux não deu para sua mãe, mas Lia dizia que mais ninguém quer casar, fora padre, gay e prostituta. Conta também a origem do apelido de Mieux, que falava uma frase toda hora de na falta de alguém melhor, era a mãe de Lorena mesmo. Só que abreviava tudo que situação, até com vinho. Lorena achava estranho, considerava-o simples. Mas a tia arrematou que de simples tinha nada, era esperto, investigou a mãe da Lorena em tudo quanto é lugar para saber das posses, dinheiro, era um golpe. Não casaram nem foi por ter ficado sã, mas que apareceria a diferença de idade entre ela e Mieux. Tinham até planejado vestido de mãe e filha combinando, mas amaldiçoou essa mania de brasileira de viver falando de documento. Tinha pena da mãe, queria ser jovem, tinha até o desenho dos vestidos em um livro que a deu, guardava assim como guardava as cartas para M. N. com medo, mas queria, queria se desapegar da imaginação das consequências e sofrimentos. A Irmã Priscila finalmente deu a carta para Lorena, era do irmão. Ela perguntou se estava melhor, disse que sim, como tinha nada para fazer da greve da faculdade, ficava por ali, estava esperando um telefonema do amado para jantar. Adiava para ler a carta, mal lia para Lia pois tudo que vinha do exterior comentava sobre o Nordeste em paralelo. Achou ter ouvido o telefone.

Parte 3 Pensava no telefonema e naquela casarão silencioso. Até pensou no Fabrizio, andava como homem das cavernas com cara barbuda e cabelo espetado, podia até ser um cinema com hambúrguer e chope com ele. Pensou em um dia que se viram depois de uma chuva forte, ele tinha tomado banho e estava toda frágil com ele. Iam tomar um chá de 5 minutos que virou uma hora porque a chaleira não ligava, daí deu de acabar a energia, quando voltou, ficaram se encarando. A palavra amantes ressoou por ela naquela noite. Lorena chegou encharcada com estatísticas, foi para o tapete mostrar tudo. Lia ficou tão feliz depois dela ter dado o discurso da burguesia decadente, a falsa virtude dos velhos e a decomposição da geração que ofereceu a metade da garrafa do uísque quando ela partia. Fabrizio continuava ali e chegou agora Ana Clara. Sorriu pálida, ela queria livros emprestados porque ia destrancar a matrícula de Psicologia. Disse que ia ler, usava óculos, sinal de que parou de beber. Ficou até as quatro da madrugada e dormiu ali. Fabrizio, sem entusiasmo, montou na moto e disse que voltava amanhã. “Amanhã conheci M. N.”. Comparou Fabrizio a um cachorro estabanado, pensou como Astronauta a fez ficar comovida com gatos. Cuidou dele todinho em dia que foi ao cinema com Aninha (sóbria), deu mamadeira, ensinou com esforço a fazer xixi no quintal e nada de interesse. Ninguém segura gato, ela se desata a rir de estar fadada à solidão, lembrava disso quando a tia falava ao entrar de um casamento e ir logo a outro. Foi ouvir Bethânia, pensando em M. N. e no telefonema e como não vivia mais sem música, sem M. N., e um esqueleto franzino que descobriram.

Sugestão e leitura extra – “Gênero e crítica social em ‘As Meninas’ de Lygia Fagundes Telles” por Amara Cristina de Barros e Silva Botelho e Caio Victor Lima Cavalcanti Leite – https://periodicos.ufcat.edu.br/lep/article/view/41234

Capítulo 4

Parte 1

Há uma reclamação do tempo passar rápido demais por Ana Clara, tentando chamar Max para prestar atenção a Mozart. Ela comia açúcar e gostava, comia e não engordava, como engordava Lião, mas não o mesmo de Lorena. Discutiam de música e de pintura, Max gostava de louco, Ana Clara tinha pavor. Ana Clara gostava muito dos Estados Unidos, as ideias de Lia são mais europeias e Lorena é mais brasileira. O Escamoso gostava de viajar, Ana Clara até voltaria com as aulas de inglês mas ficava sóbria, queria ficar dopada de novo. Max continuava pirando, meio que tentando ver o céu com algo voando e usando Ana Clara de escudo em risadas. Ficava cansada de abstrações, sempre viveu com monstros. Refere-se a Lorena frequentemente com “nhem-nhem-nhem-nhem”, frequentemente ela não termina os pensamentos, foi de querer quarto com rosa, tudo quadrado a reclamar da predileção de Lorena por Van Gogh. Até pensava na nova clientela de psicóloga que teria, seria uma vida nova, mas nada de problemas de mendigo, escolheria a clientela. Max ficava se rindo de um pássaro querer bicar seu pênis. Ficava enraivecida com o nome completo, Ana Clara Conceição, as pessoas ficavam surpresas pelo nome completo, ela ficava louca, nome valia nada, a Lorena tinha nome de bandeirante que estuprava e enfiava um tição em negro para procurar ouro escondido e estupravam índias. Nome valia nada segundo ela, comprava um novo, rasgava a certidão e faria do pai um imperador, Caio César Augusto Conceição, professor universitário. Tinha raiva da mãe que sabia até fazer sexo em terreno baldio mas não sabia segurar para levar ao cartório registrar o nome. Via Max dormindo feliz segurando o pinto e pensando que a sua mãe nunca ficou com negro, levava de tudo quanto era nojento, menos negro. Achavam Ana Clara italiana, sabia lá de onde vinha, depois inventava. Era ruiva, autêntica, pele branca como Lorena, suspeita era Lia, declarava-se branca, distante dos subdesenvolvidos. Pensava no Jorge, que falava quase Jóge e tinha anel vermelho com unha do dedinho grande. Ana Clara queria mais do que tudo era esquecer, fumando, bebendo, não queria lembrar do som do anel acertando a mãe enquanto batia nela em bofetadas, dizia que quando acabasse a construção se livrava delas, mas nunca terminava e o quarto ficava com baratas e ratos, tudo coberto de cal, levou esse costume até para o pensionato. E Aldo tinha comido a barata na sopa, Ana Clara tinha ideias boas no ódio, ainda mais na noite antes da mãe morrer. Agora era Sérgio, queria outro filho, depois de tanto apanhar e ficar encolhida, tomou formicida e morreu. Um outro Gaúcho matou o irmão de aborto, ela viu até o aborto na lata, sentiu nada. Pensou até em trazer flores, mas odiava a floricultura e queria distância a partir de então de tudo que tinha ódio. Pensava em outra menina que perguntava da mãe, perguntava a Max o que fazia já que estava grávida.

Parte 2 Ana Clara estava agora delirando com drogas, sentia tudo diferente e dizia a Madre Alix, na sua frente como gafanhoto, que era uma despedida, ano novo era vida nova. Falava da experimentação, comprar casa na praia para Madre Alix, uma amiga vesga, Adriana, foram ao cinema, tomaram sorvete, teve até uma senhora que veio querer saber o que ela fazia na praia e ela rápida soltou que os pais se foram de forma trágica, começou a rezar, imaginou sendo adotada, até desviava do Doutor Algodãozinho. Ia enrolando pensamentos de uma violência sexual, com uma tecelã velha perguntando da morte dos pais e ela se emaranhando no tapete. Esqueceram o assunto e pensava nas noites na varanda, gente bebendo que lhe dava fome e a lembrava de comida com as cores. Ana Clara pensava nos perfumes, como Lia se gabava de usar pouco e Lorena de falar que sentia o cheiro dela de longe. Pausa os pensamentos em injetar drogas, esbanjar dinheiro e querer ser verdadeiro. Achava fácil quem dizia ser verdadeiro, ser rico e falar a verdade era fácil. Pensava no casamento por amor, o Agnus Dei que a protegeu, até Max acordar rindo e falando de uma canção. Ana Clara pensa em uma estrada vermelha, gosta de tudo, até dos negros, até da guitarra. Pergunta-se que horas seriam. Tentava entender o que se passava no quarto de uísque e a perna de Max. Queria fazer xixi, no pensamento foi levada a pensar em Lulu, seu cão, e de como era empolgado e de como gostava de ir ao mar. Pensou nas coisas que eram jogadas ao mar para serem esquecidas, no Doutor Algodãozinho e pedia para Lulu voltar. Sonhou estar remando e ser puxada para baixo, acordou se amaldiçoando por engravidar como a mãe, mas ela renasceria como borboleta, diferente da mãe que morreu como formiga. Ana Clara odiava negros, talvez pela experiência de violência sexual, julgava Lia que gostava da negada, era corintiana. Falava que gostava até casar que não casava, ela não acreditava no casamento mas, se amasse, até mesmo um negro, pensaria. Eles têm é ódio de negro, pensava Ana Clara, mas ela tinha ódio e não escondia do quê. Queria jóias, até gritou para Max, ele falou que dormisse, beijou seu corpo e ficou investigando. Pensou em uma desintoxicação, viu os pés de Max, lembrou das artes e teatros que viu com Lia. Até disse a Max que ano que vem era outro. Ele soluçava e respondeu só para ter paz da dor. Ela pensa no cerco que estão fazendo segundo Lião e chora de soluçar pedindo que Max pare de vender drogas para os menininhos e pede que comecem a fazer esportes, que o japonesinho estava olhando. Ela odeia chorar porque estraga a cara bonita. Delira vendo quatro irmãs, uma representando cada estação e com vestidos e pele de porcelana. Elas cantam uma canção e Ana Clara reconhece. Ainda pensa na formigona morrendo e um anão que passou dizendo que não havia importância. Pensava em fazer exercícios e ir a uma clínica para se desintoxicar. Ela amaldiçoava-se de ter engravidado de Max, justo um pobre. Tentava acordá-lo para conversar. Pensava em formigas e baratas e suas feições e atitudes. Ficava também revoltada com as análises, pagar dinheiro para se autoflagelar com coisas que queria esquecer do passado que a machucavam e machucaram. Lembrava de sonhos recorrentes como as mulheres dos vestidos ou um homem com lábio leporino, sonhava com o coração sendo visto por fora. Max tinha fome e Ana Clara disse que dormisse. Via o quarto, pouca luz, paredes escuras, tentava dar intimidade aquele local mas não era o resultado. Ficava de novo a tentar tirar a poeira de tudo. Sonhava que caía em um buraco e era uma fossa. Refletia de novo sobre os antigos namorados de sua mãe, agora era Adamastor. Pensava e discutia sobre o futebol, tal qual Lorena não gostava por causa dos negros, mal sabia o que era ser corintiana. Max perguntava se ela tinha noivo, explicou o corpo do escamoso. Ele convidou para conhecerem o mundo, ainda mais o Afeganistão para montar em camelo. Ela lembrou que ele montou em um cisne, pediu para contar a história com uma ameaça de um murro, ele disse que era um porco, recebeu o murro no queixo e sangrou, ele disse que quebrou seu dente em soluços. Era brincadeira e pediu até que retribuísse, ela contou que estava grávida de novo e Max queria o filho, disse de conhecer o mundo e comprar uma ilha. Ana Clara disse de se enfiar com mafiosos. Ele lembrava de uma amante peluda que perguntava de ir ao casamento, ela não conseguia focar naquele delírio, pensava em sua história de cinderela. Tentou saber as horas, ia se aprontar rápido, tinha mania de relógio. Ao se ver no espelho, se afastou da imagem, assustada com o que viu dela.